AROMAS E ZUMBIDOS

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Presente para Pink Ringo

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Capítulo 4 – Ou seja, insetos!

Quando eu subi pra casa noite passada eu não me preocupei nem um pouco com o que poderia ser um entomólogo, eu estava mais preocupada era em livrar um pouco o banheiro das minhas coisas para que ele parecesse maior do que realmente é. Quero dizer, para que as coisas do Shino também coubessem e tudo mais, mas claro que eu duvido que um homem tenha muito mais coisas para se colocar em um banheiro do que escova de dentes, lâmina de barbear e espuma para a mesma coisa. Mulheres é que têm quilos e mais quilos de maquiagens, xampus específicos, absorventes – que, por acaso, está marcado como "urgente" na minha lista do mercado -, esfoliantes e aqueles moderníssimos bronzeadores que surtem efeito até na sombra. Isso se eu não contar os remédio para emagrecer.

Definitivamente é muito mais fácil - e prático - morar com um homem.

E hoje, assim que eu desci as escadas, abri a floricultura e comecei a ajeitar a prateleira de fitas que eu deixara totalmente bagunçada ontem à noite depois do meu passo de dança super original e moderno e não um tombo completamente desastrado, eu vi aquele imenso caminhão de mudanças prateado surgir e parar bem em frente a minha vitrine. Logo atrás dele veio um carro preto, todo chique. Um carro que, eu sei, mesmo querendo muito a ponto de vender os meus rins no Mercado Negro, eu nunca vou conseguir comprar. E Aburame Shino saiu de dentro daquele carro. O mesmo Aburame Shino que vai morar no quarto ao lado do meu, no meu apartamento, sobre a minha floricultura. Como é que um entomólogo – seja lá o que isso for – pode ter um carro desses? E sabe o que eu pensei logo depois de me recuperar do choque de o ver saindo daquele carro?

"Merda, eu não sabia que ele tinha um carro, agora vou ter que desocupar a garagem!"

Foi isso que eu pensei.

E isso não é lá algo assim muito fácil de fazer, porque é que lá que eu guardo, tipo, tudo. Não exatamente tudo, as coisas que são úteis eu tenho que manter perto de mim, porque são coisas que eu uso, mas as coisas desnecessárias precisam ficar em algum lugar. Como eu não tenho uma despensa e agora eu também não tenho mais um quarto extra, então eu taquei todas as coisas das quais eu não preciso usar imediatamente lá dentro da garagem. Juro, não tente abrir aquela porta a menos que você queira ser soterrado por caixas com vasos de barro, sementes, adubos muito mal cheirosos e aquelas coisas todas essenciais para uma floricultura, mas eu não preciso lembrar do nome o tempo todo.

- Srta. Yamanaka? – a voz de Aburame Shino me tirou dos devaneios e eu nem reparei que tinha saído da floricultura para ficar próxima, o mais próxima que eu algum dia vou conseguir, de eu carro daqueles.

- Quero ser entomóloga! – eu disse com os olhos brilhando para aquela Mercedes.

- Ele é alugado.

- Oh! – e me afastei do carro. Quero dizer, tudo bem, o carro não é dele, mas mesmo assim não deve ser exatamente barato alugar um carro desse porte, eu não discuti. Minha exclamação foi mesmo é pelo alívio de não ter que mexer na minha garagem.

- Os carregadores podem subir? – ele me perguntou tirando do porta-malas do carro uma mala preta de tamanho médio.

Eu olhei para ele. Olhei para a mala. Olhei para o caminhão, para os carregadores. Voltei a olhar para ele.

- Por que você não trouxe a mala no caminhão?

- Não há roupas aqui dentro – ele me respondeu.

- Não há roupas? – eu arregalei os olhos – O que se guarda numa mala se não roupas?

- Dinheiro? – ele levantou uma sobrancelha enquanto eu ficava passando os olhos da mala para ele e pra mala e para ele e pra mala.

- Você está sendo irônico? – eu não pude evitar perguntar, porque simplesmente não dá pra ver as expressões dele e nós não tivemos convivência suficiente para que eu pudesse decifrar o que uma porcaria de levantada de sobrancelha quer dizer. Porque diabos eu fiz o curso de jardinagem na escola ao invés do de interpretação facial? Se bem que eu nem sei por que um curso ridículo desses existia na minha escola em que as únicas pessoas que precisavam de interpretação facial eram Gaara, Sasuke e Neji. Pensando agora, isso explica porque a maioria dos freqüentadores do curso eram garotas.

