AROMAS E ZUMBIDOS
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Presente para Pink Ringo
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Capítulo 14 – Boa, hein, Yamanaka Ino?
A pior parte do vôo é, definitivamente – e comprovadamente, pode perguntar para qualquer viajante aéreo que você encontrar, desde o piloto, as aeromoças e os passageiros – é o pouso. Quem em sã consciência quer que o avião, um monstro de aço já suficientemente pesado sem ter que carregar nada, com mais algumas toneladas de passageiros e bagagens, simplesmente comece a inclinar para frente e perder altitude? E quando o meu avião começou a fazer isso, eu quis gritar que não, que estava tudo bem e que não precisávamos pousar. Nunca.
Quero dizer, entrar aqui foi uma luta, superar o pânico pré-decolagem, durante decolagem e pós-decolagem também não foi uma das tarefas mais agradáveis, mas o vôo seguiu sem nenhuma turbulência, começou a passar um filme bacana que eu perdi da última vez que passou na TV porque eu e Shino estávamos ocupados com outras coisas e as aeromoças foram super simpáticas ao oferecerem toalhas aquecidas – que eu não faço idéia pra que são, mas eu peguei uma porque parecia ser algo chique a fazer – e várias outras coisas durante todo o vôo. Elas vinham somente para saber se eu estava confortável, não é gentil da parte delas? Excluindo a parte de que eu estou na primeira classe e elas nunca fariam isso se eu estivesse na classe econômica e que elas são pagas pra isso. Depois de tudo isso eu simplesmente esqueci onde estávamos.
E o senhor sofisticado que me ajudou no começo foi atencioso a viagem inteira. Ele me deixou segurar a mão dele durante o pouso e não agiu como Neji quando nós fomos a um parque de diversões uma vez em que eu pedi para segurar a mão dele na montanha-russa e ele me perguntou por que eu queria fazer aquilo. Nem preciso comentar que a minha vontade foi a de jogar ele pra fora do carrinho quando estivéssemos na descida, não é?
Daí nós pousamos. As rodas derraparam no asfalto da pista porque também é outono na Holanda, mas então o avião parou e eu comecei a imaginar a sensação do que eu teria feito se ele não tivesse parado, se ele tivesse continuado e explodido. Tentei imaginar, pela primeira vez desde o acidente, o que Gaara poderia ter pensado naquele momento, tão acostumado a voar como ele era, mas eu simplesmente não consegui. Quem conseguiria imaginar os últimos pensamentos de alguém que não sabia que aqueles seriam seus últimos pensamentos?
- Minha cara, você está bem? – o sotaque do meu amigo sofisticado me acordou do devaneio e eu sequei a lágrima que caiu. Sorri pra ele e percebi que eu já não estava mais no avião e agradeci encarecidamente a ele por ter me tirado de lá sem que eu tivesse percebido, porque eu não conseguiria fazê-lo sozinha – Você precisa de alguma coisa? Vomitar, talvez?
- Não, eu... - parei e me analisei – Eu estou bem.
Não que eu tivesse imaginado que ia entrar no avião e sair sem um braço, mas eu estava realmente bem, em especial porque agora eu estou em solo holandês, no mesmo solo que Shino. Aposto que se eu colar meu ouvido ao chão poderia senti-lo. Não que eu vá fazer isso, não é? Não no aeroporto, pelo menos.
- Ino, minha cara, você tem algum vestido bonito entre suas coisas? – quando percebi meu amigo já estava me guiando pelo aeroporto em direção as malas girando nas esteiras prontas para serem resgatadas por seus donos.
- Tenho. Na verdade, eu tenho peças para todas as ocasiões – respondi.
E a Hinata disse que eu estava exagerando quando entrei no meu quarto com as minhas três malas. Nós nunca sabemos o que pode acontecer quando viajamos, que lugares podemos visitar, em que tipo de ocasiões poderemos nos encontrar. Por exemplo, eu trouxe um biquíni para o meio do outono holandês, e daí? Shino é rico, e se ele tem uma mansão com piscina aquecida?
- Então vista-o, querida – eu ainda não disse o nome do meu amigo, não é? É Klaus. Não me perguntem, eu também acho que ingleses escolhem nomes muito estranhos – Assim você começará impressionando o seu homem pelo exterior.
- Tudo bem – respondi quando pegamos minhas três malas e a mala de couro Louis Vuitton do Klaus e seguimos para o banheiro.
