Capítulo quatro _ Sapinhos de chocolate
Para um início de primavera, os dias estavam bem sem graça.
Já era quase fim do mês de março e havia poucos sinais de sol, combinados com uma temperatura abaixo do que Gina esperava. O que tornava aquela semana um pouco mais desanimadora do que no geral. Mal via a hora de poder sair na rua sem se preocupar com chuva, ventania e etecetera.
Desistiu de comparecer às reuniões do grupo de apoio havia três semanas. Lhe doía um pouquinho se afastar toda vez que pensava nisso, mas sabia que precisava de um tempo para colocar as ideias no lugar. E, honestamente, não sabia dizer quando se sentiria bem novamente para frequentar o lugar sem que uma aura negra lhe acompanhasse.
Desde a última vez que estivera com Draco, as coisas acabaram ficando muito piores para Gina, tanto no aspecto de pesadelos quanto em seu ânimo de fazer qualquer coisa. Culpava-se mentalmente pela situação que tiveram naquela noite e não tinha nenhuma vontade de falar sobre aquilo, nem mesmo com ele.
O Malfoy esteve na loja novamente algumas vezes, durante esses dias que se passaram, assim como Luna. Mas Gina teve um jeito de dispensá-los, dizendo que precisava de um tempo para pensar ou inventando desculpas acerca do trabalho e seus afazeres domésticos. Nem mesmo seu almoço cotidiano com a Lovegood permanecera.
Isso tudo por que era mais fácil, para ela, se isolar do que entrar em uma longa conversa que certamente só a faria chorar e se desesperar. Ao mesmo tempo em que sentia certo alívio quando os via partir, seu coração se entristecia profundamente, sentindo que, de fato, conseguia destruir absolutamente todas as coisas boas que haviam em sua vida.
Luna chegou a lhe pedir para ir com ela ao grupo, à sua casa, ou somente para um café. Mas Gina foi irredutível em manter sua distância e pediu respeito, algo que pareceu até atingir a Lovegood em algum aspecto pois, de fato, depois deste dia, ela apenas lhe acenava da vitrine, colocando-se à disposição da forma mais branda possível.
Com Draco as coisas foram semelhantes. Ele até tentou lhe acompanhar até sua casa, após o serviço e chegou ao ponto de comprar um pacote de vomitilhas, só para ficar diante dela, no caixa. No entanto, Gina manteve-se fechada, com a vista baixa, envergonhada até o último fio de cabelo e se detestando profundamente por ser deste jeito.
Naquele dia, especificamente, Luna passara na loja pelo horário de almoço e lhe entregara um sapinho de chocolate, antes de sair apressada, como se houvesse cruzado um limite. Gina ficou segurando a embalagem entre os dedos enquanto observava os cabelos loiros de Luna sacudirem, conforme ela corria.
Foi o doce mais amargo que já comeu.
Estava ainda ruminando sobre isso, debruçada no balcão da loja, com a embalagem do sapinho nas mãos quando George a viu, do pé da escada. Estava carregando uma caixa para o estoque, mas ficou olhando-a, indeciso, quando decidiu desistir. Foi até a porta da loja e mudou a plaquinha para "fechado", antes de se direcionar para Gina.
- Eu acho que precisamos conversar.
Gina virou os olhos na direção do irmão, sem muita paciência para quaisquer comentários ou piadinhas que ele pudesse soltar.
- Não estou com humor para isso, George.
Ele apoiou o braço no balcão e a olhou, sem esboçar nem um sorriso.
- Não estou brincando, Gina.
Ao que ela suspirou e deu-se por vencida.
- Certo. O que você quer?
Ainda que George quisesse falar alguma coisa, pareceu receoso. Olhava Gina com um pouco de cuidado e interesse, mas mantinha certa distância, como forma de precaução, ela supôs.
- Você está estranha nesses últimos dias. Mais estranha do que é, naturalmente.
Respirou fundo cerca de duas vezes, tentando acalmar seu íntimo, antes de responder.
- Interessante perspectiva.
