Ao aproximar-se da Mansão Watson, Sherlock Holmes percebeu que, a despeito dos esforços contínuos de seus moradores, esta possuía o aspecto de um local fúnebre, que ocultava segredos por detrás das aléias cheias de flores e árvores com erva-de-passarinho.
A mulher que se adiantou para recebê-los tinha uma beleza indubitável. Os cabelos loiros e lisos ondulavam ao vento atrás de seu corpo como um véu de ouro. Em um tempo de cáries, o sorriso branco se sobressaía na multidão. Deveria ter sido estonteante em seus dias áureos, agora tinha a idade de Holmes e Watson.
Era, com efeito, muito mais nova do que o pai do médico morador da Baker Street. E isto não era mais tão comum assim. Uma mulher tão bela, tão nova, casando-se com um viúvo mais de vinte anos mais velho e rico causava certo estranhamento naquela esfera social.
Algo nela era falso, o sorriso era falso, o andar era falso. Mesmo a forma como comandava as criadas ao servirem o chá denotava deslocamento. Ela sorria o tempo inteiro e falava afetadamente com os presentes, muito cheia de si.
Definitivamente, Holmes não simpatizara com aquela mulher.
"Não, Marie, você não tem nada no coração." Comentou Watson, ao terminar de examiná-la em seu quarto.
Ela deu um de seus sorrisos esquisitos para Holmes e levou a mão ao seu crucifixo.
"Graças ao meu bom Jesus Cristo. Fiquei tão preocupada, Mr. Holmes, com a possibilidade de ter algo." Vendo que Holmes não dedicava-lhe muita atenção, voltou-se ao enteado. "Mas, John, e as palpitações que sinto?"
O médico abanou a cabeça e pôs a mão em seu ombro magro.
"Creio não ser nada além de sinais da idade, Marie."
Ela devotou-lhe um de seus sorrisos e saiu de seu quarto, murmurando algo sobre mandar tirarem as roupas do varal, pois ia começar a chover.
Holmes finalmente mexeu-se, encarando Watson com curiosidade.
"Diga-me, meu caro amigo, ela sempre foi hipocondríaca?" Perguntou, mexendo nas filas de remédios que repousavam dentro de uma portinha da mesinha ao lado da cama da viúva.
O homem mais velho fez que não com a cabeça e pôs-se a observar Holmes examinando os remédios.
"Mas... isto é morfina..." Murmurou, intrigado. "Fileiras e fileiras de morfina. Eu diria que a sua madrasta tem um vasto hospital aqui, Watson." Holmes praticamente riu com seu próprio comentário, mas notava-se sua seriedade.
"E eu diria que você não deveria estar mexendo nisso, Holmes. É a privacidade dela." Ralhou.
"Não, eu não deveria estar mexendo nisso. Você é quem tinha de fazer este 'trabalho sujo', Watson." Retrucou, sem se alterar.
"Eu?! Mas que disparate, Holmes!" Dito isto, o mais alto dos dois deu de ombros e afastou-se do armário.
"Se pensa assim..." Balbuciou, saindo do cômodo com um ar que só mostrava quando achava algo que considerava interessante.
O dia amanheceu ensolarado após a chuva da noite anterior e Mrs. Watson propôs uma xícara de chá no gramado.
Sentaram-se a uma mesinha no jardim dos fundos e uma criada idosa serviu o chá. Ela sorriu afetuosamente para Watson, em reconhecimento. Ante ao olhar inquisidor de Holmes, ele os apresentou.
"Holmes, esta é a Mrs. Montgomery, ela foi minha babá e do meu irmão mais velho quando tínhamos idade para ter uma."
Os olhos cinzentos dele brilharam ao encará-la.
"Suponho que seja alguém em quem os donos da casa devotam extrema confiança, não Mrs. Montgomery?" A velha pareceu encabulada com o comentário e olhou feio para Mrs. Watson, que bebericava seu chá.
"Na realidade, Mr. Holmes, sou só mais uma das empregadas da casa. E, a propósito, Mr. Holmes, tenho muitos afazeres para cuidar." Fez uma ligeira mesura e saiu.
Holmes olhava para cima, ignorando o estranho clima que se instalara com seu comentário, com o intuito de visualizar melhor a casa em sua totalidade. Foi quando a viu.
O susto foi tamanho que quase deixou cair a xícara de chá.
Foi apenas por um instante, pois ela tombou logo após o contato visual, deixando apenas a marca de sua mão tão magra no vidro fechado da janela. Um instante e nunca esqueceria os olhos azuis arregalados de medo, os cabelos castanhos fracos e desgrenhados, a pele amarelada esticada como um pergaminho por cima dos ossos sobressalentes.
Ele levantou de um salto, surpreendendo Mrs. Watson e seu enteado. Os olhos e a boca arregalada da moça eram claros pedidos de ajuda.
Todos o seguiram, atônitos, enquanto ele galgava as escadas. Tentou abrir a porta do quarto em que a vira. Estava trancada.
Ao virar-se para os demais, viu o rosto pálido da dona da casa.
"Talvez a senhora possa me explicar o que eu vi, Mrs. Watson. Quem é a moça que a senhora mantém trancada aqui? Quem é ela e por que não a mencionou antes?"
Ao ouvir essas palavras, Mrs. Watson desmaiou nos braços do enteado.
