Holmes viu, protegido pelas sombras, seu melhor amigo se aproximar da porta delicadamente trabalhada e acariciá-la, absorto em sua própria dor.

Era o quarto de Elisabeth. Ou do que restara dela.

O homem loiro suspirou, fazendo seu bigode estremecer, e se afastou da porta. Sherlock Holmes saiu do lugar onde estava também, não queria que o doutor soubesse que, enquanto estava investigando a localização de cada um dos cômodos daquela casa, o pegara em uma cena tão íntima.

Se perguntava como seu ingênuo doutor, incapaz de ferir uma mosca, fora capaz de deixar para trás sua irmãzinha. Talvez não tivesse cogitado que ela estaria em risco ao ficar sob a guarda de sua madrasta, talvez não se importasse naquela época. Quem sabe? Jovens são sempre inconsequentes.

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Na noite seguinte estavam todos a postos, como combinado com Mrs. Montgomery. Tão logo Mrs. Watson fosse dormir, eles destrancariam o quarto de Elisabeth com a chave mestra que a criada se encarregara de extraviar e a levariam embora. Sua dose de morfina da noite deveria bastar para ela não resistir ao resgate.

Ao abrir o quarto, tiveram uma surpresa desagradável: a enfermeira não se dera ao trabalho de esvaziar o urinol de Elisabeth, empesteando o quarto completamente com um cheiro nojento. Controlando-se para não vomitar, o investigador particular, o médico e a velha senhora dedicaram-se a tarefas diferentes. Watson abriu o armário da garota, na esperança de encontrar alguma roupa para colocar na mala que levaram até o quarto. Aparentemente, Marie se preocupava tanto com Elisabeth que esta não possuía nenhuma roupa além da camisola suja e surrada que usava todos os dias. Até os cães daquele lugar recebiam um tratamento melhor.

Já Mrs. Montgomery e Holmes enrolaram-na em seu cobertor e o detetive ergueu-a nos braços, esperando muito mais peso do que ela realmente tinha. A garota era simplesmente pele no osso. Nenhum seio, nenhuma carne, nenhum músculo. Sua pele doentia conferia-lhe um aspecto trinta anos mais velha, combinada com a ausência de bochechas e de elasticidade naquela pele.

Holmes depositou-a com cuidado no banco do coche, enquanto Watson dava instruções ao cocheiro de seguir para a plataforma de trem o mais rápido o possível. Mrs. Montgomery abraçou o médico uma última vez e murmurou em seu ouvido:

"Não se preocupe, tenho certeza de que, de lá do céu, seu pai o compreende e agradece o que está fazendo pela nossa pequena Lizzie. Pelo menos, nós os vivos, agradecemos e esperamos que o senhor consiga reacender o raio de sol que costumava dar sentido às nossas vidas."

Quando Watson entrou na carruagem, Holmes fingiu que arrumava os travesseiros da jovem e que não via as lágrimas que, com tanto esforço, seu amigo se preocupava em esconder.

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Chegaram a Londres e a moça ainda estava sob o efeito da morfina, o que fez Watson comentar, chocado, que a dosagem que lhe davam deveria ser enorme.

"Watson, onde essa garota vai ficar?" Perguntou Holmes, quebrando o silêncio dentro do coche. "Minha casa não é indicada, não tenho horários, sou um homem solteiro... E sua casa será o primeiro lugar que sua madrasta procurará por ela."

"Holmes, creio que, apesar de todas as suas argumentações, a sua casa ainda seja o melhor lugar para Elisabeth ficar por enquanto. Nesse momento, você não tem nenhum caso em andamento, o que quer dizer que poderá cuidar dela juntamente com Mrs. Hudson, e ela não existirá para o mundo por uns bons meses, então sua condição de solteiro não macularia a reputação de ambos. Eu confio em você, meu amigo, mais do que confio na minha relação com Mary." Holmes suspirou, derrotado. Ele poderia até ser o cérebro analítico para questões práticas, matemáticas, mas nunca entenderia a humanidade tão bem quanto Watson.

"Está certo, eu abrigo sua irmã." Antes que o outro pudesse esboçar um sorriso, ergueu um dedo em sua direção. "Mas... já vou lhe avisando que não entendo nada de mulheres e isso pode sair terrivelmente errado."

"Eu sei, Holmes. Você não precisa ficar com ela, se não quiser. Eu e Mary podemos dar um jeito. Até porque, ela não me parece ter contato com a civilização há muito tempo e, pela frequência e dosagem de morfina que lhe dão, deve ser viciada. Então não será nada fácil cuidar dela."

"Oras, Watson, até parece que para você seria mais fácil conciliar isso com o trabalho. Ou que a adorável Mary tem algum mínimo de paciência para assuntos como esse. Pode deixar, eu encaro isso como um caso, um desafio." Watson não sabia se ficava feliz com a prontidão de seu amigo ou se assustava ao ter a irmãzinha comparada a um quebra-cabeças.