Para Gina era muito conveniente que George, Rony e todos seus irmãos tenham se afastado dela em seus momentos mais difíceis para agora, do nada, ele vir lhe apresentar algum sinal de preocupação. Tarde demais, não fazia mais sentido para ela. Aquela conversa toda parecia errada e inapropriada. Se pudesse, teria ido embora, mas quis a todo custo evitar constrangimento para qualquer um dos dois.
- Está acontecendo alguma coisa? Algo que eu deva saber?
Por mais que a preocupação dele parecesse genuína, Gina estava sem paciência para isso. Por isso, resolveu ser ríspida e tentar colocar um fim naquele assunto o quanto antes.
- Eu não sei. Você é responsável por mim, agora, nessa altura da vida?
Mas, ao contrário do que esperava, George insistiu. Ele não se moveu do balcão e continuou a lhe observar munido de uma paciência que faltava em Gina.
- Você não fala mais com a Luna e até tem evitado seu novo amigo Malfoy.
Ela apertou os olhos.
- Você está bisbilhotando?
- Não, eu estou sendo lógico. E preocupado, você... você não parece bem.
E Gina riu, jogando a cabeça para trás, com ironia.
- Bem, deve ser por que eu não estou bem.
Ela apoiou as mãos no balcão, largando a embalagem do sapinho de chocolate e olhando para George como se fosse uma leoa, prestes a atacar. Mantinha um sorriso não muito convidativo nos lábios, rindo de algo que, no fundo, lhe irritava. Sabia que, se começasse a falar, muito provavelmente acabaria dizendo coisas das quais se arrependeria, no futuro. No entanto, como o irmão parecia mesmo interessado – ou tentava se fazer parecer, ela ainda não havia decidido – achou por bem dar a ele uma pequena provinha do que se passava em sua cabeça naquele momento.
- Eu não estou bem hoje, eu não estive bem ontem e eu não tenho estado bem há um bom tempo, George. Um bom tempo.
Pontuou com o indicador batendo na madeira. Ele manteve-se em silêncio, esperando que ela concluísse.
- Mas o que, te incomoda, agora? Não incomodava dias atrás.
E ergueu os ombros, demonstrando que não fazia sentido naquele questionamento. Foi a vez de George respirar fundo, como se estivesse lidando com uma criança. Só que Gina não se importava com isso, que ele se desgastasse, se quisesse. Já era conhecida por ser nervosinha e impulsiva mesmo, então que fosse.
- Você parecia melhor, dias atrás.
George disse, parecendo pensar bem em cada palavra que dizia.
- Não é como se eu não soubesse que você estava sofrendo, mas eu via sua melhora. Estava mais sorridente, fazendo amigos, por mais estranhos que eles pudessem ser.
Ela arqueou as sobrancelhas e cruzou os braços. Aquela era uma revelação interessante, ao menos sob o ponto de vista de Gina, que sempre se sentiu sozinha, como se sua dor fosse invisível para os demais membros de sua família.
- Então você sempre soube que eu não estava bem. É isso que está me dizendo?
O irmão apertou os lábios e desviou o olhar, arrependido do que acabara de dizer. Gina, no entanto, aproximou-se mais dele e ficou frente-a-frente, praticamente forçando-o a olhar para ela. Não iria passar desapercebida. A iniciativa de tocar no assunto partiu dele, então, agora, iriam até o final.
- Você me vê todos os dias, absolutamente todos, de segunda à sexta, sabendo que eu estava sofrendo, e nunca disse uma única palavra sobre?
Ilustrou erguendo o indicador. George permaneceu em silêncio, ainda evitando olhar para ela, mas Gina estava determinada a fazê-lo entrar naquela conversa.
- Por que te incomoda agora? Tente agir como costumava. Finja que não é com você.
- Sempre me incomodou, Gina. Sempre incomodou a todos nós.
Disse abruptamente. No entanto, Gina apenas bufou e apertou os dedos contra o próprio antebraço.
- "Todos", quem?
George sacudiu a mão num gesto displicente, como se falasse mesmo de muitas pessoas.
- Todos. A mãe, o pai, Ron, Carlinhos, Gui, Percy, eu... sua família, Gina.