- Cara, eu acabo de me lembrar – ele disse antes que eu entrasse no banheiro – Tenho um colar maravilhoso guardado na casa de um amigo meu. Era da minha falecida esposa – arqueei uma sobrancelha quando ele disse isso e acho que Klaus percebeu que eu me lembrei que ele disse que era gay, porque completou – Minha família era conservadora, eu me casei com uma mulher – e nisso ele fez uma careta digna de pena desgostando a população feminina – para manter as aparências, mas isso não importa agora. É um colar que ficará esplêndido em você. Gostaria de usá-lo?
Analisei Klaus e sua total sofisticação inglesa. As abotoaduras de ouro, o relógio pendendo do bolso, o seu jeito de beber o whisky que a aeromoça ofereceu. Deve ser um colar muito caro e o meu sexto sentido gritava para eu recusar, porque do jeito que eu sou é capaz de eu conseguir prender o colar na maçaneta de uma porta e estourá-lo. Só que os meus olhos brilharam e a minha língua disparou antes que eu pudesse pensar nisso tudo:
- Sim, claro. Klaus, muito obrigada.
- Ótimo, cara, então vá se vestir e seguimos pegar seu colar. Vou tentar encontrar o meu chofer enquanto isso, sim?
Assenti pra ele e o vi seguir para frente do aeroporto onde ficam parados aqueles armários chamados de seguranças e os choferes segurando plaquinhas com os nomes de seus passageiros. Eu nunca tinha visto um desses, apenas em filmes e fiquei de olho para ver em qual deles Klaus pararia. Ele acabou parando ao lado de um negro alto vestindo terno com cara de Ne-Yo que me fez respirar fundo. De certo modo eu torci para que o único serviço que aquele homem pudesse fazer a Klaus era mesmo o de chofer – e segurança, eventualmente -, porque seria um baita de um desperdício se ele oferecesse a Klaus os serviços que meu amigo sofisticado e gay gostaria de obter.
Entrei no banheiro para colocar o vestido prateado que eu comprei não faz muito tempo em uma liquidação que eu encontrei por milagre andando casualmente no centro de Tóquio um dia desses. Shino fora até a universidade e nós deveríamos nos encontrar num restaurante por ali. Foi uma pena ele não ter ficado surpreso quando eu entrei no restaurante segurando uma sacola de compra. Coloquei a sandália azul que ele me deu para o casamento de Hinata – eu amo essa sandália, apesar de as tirinhas fincarem em minha carne depois de algumas horas usando-a. Soltei os cabelos e me arrumei o melhor que eu podia sem dispor de um pouco mais de tempo ou de itens profissionais no banheiro do aeroporto holandês.
- Aí está você, cara – Klaus me chamou e se aproximou com o negro chofer logo atrás dele – Deixe Andrew levar suas malas, por favor.
- Claro – respondi e entreguei-as a Andrew que fez um aceno com a cabeça e carregou-as para a entrada do aeroporto.
- Você está absolutamente deslumbrante, aquele colar ficará perfeito em você.
Fomos em direção a entrada e Klaus me ajudou a colocar meu sobretudo felpudo. Saímos para o frio do outono de Amsterdã que não é nada diferente do frio do outono de Tóquio. Quero dizer, quando é frio em um lugar que neva é o mesmo frio em absolutamente todos os lugares em que neva. Você acaba se acostumando depois de uma vida inteira, nada de mais. Encarei o céu escurecendo – fuso horário às vezes pode ser algo bom – e sorri para Klaus que me guiou para uma limusine branca onde Andrew estava postado do lado, solicito com a porta aberta.
Preciso dizer que me sinto no céu?
Só falta Shino pra isso deixar de ser o céu e se tornar o paraíso.
Uma mansão européia no meio de Amsterdã. Há um tapete vermelho na entrada, luzes e flashes de fotógrafos por todos os lados. Há uma curta fila de carros caros e limusines e deles saem homens e mulheres vestidos em ternos e smokings e vestidos caros e compridos e jóias reluzem com as luzes do lugar e com os flashes e com o seu próprio brilho de "Veja só, se você vender seus rins no mercado negro, quem sabe pode ter um igual a mim", só que mulher que o usa provavelmente não precisou vender nada em mercado algum.
A limusine se aproximava da entrada da mansão, direto em suas escadas cobertas pelo tapete vermelho e eu quase podia vislumbrar o salão enfeitado de dourado antigo e móveis sofisticados, madeira antiga, cara e macia. Parecia que eu não estava indo casualmente a casa do amigo de Klaus para buscar o colar da falecida esposa de aparências dele, parecia que eu estava indo direto para a prémiere do filme de época mais famoso da história. Aposto que Ingrid Bergman se sentiu assim quando passou pelo tapete vermelho para a prémiere de "Casablanca". Só que eu também acredito que quando ela olhou para si mesma dentro do carro, ela não se sentiu mal por estar usando um vestido prateado de liquidação, uma sandália azul – por mais linda que eu ache essa sandália – e com uma maquiagem feita no aeroporto. Aposto que eu estou sentindo uma sensação sentida universalmente por todas as mulheres alguma vez na vida: a sensação de estar com a roupa errada.
