AROMAS E ZUMBIDOS

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Presente para Pink Ringo

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Capítulo 7 – Chocolates!

A semana que se seguiu eu posso garantir que foi a pior semana de toda a vida de Shino. Eu sei que não sou, admito isso, fácil de aturar, especialmente numa semana menstruada. Eu quase fazia Gaara enlouquecer, mas ele conseguia agüentar porque tinha uma mente realmente muito forte para suportar todas as minhas oscilações de humor. Minha mãe, quando eu morava em casa e tinha essas oscilações, me colocava de castigo e não me deixava sair do quarto enquanto eu não voltasse ao normal. Sakura me xingava no primeiro dia e só fazíamos as pazes quando tudo acabava. Neji terminou comigo em uma dessas vezes e só serviu para que eu desse um ataque de mamãe e jogasse ovos nele, não na porta da casa dele, nele mesmo, porque foi um dia em que estávamos voltando do mercado – ele tinha ido me acompanhar até lá – e taquei a cartela de ovos na cabeça dele. A partir daquele dia o cabelo dele ficou ainda mais sedoso. Irônico, não é?

Talvez ele – Shino, quero dizer - tivesse tido alguma semana pior, eu ainda não sei direito muita coisa sobre a vida dele para supor nada, mas acho que alguma coisa pior que eu de TPM seria apenas a ex-senhoria dele, na casa que ele morava antes, ter confundido os insetos dele com uma infestação e chamado o dedetizador ou ele ter estourado o cartão de crédito ao comprar apenas um vestido, um sapato e uma bolsa que ele realmente estava precisando, senão ele não poderia continuar vivendo. Mas acho que essa última opção tem mais a ver comigo, então eu vou ficar com a primeira. Não que eu realmente saiba que o Shino teve uma ex-senhoria numa ex-casa em que ele morava e que essa tal tenha dedetizado os insetos mutantes dele. Nunca se sabe. Esses insetos mutantes podem até serem cópias da aranha que picou o Peter Parker para ele virar o Homem-Aranha, vai saber, Shino tem um estilo de nerd – mas não um corpo, decididamente – que faria algo desse tipo.

Em um dos dias, em que eu estava pensando se me matar e ir para o inferno não seria uma opção melhor que passar por mais um ciclo daquilo, mas do mesmo jeito tinha que continuar lá na loja sentada naquele banquinho alto horrível porque sempre tem alguém doente naquele hospital perto de casa que precisa de flores, Shino não parava de descer e subir a escada para me vir dizer/pergunta/opinar alguma coisa. Eu já estava morrendo de dor nas costas e naquela hora – depois do velho que adquiriu a mania irritante de vir perguntar se a minha floricultura é uma porcaria de um antiquário, como se as flores não dissessem nada – eu estava começando a ter uma dor de cabeça que, eu sabia, se tornaria infernal em alguns minutos, Shino desceu com um bloco de notas e uma caneta.

- Não sei se você tem notado, mas estamos ficando sem algumas coisas, então sugiro irmos ao mercado – ele disse fazendo anotações – Você precisa de alguma coisa em particular?

- Absorventes – eu disse depois de bufar, irritada, e massageando as têmporas – E xampu.

Ele anotou e voltou a subir as escadas, mas antes de ouvir a porta eu ouvi seus passos voltando.

- Sabe onde estão os selos? Porque preciso enviar umas cartas e não sei onde estão – ele tem sempre a mania de dizer o porquê das coisas. Ás vezes eu realmente fico interessada em saber – quando é algo sobre ele sair, aonde vai, com quem vai, se é algo sobre a vida pessoal dele que é completamente obscura pra mim, mas não é sempre que surge esse interesse, especialmente se é sobre a correspondência dele, e principalmente quando estou com dor nas costas, dor de cabeça e uma hemorragia saindo do meio das minhas pernas.

- Não tenho selo nenhum – minha voz saiu mais fraca que o normal. Essas menstruações exaurem todas as minhas forças. Eu fico impressionada de não ter anemia, sinceramente.

