"Eu voltei, agora é pra ficar... porque aqui, aqui é meu lugarrrr..."
Aham, gente. Voltei, e que época gloriosa pra viver quando Tunakan Suda faz Rerise of Poseidon - um mangá de Saint Seiya bom, gente, realmente BOM! E focado nos marinas, que delícia. Então que eu dei uma esperada pra ver como as coisas iam se resolver nos capítulos em seguida - e também estava perdida no inferno de Succession, tanto é que daí veio o título de hoje.
E aproveito o espaço pra dizer que SEMPAI ME NOTOU! É, gente! Não é todo dia que uma de suas ficwriters preferidas vem deixar comentário na sua fic! Obrigada Gemini, seja bem vinda e espero que você goste das aventuras desta coruja muito especial.
No mais, vamos que vamos, on with the show!
E o disclaimer de hábito: Saint Seiya não me pertence, esse trabalho não tem fins lucrativos, etc.
Coronation Demolition Derby
Para algo -alguém- que supostamente deveria conceder palavras de sabedoria, Saga tem muito mais perguntas do que respostas.
Ele sabe, graças ao que acabou de ouvir, que cinco anos se passaram desde a última Guerra Santa, aquela em que ele alegremente deu sua vida para conceder aos santos de bronze a chance de entrar nos Elíseos e ajudar sua Deusa a derrotar o Rei do Submundo. Ele não tem dúvidas de que o mundo precisa de Atena e seus santos; isso é um fato. Mas ele não consegue imaginar um mundo em que seu irmão, de todas as pessoas, é o Guardião do Santuário e protetor de Sua Sabedoria e Sua Graça. Nem em um milhão de anos Saga poderia acreditar que isso fosse possível, muito menos ainda uma ideia remotamente boa. Mesmo que seu irmão tenha vestido Gêmeos em sua ausência para defender o Santuário (e no Inferno se pôs a matar todos os espectros em seu caminho, como a máquina assassina que ele sabe que Kanon pode ser), redimindo-se para empunhar sua velha Armadura e morrer como um guerreiro honrado, ainda resta uma imensa distância em ele ser o homem mais virtuoso dentro da Ordem. Uma virtude que ele sabe que seu irmão não possui. E Shion - o antigo (e legítimo) Patriarca, deveria saber disso melhor do que qualquer outra pessoa.
"Está com fome?"
A pergunta o interrompe bruscamente em seus pensamentos. Em primeiro lugar, ele não esperava que Kanon se preocupasse se seu irmão estaria com fome. Ou se preocupasse com uma coruja, animal sagrado ou não. E pensar sobre isso trouxe outra coisa à atenção de Saga: Kanon não deve ter ideia de quem ele realmente é, por baixo dos ossos ocos e das penas de que é feito agora. Se soubesse, não seria surpreendente para Saga que Kanon lhe arrancasse suas asas e patas ali mesmo, com suas próprias mãos.
Talvez seja esse o objetivo de voltar à vida sob o disfarce de um oráculo sagrado: manter Kanon sob controle e, em algum momento, neutralizá-lo.
"Está?" Kanon insiste.
Bem, sim, ele está realmente com muita fome. Mas o que ele realmente está, agora, é preocupado com a gravidade de sua situação atual: ele não é um oráculo e em algum momento Kanon descobrirá isso, sendo o homem inteligente que é. E quando Kanon descobrir a verdade, ele o matará. Não que ele realmente se importe em viver ou morrer como uma coruja falante, mas ele preferiria não ter uma morte horrível sendo desmembrado pelo irmão gêmeo que tanto o detesta.
"Olha" Kanon suspira. "Toda essa situação é... estranha, para dizer o mínimo. Mas eu sei por experiência própria que, quando alguém é trazido de volta à vida, uma barriga cheia geralmente não faz parte do negócio. Então você deve estar morrendo de fome."
"Eu posso me resolver sozinho", diz Saga depois de refletir por um momento.
"Uh" Kanon faz uma careta. "Eu realmente gostaria que você não fizesse isso."
"Por quê?" Saga retruca, confuso. "Corujas são aves de rapina."
"E elas são rapinadas por outros pássaros também" Kanon diz com indiferença. "Falcões, gaviões, abutres, todos eles podem te atacar. E irão, se tiverem chance. Sem contar que há menos de vinte e quatro horas atrás você sequer existia nesse mundo, então caçar suas refeições não deve estar entre suas melhores habilidades."