E parece que tem algum barulho vindo dessa mala. Roupas não fazem barulho, a não ser que seja um daqueles casacos auto-esquentáveis movidos a bateria, mas eu duvido que ele tenha um casaco mais quente do que esse que ele está usando. É um barulho familiar, mas não sei bem o quê. Parece um barulho de... Ah, essa não! E se ele for um terrorista? E se entomólogo for o nome chique de terrorista extremista perigoso? E se ele veio explodir o hospital? Ou a fonte no meio do parque? Ou o hospital e a fonte? E se ele explodir a MINHA FLORICULTURA? Eu mato ele se ele explodir a floricultura, mesmo que ele esteja morto junto com a explosão, no caso de ser um daqueles terroristas kamikazes ou eu sei lá. Eu acho o caminho do inferno – porque quem explode plantinhas inocentes certamente vai pro inferno – e mato ele. Muitas e muitas vezes.

Mas Shino, o entomólogo – seja lá o que isso for – não me respondeu. Eu odeio quando as pessoas não respondem as coisas pra mim e espero ter deixado isso bem claro pra esse cara potencialmente delicioso por baixo do casaco quando peguei o meu chaveiro do bolso do avental e retirei uma chave do molho, bufando e com um olhar muito, mas muito frio e maligno. Eu sei que o meu olhar está assim, o tempo que namorei o Gaara não serviu somente para que ficássemos nos beijando e outras coisas.

- Obrigado – ele respondeu quando eu lhe entreguei a chave e se direcionou para os carregadores.

Eu passei por ele batendo os pés com força no chão e entrei antes mesmo que os carregadores tivessem erguido a porta traseira do caminhão para começarem a levar as coisas. Coloquei-me atrás do balcão com as fitas arrumadas e apoiei o queixo nas mãos. Assim que os dois primeiros carinhas com seus uniformes cinzentos entraram segurando uma cômoda, seguidos de Shino, eu disse:

- Não esfole nenhuma parede, porta ou móveis pelo caminho - a qual ele nem se dignou a virar, nem para levantar aquela maldita sobrancelha, e continuou acompanhando os carregadores escada acima, escada abaixo, hora ou outra carregando ele mesmo algum pertence.

Na verdade eles não precisaram fazer muitas viagens até lá em cima. Shino não trouxe muitas coisas a primeira vista, além de móveis essenciais a sua sobrevivência, como uma cama, uma cômoda, um criado-mudo, uma estante grande e uma escrivaninha – a cama, a estante e a escrivaninha estavam desmontadas quando os operários da mudança carregaram-na para cima. O resto eram caixas de papelão. Pelo menos umas duas dúzias de caixas de papelão.

Quando os carregadores terminaram Shino desceu as escadas e os acompanhou até a porta agradecendo com apertos de mãos e gordas gorjetas. Acho que eles ficaram realmente felizes, porque sorriram e arrancaram com o caminhão desobstruído minha visão dos corredores que sempre passam ao redor do parque. Ele entrou, ainda com os óculos escuros no rosto, mas o casaco enorme tinha sumido. Será que o esforço, a perda de líquidos através do suor e a potencial morte por hipertermia¹ fizeram com que ele se tocasse de que nós ainda estamos no verão? Mas querem mesmo saber? Dá pra ver certinho os músculos dos braços dele através dessa camiseta preta. Aposto todas as minhas ficha que, se a barriga de Aburame Shino não for tanquinho, deve ser pelo menos extremamente gratificante. Ele voltou para dentro da loja e ficou parado, colocou as mãos nos bolsos e se voltou pra mim:

- Vou arrumar minhas coisas lá em cima.

- Eu me lembrei de te avisar que só tem um banheiro, não é? – Shino parou de costas, um pé na escada outro no chão. Suspirou como se absorvendo a informação ou bolando um plano de fuga rápida pela tangente. Acho que ele ficou com a primeira opção.

- É, eu notei.

- O que você prefere almoçar? – interrompi de novo analisando os dois folhetins de cardápios que eu tinha nas mãos. Ele, novamente, ficou com um pé no degrau e outro no chão – Comida chinesa ou fastfood?