- Você não me falou sobre festa, Klaus – eu disse com os olhos arregalados em direção a porta, as mãos apertando uma à outra no colo e com a voz estrangulada. Daqui a pouco a minha garganta e boca ficarão secas, daí quando alguém falar comigo eu vou responder com um grasnado como se eu fosse alguma espécie de galinha!
- Estou tão surpreso quanto você, cara – e ele parecia mesmo – Mas eu deveria ter presumido isso, Günter é louco por festas.
A limusine parou em frente à escadaria, em frente aos enormes portas da mansão, em frente e um milhão de fotógrafos. E eu me senti cegar. Klaus esperou Andrew vir abrir a porta para nós e ele me deu um sorriso antes de pular para fora do carro e arrumar o terno brevemente. Prendi a respiração e vi a mão dele se estender para mim.
Sabe aquelas cenas lindas na entrega do Oscar quando as atrizes saem dos carros e suas pernas ficam a mostra pela porta aberta? Elas são sempre morenas, depiladas, brilhantes e hidratadas. Eu pensei que isso aconteceria comigo, menos a parte de minhas pernas serem morenas, porque eu estou há alguns meses sem tomar sol algum, então elas estão brancas como os perfeitamente retos e nivelados dentes do Andrew. Só que isso não aconteceu, porque quando eu coloquei minhas pernas para fora um dos meus saltos enroscou no vestido e eu tive que usar as duas mãos para conseguir tirá-lo de lá. Nem preciso dizer que quando eu finalmente me ergui e ajeitei os cabelos com um sorriso de desculpas para Klaus até o meu pâncreas eu conseguia sentir quente de vergonha.
Daí ei fiquei cega de novo, mas dessa vez não era a preocupação de alguma coisa sair errado ou a sensação horrível de que a minha roupa não é apropriada para a ocasião, mas os milhares de fotógrafos ali que ficavam especulando quem eu era em um tom nada discreto. Não que eu entenda holandês – ou qual seja a língua que eles falam aqui na Holanda –, mas eles ficavam apontando e se cutucando. Gestos são meio que universais para entender. Tive vontade de responder: "Sou Yamanaka Ino", mas Klaus me puxou escadaria acima, outra limusine estacionara na entrada e nossos quinze minutos – segundos, na verdade – de fama acabaram.
- Eu não pretendo me demorar por aqui, minha cara, mas eu preciso cumprimentar os conhecidos, se eu vir algum, então venha comigo e vamos logo deixá-la ainda mais maravilhosa – cara, porque os gays têm que ser os caras mais gentis e com as coisas certas para dizer? Quero um amigo gay. Infelizmente Sai e Itachi não contam, porque aqueles dois são loucos impudicos que não se importam de contar os detalhes sórdidos de seu sexo selvagem e sado-masoquista. O problema é que eles não entendem é que as outras se importam de ter que ouvi-los.
Ele me guiou entre as pessoas sempre sendo o homem mais simpático que poderia. Parecia até mesmo o anfitrião com todos aqueles sorrisos e cumprimentos de longe. E, por estar com ele, as pessoas me sorriam também. Claro que eram apenas sorrisos por eu ser a garota com o cara que elas conheciam, mas eu não me importava e sorria de volta, até que entramos por um corredor menos iluminado onde havia menos pessoas. Banheiros, eu imaginei. Klaus continuou andando até a única luz ser a que vinha do salão e abriu uma grande porta de madeira, tão grande quanto à porta de entrada, e nós nos colocamos para dentro. Eu não enxergava nada, mas Klaus não parecia ter problemas com a sala, pois logo ele acendeu um abajur em cima de uma grande escrivaninha de mogno.
- Muito bem, onde era o interruptor? – ele perguntou-se. Correu para uma prateleira cheia de livros e estatuetas que deveriam ter sido esculpidas por artistas brilhantes, mas que para mim só parecia barro retorcido e endurecido. Só que eu não comentei nada, questão de educação. As luzes se acenderam revelando um daqueles escritórios europeus dignos de filme de assassinato, no nosso caso só faltava o corpo e o tapete caro manchado de sangue – Em meio a todas aquelas pessoas foi impossível encontrar Günter. Você o viu, querida?
