AROMAS E ZUMBIDOS
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Capítulo 13 – Epifanias
Losing You – Dream Evil
In the dead of the night
As the candles die out
I'm watching her going to sleep
She has to be strong
She's left all along
I have to go out in the fields
Eu caí como minhas lágrimas. Cada uma delas que atingia o chão da estufa era um pedaço do meu sentimento, mas por mais que o sentimento vazasse de mim, ele não parecia acabar. Através do vidro eu vi o outono seco, com suas folhas secas e pessoas secas, vir me tornar mais uma pessoa seca. Eu me sentei ali, me encostei ao chão sentindo-o frio e chorei e solucei e deixei a dor preencher tudo, como se eu não pudesse mais voltar do abismo em que caíra. Eu sei que posso, porém. Eu já caí num abismo parecido uma vez e voltei, era só uma questão de tempo e paciência, mas antes de vir esse tempo e essa paciência, ainda vai doer muito.
As mulheres dos inúmeros filmem a que assisti e nos inúmeros romances que li, as mulheres que perdiam os homens que amavam e sofriam diante das câmeras e através da tinta das páginas não sabiam de nada e eu prometi nunca mais me comover com aquelas besteiras. Não me importei de ficar lá chorando quando a noite veio e agradeci pelos insetos ainda estarem por ali, zumbindo de vez em quando. Era a reminiscência de Shino e eram reconfortantes, apesar do meu medo mortal de todos eles. Eu me vi procurando por eles, querendo que eles pousassem em mim como pousavam nas flores ao meu redor, em todas as flores que eu sempre cuidei com todo o carinho e todos os insetos que sempre foram o orgulho de Shino. Nenhum deles veio pousar em mim. Talvez em outro momento eu tivesse agradecido por isso, mas deitada em meio a minha tristeza o único pensamento que me assaltou é que insetos não pousam em flores murchas.
Não queria pensar em mais nada, mas quando você não quer pensar em nada, é aí que os pensamentos realmente te assaltam. Eles chegam sem permissão e, um depois do outro, tomam um rumo que você já não pode controlar, como um pesadelo. Fechei os olhos para afastá-los e para conter as lágrimas, não consegui fazer nenhum dos dois. Ainda deitada no chão da estufa, sob o meu canteiro de Rosas Alegres – aquelas maravilhas multicoloridas – eu adormeci chorando e em meus pesadelos, eu via a mesma cena – Shino indo embora – e eu sem fazer nada, olhando para ele.
You're all I ever wanted
There's just pain without you
But some things come between us, my love
- Ino – tem alguém me chamando, tem uma mão em meu ombro, mas eu não quero abrir os olhos e ver a minha realidade amarga e seca, como esse outono – Ino, você vai congelar se continuar aqui fora.
Eu já não me importo e quero dizer isso a quem quer que seja que está me chamando, que está tentando me confortar, mas as palavras não vêm. Está mesmo frio e o frio não é bom, pois me lembra que não há mais ninguém para me dar calor. Eu abro os olhos e as esmeraldas de Sakura estão meio aflitas, piedosas e tristes, apesar do pequeno sorriso que ela tenta me dar.
- Venha comigo, vou te preparar um chá bem quente – ela esfrega meus braços para me aquecer, mas eu não me mexo. Devo estar horrível, mas não me importo.
Se eu simplesmente pular daqui de cima, vai doer tanto quando a dor que estou sentindo agora? Eu já me fiz essa pergunta uma vez, só que não tenho coragem nem forças para pular.
- Ele foi embora... – é tudo o que consigo sussurrar. Só a verdade sai de mim, porque é só essa verdade que eu consigo ver, ouvir e sentir. Pra mim, em minha cabeça, já não existe mais a possibilidade de me enfiar em uma fantasia, me esconder atrás de um devaneio ou simplesmente me drogar com chocolate – Sakura, Shino foi embora...
- Oh, Ino – a voz dela está carregada de pena e seus braços me apertam num abraço de pena. E por mais humilhante que eu acredito que isso seja, não a afasto – Venha, eu vou te levar pra dentro.
Mal consigo andar e minhas pernas tremem quando sustentam meu peso, mas apesar disso eu ando, passo a passo até entrar em casa, porque eu sei que mesmo com todo o peso da dor, ainda há como seguir em frente. Essa foi à lição mais dura que a perda de Gaara me ensinou e com a perda de Shino eu posso confirmar.