"Não sou uma criatura indefesa para ser tratada como um animal de estimação." Ele responde, incomodado com a implicação de que seu irmão mais novo, considerado o Segundo de Gêmeos para que ele fosse o Primeiro em sua vida anterior, agora o veja como um reles passarinho que precisa de proteção. "Aliás, corujas são reconhecidamente difíceis de serem cuidadas em cativeiro."
"Verdade" Seu irmão disse, para logo depois tomar um ar estranhamente contemplativo. "...Quando eu era criança, encontrei um filhote de coruja caído para fora do ninho. A coisinha mais horrorosa do mundo… Talvez você não saiba, já que já nasceu adulto, mas filhotinhos de coruja são muito feios quando nascem."
Saga sabia. Saga se lembrava dessa história, e uma parte de si sentia agora um medo irracional de que seu irmão o descobrisse justamente através dela. Kanon levantou-se, puxou de um dos móveis uma garrafa de uísque e um pacote de cigarros. Serviu-se de um copo que devia conter umas três doses, acendeu um cigarro que Saga jamais imaginava que ele fumaria antes de hoje.
"...E nosso- meu antigo Mestre, ao ver o que eu tinha encontrado, me disse que eu deveria matá-lo. É o mais correto a fazer, ele disse, porque não existia chance desse bicho sobreviver sem a mãe." Kanon bebericava o uísque entre as tragadas que ofendiam profundamente seu olfato delicado de coruja. "Mas eu me recusei. Não matei o filhote, nem deixei que o matassem… Estava disposto a eu mesmo mastigar a comida e dar para ele comer, e bem que eu tentei."
"E então?" Saga perguntou, sabendo da resposta tanto quanto sabia que foi ele, por ordem do mestre, o incumbido de matar o filhote que distraía seu irmão dos treinos para ser seu sucessor.
Nesse dia, Kanon quase lhe arrancou os dentes aos socos.
"Ele morreu uns dois dias depois, meu Mestre estava certo." Kanon virou o uísque que restava de um gole só. "E esta é a história da minha malograda tentativa de ter um animal de estimação. Como você pôde ver, eu sou um péssimo pai de pet." Agora foi a vez do cigarro, acabado em uma tragada longa enquanto Kanon o encarava. "Eu chamava o bichinho de Kokuto. Um bom nome para uma coruja, não acha?"
Saga se sentia sem ação, a fome esquecida entre o medo de ser reconhecido e morto ali mesmo e a lembrança de uma das vezes em que seu irmão gêmeo o venceu em um combate.
"Talvez você tenha com esse nome a sorte que esse filhote não teve." Kanon se levanta para retirar-se, garrafa, copo e maço de cigarro em mãos. "Não saia daqui e nem invente de ir caçar nada. Daqui a pouco alguém te traz uns pedacinhos de carne assada."
OOO
Ao que parece, um dos melhores lugares para começar a investigar uma organização - qualquer que seja ela - é o refeitório. Saga não sabia disso antes, lógico, mas sua atual condição de "ave de rapina que não pode rapinar" constantemente o traz por ali. E se no começo a situação tinha um quê de vexatória, hoje ele aproveita cada uma de suas passadas por ali para ver e ouvir o que puder. Como faz hoje, guiado pelo sussurro de vozes dentro da cozinha.
"Ei", dizia uma voz de rapaz no tom petulante que apenas os primeiros anos da adolescência conseguiam trazer. "ei."
Levou um tempo para ele entender que que aquela interjeição era direcionada para ele; mas quando percebeu, viu um rapazinho de traços lemurianos olhando diretamente para ele, acompanhado de uma mulher que ele reconheceu como a Amazona de Cobra.
"Chega aqui, corujinha" disse o menino, que lhe parecia estranhamente familiar. "Tem uns petiscos aqui pra você."
Aproximou-se lentamente enquanto o rapaz seguia lhe encarando. Ele devia ter uns treze anos, quatorze no máximo, e num relance ele o reconheceu como o aprendiz de Mu de Áries, Kiki - que na época da batalha das doze casas, era uma criança de sete anos, no máximo.
"A fofoca a gente vai ficar devendo" O garoto continuou. "Então hoje você tá aqui só pela comida mesmo-"
"Kiki" Shina o interrompe com uma expressão grave no rosto. "Não é assim que tratamos nossos convidados."
"Nosso convidado anda bem interessado em sair bisbilhotando por aí" Kiki retorquiu. "Ele acha que a gente não tá percebendo, mas a gente tá percebendo."
"Kiki" Shaina suspirou, balançando a cabeça. Elevando o olhar novamente, olhou direto para ele. "Perdão, Oráculo. Eu sou Shaina, amazona de Cobra. Ele é Kiki, aspirante à armadura de Áries. E por favor releve seu mau comportamento, ele está sendo um moleque-."