Ele se virou um pouco, o suficiente para poder me encarar por trás dos óculos escuros. Ele fica extremamente gostoso através desse ângulo de perfil. Comprimiu os lábios sem saber direito o que dizer.

- Você tem uma esteira elétrica – o que diabos isso tem a ver com que tipo de comida nós vamos almoçar?

- É, eu tenho. Olha, não é complicado, é só escolher entre chinesa ou fastfood, mas se você não gosta dessas opções eu tenho cardápios de comida tailandesa, mexicana, árabe...

- Não – ele me interrompeu e saltou da escada dando alguns passos para perto do balcão. Preciso dizer que eu fiquei com medo da figura escura dele vindo pra cima de mim – camisa preta, cabelo preto, óculos preto, jeans preto. Se bem que ele também estava parecendo uma pantera negra ao atacar uma gazela indefesa. Certo, certo. Nada de Animal Planet com chocolate por uma semana, Yamanaka Ino.

- Você é alérgico a rolinho primavera? – olha, eu tô tentando. Talvez eu deva chamar a Hinata pra decifrar esse cara pra mim, ela tem experiência nisso. Mais que eu, pelo menos.

- Não – ele ficou em frente a mim no balcão, olhando por trás dos óculos. Hey, de que cor são os olhos dele? Eu não tinha parado pra pensar até agora – Eu não pensei que você fosse o tipo que come essas coisas.

Ah, ok, eu sei exatamente que tipo de garota ele pensou que eu fosse depois desse comentário. Achou que eu fosse uma fresca que vive de salada e correndo o tempo todo pra perder as calorias extras que eu ganhei depois de uma folha de alface grande demais e que não esconde chocolates nas plantas nem gosta de beber um saquê de vez em quando – tipo de sábado quando não tem nada de bom passando na TV.

Mas eu não sou.

Eu sou uma mulher independente, que gosta de comer chocolate e fastfood, se importa com o peso, mas essencialmente por causa da saúde, que abomina qualquer outro exercício além de correr na esteira, que bebe aos sábados, às vezes, e que gosta de comprar de vez em quando, coisas necessárias, como qualquer outra mulher no mundo. Eu juro, quebro a cara de quem diz que não usa, ao menos, um creme corporal, lápis delineador de olhos ou um belo par de brincos. Se diz isso é porque não tem vida social ativa nem o menor senso de cuidar bem de si mesma.

- Se você quer saber – respondo o mais ácida que consigo ser. Mais uma técnica do Gaara, junto com o olhar maligno que ele me ensinou – Eu não vivo de água e luz, tá? Escolhe logo!

E apontei pra ele os dois cardápios. Ele tirou da minha mão o cardápio vermelho de comida chinesa e ficou olhando por um tempo. Eu sabia que ele iria querer essa então guardei no bolso do avental o outro cardápio. Quando Shino, entomólogo – seja lá o que isso for – fica concentrado se forma uma ruguinha entre suas sobrancelhas, bem acima do nariz. Não é uma daquelas rugas grotescas como os pés de galinha do meu pai ou qualquer coisa assim, é algo fofo. Comprimiu os lábios de novo. Ok, essa daí eu já sei o que significa, é quando ele está indeciso sobre alguma questão. Fala sério, vai ser fácil se as coisas continuarem assim. Calmas e pacíficas. Até eu ver ele de toalha, claro, e se a visão for suficientemente prazerosa eu e ele vamos ter que estrear o chão do banheiro ou a geladeira ou a estufa ou os três.

- Frango ao molho curry.

- Com prazer – eu saio dos meus pensamentos assim que eu percebo o que eu disse. Cara, eu tenho que parar de devanear sobre como seria legal transar com ele na banheira enquanto ele estiver no mesmo aposento. Shino volta a colocar o cardápio em cima do balcão e as mãos nos bolsos – Quero dizer, tá, frango ao molho...

- Curry – ele repete mais lentamente, quase separando as sílabas, como se eu fosse algum tipo de retardada ou algo assim.

Sabe, eu tô mesmo ficando com muitas raiva em ter que decifrar os trambiques da personalidade desse cara. Se fosse uma mulher seria mais fácil, porque com uma mulher existem quatro tipos de relacionamento:

Vocês se gostam.