Sakura me levou até a cama e me ajudou a tirar o casaco e os sapatos quando me sentei nela. Enfiei-me sob as cobertas quentes sentindo o cheiro de Shino nelas, mas não contei isso a Sakura ou ela me obrigaria a ir ao apartamento dela. Agradeço toda a boa vontade da minha melhor amiga, mas ela não faz idéia à vontade de apenas ficar sozinha que eu tenho agora. Ela sumiu porta a fora e voltou da cozinha com duas canecas fumegantes de chocolate-quente. Senti enjoou só com o cheiro, mas segurei a caneca com as duas mãos. Queimei os dedos e nem senti.
- Há quanto tempo você está sozinha lá em cima, Ino?
Balancei a cabeça. Não faço idéia que horas são nem que dia é hoje.
- Acho que você pegou um resfriado – a mão dela voou para a minha testa para sentir a temperatura, depois me obrigou a abrir a boca para olhar minha garganta com a sua lanterna de médica. Só agora que percebi que Sakura está de jaleco e com a roupa azul do hospital por baixo do casaco – É melhor você não ficar sozinha hoje a noite, vou ligar pra sua mãe.
- Sakura, não... – eu pedi segurando seu pulso antes que alcançasse o telefone, mas ela me ignorou.
- Ino, olhe bem pra você. Não há meios de eu te deixar sozinha assim – ainda tinha pena em seu olhar. Soltei seu pulso, porque acho mesmo que mereço algumas horas com minha mãe me dizendo que não consigo segurar homem algum e que eu já levei foras antes, não tem porque ficar tão deprimida – Sabe que as outras estão ocupadas.
Dei-lhe as costas e ouvi o discar dos números no telefone. Ela saiu do quarto para não me perturbar com a conversa. Em uma hora, no máximo, minha mãe já estará aqui, ela não perde esse tipo de oportunidade.
Na parede branca do quarto eu vi a projeção da vida das minhas amigas. Sakura deveria estar no hospital antes de vir pra cá e provavelmente vai ter que voltar pra lá quando sair daqui. Hinata está ocupada demais sendo uma mulher casada e formando uma família. Temari tem a pequena Akemi e precisa dedicar toda sua atenção a ela. Tenten está na China. Elas têm suas vidas, não são fracassadas, chocólatras, falidas e – novamente – encalhadas como eu.
Não sei quando fechei os olhos, não sei quando as lágrimas deixaram de escorrer deles fechados, adormeci e só me lembro que acordei.
- Inoshi, quer parar de fazer barulho? Você vai acordá-la!
- Desculpe, querida.
Abri os olhos quando ouvi essas vozes e jurei estar em um pesadelo. Um maldito pesadelo persistente onde eu estou com gripe, meus pais estão cuidando de mim e Shino foi embora. Coisas que realmente poderiam acontecer nos meus pesadelos, não é?
A silhueta de minha mãe debruçou-se para dentro do quarto, depois recuou aborrecida:
- Viu o que você fez? Ela acordou.
- Oh, eu sinto muito, desculpe, Ino...
- Saia já daqui. Arranje algo pra fazer na rua, compre o jornal, ágüe as plantas, mas pare de fazer barulho aqui.
Mamãe fechou a porta do meu quarto com uma bandeja enorme de café da manhã – café japonês, já que é o único que mamãe sabe fazer – e eu me sentei na cama. A cortina estava cerrada sem deixar que nenhuma nesga de sol penetrasse, se bem que eu já não sei mais se é dia ou noite.
- Olá, querida, como está se sentindo? – eu não respondi. Julguei que, pela minha cara, era bem óbvio – Trouxe um café da manhã reforçado pra você e os compridos pra gripe que Sakura prescreveu.
Deixei-a colocar a bandeja sobre as minhas pernas esticadas sem dizer uma palavra.
- Coma tudo, porque eu e seu pai estamos aqui pra cuidar de você.
- Não quero comer, mãe – empurrei a bandeja sentindo que qualquer coisa que eu colocar no estômago agora vai simplesmente voltar e não vai ter a aparência agradável com que entrou.
- Você tem que comer, querida – ela sorriu e sentou-se ao meu lado pegando um pouco de arroz e tentando me dar – Como você espera arranjar outro namorado em breve se não comer e ficar linda?