Presumindo que ele acredite que eu saiba quem, diabos, esse Günter é, acenei que não com a cabeça. Klaus suspirou e aproximou-se de uma tapeçaria chinesa magnífica – curioso como os europeus adoram artigos orientais – e levantou-a sem esforço para me mostrar a porta de ferro de um cofre. Isso está cada vez mais parecido com um filme de assassinato. Acho que eu tenho que parar de ler os livros de Arthur Doyle e Agatha Christie. Ele girou a combinação demoradamente, com cuidado e apertou a maçaneta com medo. Arqueei a sobrancelha quando ele me sorriu, aliviado.
- Günter tem mania de mudar a combinação todo mês, seria tremendamente constrangedor ter que sair daqui escoltado pela polícia por causa de um mal entendido.
Klaus tirou do cofre uma caixinha retangular de veludo negro. Colocou-a com cuidado sobre a escrivaninha e eu me adiantei querendo ver quão magnífico realmente era o antigo colar que ele dissera e que ele tão bondosamente me emprestaria. Alguma coisa ainda me dizia para recusá-lo, mas como eu poderia? Ao mesmo tempo em que a periculosidade de acontecer alguma coisa com aquela jóia me fazia recuar um passo, a cobiça de poder vesti-lo, mesmo que por apenas alguns momentos, me fascinava e impulsionava dois passos para frente. Klaus colocou luvas de tecido branco e abriu a caixa para me mostrar o que havia lá dentro.
Tudo mundo conhece a sensação de querer alguma coisa e não poder tê-la. Toda mulher conhece a sensação de olhar um sapato em outra pessoa ou numa foto de revista ou com uma etiqueta se preço ridiculamente cara e ficar pensando que, mesmo assim, ela poderia dar qualquer coisa por ele. E nada se compara a sensação de ver aquele sapato – ou bolsa, vestido, anel, livro, guitarra, iate, pônei – e realmente poder tê-lo, mesmo que por um tempo curto. Foi essa sensação maravilhosa que eu senti quando Klaus colocou o colar de prata com o pingente de safira em forma de estrela no meu pescoço. Naquele momento a impressão de que aquela roupa era errada para aquela ocasião se dissipou e minha sandália passou a ser a escolha exata para usar com esse colar. Com esse colar eu poderia sair na rua completamente nua, apenas usando ele, e ninguém ia reparar.
- Klaus... – balbuciei, mas ele se adiantou para mim e emendou:
- Não diga que não pode usá-lo, minha cara, eu não permitirei!
Eu tentei, ele insistiu. O que mais eu poderia fazer senão usá-lo?
Saímos da sala depois de Klaus apagar as luzes e ele me guiou de volta para o salão. Eu estava me sentindo à primeira flor da roseira na primavera e Klaus parecia tão orgulhoso quanto eu. Aposto que, mesmo sendo gay, ele deve ter sido muito carinhoso com a esposa.
- Senhor Cunningham? – Klaus parou e eu me virei junto com ele para ver uma mulher bem vestida e bem maquiada vindo em nossa direção. Ela me encarou simpática com seus pequenos olhos verdes – Klaus Cunningham, quase não o reconheci – ela segurava uma taça de champanha entre seus longos dedos morenos e as unhas estavam pintadas com um esmalte claro e recatado – Não sabia que já voltara a Europa.
- Acabei de chegar, Mercedes – ah, eu sabia que essa pele morena não podia ser de bronzeamento artificial, é perfeita demais – Prometo ir visitá-la amanhã, para o chá.
- Perfeito! – ela pareceu suficientemente satisfeita com esse auto-convite e contornou-nos com o intuito de ir embora, mas parou ao lado de Klaus para sussurrar-lhe alguma coisa que eu não deveria ouvir, mas que ouvi do mesmo jeito. Era uma intenção dissimulada de indiscrição – Eu aprovo sua acompanhante desta vez, muito melhor que aquela mulher vulgar do baile em Roma.
Klaus sorriu e Mercedes partiu. Ele recolocou a mão em minhas costas e continuou me guiando para a saída. Eu fiquei um pouco chocada, será que ela não sabe que ele é gay?
- Ahn... Klaus, ela...
- Ela sabe que eu sou homossexual, é claro, mas eu levo acompanhantes aos meus bailes com freqüência. Não é de bom tom chocar a alta sociedade, minha cara.
Concordei com a cabeça. É uma explicação completamente plausível, não é?
Chegamos à imensa porta de entrada e parecia que havia ainda mais fotógrafos do que no início e também muitas luzes. Luzes azuis e vermelhas que piscavam alternadamente e um barulho ensurdecedor de gritos misturados a palavras que eu não entendi e passos pesados batendo contra os degraus aveludados, subindo pelo tapete vermelho. E sirenes. Muitas sirenes.