A palavra família perdera um pouquinho o significado e o peso que costumava ter para ela nos últimos anos. Gina apenas apertou os lábios, ainda com raiva e sem paciência. Quer dizer então que a situação era pior do que imaginava. Sua família inteira não somente percebia que estava passando por maus bocados, mas preferia sair de cena e deixa-la sozinha para se resolver com seus demônios particulares. "Realmente inspirador", ela pensou em silêncio, apenas olhando para George.
- Nós sempre te demos espaço, mas sabíamos que nem tudo estava bem, como você pontuou agora.
Por mais que ele falasse, as palavras não a comoviam de forma alguma. Sentia-se muito abandonada e deixada de lado para simplesmente passar por cima de tudo isso e acreditar que era só um mal-entendido. Uma parte sua queria muito encerrar aquela conversa, mas outra parte tinha curiosidade de ver até onde aquilo chegaria. A segunda parte estava vencendo.
- E dava para ver que você estava melhor. Parecia mais feliz, nos últimos meses, para ser mais sincero. E agora, está pior do que antes.
Afinal de contas, quem era George para lhe analisar dessa forma? Não compartilhava com ele seus anseios, desejos ou pesadelos. Ele sabia tanto a seu respeito quanto um estranho, que a visse passando pela rua. Chegou a entreabrir os lábios para responder, quando irmão lhe perguntou.
- O que aconteceu?
"Ah, você realmente quer saber? ", ela pensou ainda com raiva. Engoliu seco, tentando não se emocionar demais, a ponto de chorar. Teve medo de desabar, de mostrar fragilidade, então virou o rosto na direção da vitrine, pois achou que seria mais fácil de falar se não estivesse olhando para o rosto do irmão.
- Eu não consigo mais, George. Eu não consigo mais seguir como se nada tivesse acontecido.
E isso era tão verdadeiro que a fez gaguejar na última palavra. Simplesmente não dava para continuar negando que as coisas do passado não a afetavam e que a vida simplesmente seguiu, linda e resplandecente. As coisas eram muito mais profundas do que ele ou qualquer um dos membros de sua família poderia supor.
Sempre que pensava sobre essas coisas, Gina costumava se lembrar de como era na época de colégio. De como gostava de jogar quadribol e de como conseguia simplesmente não deixar esses pensamentos lhe consumirem. Agora via-se quase fraca, cedendo e rachando a cada pequeno impacto que a vida lhe proporcionava. E isso a envergonhava e entristecia, pois fazia sua existência parecer inútil e desnecessária.
- Eu perdi muito de mim ao longo do caminho e eu não sei se consigo recuperar.
Teve de fazer uma pausa para não começar a chorar. Doía admitir suas fraquezas e limitações, sobretudo para um de seus irmãos. A distância que se gerou entre eles nos últimos anos parecia acolhedora, ao mesmo tempo em que machucava cada vez mais. No entanto, não conseguia deixar de se sentir uma idiota por simplesmente vomitar todas essas palavras em cima de George.
- Luna tenta me ajudar, ela é uma boa amiga, mas estou cansada de tomar o tempo dela à toa. Ela tem coisas melhores a fazer, e Draco também.
Fez questão de completar para deixar claro que nenhum dos dois era o problema de qualquer forma, muito pelo contrário. Ela que era esse incrível buraco negro de emoções, que sugava todas as coisas boas e não deixava sobrar nada. Novamente, precisou de alguns segundos para conseguir falar, sem ceder ao choro que se prendia em sua garganta.
- Não quero prendê-los a mim. Não quero que ninguém se aproxime de mim por pena. Não acho que eu faça diferença na vida deles, sabe? Na de ninguém. Sinto que mais atrapalho do que ajudo.
Então Gina cobriu a boca com a mão, antes que realmente começasse a chorar. Tudo saiu de dentro dela com uma intensidade tão grande que quase a fez tremer. Não conseguia olhar para George, não depois de soltar tudo isso. Ele apenas se aproximou, mas não chegou a tocá-la de nenhuma forma.