Vocês se odeiam.

Vocês se aturam.

Vocês não dão a mínima pra nada.

Não é complicado para um ser do sexo feminino entender outro ser do sexo feminino. Agora um ser do sexo feminino entender um ser do sexo masculino e vice versa? Danou-se. É por isso que nossos cromossomos são XX e os deles, XY. Diferentes! Como eu sei sobre essa história de cromossomos e não sei sobre o que é um entomólogo? Fala sério, nenhum de vocês teve que aturar a Sakura durante a faculdade de medicina e sua inconsciente, que ela fazia um esforço imenso para negar, queda pelo Naruto. Ela estava o tempo todo no telefone comigo falando sobre diferenças entre o sexo masculino e o sexo feminino. Como ela era quem ligava e eu não tinha que pagar uma conta absurda de telefone depois, ficava ouvindo com paciência pra no fim da o mesmo conselho que todos dariam:

- Chama ele pra sair! – e fim.

Mas não que eu esteja caindo em algum penhasco onde no fundo haja o tal Aburame Shino, entomólogo. Esse tipo de coisa não acontece mais comigo, porque eu sou o tipo de garota que acredita em um só grande amor. E eu já tive o meu único grande amor, que foi o Gaara. Eu posso namorar, posso casar, mas eu não vou voltar a amar. Definitivamente.

- Eu vou subir quando os pedidos chegarem – digo a ele para que pare de ficar me olhando daquele jeito que me faz parecer inferior. Não que eu consiga deduzir que é isso que ele ta fazendo, mas parece. Eu me sinto assim e incomoda.

Aburame Shino se vira e sobre as escadas, dessa vez sem interrupções.


Quantas coisas um entomólogo precisa ter, na verdade? Não que eu saiba o que é isso, mas deve ser algo bem chato, o nome parece ser chato. Só que ele continuar tirando coisas e mais coisas de caixas e mais caixas. Eram só duas dúzias de caixa, será que eu contei direito? Enfim, quando eu subi pro apartamento depois de fechar a loja ele ainda estava arrumando e quando eu terminei o meu banho ele ainda estava arrumando.

Shino não ocupou muito espaço no banheiro, como eu tinha previsto. Colocou uma escova verde de cerdas duras ao lado da minha no armário, um creme de barbear e um pincel pra espalhar. Não havia nenhum gilete, mas tinha um estojinho preto. Eu peguei para me deparar com três lâminas afiadíssimas e um cabinho onde encaixar. Cara, o meu avô usava um desses. A última pessoa que eu soube que usou um desses daqui foi uma garota encontrada num banheiro que tinha cortado os pulsos com uma lâmina dessas. Será que o Shino é um cara antiquado que fuma charuto e tem uma daquelas poltronas reclináveis onde degusta vinho e queijo? Acho que não, a minha sala continua a mesma e não tinha nada com aparência de poltrona entre os móveis. Além do mais, isso tudo parece ser muito europeu.

Terminei o meu banho e me enfiei em um dos meus moletons que, na verdade, era um moletom de Gaara, mas Temari fez a gentileza de deixá-los pra mim. Ainda sinto o cheiro dele aqui, apesar de eu já ter lavado-os algumas vezes. Eu acho que o cheiro que eu sinto nunca vai sair. Coloquei um short, porque agora eu não moro mais sozinha e não acho que seja o momento de começar a mostrar a Shino os meus hábitos dentro de casa. Segui para o quarto dele, a cama já estava montada com colchão e roupa de cama, assim como a escrivaninha com alguns livros, um computador portátil e uma luminária e a estante, vazia. A porta do closet estava aberta e ele entrava e saia levando roupas e sapatos lá pra dentro. A mala sem roupas estava em cima da cama, fechada.

- Você quer alguma ajuda? – eu perguntei me escorando no batente da porta. Ele parou e olhou ao seu redor. Apontou para umas seis caixas empilhadas perto da estante.

- Coloque os livros na estante – e voltou para pegar uma caixa e entrar no closet. Eu passei por ele e vi que tinha uns três ternos dentro daqueles sacos transparentes para que não amassem. Pra que um entomólogo – seja lá o que isso for – precisa de ternos? Ah, cara, eu já não agüento mais isso, preciso pesquisar o que é um entomólogo.