Olhei para Klaus assustada querendo lhe perguntar o motivo de haver tantos carros de polícia por ali e tentando olhar por cima do meu ombro ao mesmo tempo para saber se tinha acontecido alguma coisa lá dentro e que deveríamos sair do caminho dos policiais, mas as pessoas no salão encaravam o lado de fora, a boa música instrumental tinha cessado. Entre nós e a parte de dentro do salão não havia nada, então eu me senti realmente confusa. Daí eu vi o sorriso nos lábios de Klaus. Um daqueles sorrisos de desespero quando você lança para a pessoa que te pegou fazendo uma coisa errada, desde roubar um chiclete da vendinha da esquina até trair seu namorado com o cara gato da academia. O sorriso que você lançará se for pego em qualquer uma dessas ocasiões seria o mesmo e Klaus sorria desse jeito.
- Você é muito bonita, minha cara, e não consegui resistir em usá-la – em meio ao barulho eu consegui ouvir as palavras de Klaus – Mas me arrependo disso, Ino. É realmente constrangedor ter que sair de um lugar destes escoltada pela polícia por causa de um mal entendido.
Mãos grandes e rudes de policiais holandeses seguraram meus braços e eu fui sem resistir, porque as palavras de Klaus ainda não faziam sentido pra mim. Olhei para ele enquanto era arrastada escada abaixo, quase sendo carregada, mas não por resistência, é que minhas pernas tinham ficado muito parecidas com gelatinas para que eu pudesse fazer muita coisa com elas. Klaus, o senhor sofisticado e com jeito de vovô, com sotaque inglês e gay, estava sendo levado também e ele havia me enganado de algum jeito, já que eu estava sendo presa sem saber o motivo em um país estrangeiro sem saber falar qualquer língua que não fosse japonês – nunca me interessei muito pelos cursos extras da escola – e o pior de tudo: sem Shino.
Eu estou presa. Na Holanda. Estou presa em uma prisão de verdade, com grades e algemas de verdade e não pareço uma moribunda como nos filmes. Quero dizer, o simples fato de eu ter sido arrastada até uma viatura, ter sido algemada e os meus direitos terem sido recitados em uma língua que eu não entendo em absoluto não quer dizer que o meu vestido rasgou, meu salto quebrou, meu cabelo ficou parecendo palha e minha maquiagem se desfez – o que é um pouco difícil, já que eu uso maquiagem a prova d'água.
Se eu estou bem? Obviamente que não. Eu estou numa cela de cadeia holandesa! Nem que fosse uma cela de cadeia japonesa eu não ia me sentir bem. Eu nunca fui presa na vida. Já recebi algumas advertências, como na vez em que eu e Gaara estávamos dando uns amassos no vestiário feminino ou quando a atendente da lanchonete conseguiu interceptar eu e Sakura antes que conseguíssemos sair de lá sem pagar porque tínhamos esquecido a carteira. Ambas. Patético, não é?
Só que a situação agora é completamente diferente. Eles tiraram o colar do meu pescoço e ele foi devolvido aquela caixa de veludo. Fizeram isso em frente a um homem que devia ser o tal amigo de Klaus, o que estava dando a festa, o dono da casa. Não vi Klaus enquanto eles fizeram isso e depois só me encaminharam para uma cela. Eu repeti algumas vezes que não sabia falar a língua deles, mas acho que eles também na entendem japonês. Ás vezes nem os japoneses entendem o japonês, como eu queria que policiais holandeses me entendessem em cinco minutos, soubesse que tudo aquilo fora um mal entendido e que eu fora usada – como Klaus mesmo dissera e até agora eu não sei como – e me deixassem ir embora encontrar Shino que já deveria estar atrás de mim? Porque se foi ele quem comprou a passagem e organizou a surpresa da minha ida a Holanda junto de Hinata, Kiba e meu pai, então ele certamente saberia a hora que meu vôo chegaria, mais ou menos. A nevasca nos atrasou um pouco e tivéssemos que ficar mais tempo em Moscou do que eu gostaria, mas...
Ah-meu-Deus! Eu não tinha pensado nisso! E se Shino não soube que o meu voou atrasou, chegou ao aeroporto e eu não estava lá, será que ele pensou que eu não tinha vindo? Mas eu estou aqui, eu vim! Só um pouquinho atrasada e presa no momento, mas na Holanda. Cara, eu preciso sair logo daqui. Gaara conseguia falar onze línguas, porque eu não? Droga, eu devia ter prestado mais atenção as conversas dele ao telefone, assim eu poderia aprender alguma coisa, mas era hipnotizante demais apenas ficar olhando para ele, todo concentrado, falando e rabiscando coisas nos seus papeis importantes e timbrados.
Pois é, dessa vez essa foi boa, hein, Yamanaka Ino?