- Hum – ele grunhiu e subiu de novo. Não chegou a porta. Incrível como ele consegue ficar subindo e descendo tanto essas escadas, mas que droga! – Ino, você tem alguma ratoeira por aqui?

- SHINO, VOCÊ ESTÁ ME SUFOCANDO AQUI! – eu gritei e me levantei ignorando completamente as minhas costas doloridas e a dor de cabeça e sentindo, quando eu levantei, que mais uma hemorragia tinha acontecido e eu teria que correr para a banheira se eu não queria minha bunda toda manchada de sangue – Me deixe em paz um minuto!

E passei por ele, subindo as escadas e batendo a porta. Comecei a tirar a roupa ainda na sala e fui tacando tudo por lá, menos a minha calcinha, porque eu não estava mesmo a fim de ter sangue escorrendo pelas minhas pernas. Me tranquei no banheiro nem me importando que eu tinha visto o meu sutiã ir parar em cima da mesa da cozinha – lugar que se tornara meio que sagrado para o Shino. Quem sabe isso não o faria querer me agarrar, não é? Porque toda a tensão sexual entre nós – ao menos a tensão que eu sentia – estava me deixando louca junto com essa TPM.

Mas foi só quando eu mergulhei na água morna da minha banheira maravilhosa, com a luz do banheiro apagada e velas acessas, os sais aromáticos me servindo como entorpecentes, que eu me lembrei que ainda não era hora de fechar a floricultura.

- Merda! – batei várias vezes na testa, mas depois relaxei. Shino tinha bom senso, apesar de não tê-lo usado quando se decidiu por fazer entomologia na faculdade, e teria fechado a floricultura por mim. Quero dizer, ainda não era hora de fechar, mas já era quase seis horas. Quase, tipo só faltava uma hora e 37 minutos. Nada de mais, certo?

Quando eu saí, enrolada na toalha, precisando correr para o meu quarto, porque eu novamente não queria que sangue escorresse no meu assoalho e tinha me esquecido de pegar a porcaria da roupa íntima na minha fúria rubra, Shino estava ali, esperando, a boca em uma risca finíssima, a menor que eu já o vira conseguir fazer. Ele ficou na minha frente, tão alto e másculo, que me emocionou, de verdade, como se fosse um galã de cinema ou algo assim. E ele estava todo cheiroso, apesar de eu saber que ele não tinha tomado banho ainda e passara o dia todo subindo e descendo as escadas, tanto as que davam para a estufa quanto as que davam para a floricultura. Como ele não estava cheirando a suor? Mistério!

- O que há de errado?

Que diabos de pergunta é essa? Não é exatamente isso que ele tem que perguntar quando uma mulher toma uma atitude como a que eu tomei, sabe, de gritar com ele e sair correndo para o banheiro, como fazem as garotas nos filme e quando elas voltam tudo parece se resolver miraculosamente. Obviamente que na minha vida nada de resolve miraculosamente. No mínimo ele tem que perguntar se eu estou bem ou se preciso de alguma coisa, não se tem alguma coisa errada comigo. Claro que tem alguma coisa errada comigo! O meu útero estava esperando que alguém o fecundasse, mas como isso não aconteceu porque eu sou uma solteira que, de acordo com minha mãe, está entrando na menopausa aos 26 anos sem lhe dar netos, a porcaria do meu útero agora está descamando porque não tem fecundação alguma. Não teve nem sexo algum!

E sabem o que eu fiz? O que pude fazer? Ora, eu comecei a chorar. Inconsolável. Ferida. Carente. Desesperada. Falida. Solteira. Chocólatra. Que merda de vida é essa a minha?

- I-ino...

- Não quero conversar agora, não quero ver a sua cara, Shino! – eu gritei o máximo que consegui com a minha voz embargada e patética e fui até meu quarto, mas estanquei antes de bater a porta – E me arranja um chocolate! Enorme!

- A propósito – parei, tremendo. Que seja algo bom, pelo menos – Entraram umas treze pessoas querendo comprar flores e balões para uma professora no hospital, mas eu disse-lhes para ir embora já que eu não sabia se estava autorizado a vender.

