O doutor John Watson estava terrivelmente abalado olhando para o espelho do quarto em que passara sua infância e adolescência. Não percebera como tinha tornado-se parecido com seu pai.

Não percebera que Elisabeth fora condenada a ser uma parte "esquecível" do seu passado. Não conseguia lembrar em que ponto a abandonara.

Marie estava louca, disso tinha certeza. Prendera Lizzie durante dezesseis anos em seu quarto em vez de tratá-la, de tentar salvá-la.

O autocontrole de que tanto sempre se orgulharam os ingleses caíra por terra naquela tarde. Principalmente o controle sobre sua própria dor.

Ouviu batidas em sua porta.

"Entre." Murmurou, lavando o rosto para acalmar-se.

Holmes entrou e, silencioso, sentou-se em uma cadeira próxima da janela. Após alguns segundos mantendo a ausência de diálogo, decidiu perguntar:

"Como pretende ajudá-la, meu caro doutor?"

Aquela pergunta o surpreendeu, não imaginava que Holmes fosse se oferecer a ajudá-lo a salvar Elisabeth, imaginava que ia ter de convencê-lo.

"Está claro que a simples idéia de Elisabeth estar acordada é um pesadelo para sua madrasta, Watson. Pedir-lhe educadamente que deixe você ficar com a guarda dela está fora de cogitação." Elucidou Holmes com um ligeiro sorriso.

"Do que está falando, Holmes?" Ainda relutava-se a encará-lo. Ainda não conseguira reconstruir-se após aquilo.

Toda vez que fechava os olhos, sua mente realizava a inevitável comparação de Elisabeth com aquela mulher que encontrara no quarto. Como sua pele rósea, seu corpo rechonchudo, seus olhos brilhantes e cachos macios se tornaram naquilo? Como sucumbira à loucura era uma pergunta fácil de responder, afinal...

"Eu suponho que ela presenciou a morte do seu pai, Watson. E suponho também que essa foi uma morte acidental, do contrário, todos teriam preparado o local de modo a não haver uma criança no recinto. Quantos anos ela tinha na época? Dez?"

"Seis anos." Balbuciou, tentando forçar as coisas a terem coerência dentro da sua cabeça.

"Seis anos... Bem, não vamos tocar neste assunto, certo? Vamos nos concentrar em como tirá-la da casa. Além de Mrs. Montgomery, quais criados são confiáveis nessa casa, saberia dizer?"

"Se Marie não tiver demitido-os e não tiverem morrido, temos Mr. Peterson, o cocheiro, Mme. Sauvignon, a cozinheira e Andy, o tratador de cavalos."

Holmes juntou as pontas dos dedos e reclinou a cabeça, pensando. Como seria bom se tivesse levado seu violino para lá! Tornaria tudo tão mais fácil...

"Bem, fale com Mrs. Montgomery e pergunte quais dos criados ainda trabalham aqui e se ela conseguiria facilmente posicionar a carruagem da família pronta para sair no portão principal amanhã, por volta das 23 horas."

Antes que Watson pudesse perguntar qualquer coisa, Holmes se levantou, disse boa-noite e fechou a porta.