Mas pense no quão emocionante não vai ser quando eu voltar pra casa – se eu voltar pra casa – e contar pra todo mundo: então, daí eu tava numa festa, usando o mais maravilhoso colar de safira do mundo e fui presa por engano. Passei a noite numa prisão holandesa, foi um horror, mas no dia seguinte eles perceberam como eu sou por demais adorável para ficar no xadrez e me mandaram de volta! Incrível, não é?
Incrível demais para acontecer.
Shino. Shino. Shino...
Onde é que você está agora?
Afundei minha cabeça nas mãos e quis chorar. Tirei as sandálias porque elas definitivamente começaram a apertar meus pés com suas de tiras e coloquei-as no catre ao meu lado. Celas são todas assim? A minha é um quadrado pequeno, paredes cinzentas, dois catres presos a parede, uma privada que nem em sonho eu me atreveria a usar. Há mais pessoas aqui, é claro, mas eu fiquei em uma cela sozinha. É pequena demais para mais de três pessoas, acho que é por isso. Klaus deve estar em outra parte da prisão, passando por interrogatórios em frente aquela parede de espelho que todo mundo sabe que tem gente observando do outro lado e em companhia de um tira bom e um tira mau. Será que eu também vou ter vez de ser interrogada? Eles já me fizeram um monte de perguntas pelo que eu pude reparar, mas eu nem entendi, como poderia responder?
Ah, espere aí: eu não tenho direito a dar um telefonema? Será que eles me deixariam fazer uma ligação internacional?
Ouço passos. Será que eles conseguiram um interprete e agora vão mesmo me levar para esclarecer os fatos? Não quero ir, só quero a minha ligação. Ligar pra quem? Nenhum dos meus amigos é advogado. Não, Itachi é. Será que ele me tiraria daqui? No caso, então, eu teria que ligar para Hinata, assim ela convence Sasuke que pode pedir a Itachi. Qual é, Itachi sempre gostou mais de mim do que de Sakura correndo atrás do irmãozinho dele – depois ele conheceu a atual esposa de Sasuke e quase voltou a ser hétero por ela, Hinata consegue atrair homens que é uma beleza –, ele me ajudaria com certeza.
A grade da minha cela tilintou com o encontro das chaves de metal e rangeu ao abrir. Suspirei e levantei do catre – quase batendo a cabeça no catre de cima – e me preparei para encarar o que quer que fosse.
- Você não para de me surpreender nunca, não é, Ino? – eu conheço essa voz e entendi perfeitamente o que a voz falou. Os meus olhos se encheram de lágrimas antes mesmo de eu ter visto a figura a minha frente.
Shino. Aburame Shino. O entomólogo. O meu colega de apartamento. A minha transa casual. Meu namorado. Meu ex-namorado. Meu segundo amor de toda a vida. Ele tem muitas denominações, não é? Só agora que eu percebi.
- Shi-Shino... – foi difícil encontrar uma palavra melhor em meio a minha situação embasbacada.
- Pegue as suas coisas, vamos embora – disse ele, prático como sempre. Eu alarguei o meu sorriso e agarrei minhas sandálias para sair dali. O policial fechou a cela quando eu passei.
Não me importei realmente que Shino não tivesse aberto seus braços e quisesse que eu corresse até ele naquele momento, também não me importei sobre ele não ter dito eu te amo repetidas vezes assim que me viu, nem com ele não ter aparecido na minha cela com um buque de duas dúzias de rosas vermelhas.
Por trás das lentes escuras de seus óculos, eu vi seus olhos e eles nunca pareceram tão brilhantes pra mim.
- Como foi que você conseguiu me tirar de lá tão facilmente?
Atravessamos uma praça. Não sei qual praça é e nem faço questão de saber. É uma praça bonita, com uma fonte, uma catedral, um coreto e muitas e muitas flores, por todos os lados. Shino anda a minha frente alguns passos, não me atrevo a me aproximar. Eu estou descalça carregando minhas sandálias. Está frio na Holanda e meus pés estão gelados, mas não tem importância. Shino está logo ali ao alcance das minhas mãos. Os meus pertences foram confiscados e eles só me deixaram sair com isso. O céu está ficando cada vez mais claro, o sol quase desponta por trás do rio.
- Não foi fácil – ele respondeu – Mas eu paguei sua fiança e minha advogada entrou com uma ação para você responder em liberdade.
- Mas... O que foi que eu fiz? – até agora eu ainda não tinha descoberto.
Shino parou e pareceu rir. Eu parei também sem saber exatamente do que ele poderia achar graça. Ele encarou o céu que ficava mais claro e alargou o sorriso minimamente.
- Típico de você ser presa e nem saber o motivo.