Nunca mais tenho a maldita idéia de agir como uma heroína de cinema, porque elas são ricas e eu não, elas podem comprar todos os vestidos caros que quiserem e eu não. Elas podem sair correndo para as suas banheiras sem se preocuparem com nada porque sempre tem dinheiro na conta delas!

Aí então eu bati a porta para ouvir um porta-retrato de umas tulipas africanas que fica em cima da porta se desprender do prego da parede e cair, quebrando o vidro. Do meu lado, dentro do quarto, um pedaço de reboco da parede caiu na minha cabeça. E só me fez chorar mais, mas logo depois do choro me veio uma onda de fúria tão completa que eu nem me lembro direito como eu consegui vestir certo a porcaria da roupa intima com o absorvente e me enfiei na cama socando os travesseiros com força e puxando o edredom até a cabeça. A ponta do edredom bateu na foto de Gaara e ela caiu do meu criado-mudo. As lágrimas pararam de escorrer e a minha raiva se esvaiu. Estremeci e sai de debaixo do edredom esticando o braço e pegando a foto dele, com os seus olhos verdes tão lindos quanto sempre foram, e coloquei sob meu travesseiro antes de dormir.


Acordar, pra mim, nunca foi uma coisa fácil de fazer, e é muito melhor quando eu acordo com algum artista cantando alguma música do momento no meu rádio-relógio, mas naquela manhã nem a Utada Hikaru conseguiu me deixar um pouco mais feliz. Eu queria meter a mão no despertador, fazê-lo parar de tentar me tirar do melhor lugar do mundo, mas eu sei que não posso, porque eu tenho um negócio para cuidar, meu negócio, e contas para pagar e um inquilino gostoso zanzando pela minha casa. Sentei na cama e deixei a Utada continuar cantando, ela tem esse direito, os meus problemas não precisam ser descontados em frustração pra cima dela porque ela é uma cantora famosa e eu sou uma florista falida.

- Shino não me trouxe meu chocolate – pensei com alguma raiva. Sabe, desde que ele veio morar aqui eu não tenho mais muita liberdade, porque antes eu podia deixar meus bombons aonde eu quisesse, mas com ele aqui eu nem posso pensar em comprar uma caixa deles, porque eu tenho certeza que vou acabar perdendo alguns no meio das roupas dele e não seria uma situação agradável.

Só que foi só pensar no chocolate que me veio o cheiro as narinas. E quando eu olhei para o lado eu vi a coisa mais maravilhosa que eu podia esperar na minha vida, melhor que uma liquidação, melhor que a minha mãe desistir de vez em querer me fazer casar, melhor que ganhar o Prêmio Nacional de Jardinagem. A cesta mais imensa e mais cheia de chocolate que eu já vi na vida estava em cima da minha cômoda, a luz fraca do sol da manhã batendo nela, iluminando os pedacinhos de papel laminado e colorido embrulhando, pelo menos, uns 3 quilos de chocolates. E um ursinho. Mas eu não posso comer o ursinho, posso? A menos que ele seja de chocolate, mas quando eu aperto é macio, então não. Eu amei os chocolates, mas de que me serve o urso?

Abria uma barra muito bonita, embrulhada com o papel laminado dourado e com uma fita prateada. Esses enfeites e papéis são as partes mais encantadoras dos chocolates. Claro que eu não sou nem um pouco delicada quando se trata deles – e apenas deles, porque eu sou tão delicada como a Hinata com todo o resto do mundo – e rasgo sem pestanejar. Mordi um pedaço da barra para sentir o gosto macio do melhor chocolate que eu já comi. Talvez o gosto só esteja tão bom porque faz tempo que estou de abstinência ou porque seja um presente do Shino, mas acho que o motivo é que é um bom chocolate mesmo.