"Moleque, não!" Kiki estrilou. "Eu já tenho idade pra-"
"Saber quando não ser inconveniente?" Shina rebateu. "Ao que parece, ainda não tem, não"
"Eu sinto muito se alguma das minhas ações os deixou constrangidos" Saga respondeu das forma mais humilde que conseguia. "Não estou investigando-"
"Está, sim." Kiki o interrompeu.
"Kiki, vai dar uma volta" Shaina suspirou, e antes que o rapaz dissesse o que fosse que ele ia dizer ao fechar a cara e abrir a boca para falar, ela o interrompeu novamente. "Por favor."
O garoto sai a passos largos, botando fogo pelas ventas.
"Kiki é voluntarioso, Oráculo." Shaina disse, meio que justificando o comportamento do garoto. "E extremamente leal àqueles de quem gosta."
Interessante notar que essa é uma definição que serviria à própria Shaina, Saga pensou, lembrando-se da garota que desobedeceu o Santuário que ele comandava para salvar a vida do cavaleiro de Pégaso; mas manteve-se em silêncio esperando que ela falasse mais.
"...No fim da guerra santa, Kiki ficou sem nada. Sem mestre, sem perspectiva de quem o treinasse para ser o próximo santo de Áries. Não tinha sobrado ninguém que tivesse conhecimento e capacidade de treinar um novo santo dourado. Ele tinha uns sete anos, se tanto…" Shaina realmente falou, olhando para o caminho por onde o garoto se foi. "Coisa de poucos meses depois Nêmesis atacou a Terra. Ela quase pulverizou o planeta com asteroides e a Ordem de Atena simplesmente não tinha como defender o planeta. Hades e Poseidon, os que sempre batalharam contra Atena pelo domínio da Terra, perceberam que teriam que intervir - ou não haveria Terra pela qual batalhar. Hades trouxe de volta os Generais Marinas de Poseidon, foram eles quem lutaram contra as forças de Nêmesis. E ganharam a batalha por um fio de cabelo, isso eu posso te garantir. Eu estava lá, Kiki estava lá. Kanon também estava lá, foi trazido de volta como Dragão Marinho para lutar. E ele lutou, pelos deuses como ele lutou."
"Entendo" Saga murmura enquanto Shaina segue com os olhos perdidos pelo sendeiro. Mas da história que ouvia - sobre o heroísmo de seu irmão lutando sob o manto de outro Deus - uma coisa não se encaixava. Saga sabia por experiência que, mesmo Kanon repetindo seu feito do Inframundo, a vida cedida por Hades teria que ser temporária. "Então Kanon sobreviveu?"
"Não exatamente" Shaina respondeu. "Atena teve um trabalhão pra fazer com que lhe dessem uma vida perene."
"Ele convenceu a Deusa a fazer isso?" Saga perguntou, no que foi respondido com a visão de Shaina fungando para segurar o riso.
"Olha, eu não conhecia Kanon nessa época. Ninguém conhecia, fora o que a gente tinha ouvido falar. Shaina disse assim que se recompôs. "Mas eu posso te dizer uma coisa com toda a segurança: Eu nunca tinha visto uma pessoa tão puta da vida por voltar a viver."
"...Puta da vida?"
"Ele já tinha achado o cúmulo ser trazido de volta pra lutar contra Nêmesis por meras dez horas" Shaina continuou, ainda segurando o riso. "Mas, ser trazido de volta de vez? Quase que ele resolveu o assunto se explodindo de novo."
OOO
Viver em um corpo de pássaro ensina uma coisinha ou duas sobre perspectiva, isso Saga não podia negar.
Por mais que ele ainda fosse ele por dentro da coruja, seus olhos viam o mundo de forma diferente. Mudaram as cores, as formas, os cheiros, o gosto, e tudo ao seu redor parecia ter mudado também. Ele não tinha muito apreço pela noite quando era humano, mas agora a penumbra lhe era muito mais confortável do que a explosão de cores e luz que sobrecarrega seus sentidos. Ademais, é impressionante como o Coliseu diante de seus olhos - que ele pensava conhecer nos mais mínimos detalhes - parece ser outro, totalmente distinto, quando visto agora por seus olhos de ave sob a luz fria da lua crescente.
Era uma boa metáfora da atual situação do atual Santuário.