- Como eu poderia? Eu estava em uma festa, fui com Klaus buscar um colar e de repente estava na delegacia! E também não sei falar holandês.
- Esse que você chamou de Klaus é um golpista internacionalmente procurado. Ele é famoso por usar mulheres bonitas para roubar jóias. Foi identificado na festa do Conde Günter e como você estava com ele, usando a jóia roubada, foi presa como cúmplice.
Puxa.
- Aquele colar de safira era o presente de casamento do Conde para a esposa. Parece que o denominado Klaus tem comparsas, porque ele estava no Japão para saber todas as informações que ele sabia sobre o lugar.
- Comparsas? – será que aquela Mercedes...
- Você sabe de alguma coisa?
- Ele conversou com uma mulher espanhola na festa, pareciam muito amigos. Sei que ele poderia apenas usá-la para dar outro golpe, mas ela também não poderia ser comparsa dele? Ela comentou algo sobre um baile em Roma – eu não ia dizer a Shino que o comentário fora sobre a acompanhante dele no baile em Roma e que Mercedes acreditara que, naquele baile, era eu.
Shino ficou pensativo por um momento, mas depois deu de ombros e disse para eu contar aquelas coisas para a polícia quando eles me chamassem para interrogatório. Tremi com a idéia de voltar, mesmo que só por alguns momentos, para a delegacia.
Mas para fazer tudo o que ele fez, Klaus é bem esperto. Ele abriu o cofre como se fosse dele, apesar de ter ficado um pouco apreensivo no processo. E ele se infiltrou na festa tão bem, tão simpático e como se pertencesse verdadeiramente a tudo aquilo que eu senti inveja. Isso é que é golpista, não é? Quero dizer, é algo fora da lei e ilegal, mas impres...
- Não o elogie.
- Eu não o estou elogiando.
- Está achando incrível o que ele fez, não minta pra mim – Shino voltou-se para mim diretamente pela primeira vez desde que saímos daquela cela e eu me senti muito bem, mesmo que ele estivesse me passando um sermão – Sua mãe não te ensinou a não falar com estranhos?
Não respondi. Da última vez que me envolvi com um estranho – em todos os sentidos da palavra – ele veio morar comigo e eu acabei me apaixonando por ele.
O meu corpo bateu contra o de Shino mais rápido do que o meu ato de levantar a cabeça. Ele colocou os dedos entre os meus cabelos soltos e pressionou meu rosto contra o seu peito. As sensações de segurança, de saudades, de quentura e do cheio bom e entorpecente do seu perfume vieram todas ao mesmo tempo e eu pensei que fosse desmaiar. Agarrei o seu casaco e prometi que nunca mais ia soltá-lo.
- E se não fosse um golpista? – a voz de Shino soou distante, mas a sua respiração estava perto – E se fosse um assassino, Ino? – os braços dele me apertaram mais – Ficar longe de você é difícil, mas perdê-la...
Ele não completou a frase. Nunca.
Fiquei na ponta dos pés, o que não seria necessário se eu estivesse usando a sandália, e o beijei.
Não pensei no tempo enquanto ele passava. Cheguei à casa de Shino – e chamar essa mansão palaciana de casa é abusar da modéstia – e fui guiada por um mordomo até um dos quarto. Ele preparou o banho para mim e disse que minhas roupas estariam separadas quando eu voltasse. Fiquei me perguntando "que roupas?" até entrar na banheira, porque depois... Céus, não deu pra pensar em absolutamente mais nada. Imagine uma piscina cheia de água quente, óleos aromáticos para a pele e milhares de pétalas de rosas. Era isso o que me esperava quando eu entrei no banheiro me sentindo exausta por tudo o que acontecera e sair de lá como uma recém-nascida.
E a cama também não era pouca coisa. Um pijama de flanela estava sobre ela, uma cama de dossel de madeira escura. As cortinas estavam cerradas e Shino estava sentado ao lado de um abajur, lendo. Vesti-me e me aproximei dele sentando em seu colo depois de, como um velho hábito, fechar o seu livro sem marcar a página e colocá-lo na mesinha do abajur, onde logo depois os seus óculos escuros foram parar também.
- Sakura, Temari, Tenten, Hinata e sua mãe já ligaram. Parece que elas assistem ao noticiário internacional e viram você saindo escoltada de uma festa da nobreza holandesa – Shino pegou a minha mecha de cabelo azul entre seus dedos. As gotas d'água escorreram por sua mão.
- E você explicou a elas que foi tudo um mal entendido, não é? – assim eu não preciso ter que lembrar que volto pra casa em três semanas e deixo essa banheira pra trás.
- Para suas amigas, sim, mas você terá que ligar para sua mãe.