Alguns segundos depois, quando ela voltava à tona, estavam sentados no corredor. Holmes relutara veementemente em abandonar aquela porta até que pudessem socorrer a moça.
Mrs. Watson abriu a boca para falar, fraca. Os olhos verdes rodavam ansiosos ao redor, como um animal acuado.
"É uma longa história, Mr. Holmes. Longa e dolorida."
Com um movimento enfático, Holmes colocou-a de pé.
"Então, conte-me depois. Agora, devemos ajudar a moça desmaiada no chão do quarto, talvez até ferida com a queda." A mulher olhou-o confusa.
"Como assim, Mr. Holmes? Ela não tem forças para se levantar da cama há muito..." Balbuciou, tirando um cordão com uma chave como pingente do decote.
A chave abriu a porta e, como Holmes descrevera, a moça estava tombada no chão, próxima à janela.
"Mrs. Williams, Yan, corram aqui! Tragam a seringa!"
Holmes e Watson correram para o lado da jovem e o detetive sentiu-lhe o pulso.
"Está..." Ia completar com "viva", porém, viu Watson parado ao seu lado, olhando horrorizado para o quarto onde estava. "Céus, o que houve com você, Watson?"
"Este... Este quarto... O que esta mulher está fazendo no quarto de Lizzie, Marie? O que ela está fazendo aqui?" Perguntou ele, virando-se enfurecido para sua madrasta.
Holmes olhava a cena meio surpreso, meio preocupado, enquanto Mrs. Watson parecia em pânico e não parava de olhar para a porta.
"John... John, me escuta... Esta... Esta mulher que você vê aí... Ela é Elisabeth." Ele deu alguns passos fortes na direção dela, parecendo que ia bater-lhe.
"Como 'ela é Elisabeth'?! Como minha irmãzinha chegou a esse estado deplorável?!" Com medo do que pudesse acontecer, Holmes não agüentou mais e levantou-se, para segurar seu amigo. Marie deu um guincho como um animalzinho acuado.
"J-John... Depois que seu pai morreu, ela enlouqueceu... não aguentou a situação. Eu tentei controlá-la no começo, cuidava de seus surtos e, no resto do tempo, ela poderia continuar normalmente, mas os intervalos dos surtos foram reduzindo, ela foi ficando intratá-vel..." A mulher soluçava, enquanto lágrimas escorriam por seu rosto corado e não tão jovem.
"Então você passou a injetar morfina nela porque era mais fácil do que lidar com a sua dor?" Murmurou, com os olhos injetados de lágrimas.
Marie guinchou outra vez, apontando um dedo acusador para ele.
"Não venha me julgar, John! Você também não ficou para lidar com ela, para lidar com essa dor! Não sabe o que eu tenho passado! Não sabe como a morte do seu pai afetou minha vida!"
"Então você achou que já tinha problemas demais e decidiu destruir uma vida?! Fazem dezesseis anos, Marie! Dezesseis anos com ela trancada nesse quarto!" Holmes nunca tinha visto Watson explodir daquele jeito, nunca tinha visto nada que mexesse tanto com ele quanto essa situação.
Naquele instante, entraram no quarto uma senhora não muito mais velha do que Mrs. Watson e um homem alto e corpulento. A mulher, ruiva, portava em suas mãos uma seringa hipodérmica cheia de um líquido que Holmes supôs que fosse morfina. Quando os dois se aproximaram da pequena, que não devia medir mais do que um metro e sessenta, ela despertou subitamente e engatinhou para longe de seu alcance, gritando.
"NÃÃO! NÃO! NÃO ME TOQUEM! NÃO! POR FAVOR, NÃO!" Gritava e chorava, arranhando o próprio rosto em uma cena lamentável.
O homem corpulento, Yan, agarrou-a nos braços, descobrindo o local da injeção. Com isso, ela deu um grito agudo, que parecia de uma harpia. Debatia-se loucamente, tentando esquivar-se da seringa. A cena constrangeu os dois homens estranhos presentes, que não sabiam como agir.
Ao ver Watson, Elisabeth esticou como pode as mãos para ele, tentando alcançar-lhe.
"PAPAI! PAPAI, ME SALVA POR FAVOR, PAPAI! POR FAVOR! NÃO DEIXA ELES ME MACHUCAREM MAIS! NÃO DEIXA ELA ME MACHUCAR! NÃO CHEGA PERTO DELA PAPAI, POR FAVOR! POR FAVOR, PAPAI!" Watson ficou tão perturbado que virou o rosto e pressionou os olhos com os polegares para tentar conter as lágrimas.
A seringa encontrou seu alvo e Elisabeth olhou dessa vez para Holmes, com os olhos vazios, uma vez mais antes de desmaiar.
Saíram do cômodo, deixando a garota na cama. Mrs. Watson tremia da cabeça aos pés, histérica.
Watson saiu sem pronunciar uma única palavra, perturbado, e foi se trancar em seu quarto.
A mulher virou-se para Holmes, com o rosto distorcido, quase louca.
"Você. Se não fosse por você, nada disso teria acontecido. Não se meta nos assuntos da nossa família, Mr. Holmes. Isso é um aviso." Rosnou, afastando-se em seguida com Yan em seu encalço.
Normalmente, Holmes sorriria, presunçoso, mas, dessa vez, estava preocupado com Watson.