Eu não gostava de chocolate, antes. Na verdade eu parei de comer chocolate aos oito anos, quando descobri que fazia engordar, e me recusava terminantemente a comer durante o resto da minha infância e adolescência. Quando as pessoas me perguntavam por que eu não comia dizia apenas que não gostava, porque era uma explicação muito mais simples do que dizer que eu não queria ficar gorda e deixar de ser bonita. Porque meninos não gostavam de meninas gordas, porque Sasuke não olharia para mim. E ele nunca olhou. Ele notou Hinata, assim como Neji notou-a, mas ela tinha notado Naruto que sempre notara Sakura. Neji me notou e Sasuke notou a Sakura porque finalmente Naruto notou Hinata. No fim Sasuke e Naruto trocaram suas notações e Neji deixou de me notar ao notar que eu tinha tacado ovos na cabeça dele. E eu não sei se fui eu quem notou Gaara ou se foi Gaara que me notou. Gosto de pensar que fui eu quem o notei, porque olhando para suas fotos hoje é impossível pensar que ele seria uma pessoa que me passaria despercebida.

Eu continuava não gostando de chocolate – ou fazendo as pessoas acreditarem nisso.


Era época das viagens de fim de ano do colégio e meus pais foram pro interior, pra casa dos meus avós. Eu me recusei a ir, não queria deixar Gaara sozinho, e só consegui ficar porque meu pai sempre foi uma pessoa iluminada e convenceu minha mãe de que não seria nenhuma perversão e que não importava que as mulheres da rua fossem falar já que não era da conta delas. Não que ele fosse ficar realmente sozinho, mas Temari tinha namorado e Kankurou nunca ficava em casa muito tempo quando sabia que em algum lugar da cidade, ou da região, ia acontecer um evento social que envolvia a interação interpessoal com dança e consumo de bebidas destiladas e fermentadas com algum teor de álcool. Ou seja, uma festa.

E ficar longe de Gaara não era mais uma opção pra mim.

Mas Gaara detestava inverno. Ele aturava a neve, aturava as bolas que eu atirava na cabeça dele enquanto andávamos em algum lugar, aturava ficar totalmente encharcado depois de cair enquanto me carregava de cavalinho em suas costas e eu insistir em fazer-lhe cócegas para ver um sorriso naquele rosto eternamente sério. Ele só não gostava do frio. E adorava coisas doces, especialmente chocolate. Bolo de chocolate, bombom de chocolate, panquecas de chocolate, leite com chocolate e chocolate-quente, todas as variações, todos os sabores. Ele, sim, era um verdadeiro chocólatra, só que ele só mostrava isso para quem era muito íntimo. Eu e seus irmãos, ou seja.

- Quer chocolate-quente? – eu estava na sala, ao lado da lareira, quando ele veio e me perguntou isso. As olheiras de insônia dele estavam ficando menos acentuadas, mas nunca desapareceriam por completo. Mesmo com toda a canseira que eu podia dar nele durante o dia para fazê-lo dormir melhor à noite, ele só conseguia dormir umas quatro ou cinco horas.

- Não, obrigada – eu sorri e ele voltou pra cozinha e retornou a sala com uma xícara fumegante. Eu senti o cheiro de longe quando ele sentou no chão, recostado ao sofá, e torci o nariz.

- Não está com frio? – neguei com a cabeça colocando as mãos frente ao fogo – Não gosta de chocolate?

- Não, não gosto – e ele se calou, porque ele sabia que eu tinha que completar aquela frase, que eu tinha que dar uma explicação. Ele já me conhecia bem demais, e eu a ele, para saber quando eu queria que ele se importasse e para eu saber quando ele se importava – Engorda.

- Chocolate não engorda – ele disse fechando os olhos e bebendo um gole. Eu o olhei incrédula de como ele podia dizer uma informação completamente errônea de forma a querer me convencer. Ele me encarou igualmente como antes, sem expressão alguma, e apontou a própria barriga sob o suéter de lã cinzenta.

- Você não vale, vai tudo para os seus músculos.

- Você também não vai engordar, vai tudo para os seus peitos – ele continuava impassível e minha boca continuava se escancarando. Gaara às vezes tinha aquela mania de soltar uma frase extremamente constrangedora, mas que só ele não se dava conta do quanto. E pensava ser inocente, ainda por cima. Ou melhor, ele deveria saber que era constrangedora, mas só falava para fazer uma brincadeira irritantemente ácida e desnecessária. Das quais eu aprendi a gostar e revidar.