- Se isso fosse verdade, por que acha que eles viriam até aqui, quase todos os dias, só para ver você?
E pronto, isso foi o que faltava para fazê-la chorar. Sentiu-se tão mal e tão estúpida, mas não conseguiu evitar algumas lágrimas de rolarem por sua bochecha. Apressou-se em secá-las, mas sabia que George havia visto e se sentir assim, vulnerável, era uma das piores coisas para Gina.
- Eles não sabem disso ainda. Mas eles vão se dar conta.
Respondeu com a voz embargada. George se aproximou dela e a abraçou forte, tentando lhe acalmar. Gina chegou a soluçar contra o ombro dele e sentia que quanto mais lutava contra suas emoções, mais fortes elas ficavam. Era uma batalha perdida.
- Acho que você que tem que se dar conta, Gina.
George começou a fazer carinho nos cabelos da irmã, ouvindo-a fungar em seu ombro.
- Não podemos escolher pelas pessoas. Eles se importam com você, quer queira ou não. Se quiserem se afastar de você, tem que partir deles. Você quer que se afastem de você? É mais fácil, para você, ficar sozinha?
Um pouco mais consolada, Gina se afastou do irmão e foi esfregando as mangas da blusa nos olhos, tentando enxugar o rosto das lágrimas teimosas.
- Não, mas...
- Sem "mas", então.
Trocaram um olhar. Gina sentiu-se um pouco repreendida e, por mais envergonhada que estivesse com o momento que acabara de acontecer, precisava admitir que se sentia um pouco melhor em colocar tudo isso para fora. Diante do acolhimento que recebeu, ela chegou a se arrepender um pouco de ter sido tão bélica com o irmão.
- Viva sua vida, Gina. Se perdoe. Deixe que eles decidam se te querem por perto ou não, mas não faça o que está fazendo. Não é justo.
Ela assentiu em resposta, observando George em silêncio. Ele deu um meio sorriso assim que terminou de falar e bateu de leve com o cotovelo nela, como se chamasse a atenção. Gina se viu nesse pequeno gesto e sorriu também, ainda fungando por causa do choro que acabava de conter.
- Nós sentimos sua falta, sabia? Lá em casa. E aposto que eles devem sentir também.
Apertando os lábios, Gina assentiu várias vezes. Por mais doloroso que fosse, sabia que George tinha razão. Ali terminavam seus dias de fugir das pessoas com quem se importava. Se tivesse que chorar ao conversar com cada um, que fosse. Era melhor do que os perder.
- Você sabe o que precisa fazer, não sabe?
Novamente, Gina o abraçou.
- Obrigada, George.
•
Quando chegou na porta de casa, aquela noite, Gina quase sorriu.
Estava vindo do mercado, carregando algumas sacolas de produtos quando viu que Draco estava parado ao lado de fora, claramente esperando por ela. Charmoso, como sempre, em uma jaqueta preta de couro e com os cabelos bagunçados pelo vento.
Aproximou-se dele e percebeu que receava tocá-la.
- O que está fazendo aqui?
Perguntou olhando diretamente para seus olhos cinzentos. Draco estendeu a mão, oferecendo-se para segurar as sacolas que ela carregava. Gina aceitou de bom grado e entregou para ele o que trazia nos braços.
- Nós precisamos conversar.
Ele afirmou. Por mais que a palavra "conversar" lhe deixasse ansiosa, Gina assentiu em resposta.
- Quer subir?
Em silêncio, o Malfoy a acompanhou até o apartamento. Talvez por ter ficado lá com ela a noite toda, na última vez em que estiveram juntos, já não parecia mais tão surpreso ou curioso com o ambiente. Gina passou os olhos pela sala rapidamente, procurando alguma bagunça que ele não pudesse ver, mas respirou aliviada ao perceber que estava tudo dentro dos conformes.
Draco deixou as compras sobre a mesa e Gina não demorou em apanhar as coisas de geladeira, para guardar logo. O Malfoy ficou parado, observando-a um tempo e só começou a falar quando ela lhe olhou com atenção.