- Mãe – virei o rosto pra ela, mas depois desisti da idéia. Como ela podia dizer uma coisa daquelas naquele momento? – Eu... Não quero comer e não quero ficar linda, só quero ficar sozinha.
Eu fui firme e imaginei que com isso talvez mamãe simplesmente fosse embora pra casa, com papai. Imaginei que, como qualquer outra mãe, ela entenderia o que estava acontecendo comigo, o que eu estava passando e simplesmente acataria meu pedido.
Mas a minha mãe não é como qualquer outra mãe, certo?
- Ino – a sua voz mudou de tonalidade e tal tonalidade me obrigou a encará-la quando ela se levantou e se afastou alguns passos da minha cama – Eu não vou deixá-la fazer isso de novo.
Fiquei encarando-a sem saber o que diabos ela estava falando agora, mas minha mãe começou a chorar no momento que eu pensei que ela estava completamente biruta e que seria um choque para papai, mas teríamos que internar mamãe em algum lugar apropriado.
- O que você fez a si mesma quando Gaara morreu ainda é uma lembrança muito recente na minha memória – ela soluçou. Seu corpo inteiro tremia com o choro e eu me senti desesperada. Nunca antes que vi minha mãe chorar como ela está fazendo agora – E eu jurei que jamais deixaria aquilo acontecer a você novamente. Não foi assim que eu criei você, Yamanaka Ino.
- Mãe...
- Você quer definhar? Quer ficar amargurada e se enrolar nesse seu casulo? Faça isso, mas depois não se arrependa, porque Gaara morreu, mas Shino está a uma distância que você ainda pode percorrer.
Minha mãe saiu chorando e com pressa. Ouvi meu pai fazendo perguntas e ela respondendo bruscamente, depois houve três batidinhas na porta – meu pai se despedindo – e a porta da frente se fechando.
Eu me deitei de novo, mas não dormi.
Foi só quando anoiteceu que eu percebi que, enquanto minha mãe falava, eu também chorei.
Há uma semana que eu não vejo Shino.
No dia de segunda-feira eu saí da cama, como sempre. Tomei um demorado banho e vesti-me pra trabalhar. Tomei café da manhã e fiz todas as coisas normais que eu sempre fiz todos os dias desde que me mudei para aquela floricultura. Não era uma segunda-feira chata depois de um dos malditos treze dias e eu nem estava menstruada, era só uma segunda-feira – o dia que a maioria dos seres humanos detesta.
Há uma semana que eu não o sinto, não o cheiro, não o toco, não faço amor com ele. Há uma semana que as únicas coisas que habitam minha mente são seu toque, seu cheiro, o jeito de me levar à loucura. Mas lá no fundinho da minha cabeça estão as palavras de minha mãe e o seu rosto choroso. Quando tudo aconteceu com Gaara eu somente pensei em como eu poderia sobreviver sem ele e esqueci que as pessoas que me amam – apesar de tudo – poderiam se machucar também. Dessa vez eu estou pensando nelas e é esse pensamento que me obrigou a sair da cama na segunda-feira e todos os dias depois daquele.
Eles acabaram vindo aqui, todos eles, como amigos fazem quando descobrem que algo do tipo aconteceu com você. Eles não viriam se não soubessem que o sentimento que eu nutri por Shino era forte, porque eles não vieram com nenhum outro término de namoro meu – daqueles que o cara sempre me levava para o mesmo restaurante perto da minha casa onde o garçom já estava tão acostumado que, ao invés de trazer champanha para comemorar, trazia vinho, que é pra se lamentar. Isso, é claro, quando se é uma ocasião como essa, porque em um almoço em família que aquele seu tio distante fala de abrir um vinho, você não pensa que alguém morreu para ele estar querendo lamentar, não é?
Temari me ameaçou quase como a minha mãe, com Akemi nos braços de Shikamaru logo atrás dela. Pelo jeito ela o fez perder uma partida de xadrez muito importante – porque é isso o que o Shikamaru faz, sabe, ele joga xadrez por aí e ganha dinheiro por isso, mas acho que só acontece porque ele é campeão nacional – somente para vir me ver. Eu estava como estive quando todos os meus amigos vieram me ver: na floricultura, atrás do meu balcão.
- Eu te odeio – ela me disse batendo a mão com força em minha frente.
- O quê? – perguntei tentando aparentar toda a normalidade e alegria que eu normalmente sinto quando estou com Temari.