Eu abri a primeira caixa. Os livros de Shino não são lá muito interessantes, mas pra mim nenhum livro um dia pareceu muito interessante, eu prefiro revistas, mil vezes. Eram alguns livros de romances épicos, histórias medievais e outras coisas escritas muito, muito antes da nossa geração nascer. Outros livros eram enciclopédias. Várias delas. Acho que o Shino não saber como afastar os vendedores de enciclopédias quando eles ligam pra você com aquela fala mansa que dá sono. Tudo bem, eu sei fazer isso. Ainda bem que eu existo. E alguns livros sobre natureza. Sobre a vida de insetos e coisas assim. Argh! Eu não sou muito fã de insetos, sabe. Claro que vários deles são bons pras minhas plantinhas maravilhosas, mas eles ainda assim tem exoesqueleto e zumbem, então eu não acho que posso me dar bem com eles.

É, tudo bem, eu admito: tenho medo de zumbidos!

- Você tem namorada, Shino? – perguntei tentando afastar esses insetos e esses zumbidos da minha mente. E, convenhamos, uma hora ou outro eu ia precisar perguntar isso, a gente mora junto, agora.

- Não.

- Noiva? Esposa? – fui tentando – Namorado?

- Não. Não – ele olhou pra mim e levantou uma sobrancelha – Não.

Sabe, eu tenho realmente muitas coisas pra perguntar a ele, mas é meio complicado quando o cara fica tão quieto e usando esses óculos escuros durante a noite e tudo o mais. É como tentar iniciar uma conversa com um cachorro ou com as minhas plantas. Eu nunca sei se ele vai me responder ou simplesmente me deixar falando sozinha.

- Tem lavanderia aqui? – por incrível que pareça, foi ele quem iniciou a conversa. Estamos progredindo!

- Não – eu detesto lavar roupa – Eu coloco tudo num cesto no banheiro e mando pra uma lavanderia a quatro quarteirões. Eles mandam de volta a roupa em três dias, lavada e passada.

Shino suspirou e voltou a arrumar suas coisas. Fala sério, se esse cara me disser que gosta de lavar e passar roupa, eu juro que o esgano. Quem ser em sã consciência – fora aqueles que ganham pra isso, como o pessoal da lavanderia – gosta de lavar e passar roupa?

- Qual o problema? Gosta de lavar roupa?

- Não. Não gosto de lavar nem de passar – ele pegou a última caixa – Arrumar cama, também, é uma tarefa inútil. Por quê? Porque você vai bagunçar tudo depois.

Tô chocada! Com assim Aburame Shino conseguiu se soltar a ponto de falar mais que 10 palavras comigo em uma única frase? Agora sim as coisas realmente podem melhorar. E sabe o que mais? A voz do Shino é bem legal. Sabe aquele tipo de voz em que você pode ficar escutando pra sempre, como a voz profunda e grossa do seu cantor favorito? A dele é um pouco mais gostosa de ouvir. Eu abri a última caixa e quando ele disse que ia tomar banho eu já estava colocando na estante os últimos livros. A estante dele tem oito prateleiras, cinco delas estão lotadas de livros. Cara, como alguém consegue comprar tanto livro?

Eu fui pra sala e lembrei que tinha que preparar o jantar, então eu fui até a porta do banheiro. O chuveiro estava ligado, mas mesmo assim eu gritei:

- SHINO, O QUE VOCÊ QUER JANTAR?

Silêncio. Será que ele tá com espuma no ouvido?

- SHINO, O QUE...

- VOCÊ VAI COZINHAR?

- NEM PENSAR! VOU PEDIR COMIDA!

Silêncio de novo. Acho que eu não havia dito pra ele que eu não cozinho, não é? Gaara cozinhava, eu só queimava as coisas. Na cozinha, tudo o que eu toco estraga, é tão horrível. Ele tentou me ensinar uma vez, mas depois que eu conseguir fazer o micro-ondas pegar fogo, paramos de tentar. Quando a minha mãe vem aqui em casa para me torturar fora em um dos malditos 13 dias, eu corro comprar uma torta ou bolachas manufaturadas pra ela não falar que eu sou uma inútil. Ponho as bolachas num pote, a torta numa bandeja e algumas panelas no escorredor de pratos pra ela pensar que fui eu quem cozinhou. Só tem uma coisa que eu sei fazer na cozinha. Chá. E meu chá é realmente bom, porque eu tenho uma hortinha lá na estufa com hortelã, camomila, erva doce, raiz forte, folha verde e tudo o mais, então os meus chás são sempre fresquinhos.