- Sabe, eu me arrependi muito de ter deixado você ir, aquele dia, em Hogwarts.
Gina apoiou as costas na pia e ficou olhando para ele, tentando imaginar onde aquele raciocínio iria terminar.
- Se arrependeu?
O jeito como ele a observava indicava que estava falando sério. Aproximou-se dela e escorou-se na pia ao seu lado, colocando as mãos nos bolsos da jaqueta.
- Passei muito tempo ruminando e revendo aquela cena de novo e de novo e pensando em tudo que eu poderia ter feito de diferente que te fizesse ficar.
Ela tomou a liberdade de apoiar a cabeça em seu ombro e o contato o fez parar de falar por um instante. Levou alguns segundos para retomar sua linha de pensamento.
- Eu não vou cometer o mesmo erro, Ginevra. Estou disposto a persistir por você. Por uma chance, ao menos.
- É isso que está me pedindo? Uma chance para você?
Perguntou quase imediatamente, erguendo os olhos para ele. Draco assentiu, passando seu braço em volta das costas de Gina. Parecia surpreso por ela estar mais receptiva, mas também não perguntou seus motivos, apenas se fez presente.
- Ou uma chance para nós, o que soar melhor na sua cabeça.
Por mais tentadora que a ideia pudesse soar e ainda que estivesse convencida a tentar somente levar um dia após o outro, sem pensar tanto assim em suas ações, Gina sentia-se na responsabilidade de colocar Draco diante da situação nua e crua. Não adiantava fecharem os olhos para o que poderia vir a se tornar um grande contratempo entre eles.
- Escute, Draco, eu agradeço o que está tentando fazer, mas preciso saber se você tem certeza. Você sabe no que está se metendo?
Perguntou com sinceridade e ele a observou, curioso.
- Eu não sou mais a Gina que você conhecia. Eu me sinto péssima, como se estivesse quebrada. Todos os dias. Eu me sinto mal comigo e me sinto mal por todos que são espectadores deste desastre em que me tornei.
Sua mão tocou a dela com carinho, acarinhando em seguida, da forma mais gentil que pode. Dava para notar que tentava lhe transmitir força, ressaltando que estava tudo bem. No entanto, Gina queria mesmo saber que ele estava consciente de tudo e que, mesmo assim, estava disposto a arriscar. Não poderia ser diferente e não seguiria em paz se não tivesse absoluta certeza de que tudo tinha ficado claro.
- Você já tem tantos problemas, tem certeza que quer mais um? Quer perder noites de sono comigo, como na última vez? Eu não acho que você mereça passar por isso.
- Eu quero, Ginevra.
Os dedos dele se apertaram em volta de sua mão, como se temesse que Gina pudesse fugir. A observava ainda com encantamento e admiração, o que a fazia ruborizar sempre que percebia. Havia aquela sua parte que se envergonhava e não se achava merecedora desse carinho que recebia.
- Eu entendo que você tem seus problemas, eu também tenho os meus. Mas não trocaria nossa noite por nenhuma daquelas em que dormi perfeitamente bem.
Então virou-se de frente para ela e lhe tocou a bochecha gentilmente.
- Estávamos juntos. Nada me importa, além disso.
Beijou-lhe a testa, fazendo-a sentir como se ainda fosse só uma menina. Seu coração pulou diante da delicadeza e ela podia se sentir derretendo por ele a cada toque, a cada palavra.
- E não tem absolutamente nada em você que esteja quebrado.
Gina começou a rir baixinho, um pouco emocionada, e ele a acompanhou. Não demorou para que ela se colocasse na ponta dos pés e o beijasse, sentindo o conhecido gosto de seus lábios finos e o cheiro do perfume, que a invadia sempre que se aproximavam daquele jeito.
Assim que desgrudou os lábios dos dele, Draco afundou o rosto em seu pescoço e a abraçou, deixando-a próxima, demonstrando que realmente sentira saudade nesses dias em que estiveram afastados. E Gina se sentiu uma perfeita idiota por tentar se distanciar de algo que seu coração queria tanto e com tanta força.