- Eu-te-odeio – ela disse devagar – Como assim você simplesmente o mandou embora? Eu não acredito!
- Temari, ele foi embora – eu tentei explicar que a culpada não era eu, que quem tinha simplesmente dito que precisava ir era Shino, mas ela não quis me ouvir – Pra Europa, com dizia a revista.
- Nem que ele tivesse ido até o inferno, Ino, você não pode deixar um homem desses só ir embora. Se o Shikamaru não existisse, pode apostar que eu estaria indo atrás desse seu entomólogo.
Cara, choquei! Quero dizer, todo mundo sabe que a Temari é louca pelo Shikamaru, tanto que ela desistiu de um emprego no Louvre por ele. É, O Louvre, aquela com a Mona Lisa e da qual Dan Brown fez um monte de merchandising. Temari é muito boa com arte, apesar de toda a sua – delicadeza? Afabilidade? Cortesia? – fineza.
- Nosso amor é digno de filme, não acha? – comentou Shikamaru tentando tirar a filha de perto de uma samambaia – coincidentemente a mesma samambaia onde me escondi quando conheci Shino – antes que ela arrancasse todas as folhas.
- A questão, Ino, é que você o deixou ir embora fácil demais. Você não deu tempo a ele para se explicar.
- Você conversou com Shino antes dele ir?
- Não.
- Então como pode saber o que aconteceu? – eu sei que Temari é durona e tudo o mais, mas eu nunca a imaginei como uma bruxa. Sabe, não uma verdadeira bruxa, com bola de cristal e tudo. Sei lá, algumas daquelas obras de arte são mesmo antigas, talvez alguma delas tenha uma oração pragmática budista que deu certo.
- Eu te conheço há muito tempo, Yamanaka Ino – os olhos de Temari continuavam tão duros quanto sua posição perante minha atitude – ou falta dela – quando Shino se foi, embora ela tivesse parado de gritar que me odeia – Ele foi embora, você não o impediu, então não tem direito algum de se afogar em qualquer mágoa que você esteja acumulando no seu baldinho interior, me entendeu?
- Você tá quase parecendo a minha mãe, sabia?
- Sei que sua mãe pode ser uma megera casamenteira demoníaca, mas ela ainda é sua mãe e não quer te ver daquele jeito de novo. Ninguém quer, aliás.
- Todos os problemáticos pensaram que você ia "acompanhar" o Gaara da última vez.
"Todos os problemáticos" é o jeito carinhoso com que Shikamaru designa os nossos amigos. Na verdade, eu tenho uma teoria de que ele chama a todo mundo que ele gosta de "problemático". Vejam Akemi, por exemplo. O apelido que esse Nara deu a ela é "mini-problemática".
- Só vou te dar um último aviso – Temari se aproximou de mim por cima do balcão estreitando os olhos de uma forma que me deixou mesmo com medo – Se aparecer qualquer chance de você ficar junto de Shino de novo, agarre com as duas mãos e não solte, senão eu te agarro pelos cabelos e solto no meio de um exame de abelhas africanas.
Daí ela, Shikamaru e Akemi foram embora. Eles me deixaram pensando por longos períodos de tempo, entre uma vista e outra. Enquanto eu atendia um cliente ou recebia a encomenda de um buquê, coroa ou arranjo especial eu me mantinha ocupada, então não tinha que ficar pensando em Shino, mas como a minha floricultura pode se tornar bem calma em certos dias sobrou tempo suficiente para eu pensar. É claro, até a segunda-feira seguinte.
Sabe a sensação de querer ficar sozinho, mas precisar desesperadamente de alguém? Foi à sensação que eu tive, dia após dia sem Shino. Eu sabia que iria passar, pois lição antiga é aquela de que o tempo cura todas as feridas. Nunca gostei de me machucar, porque sempre há a cicatriz. A minha cicatriz, no entanto, chegou um pouco tarde e era feita de papel.
Eu estranhei no dia em que Naruto e Sakura vieram me visitar, porque eles trouxeram Sasuke a tiracolo. Precisei olhar duas vezes antes de perceber que eram mesmo somente os três, sem Hinata escondida atrás do marido ou coisa assim, de tão pequenina que ela é. Estranho, mas resolvi não comentar nada, apenas aceitei que ela é ocupada dando aquelas aulas na faculdade e não podia simplesmente sair no meio do dia. Quanto aos outros: Sasuke tem a própria empresa, Naruto fica bastante tempo na cidade agora que Sakura engravidou e Sakura deve estar em um de seus dias de folga. Eles vieram e se foram, como todos os outros meus amigos. Na segunda-feira seguinte, porém, o sino tilintou para anunciar a entrada de Kiba e Hinata.