- Ou, mais provável, vira celulite. E você tá insinuando que eu tenho pouco peito?

Ele ficou quieto. Nem me olhou, só continuou tomando o seu chocolate-quente. Gaara nunca quis mudar nenhum gosto meu, mas ele sabia quando eu realmente tinha convicção com alguma coisa ou quando estava apenas fazendo manha. Eu olhei pra baixo e apalpei meus seios. Sei que nunca fui nenhuma Hinata, porque eu não sei como ela não fica corcunda, mas também nunca fui nenhuma Sakura que consegue passar roupa em si mesma. Como era simplesmente impossível ficar brava com Gaara – especialmente por ele agüentar minha TPM – engatinhei e me juntei a ele recostada ao sofá. O chocolate no copo dele ainda fumegava e borbulhava, quente demais para alguém beber, mas ele fazia isso com vontade e com goles grandes, como se não queimasse a língua dele. O cheiro era agradável, mas a minha mania de dizer que não gostava ainda me fazia achar o cheiro horrível. Quando eu virei o rosto para afastar a fumaça Gaara falou de novo:

- Tome um pouco.

- Não quero, não gosto disso.

- Gosta, sim.

- Não gos... – mas ele não me deixou terminar, porque colocou seus lábios nos meus e a mão na minha nuca. As pontas de seus dedos estavam geladas, mas não foram elas que me despertaram arrepios por todo o corpo. Seus lábios estavam quentes por causa do chocolate e também tinham gosto dele. Mas foi só quando nós aprofundamos o beijo que eu entendi o que ele queria fazer.

O chocolate-quente da boca dele se esgueirou para a minha junto com a língua dele e estava realmente fervendo como eu pensei que estaria, mas nem por isso eu quis parar. Era tão doce quanto eu me lembrava e tinha um leve gosto de canela. A abstinência e a adoração que Gaara tinha por chocolate que o fazia preparar o melhor chocolate-quente do mundo faziam tudo parecer ainda mais maravilhoso. E isso unido do beijo dele, céus, não entendi como consegui sobreviver, mas acho que só o fiz pois sabia que poderiam haver mais. Ele terminou de me beijar e ainda lambeu meus lábios. O chocolate estava todo espalhado pela minha boca, mas não importava mais se engordava ou não, desde que ele me desse outro beijo daqueles.

- Eu disse que você gosta de chocolate.

- Pode ser – ele se afastou e voltou a pegar a xícara que eu não tinha percebido que fora depositava na mesinha de centro. Me ajeitei terminando de lamber o chocolate de dentro da minha boca e me virei para ele – Mas você queimou minha língua!

E era assim, com essas frases banais e triviais que surgiam às vezes, que eu conseguia fazê-lo dar um verdadeiro sorriso.


Terminei de comer a barra toda. Claro que eu ainda me importo com engordar ou não, mas agora eu tenho uma esteira. Pulei da cama – eu não me lembro mesmo como eu vesti meu pijama – e sai do quarto para encontrar Shino subindo as escadas. Não tinha nenhum quadro quebrado na porta do meu quarto, o que é bom, se não eu teria cortado o pé. Ele estava sem camiseta, esta segura na mão, e calças largas e tênis, todo brilhante de suor e, céus, eu não processei essa informação direito! Ele-estava-sem-camisa! SEM CAMISA!

E todas as minhas fantasias sobre ele ter músculos sob o casaco estavam mesmo certas, eu nem posso acreditar, eu nem posso me mover, eu nem lembro que estou com a cara suja de chocolate, nem que estou menstruada e nem que estou brava e feliz com ele, por me encher e por me levar a melhor cesta de chocolates do mundo – apesar da inutilidade do urso de pelúcia. Eu só estou aqui parada, olhando para ele, com vontade de babar. E ele está ali na frente, olhando para mim, também sem fazer nada, mas no caso dele eu duvido que esteja embasbacado com a minha camiseta esgarçada e o short horrendo do Sonic que eu uso para dormir e a minha cara de chocolate super sexy e atraente. Acho que ele está paralisado porque estava esperando eu dar outro ataque e pensando qual seria pior, se eu começasse a chorar ou a gritar.