- INO?

- SIM?

- EU VOU COZINHAR.

Quê? O Shino cozinha? Ok, ele usa lâmina de barbear ao invés de gilete, tem três ternos impecáveis, uma coleção de livros, não arruma a cama. Essas são coisas que me deixaram surpresa, mas que deu pra levar na boa, agora, cozinhar? Tô perplexa!

- Ah... OK! – gritei uma última vez e sentei no sofá. Só sentei, as pernas pra cima, e fiquei pensando nessa última informação. Olhei pro meu quarto de onde dava para ver a foto de Gaara sobre o meu criado-mudo, seus olhos muito verdes e sem sobrancelhas parecendo mais perplexos que eu. Nós dois estávamos dizendo "Quem diria?"

Pulei do sofá e fui até o meu quarto e sentei em frente ao computador acessando qualquer site de busca e digitei "entomólogo" na lombada. Esperei alguns segundos, a minha Internet não é assim tão rápida. Logo mais apareceu um monte de sites com essa palavra, eu cliquei no mais confiável.

"Em-to-mó-lo-go: masculino. (Biologia) aquele que estuda a entomologia, ou seja, insetos".

Insetos?

- Insetos? – arregalei os olhos. Levantei da cadeira e corri para o quarto do Shino, entomólogo – agora eu já sei o que isso é. A mala estava em cima da cama e agora eu sei o que era aquele som familiar mais cedo. Eram zumbidos. Tem insetos dentro dessa mala – Não, não, não!

Andei pra trás e me encostei-me à porta do closet. Eu devia estar branca, porque eu vi o Shino entrando no quarto, a toalha na cabeça, um short preto e uma camiseta de malha cinza. Os óculos escuros no rosto. Ele parou subitamente ao me ver ali, branca, estática na porta do armário dele.

- Ino... – começou a dizer e deu uma breve checada na mala.

- Insetos.

- Pensei que você soubesse o que era um entomólogo.

- É por isso que você precisa das minhas flores – eu disse.

- É, mas nenhum desses insetos faz mal a elas, é um novo grupo experimental, eu precisava de um ambiente propício para trabalhar com eles.

- Ambiente propício – eu repeti. Minhas flores, ou seja. Meus doces bebês que eu trato com tanto carinho, afeto e amor. Ele quer soltar insetos zumbidores sobre as minhas flores.

Eu desencostei do armário, respirei fundo. Ok, Aburame Shino é um cara bonito, eu não deveria ter feito minha expressão de quem sabe das coisas quando ele me falou o que era, eu deveria ter feito minha melhor cara de confusa, mas não, Ino, tente mesmo se mostrar superior. Agora eu vou ter que conviver com um cara que estuda os piores monstros habitantes do planeta Terra. Tudo bem, eu acho que posso lidar com isso numa boa, eu lido com a Sakura, não vai ser assim tão complicado. Dei uns passos na direção de Shino, sem dizer nada, pra sair do quarto e me acostumar com a idéia.

Aí eu desmaiei.


¹Hipertermia: É quando a temperatura do corpo sobe e a pessoa começa a perder líquidos causando desidratação. Literalmente é morrer de calor.


Olá, povo!

Ah, eu amei escrever esse capítulo! Primeira coisa Shino/Ino de verdade, eu espero não ter deixado eles muito fora da personalidade deles, mas se eu fiz isso é pelo bem da fic. Desculpem a demora, eu queria ter postado ainda ano passado, mas infelizmente não deu. Espero que tenham gostado desse capítulo tanto quanto eu gostei de escrever, não teve outros casais nele, mas nos próximos as coisas vão ficar mais amplas. Torçam para que eu não demore pra postar!

AGRADECIMENTOS:

Lust Lotu's, Tia-Lulu, Hanari, Susakekun, Lucy(2), Pink Ringo, Hyuuga Ana-chan e Toph-baka.

Agradecimento especial a Srta. Abracadabra por betar!

OBRIGADA POR LEREM!

Beijos, Tilim!