- Olá, Ino – cumprimentou Hinata em sua vozinha de sino se aproximando do balcão – Desculpe-nos não ter vindo antes.
- Hei, Ino – sorriu Kiba com os caninos aparecendo. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Kiba continuou assumindo um semblante sério que o deixava sexy de um jeito diferente – Nós demoramos pra vir aqui porque Shino nos pediu pra fazer isso.
- Shino... Quê? – não entendi direito como deveria processar essa informação.
- Ele imaginou que você fosse ficar zangada, ele já conhece bem a sua personalidade – Kiba continuou e eu vi Hinata tirar alguma coisa de um dos bolsos do casaco.
- Aqui – ela colocou sobre o balcão um envelope lacrado com o meu nome escrito como destinatário por uma letra que eu já estava cansada e ver – Shino nos deixou isso para entregar a você.
Peguei a carta avidamente sentindo o meu coração acelerar. Com certeza que Hinata e Kiba ouviram os meus batimentos, porque se a meus ouvidos eles pareciam tambores anunciando uma guerra, para eles deve ter parecido o show do Metallica. Senti o meu sangue correndo rapidamente e muito quente pelas minhas veias e as minhas mãos tremiam quando consegui rasgar o envelope – com alguma ajuda da delicadeza de Hinata, senão eu teria rasgado a carta junto. Segurei-a o mais firmemente que pude em frente a meus olhos.
"Ino,
Por não ter comentado antes o fato de que precisei voltar para a Europa, presumi que a sua reação seria um tanto exagerada, por isso desculpe-me. Acredito que a essa altura já te conheça bem o suficiente para poder prever algumas das suas atitudes, porque você é uma pessoa que confia facilmente e pessoas assim são facilmente interpretadas, apesar de, mesmo assim, você me surpreender a cada instante.
Quando soube que precisava voltar para a Europa o meu primeiro pensamento foi o de trazê-la comigo. A duração dessa última fase da minha pesquisa é de apenas um mês e eu já tinha deixado tudo acertado com seu pai para tomar conta da floricultura durante esse tempo. Como você não me deu tempo de explicar a situação, achei melhor deixar essa carta aos cuidados de Hinata e Kiba para que eles a entregassem a você depois de uma semana, quando presumo que estará mais calma e acessível a explicações.
Por te amar te quero comigo.
Shino.".
Sinceramente, acho que Shino nunca falou tanto comigo e de uma vez só quanto fez com essa carta tão breve. Só sei que, quando terminei de lê-la, queria voar para a Europa, mesmo que o lugar que ele esteja seja a Islândia. Não tem problema, eu sei que posso agüentar um friozinho para ficar junto dele. Francamente, que mulher resiste depois de uma declaração dessas? Bem, se tem alguma mulher que resiste – acredito que especialmente alguma que faça parte de uma instituição feminista –, eu não sou uma delas. Foi uma epifania e eu gostei da sensação. Não sabe como é? Bem, uma epifania é como a sensação prazerosa de terminar aquela prova de matemática – ou química, geografia, arte moderna, sociologia jurídica, anatomia, que seja – super complicada e descobrir que você foi bem, exatamente o contrário do que você pensava que iria acontecer.
Isso é uma epifania. Ou, pelo menos, foi o mais próximo que eu consegui chegar de definir uma.
Amassei a carta quando me virei para encarar Hinata e Kiba. Ambos me sorriam e ela me passou outro envelope do mesmo modo que o primeiro. Este, porém, continha uma passagem de avião para Amsterdã.
- É para o vôo de hoje à noite – disse Hinata aproximando-se da escada – Kiba pode ficar aqui enquanto eu te ajudo a fazer as malas, se quiser.
Obviamente que, depois das atuais circunstâncias, eu recusei, não é?