- Agora eu sei por que você acorda tão cedo – cruzei os braços e me recostei na porta numa pose de quem sabe das coisas. Ele pareceu despertar com as minhas palavras e deu alguns passos para dentro, para a cozinha. Colocou um jornal em cima da mesa – Andou correndo, não foi? – ele não respondeu de novo e começou a colocar a camisa – Pra que você está colocando a camisa agora?

- Porque não é justo só eu estar sem ela.

Ok. Nessa hora eu parei e olhei bem para ele sem conseguir acreditar que ele tinha mesmo dito aquilo, mesmo que de forma irônica. Eu não podia acreditar que Shino, aquele Shino que era entomólogo, que não ficava bravo por eu ficar bêbada e tentar agarrá-lo, por não ficar estressado com as minhas oscilações de humor por culpa da TPM, estava me dizendo alto tão contraditório, tão ambíguo, tão não-Shino.

E eu só pude rebater como estava acostumada a fazer com a acidez divertida de Gaara:

- Tudo bem, eu tiro – ele virou o rosto, com certeza estava corado de novo, porque quando eu dei um passo à frente com a mão na barra da blusa ele se afastou um passo, sem me mostrar o rosto – Estou sem sutiã – cantarolei, mas só consegui espantá-lo até o banheiro. Quando ele colocou a mão na maçaneta eu parei com a brincadeira – Obrigada.

Ele parou o que estava fazendo e se virou.

- Pela compreensão... – eu recomecei e sorri – E pelos chocolates.

- De nada.


Faz tanto tempo que eu não venho a um mercado que tinha até me esquecido como eles são claros e frescos e tão bem iluminados. E têm tantas e tantas e tantas prateleiras com coisas deliciosas que eu até poderia me perder, se não fosse Shino me chamando cada vez que eu ficava entretida demais olhando as coisas para seguir reto pelo corredor quando era hora de virar. E ele seguia com o carrinho à frente, pegando coisas e mais coisas e colocando dentro. Eu espero que ele saiba que será ele quem vai pagar todas as coisas que ele está colocando lá, porque são muitas. E eu posso sobreviver muito bem apenas com chocolate, xampus, papel higiênico e mais absorventes e podia muito bem pedir isso sozinha pelo serviço de entregas do mercado, obrigada. Mas ele insistiu para que eu viesse para ajudá-lo a saber o que estava faltando em casa, como se eu realmente ficasse checando. Só ele mexe na cozinha, só ele sabe o que comprar pra lá, o que eu estou fazendo aqui?

Ele parou na peixaria e pegou salmão, uns outros tipos de peixe que eu não prestei atenção até ele esticar as mãos para alguns exemplares de lulas gosmentas ali ao lado.

Aiquenojo!

E sabe o que foi pior? Vê-lo falando para o peixeiro embrulhar e colocando no nosso carrinho, com as nossas comprar pra casa. Ao lado do meu xampu para cabelos claros e do aipo.

- Eu não acredito que é esse o tipo de coisa que você tá cozinhando pra eu comer! – exclamei, exasperada, quando ele voltou a movimentar o carrinho pra frente.

- É culinária típica.

- Tipicamente nojenta.

- Você nunca comeu lula?

- Já, mas ela estava muito bem seca e eu nunca vi minha mãe comprando-a.

- Hum – ele continuou inabalável, como se eu fosse uma mera, bem, planta ali ao lado. Eu não posso dizer que é como se eu fosse uma abelha ali ao lado de que ele estivesse com vontade de matar, porque Shino nunca faria isso, ele provavelmente conversaria com a tal abelha, mas com uma planta ele não teria clemência.

- Como assim "hum"? – eu perguntei, de novo brava – Isso nem é uma resposta.

- Exatamente.

- Shino!

- Finja que você não sabe o que é isso.

- Ah, claro, como se eu pudesse esquecer.

- Então vou cozinhar de um jeito que você não saiba o que é.

