AROMAS E ZUMBIDOS
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Presente para Pink Ringo
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Capítulo 6 - Conversa de Bêbada
O ser humano é muito engraçado. Quando faz alguma coisa que lhe dá prazer ou satisfação quer repetir essa coisa ou fazer mais coisas semelhantes. Quando está triste procura algum jeito de se alegrar. Porém quando tal humano é picado por um inseto sua primeira reação é dar um tapa no infeliz e matá-lo. Quando o tapa é desferido a real intenção não é matar o inseto, é apenas fazer com que a dor momentânea cesse. Coisa semelhante acontece quando o ser humano está doente, seu organismo unido de remédios ministrados faz com que o que lhe causa dor e mal estar vá embora.
Comigo, durante esta fatídica tarde, passei por basicamente todos esses estágios do ser humano. Não senti prazer nem satisfação e nem me alegrei. Senti dor, melancolia e tristeza e quis, realmente quis matar o infeliz do mosquito, porque era um mosquito especialmente projetado para me torturar, fazer adoecer ao estágio mais lamentável da minha existência para só então morrer. E o meu remédio não parecia – não queria – fazer efeito.
Algumas poucas diferenças são que, na verdade, não é um inseto, mas sim minha mãe. O meu remédio é Shino. E eu não senti nenhuma dor, porque estava bêbada, mas a melancolia e a tristeza estavam lá, sim. Assim como também um imenso sentimento de estar sendo torturada psicologicamente. Sério, eu acho que a minha mãe está desperdiçando seus talentos comigo, ela deveria é trabalhar para a Yakuza.
Aburame Shino, o entomólogo que está morando comigo, foi o maior cavalheiro com a minha mãe, coisa que ele não deveria ser. Uma mulher como ela, que foi enviada de sua seita casamenteira demoníaca para atazanar a minha vida, devia ser retirada da minha casa a pontapés e isso, claro, é dever do Shino, porque ele é o homem aqui. Mas, não, ao invés disso ele pede pra ela se sentar e os dois começam a conversar. Na verdade é mais um interrogatório, já que minha mãe pergunta e Shino responde – ele responde mesmo, respostas completas, como numa prova dissertativa. E ele não fica constrangido com nenhuma, nenhuma mesmo, das perguntas dela.
Eu fiquei quieta, no meu canto, esperando tudo aquilo acabar. E não foi fácil, não mesmo. Fala sério, a cada pergunta besta que minha mãe fazia eu batia a minha cabeça na mesa ou batia na minha cabeça com a garrafa de vinho que eu já tinha esvaziado. Eu achei saquê no armário depois, duas garrafinhas. Acabei com elas também. E com uma mãe dessas claro que tinha que haver alguma coisa errada com a prole. Sabe o que há de errado comigo? Bebida não faz o efeito que eu espero que ela faça. Eu bebi tudo aquilo para aturar minha mãe enquanto na minha casa, mas também para que depois de dormir e acordar de ressaca eu não me lembrasse de mais nada que havia acontecido no dia anterior, mas não. Eu tenho que acordar de ressaca, com dor de cabeça e me lembrando de TUDO.
Minha mãe foi embora no fim da tarde e eu estava no último degrau de cima da escada quando Shino subiu de volta para o apartamento. Eu estava com uma das garrafinhas de saquê na mão, rindo.
- Minha mãe não é... Demaaais, Shinooo? – eu estava falando com a voz toda arrastada, meio embargada.
Ele parou a minha frente e, percebendo agora, tinha os lábios apertados em uma linha fina. Difícil dizer se ele estava irritado por minha mãe ser um pé no saco, por eu estar bêbada e ele estar considerando que eu poderia vomitar nele ou por eu estar barrando o seu caminho. Sinceramente eu espero que ele tenha ficado bravo por causa da minha mãe, ela merece. Ele colocou seus óculos em mim e levantou uma sobrancelha. Ok, o que é isso? Ele está bravo e sendo irônico? Não, essa levantada está mais para "Quanto você bebeu?". A resposta é: o suficiente. Mas eu não disse isso pra ele, só tentei me levantar cambaleando um pouco e segurando no batente a porta.
Rindo.