Ele não podia dizer que não estava sendo bem tratado. Nem que sua vigília investigativa estava sendo frustrada pela tentativa de esconder-lhe algo - muito pelo contrário. Desde quando descobrira que Kanon era o atual Grande Mestre, Saga dedicou-se a usar sua condição de 'oráculo' - e seu anonimato - para investigar o que pudesse sobre a atual situação da Ordem de Atena e, se fosse o caso, avaliar uma estratégia para tomar providências em relação a seu irmão. Porém, Saga era obrigado a admitir que o Santuário de agora era muito menos soturno e misterioso do que quando esteve sob o jugo compartilhado dele e da criatura odienta que habitava seu subconsciente. Isso, porém, não tornava a realidade atual da Ordem menos dura. Mesmo cinco anos depois da guerra que dizimou - sim, dizimou - a Ordem de Atena.
Dos seus tempos como usurpador do título de Patriarca, sobraram um punhado de cavaleiros de bronze, uns poucos aprendizes, ainda menos cavaleiros e amazonas de prata… Nenhum dos Cavaleiros de Ouro, seus antigos companheiros de armas. Mesmo que Pégaso, Dragão, Cisne, Andrômeda e Fênix sigam ao lado da Deusa, são apenas cinco cavaleiros contra um mundo de ameaças, para as quais um Santuário desguarnecido não tem condições de oferecer proteção. A incômoda verdade é que, nesta Guerra Santa, Hades e suas estrelas chegaram muito, muito mais perto de uma vitória completa do que em qualquer das outras.
E a culpa era sua.
Sua e de Kanon.
O cheiro levado pelo vento lhe alertou para a presença de Shion nos arredores - apesar de que o conceito de 'arredores', para seu novo olfato, havia crescido alguns quilômetros. Levantou voo até os aposentos do ex-Patriarca, encontrando-o na sacada de seu quarto.
"A noite está bonita" Shion disse assim que ele pousou, os olhos perdidos no mesmo Coliseu que ele acabava de sobrevoar. Ficou calado, esperando que o lemuriano interpretasse seu silêncio como uma forma de concordância. "Fiquei sabendo que Kanon te deu um nome".
"Kokuto", Saga assentiu.
"Cocteau". Shion o corrigiu. "O nome vem de um intelectual francês, Jean Cocteau. Conhece?"
"Não," Saga mentiu. Jean Cocteau e o corpo de sua obra - especialmente seu filme "A Bela e a Fera", que ele e o irmão assistiam várias e várias vezes quando crianças junto com Shion - era basicamente a grande influência para que ele e Kanon aprendessem um francês razoavelmente fluente.
Shion meneou a cabeça num gesto ambíguo, voltando os olhos para as ruínas do Coliseu.
"Você está melhor", Saga observou, sem que Shion desviasse seus olhos da paisagem, que o antigo Patriarca parecia muito melhor agora do que quando o recepcionou de volta à vida. "Fico feliz em perceber que está se recuperando."
"Ainda é cedo para ficar feliz," Shion respondeu, ainda com os olhos distantes. "Estou melhor justamente por não estar sendo capaz de cumprir com meu dever."
"...Como assim?"
"Eu fui trazido de volta por um motivo, Cocteau". Shion respondeu. "Ou você prefere Kokuto?"
"Kokuto foi o nome que o Patriarca me deu," Saga assentiu. "Mas, voltando ao seu motivo…"
"As armaduras." Shion baixou os olhos. "Eu consigo… Eu conseguia acessá-las, ver suas histórias, e através delas ter acesso aos cavaleiros que a vestiram…"
Saga sabia que as armaduras tinham uma 'alma', já a sentiu incontáveis vezes ao usar sua antiga Gêmeos. Sabia também que parte de ser um cavaleiro era ter a habilidade de se conectar com essa essência que habita as armaduras para que seus cosmos se fundissem em um só. E, obviamente, sempre soube que Shion era um telepata habilidoso e um forjador de armaduras, mas não sabia que as habilidades de Shion podiam combinar-se dessa forma. Isso abria um leque interessante de possibilidades, verdade, mas não entendia que utilidade essas possibilidades poderiam ter, ainda mais ao custo da saúde e da força vital de Shion.
"...Das duas últimas vezes que os cavaleiros de ouro voltaram à vida, foram as armaduras que mediaram o processo." Shion respondeu à pergunta que Saga não fez. "Sem intervenção de Hades ou qualquer outra deidade, as próprias armaduras, mediando o poder da Deusa, resgataram as almas de seus Santos e devolveram vida a seus corpos."
"Você quer entender como elas fizeram isso."