- Quê?! – perguntei totalmente possessa, mas aí eu percebi a lógica da coisa. Se eu não soubesse que aquilo era lula, a lula nojenta e mole e pegajosa que eu acabei de ver Shino comprando, eu não poderia reclamar. Cruzei os braços e passei a frente – Melhor assim.

Depois de todas as compras feitas – com Shino segurando quatro sacolas e eu duas – voltamos pra casa a pé. Claro que primeiro pegamos o metrô, mas a segunda parte do percurso foi feita a pé. E foi bom, porque não estava uma noite ruim. Como nesses dias o calor estava muito forte a noite estava amena, um bom sinal. E cheia de estrelas, não que pudéssemos ver, porque estamos bem no meio de Tóquio, mas elas devem estar lá em cima, em algum lugar depois das luzes.

- Quem é o ruivo? – a voz de Shino me assustou vinda de trás, no meio da escuridão, porque eu tinha simplesmente me esquecido que ele estava ali. Eu tinha me esquecido que ele sequer existia, que coisa horrível!

- Que ruivo? – perguntei sem pensar direito no significado das palavras que ele tinha usado para me perguntar.

- Das fotos.

- Fotos? – e só então eu me lembrei que eu moro em algum lugar e que esse lugar é uma floricultura e que nessa floricultura tem um lugar que é onde eu realmente moro e que lá tem fotos de um ruivo que morava comigo. Agora sim eu realmente voltei a Terra. Sorri para ele lembrando tudo e, especialmente, do meu ruivo – É o Gaara.

Olhei para Shino por cima do ombro, mas ele tinha uma sobrancelha levantada em desentendimento. E eu, ainda sorrindo, mais largamente até, expliquei:

- Ele era meu noivo – eu não me permitia ficar triste, Gaara não gostaria de pessoas tristes por causa dele. Nem a mim, nem Temari ou Kankurou e nem ninguém. Ele detestava fazer as pessoas se sentirem mal, apesar de pouco demonstrar qualquer coisa além de uma imutável indiferença. Conforme eu o conheci aprendi que ele não precisava expressar nada para que eu soubesse o que ele pensava e sentia – Mas ele morreu há dois anos.

Eu acho que desconcertei Shino, mas não parei para analisar. Estávamos chegando em casa, eu estava com vontade de deitar no sofá, ligar a televisão em qualquer coisa e comer chocolate. E, especialmente, estava cansada de carregar compras.

- Desculpe.

- Você não tem porque se desculpar. Falar sobre Gaara não me deixa triste, só me trás saudade.

Olhei de novo para cima, para as estrelas que eu não podia ver e me lembrei que daqui a algum tempo, uma semana depois do casamento da Hinata – pra quem eu ainda não comprei nenhum presente, merda! – tem o Festival da Estrela, um dos malditos treze dias em que eu tenho que ir pra casa e encarar o batalhão de amigas fofoqueiras e seus filhos ridículos de 17 anos que a minha mãe insiste em tentar empurrar pra mim. Estremeci com esse pensamento, quando Gaara estava comigo eles não se atreviam nem a olhar. Mas é porque Gaara metia medo. O que eu vou fazer?

Eu já sei o que vou fazer! Mais óbvio só se eu tropeçasse nele.

- Shino, você quer ir a um festival comigo?

- Festival?

- É, daqui a duas semanas, o Festival da Estrela.


Olá!

Espero que tenham gostado desse capítulo, porque eu gostei muito, apesar da demora. Como sempre a Ino é uma surtada aqui nessa fic e o Shino se mostrou bem surpreendente, não é? Uma pequena lembrança com o Gaara, eu não tinha como deixá-lo totalmente fora da vida da Ino, certo? Me digam o que acharam, por favor.

AGRADECIMENTOS:

J P Sarutobi, Nostra-chan, Lucy, JunchurikiGIRL, Lust Lotu's, Marcy Black, Camila, Darknee-chan, Danii, Tia-Lulu, Juliana Sofia di Luna, Hanari, Aqua-kun, Nati s2, graci-chan, Toph-baka e Erika Simoes.

OBRIGADA POR LEREM!

Beijos, Tilim!