- Tá tããão quente aqui, Shino – eu murmurei e me joguei para ele, ainda parado na escada, que retrocedeu um degrau para conseguir me agarrar pelos cotovelos e evitar que eu caísse rolando e quebrasse o pescoço pelo caminho. O que eu faria sem Shino? – Porque você tá usando esse casaco enooorme?
E então eu tentei, com vontade mesmo, arrancar o casaco de Shino agarrando a gola e puxando para baixo. Ele segurou meus braços com um pouco mais de força e foi me levando escada acima, comigo ainda tentando despi-lo, até a sala. O nosso almoço ainda estava em cima da mesa, completamente frio. A única coisa que eu fiz na vida que realmente ficou gostoso, mas que não comemos. Nunca mais cozinho, isso é uma promessa.
Quanto a tirar o casaco dele eu realmente consegui, essa foi à coisa mais estranha. Acho que o Shino ficou de saco cheio de eu tentar deixá-lo seminu – porque deve ser assim que ele se sente sem aquele casaco para não tirá-lo nunca - que ele mesmo tirou. Me largou por um momento e arrancou o casaco puxando o zíper com violência. Deixou que o tecido verde deslizasse de seus ombros com brusquidão e por um segundo eu pensei que ele estivesse fazendo isso para logo em seguida cair na tentação e me puxar pra ele me dando um beijo intenso e cheio de desejo, para depois me prensar na parede e nós mandarmos ver, ali entre a sala, a cozinha e nossos quartos, sem nos importarmos se minha mãe voltasse e nos visse. Para a minha infelicidade ele só arrancou o casaco, agarrou meus braços e me pegou no colo, como se fossemos recém-casados, e me levou escada acima.
- Você está bêbada?
- Não! – eu disse rindo enquanto chegávamos à estufa. Um sapo verde com manchas amarelas enorme coaxou logo ao lado de uma caixa de terra fertilizada e eu olhei pra ele ainda rindo – Olha, um sapo! Posso beijá-lo?
- Você está bêbada – decretou Shino me colocando no chão do outro lado da estufa. O vento morno bateu nos meus cabelos balançando-os. Mesmo bêbada não é difícil aproveitar os prazeres da vida e um dos prazeres da minha vida é conseguir fazer com que Shino caia nas minhas garras muito bem feitas. Me virei para ele me sentindo como a Mulher Gato, toda poderosa, e olhei-o com um olhar que naquele momento me pareceu ser sexy, mas que pensando agora, me olhando no espelho, não deveria estar tão sexy assim.
- Acho que estou – a fase alegre da bebedeira tinha passado, assim como a fala arrastada. Agora eu me sentia quente e só conseguiria abrandar esse fogo com algo muito mais caloroso – Então vamos aproveitar que amanhã eu estarei de ressaca e não poderei gritar com você por abusar de mim.
E me aproximei dele colocando os braços em volta de seu pescoço e colando meu corpo ao seu com violência. Shino segurou meus ombros tentando me impedir de fazer alguma coisa estúpida para não me arrepender depois- tentando fazer o seu moralismo chegasse a uma mente turvada com bebida -, mas eu já tinha colado meus lábios ao seu pescoço e ele perdeu o rumo por um momento. Sabe, mesmo bêbada, foi bom saber que eu podia paralisá-lo com um toque daqueles. Beijei seu pescoço repetidas vezes e deixei uma pequena marquinha para a posteridade e continuei trilhando o caminho até seu queixo, minhas mãos massageavam suas costas por baixo da camisa e me alegrei e sorri durante um beijo e outro enquanto passava as mãos nas dobrinhas dos músculos definidos de seu abdômen sentindo Shino contraí-lo levemente, mas quando tentei alcançar sua boca de lábios finos ele recuperou o poder e me empurrou, ainda segurando meus braços.
- Ino... – disse, arfante. Uau, arfante! Eu sei mesmo como provocar. Sinceramente, deixar um cara sério como Gaara ou Shino arfante não é nada, nada fácil. Eu deveria receber uma medalha por isso ou sei lá, alguma Honra ao Mérito – Pare com isso.
- Vamos, Shino – eu sussurrei-lhe lambendo os lábios – Me coloque contra a estufa.