- Shino! Porque você faz essas coisas comigo? Justo a minha mãe? Eu vou ter que ficar ouvindo sermão por três horas no telefone e isso não é algo que vá ficar muito barato pra você.
- A conta de telefone não me preocupa – ele soltou meu cabelo e apertou os lábios em uma risca – Seu pai me manteve informado das coisas durante a última semana. Não quero preocupar sua mãe ainda mais.
- Me desculpe por ter te mandado embora daquele jeito – comecei, mas Shino negou com a cabeça sem querer falar sobre aquilo. Não importava mais, não é?
- Você está cansada.
- Ainda tenho energia para algumas atividades prazerosas – me ajeitei no colo dele para ficar com uma pena de cada lado de seus quadris, mas ele só se levantou me levando junto. Agarrei minhas pernas em volta de seus quadris com força para não cair, mas eu sabia que Shino era forte o suficiente para o meu peso. Perdi alguns quilinhos já que me alimentei mal desde que ele fora para a Europa.
- Eu prefiro que você durma agora – ele me levou até a cama sem cair na tentação do meu bico charmoso e fez questão de me cobrir. Só quando me deitei entre o edredom e os travesseiros macios foi que percebi como estava cansada. Espreguicei-me como uma gata e sorri pra ele.
- Fica comigo, só até eu cair no sono?
Shino me beijou com gentileza sem querer despertar em mim maiores desejos, mas não adiantou, ele tem esse efeito lascivo todas as vezes que me toca. Deitou ao meu lado e o frio do fim do outono holandês foi embora.
Um imenso quintal coberto de dourado. Trilhas de caminhos de pedra cinza claro. Árvores e canteiros dispostos ordenadamente para formarem uma imagem que, vista de cima, deveria ser a coisa mais linda. Um lado imenso que caía no mesmo rio que passa pela cidade de Amsterdã. E no centro do grande jardim havia uma construção redonda toda feita de vidro com uma cúpula mais elevada no centro em forma de estrela.
Como é acordar e ter essa imagem projetada a sua frente ao abrir a cortina? Você perde as palavras, o fôlego, o prumo, a cabeça, os sentidos. Você se perde por aquela paisagem e demora, demora muito para voltar a si somente para correr escadas abaixo e ver aquilo pessoalmente, passear por aquele mundo mágico dos seus sonhos infantis com fadas, duendes e ninfas. Brinca nas folhas secas que caíram das árvores em todos os tons de amarelos, laranjas e marrons possíveis. Passa seus dedos suavemente pela superfície da água e ri dos passarinhos que voam baixo para encher seus bicos com o líquido que é claro e escurece à medida que se afasta. E para. Para e observa. Prende a respiração e estende a mão para o seu sonho realizado. Empurra a porta com força para mover a estrutura de ferro e vidro. Entra e continua sem respirar, mas mesmo assim sente-se mais viva do que em qualquer outro momento.
É uma estufa de vidro e dentro dela os aromas e zumbidos enchem o ar. Não há outras estações dentro dela que não seja a primavera. Não há nada incolor, inodoro e até nada insípido.
- A Holanda é o país mundial das flores – Shino sai do meio das plantas dando alguma explicação, como sempre – Comprei esta casa pouco antes de voltar para a Europa. Coincidentemente ela também tem uma estufa de vidro.
- Você não acredita em coincidências, Shino.
- Tem razão, não acredito. Eu comprei esta casa, com esta estufa de vidro, para poder realizar o seu sonho – ele se aproximou muito e me prensou contra a prede de vidro da estufa. Eu ofeguei quando minhas costas se chocaram com o vidro e quando meu peito se chocou ao dele e me senti imediatamente excitada – Agora.
Quem precisa de romantismo quando se tem praticidade? E, falando sério, até parece que isso não foi à coisa mais romântica de todas!
Olá!
Último capítulo de Aromas e Zumbidos e é claro que a Ino não podia deixar de aprontar alguma, não é? Mas acalmem-se, eu não sou tão ruim a ponto de deixar esse final em aberto, apesar de estar passando muito tempo com a Pink-sama ultimamente e aprendendo a ser má. Ainda tem o Epílogo e pretendo postá-lo antes das aulas, porque é o meu terceiro ano e eu vou ficar realmente ocupada. Já peço desculpas antecipadamente por isso!
Espero que tenham gostado de lê-lo tanto quando eu gostei de escrevê-lo!
AGRADECIMENTOS:
Guida-Hyuuga, Skadi Drevonuor, Luciana Fernandes, Pink Ringo, Lust Lotu's, Estrela Malfoy, Nhá T., FranHyuuga, graci-chan(3) e Jade Miranda.
OBRIGADA POR LEREM!
Beijos, Tilim! :)