Hinata me ajudou a fazer as malas, eu provavelmente peguei todas as roupas e documentos necessários para uma viagem internacional, uma viagem intercontinental – nunca viajei para fora do Japão, mas Gaara me fez tirar um passaporte, para qualquer eventualidade. Eu já estou no aeroporto com algumas horas de antecedência olhando fixamente para o painel de vôo e me certificando do horário a cada cinco minutos. Já passei na delicatessen e comprei chocolate, revistas – nenhuma National Geographic – e um livro de auto-ajuda. Esse último não sei bem o porquê, acho que o rosto simpático do autor me cativou, ele tem um jeito de vovô.
Mesmo assim ainda tenho a sensação de que esqueci alguma coisa.
Enquanto vínhamos pra cá Hinata recebeu uma ligação de Sasuke que iria voltar para casa mais cedo já que alguns testes com os novos aviões fabricados pela empresa dele foram cancelados graças a uma nevasca que parecia estar se aproximando. Ela, é claro, teve a bondade de relatar pra mim o motivo da ligação que ela não pode deixar de atender.
Com essa informação eu consegui me lembrar bem o que é que esqueci em casa: minha coragem, ao lado da foto de Gaara.
- Fique calma, Ino – ele me disse pela terceira vez, me tranqüilizando por telefone. Sempre que Gaara viajava, eu não conseguia evitar ficar preocupada. Francamente, quem poderia não ficar preocupada? – Estou no aeroporto do Cairo agora, chego hoje à noite.
- Só vou ficar calma quando você estiver com os dois pés em terra firme, na minha frente, no aeroporto japonês – respondi emburrada.
- Certo.
- Vou te pegar – despedimo-nos e desliguei o telefone.
Quando apertei o botão de desligar foi que percebi que tínhamos esquecido, os dois, de dizer "eu te amo".
Eu não assisti as notícias aquele dia, muito menos as metereológicas, e não sabia de nada quando cheguei ao aeroporto. Perguntei se havia algum vôo atrasado e a moça respondeu não e então perguntei se demoraria muito para o avião vindo do Cairo pousar. Ela novamente me deu uma resposta negativa e me aproximei das enormes janelas para esperar e observar os aviões pousando e decolando.
Esperei vinte minutos e ouvi a moça nos interfones do aeroporto avisando o que avião vindo do Cairo se preparava para pousar. Fixei ainda mais meus olhos na pista e vi um avião descendo, deslizando pela pista. Os cantos dela estavam cobertos de branco pela neve que caíra não fazia muito tempo. O grande avião comercial tocou com as rodas na pista e eu respirei aliviada, mas não o vi parando. Fixei meus olhos no avião enquanto ele deslizava pela pista e não parava e um alerta vermelho começou a apitar na minha cabeça enquanto o meu coração se tornava uma amêndoa e não era o suficiente para bombear sangue para o meu corpo. Encostei a mão no vidro no momento que a traseira do avião levantou do chão e ele explodiu numa imensa bola de fogo.
Minhas pernas não me sustentaram mais e eu caí com a mão ainda parada sobre as enormes vidraças do aeroporto enquanto o mundo se movia ao meu redor. Minha outra mão tentou cobrir minha boca aberta por onde passava um grito mudo e dos meus olhos saíram lágrimas que escorreram tanto que eu parei de sentir em certo momento.
- Última chamada para o vôo 209 com destino a Amsterdã, Holanda, com escala em Moscou, Rússia – a voz da moça no interfone, tão parecida com a voz da moça daquele dia, me acordou dessa lembrança. Sequei a lágrima que eu senti em meu rosto e peguei minhas malas – Senhores passageiros, favor se dirigirem ao portão de embarque quatro.
Muito bem, Ino. Você ainda se lembra como se anda, não é? Um passo de cada vez, um pé na frente do outro e tudo ficará bem. Minhas mãos tremiam quando eu entreguei minha passagem para a moça simpática, mas com um olhar cansado, parada próxima ao portão de embarque.
- Não se preocupe, senhorita... – ela leu meu nome na passagem – Yamanaka, é um vôo perfeitamente seguro.
Perguntei-me se a assessora de embarque também disse isso a Gaara antes dele entrar naquele avião no Cairo.
Realmente precisei parar no corredor de embarque e me agachei recostada a parede tentando respirar fundo e ficar calma. Tudo isso era por Shino e, mesmo com o acidente de Gaara, aviões ainda são o meio mais seguro de se viajar, não é? Quero dizer, pelo menos é o que dizem as pesquisas daqueles caras que, sem mais nada legal para fazer, já tendo zerado todos os jogos de vídeos-game e RPG disponíveis, vão querer saber qual o meio de transporte mais seguro de se viajar.