É, eu sei, também não estou acreditando até agora que eu disse pra ele fazer uma das minhas fantasias. No momento eu não sei o que estava pensando, mas agora eu só quero ir até o banheiro, enfiar minha cabeça na privada e dar descarga até me matar. Ele me olhou com uma sobrancelha arqueada novamente, mas a coisa toda da minha sedução parou por aí, porque no segundo seguinte eu me senti mole e se ele não tivesse me segurado quando minhas pernas cederam, eu estaria com um lindo hematoma roxo na bunda. A moleza daquele semi-desmaio foi se espalhando pelo meu corpo e antes que eu pudesse perceber tudo ficou escuro e eu dormi.
Depois disso claro que eu não posso me lembrar do que aconteceu, porque eu estava dormindo, mas eu acordei na minha cama, então suponho que Shino tenha me colocado lá. Ainda bem, imagine se ele fica bravo pela coisa da sedução da bêbada e me deixa dormindo no chão do terraço? Quero dizer, tem todo o perigo de pegar uma gripe que acabe se tornando uma pneumonia e eu morra, mas e quanto aos insetos? Fala sério, imagina eu acordando na estufa no meio daqueles monstros zumbidores? Isso sim que é ruim!
Minha cabeça latejava como nunca aconteceu em toda a história dos meus 26 anos, mas também eu acho que em toda a história dos meus 26 anos minha mãe nunca me fez passar tanta vergonha na vida. Quando eu e Gaara começamos a namorar ela não aprovou e fez 20 milhões de perguntas sobre ele, se ele era muito atrevido ou se já estávamos transando. Claro que nós já estávamos transando! Francamente, eu conheci Gaara desde o colegial, mas a gente só começou a sair no último ano, porque antes eu namorava o Neji – pensando bem, Neji é outro inexpressivo, mas com ele a coisa não era exatamente verbal -, e eu transei com Gaara depois de 11 meses e 28 dias de namoro. Eu poderia ter esperado um ano para transar com ele e ser aquela coisa romântica e tudo o mais? Não. Estou falando do Gaara! Não sei como eu consegui ficar tanto tempo sem agarrar ele de jeito e provocá-lo para me tornar sua. Enfim, a questão é que as perguntas sobre Gaara eram dirigidas a mim e não ao próprio Gaara, porque do jeito que ele era tenho certeza que teria matado minha mãe na primeira sílaba. Por pedido meu, é claro.
Deixei o meu quarto me sentindo a pessoa mais horrível do mundo, mas não pela situação a que eu tinha sujeitado Shino na noite passada, era por estar realmente feia. O meu cabelo estava solto e desgrenhado, a mecha azul que partia da minha raiz agora estava a uns cinco centímetros de distância do couro cabeludo e a minha cara estava amassada, eu estava com olheiras e precisando desesperadamente de um analgésico e café forte. Muito forte.
Para minha sorte havia café fumegante em uma caneca e um comprimidinho branco colocados a minha frente. Eu sorri pra eles e tomei com gosto. Segundos depois eu percebi que a caneca e o comprimido não estavam voando a minha frente como eu pensei de cara, mas seguramente sobre as palmas pálidas e muito levemente calejadas de Aburame Shino. Levantei meus olhos pesados para encarar sua inexpressão de sempre e – que surpresa! – foi exatamente isso que eu encontrei. Não que eu esperasse encontrá-lo com um sorriso imenso no rosto por ter descoberto que a sua senhoria tinha fantasias eróticas com ele prensando-a na estufa ou que seja, mas ele nem estava com os lábios apertados da sua característica semi-expressão de raiva.
- Bom dia – disse depois que eu o olhei esperando ver a raiva materializada em uma nuvem negra de tempestade sobre sua cabeça, mas me desapontando por não haver nuvem alguma – Quer comer alguma coisa?
- Você não faz nada direito, Shino! – eu respondi quando ele me deu as costas em direção a uma mesa posta e um prato de panquecas. Deve ter alguma coisa muito errada com Shino, porque ele fez panquecas. Ele nunca dispensa comida tipicamente japonesa e panquecas não são japonesas nem de longe. Mas quando eu gritei irritada por ele não estar irritado comigo, ele parou e virou-se para me encarar de novo, uma sobrancelha erguida – E não erga essa sobrancelha pra mim!