"Atena mal e mal conseguiu guiar Pégaso e os outros de volta do Elíseos. Em muitos sentidos, foi uma vitória de Pirro a que tivemos na Guerra Santa." Shion suspirou. "O ataque ao Muro dos Lamentos, o quanto a ordem natural das coisas foi modificada para que Hades pudesse ser combatido por cinco pessoas vivas dentro do lugar de descanso final das almas dos justos… Pégaso não pode mais ser o Assassino de Deuses."
"...Até que ele se recupere?"
"Não sabemos se isso vai acontecer." Shion baixou os olhos. "Até mesmo os poderes da Deusa tem seu limite."
Então Saga começou a entender o que queria Shion: não só entender como as armaduras operaram o milagre de trazer os cavaleiros de ouro de volta, mas também tentar fazer o milagre acontecer novamente. O que, naturalmente, era uma loucura absoluta.
A não ser que…
"Foi Áries quem te trouxe de volta?" Saga perguntou, com uma pontinha de esperança.
"Não." Shion sacudiu a cabeça. "Kanon, o Patriarca, negociou meu retorno em uma mediação com Hades e Poseidon."
Como assim, pensa Saga, esperando que seu rosto de coruja não traia sua surpresa.
"...Mas essa é uma história que eu não vivi para contar." Shion se afastou da bancada. "Essa parte de sua investigação, Kokuto, você terá de fazer com o Patriarca em pessoa."
"Mas eu não-"
"Claro que está, e está certíssimo em fazê-lo" Shion diz, interrompendo-o com um sorriso de canto no rosto. "Que espécie de conselheiro você seria se confiasse cegamente em tudo o que nós te contamos, não é mesmo?"
"Eu confio em você…" Saga sente as palavras saírem de seu peito, leves como não achava que poderia dizê-las àquele homem que foi o que teve de mais próximo a um pai, apesar de todos os pesares. Shion sorriu, baixando a cabeça em um meneio de agradecimento.
O que lhe pesava o peito, na verdade, era saber que era Shion quem deveria ter todos os motivos para não confiar nos gêmeos que acolheu de boa fé quando ainda tinham meses. O que levava a outra pergunta que ele, incógnito como uma coruja investigadora, precisava fazer.
"...Mas você, Shion, confia em Kanon?"
"Pergunta ousada… Em outros tempos, ela o sentenciaria a um destino pior que a morte." Shion olha fundo em seus olhos, seguindo-se um silêncio incômodo por alguns momentos. Saga se sente gelar porque ele não só viveu esses tempos, ele foi o mandante desses tempos.
"...Mas, como eu disse, outros tempos..." Shion continuou pouco tempo depois, movendo-se em direção à porta da sacada. "Com certeza você já deve ter ouvido falar muitas coisas sobre Kanon, algumas delas muito ruins. A maior parte deve ser verdade. Ele mesmo não te negará isso se você perguntar a ele sua versão dos fatos.
"...Você não respondeu minha pergunta."
"Confiança tem que ser espontânea. E pessoal. Eu confio em Kanon de olhos fechados, mas não posso te pedir para fazer o mesmo." Shion lhe deu um olhar de esguelha. "Você deve construir seus próprios motivos, Kokuto."
Deixado sozinho, Saga estava ainda mais confuso do que antes.
Quer queira, quer não, Shion foi o mais próximo que ele e seu irmão tiveram de um pai - Saga jamais seria capaz de questionar o amor com que Shion se empenhou para criá-los para serem cavaleiros e, dentro do possível, provê-los emocionalmente para compensar a falta de uma família tradicional. Só que dele, o 'Primeiro', Shion esperava excelência no manejo de seus poderes e perfeição de caráter; mas com Kanon, talvez até por ser ele o 'Segundo', Shion sempre teve uma irritante tendência a fechar os olhos para seus defeitos (e crimes). Então, não lhe seria surpresa alguma se Shion estivesse - mais uma vez - subestimando a ameaça que Kanon poderia ser.
Mas Shion não disse a ele que confiasse em Kanon, ele instou-o a 'construir seus próprios motivos' para confiar no atual Grande Mestre. O Shion de antigamente não faria isso.
'Tem uma coisa má, diabólica dentro de você', o Shion de antigamente lhe gritou, acusando-o de matar Kanon e sumir com seu corpo enquanto o destituía da Sucessão ao posto de Grande Mestre. Shion estava certo - só que pelos motivos errados. Kanon não estava morto. E Saga tinha certeza que, se Shion soubesse que Kanon estava na prisão do Cabo Sounion, Shion daria seus pulos para tirar o 'coitadinho' de lá.
O Shion de hoje disse a um 'oráculo': Confie em Kanon apenas se você achar que ele merece.
Já é um começo, Saga decidiu. Sua nova missão agora era investigar Kanon em pessoa.
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