- Sabe, um tempo atrás, eu tive momentos como esse. Tive crises como a sua, e elas se tornaram brandas, com o tempo. Você sempre tem isso?
Perguntou soltando-se do abraço dela logo em seguida. Gina ponderou por um segundo e concluiu que as crises não eram cotidianas, ainda que os pesadelos ocorressem com frequência.
- Não, é ocasional.
Ela o segurou pelo pulso e foi puxando na direção do quarto. Sentou-se na cama e deu dois tapinhas bem ao seu lado, indicando a ele que se sentasse também. Draco assim o fez, ficando bem ao lado da ruiva.
- Eu ficava muito nervoso quando pensava em tudo que aconteceu. Em Hogwarts, as pessoas que machuquei, as pessoas que prejudiquei. Me culpei por muito tempo por tudo que aconteceu, sabe?
Passou o braço pelas costas de Gina, trazendo-a para perto. A Weasley deitou a cabeça em seu ombro e fechou os olhos enquanto o ouvia falar. Gostava muito do som da voz de Draco e sentia, de verdade, que ele conseguia lhe acalmar quando falava daquele jeito, tão calmo e tranquilo.
- Foi por isso que comecei a participar do grupo de apoio. Eu perdi meu pai, minha tia, estou perdendo minha mãe e me penalizo, muitas vezes, por todas aquelas pessoas estarem ali. Por você estar ali.
Deu ênfase quando falou sobre ela. Era notável que ele realmente se culpava por todos esses acontecimentos e Gina achou este um fardo muito grande para se carregar. Passou suavemente a ponta de seus dedos pela bochecha dele, lhe acarinhando, até que o viu fechar os olhos, como se aceitasse seu perdão.
- Você era só uma criança. Nós todos éramos.
Draco sorriu ao ouvi-la falar.
- Queria que tivesse a mesma facilidade de se perdoar que você tem comigo.
Era verdade. Para Gina era incrivelmente mais fácil ver os erros dele e de todos a sua volta com um pouco mais de simpatia do que o olhar que direcionava aos próprios enganos. Era sempre rígida e exigente consigo mesma, buscando perfeição e tentando ser a melhor versão que podia. Quem sabe as coisas fossem mais fáceis se conseguisse direcionar essa empatia para si, concluindo que era só uma garota, tentando levar uma vida normal após coisas terríveis acontecerem.
- Acho que nunca falamos sobre isso, mas eu não sabia sobre o diário. Eu soube só quando já havia acontecido. E sei que esse episódio deve contribuir muito para suas inquietações.
O maldito diário de Tom Riddle. O começo do fim para a antiga Gina, que já não era mais uma parte tão forte da Ginevra atual. Seu sangue congelava quando pensava em Tom, na Câmara secreta e nas coisas horríveis que ele a obrigara a fazer em troca de amizade. Não fora nada além de uma marionete, instrumento que o mal utilizara para tentar prevalecer. E sentia-se tão suja, tão burra e ingênua quando pensava nisso que tinha vontade de se agredir. Por isso, apenas respirou fundo e assentiu, ainda olhando para Draco.
Sabia que o Malfoy estava tentando se desculpar com ela por todos os danos que seu pai causara. Mesmo com aquele jeito orgulhoso, Draco demonstrava que sentia muito, mesmo que não soubesse, na época. E Gina acreditava mesmo que ele não tinha sido comunicado sobre os planos do Lorde das trevas, pois também era criança, talvez tão ingênuo quanto ela própria, e não valia a pena pesar isso sobre ele.
- Não vou mentir, contribui, sim.
E fez uma pequena pausa. Os olhos cinzentos se abriram e voltaram em sua direção.
- Durante aquele tempo todo, eu acreditava que só Tom me entendia. Ele era meu único amigo e eu compartilhei com ele todos meus segredos. Foi muita ingenuidade minha, na verdade.
Novamente, vergonha. Por ter sido usada e não ter sequer tido a coragem de contar para ninguém. Durante muito tempo se questionou se realmente era grifinória, pois assombrou-se com a própria covardia nesse acontecimento. Draco sacudiu a cabeça negativamente, discordando de suas acusações.