A sobrancelha abaixou e só então eu reparei que ele não estava com o tal casaco que eu tentara tirar na noite anterior, mas com uma camiseta preta que deixava ver a marca vermelha de chupão na pele pálida do seu pescoço. Cara, quero mais analgésicos. Se eu tomar uns 60 acho que consigo, pelo menos, parar sedada no hospital.
- Do que você está falando, Ino?
- Porque você está agindo tão normalmente comigo, me dando analgésicos e fazendo panquecas? Eu me lembro do que eu fiz ontem, tá? Pode ficar bravo!
- Eu não vou ficar bravo.
- Porque não? – ele cruzou os braços e recostou-se ao sofá.
- Porque o que aconteceu ontem foi indiferente para mim. Sua mãe te deixa desconfortável e por isso você bebeu demais. O que você fez sob efeito da bebida não tem importância, você só estava bêbada.
Eu fiquei meio sem saber o que dizer depois disso enquanto Shino só continuava me encarando. Tudo bem, ele não considera uma pessoa bêbada em sã consciência, mas ele precisava dizer isso de forma tão insensível? Será que ele não considera nem um pouquinho que eu realmente desejava que ele fizesse aquilo? Detesto uma coisa em Shino, definitivamente: ele é estupidamente racional. Senti meus olhos arderem e o incômodo no nariz. Deixei a xícara de café cair no chão se espatifando no chão e corri para o banheiro só dando tempo para ver o movimento de Shino desencostando-se do sofá e fazendo menção de me segurar. Tranquei a porta e passei a chave duas vezes antes de sentar na beirada da banheira e chorar de verdade, com força e com soluços.
- Ino! – chamou Shino, preocupado, do outro lado da porta – Ino, o que você tem?
Eu sei que Shino estava preocupado comigo ali do outro lado da porta, mas ele só estava fazendo isso, me chamando e tudo o mais, porque ele não pode deixar que a garota que mora com ele morra assim, sem mais nem menos, talvez cortando seus próprios pulsos no banheiro com a lâmina de barbear dele, por isso ele está tentando saber se estou passando mal ou qualquer coisa assim. E eu deveria estar consolada por ele, pelo menos, estar se preocupando comigo, mas isso só me fez chorar ainda mais. Qual é a de toda essa emoção lagrimal do além que se abateu sobre mim?
- Ah, droga! – levantei a cabeça de entre minhas mãos e levantei da banheira. Arranque a calça de ginástica que eu tinha posto ontem pra ficar em casa e vi a mancha vermelho escuro na minha calcinha – Merda!
- Ino, responda qualquer coisa nos próximos três segundos ou vou arrombar a porta – Shino anunciou agora com a voz preocupada tomando timbres raivosos. Ah, que maravilha, por causa disso esse idiota fica bravo!
- Eu tô MENSTRUADA, Shino, algum problema com isso? – gritei a palavra bem próxima à porta para que ele entendesse bem e, de certa forma, ligasse minhas lágrimas a grande quantidade de hormônios circulando por meu corpo nessa época do mês. É a primeira vez que ele vai ver minhas oscilações de humor da menstruação e garanto que será bem assustador.
Do outro lado reinou o silêncio e eu liguei o chuveiro deixando encher a banheira. Cara, preciso de uns chocolates!
Olá!
Desculpem-me a demora, especialmente você, Dude, mas eu fiquei ocupada com a escola. Cara, não agüento mais estudar! Acho que vou virar uma escritora eremita.
Enfim, espero que tenham gostado do capítulo curto, eu admito que ele não é o meu preferido. No próximo tem o tão falado Festival da Estrela e vai ser bem maior, vou tentar ser mais rápida.
AGRADECIMENTOS:
Lust Lotu's, Darknee-chan, Lucy, Tia-Lulu, Marcy Black, J P Sarutobi, Toph-baka, Nostradamus da Modernidade, Pink Ringo, Susakekun, Aqua-kun, Hanari, J., Camila e Nii-Chanzinha.
OBRIGADA POR LEREM!
Beijos, Tilim!