Levantei e meus olhos se encontraram com os olhos pequenos e castanhos de um senhor que parecia ser muito requintado com um colete inglês de onde pendia uma corrente de relógio de ouro e cabelos brancos. Mais do que o autor do livro de auto-ajuda que comprei esse senhor, sim, parecia com um autêntico avô.
- Você não se sente bem, minha jovem?
- Não, sim, não... Quero dizer...
- Evidentemente você parece não se sentir bem com aviões.
- Não, aviões me deixam... Muito nervosa – o que é que eu estava pensando quando vi aquela maldita passagem de avião? Tudo bem que eu não contei a Shino sobre como Gaara morreu, mas não teria sido muito mais divertido se eu tivesse ido até o norte do Japão e depois até a Rússia para viajar com aquele trem que atravessa o país? Daí era só um pulinho até a Holanda, já que todos os países da Europa são minúsculos.
- Qual é sua poltrona, minha cara?
- É a 6B, primeira classe.
- Excelente, logo ao lado da minha – ele segurou minha mão e como a única coisa de tinha na mão era uma maleta fina, pegou meu nécessaire e carregou-o para dentro.
Eu ainda tremia quando passei pela porta do avião, quando fui guiada para minha poltrona na primeira classe – Shino é rico, eu tive que me lembrar quando a moça no check-in disse onde eu iria ficar no avião – e quando me sentei. O senhor colocou nossas coisas nos porta bagagens em cima e eu me agarrei aos braços da poltrona depois de prender o cinto tão forte que acho que estanquei minha circulação. No começo daquilo tudo, quando a emoção da carta e da minha impetuosidade de querer fazer essa loucura de amor era ainda o sentimento que predominava sobre o meu medo, eu pensei em me sentar ao lado de um cara estonteantemente bonito – e nisso a imagem de uma mistura de Brad Pitt, Orlando Bloom e Johnny Depp me veio à mente –, segurar uma daquelas taças triangulares de Martini e dizer a ele que eu não estava disponível, dizer a ele que eu estava, na verdade, indo ver o homem mais romântico e maravilhoso do mundo, coisa que ele nunca nem poderia chegar aos pés, mas ainda bem que foi esse senhor sofisticado quem sentou ao meu lado, porque ele me deu o conselho mais sábio que alguém poderia me dar:
- Assim que o carrinho passar, cara, tome um dose dupla de whisky e essa tremedeira irá parar em um instante.
Mas antes do carrinho passar ainda tínhamos que decolar e quando o avião começou a taxiar na pista eu me agarrei tão firmemente a essa poltrona que, se não a perfuraram, então tenho certeza que nunca descolarão daqui.
"É tudo por Shino", repeti como um mantra em minha cabeça.
- Cara, diga-me de novo, você está enfrentando esse seu medo por um homem? – daí eu descobri que o senhor simpático e sofisticado era gay. Concordei com a cabeça fazendo o mínimo de movimentos que conseguia – Só espero que ele realmente valha à pena, pois essa sua fobia é digna de terapia.
- Vale – foi o único momento da viagem que eu disse algo com a firmeza necessária para ser enfática – Ele realmente vale à pena.
Olá, primeira atualização de Natal, gente!
Eu não sei o que dizer quanto a esse capítulo, eu não gosto muito do drama, prefiro a Ino mais engraçada, mas gostei do fim. Infelizmente essa fic tá acabando, foi a coisa mais gostosa de escrever, mas tudo que é bom uma hora acaba, não é? Acho que haverá apenas mais um capítulo e o epílogo. Desculpem qualquer erro, no momento acabou a força e escrever só com a luz do notebook é uma dureza. E eu tô com raiva, porque a luz acabou justo no meio de Dirty Dancing.
AGRADECIMENTOS:
Elys, Hana-Lis, Guida-Hyuuga, Luciana Fernandes, Pink Ringo, Camila, Hyuuga Ana-chan, Taliane, Lust Lotu's, Princess, V. Lovett, Estrela Malfoy, Nha T., FranHyuuga, Nara F.C., Sakdi Drevonuoir, Luanaa e Toph-baka.
OBRIGADA POR LEREM!
FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO NOVO!
Beijos, Tilim! :)