- Você era só uma criança.
- Eu era.
Ela concordou e deu um meio sorriso triste, que o fez apertar os lábios.
- Venha aqui.
E a puxou para o meio de seus braços. Gina sorriu dentre o abraço, mas fez questão de ressaltar.
- Mas não quero que se atormente com isso.
Foi quando ele a surpreendeu.
- Eu sinto muito que tudo isso tenha acontecido. Sinto muito por seu irmão. E por Collin.
Draco certamente estivera prestando atenção no dia em que Gina falara com o grupo de apoio sobre as coisas que lhe assombravam. E se sentiu tocada por ele ter guardado as coisas que a magoavam, como se quisesse saber para não a machucar sem querer. Sorriu e fechou os olhos, surpresa por ouvi-lo dizer que sentia muito, mas agradecida por ter dito.
- Obrigada, Draco.
Inesperadamente, ele se deitou na cama, puxando-a junto, fazendo-a cair de sobre seu peito. Gina riu baixinho e se aninhou em seu ombro, sentindo o perfume enquanto pensava que aquele ali era seu lugar. Pensou que devia ser muito sortuda para ter a sorte de reencontrar Draco e ter a oportunidade de se conectarem novamente, mesmo depois de tantos anos.
Foi quando ele arranhou a garganta e lhe fez uma pergunta.
- Sobre sua ansiedade, você chegou a procurar ajuda médica? Nós podemos fazer isso juntos, se for da sua vontade.
Gina assentiu.
- Eu quero. Quero mais que tudo.
Ele beijou o topo de sua cabeça em aprovação. E foi bom, por um momento, não se sentir sozinha. Saber que o teria ali, ao seu lado, nos momentos difíceis ainda era embaraçoso, mas também era reconfortante.
Como se houvesse subitamente lembrado de algo importante, ele falou.
- Lovegood está preocupada com você.
Gina sorriu. Estava decidida a se resolver com ela no dia seguinte, quando aparecesse na loja, no horário de almoço. Pensou que seria um gesto delicado comprar um sapinho de chocolate em retribuição ao que recebera. Se fosse para ser honesta, estava ansiosa para que chegasse logo a hora de se acertarem. Não gostava de ficar mal resolvida com Luna, ela não merecia isso.
- Fui uma idiota por tentar afastá-la. Preciso pedir desculpas.
Draco engoliu seco.
- Eu tive de contar a ela o que aconteceu naquela noite.
Gina arregalou os olhos e se apoiou no antebraço, cobrando explicações somente com um olhar ameaçador. Meio sem saber o que dizer, Draco quase gaguejou ao tentar explicar.
- Juro que não queria, mas ela estava quase chamando a polícia para mim. Disse que eu devia ter feito algo terrível para você reagir daquele jeito...
Após bufar, Gina deixou-se cair novamente sobre o braço dele, compreendendo agora a situação. Chegou a achar um pouquinho de graça na preocupação exacerbada de Luna, mas resolveu não comentar sobre isso.
- Isso parece com ela. Está tudo bem, amanhã vou pedir desculpas.
Um pouco mais tranquilo, Draco beijou-lhe a testa. Esses carinhos, tão delicados e singelos a faziam sentir como se fosse frágil. Ou, ao menos, como se ele a visse assim. E sentir esse tipo de cuidado e carinho traziam os mais involuntários sorrisos aos lábios de Gina, que sequer pensou antes de dizer.
- Estou feliz em ter te reencontrado.
- Não vou te perder. Não desta vez.
Ela sorriu ao ouvi-lo falar. Moveu-se em seu braço de maneira preguiçosa, abraçando seu tronco dentre um suspiro.
- Não sobrou muito de mim, Draco. Mas, o que sobrou, é seu.
- Você não está quebrada, Ginevra. É só uma nova versão sua.
Gina lhe ergueu os olhos em tempo de vê-lo sorrir.
- E eu amo o que vejo.
Foi quando Draco puxou-a para cima de seu peito, beijando-a em seguida.
