A forma como Sherlock Holmes descobriu que o efeito da morfina havia passado em Elisabeth Watson foi através de seus gritos. E, naquele momento, o homem entendeu por um instante porque Marie houvera decidido calá-la com o medicamento. Mas não era um ser tão frio assim ou capaz de trair a confiança de seu mais estimado amigo. Seu único amigo.

Levantou-se às cinco da madrugada de sua cama, tudo bem, só dormira uns quinze minutos mesmo. Não fazia diferença. A quem estava querendo enganar? Em seus períodos de ócio, ficava incapaz de sobreviver à ausência de uma noite de sono.

Abriu a porta do outro quarto, e os gritos começando a fazer sentido.

"PAPAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAI! PAPAAAAAAAAAAAI! PAPAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAI!" Seu corpo todo tremia e ela se enroscava nos cobertores como um casulo. Sem saber o que fazer, ele simplesmente ficou parado à porta, encarando-a.

Entretanto ela não parou de gritar ante àquela aparição, apenas somou lágrimas aos seus gritos agudos e assustados. Holmes desejou ter aceitado a oportunidade que Watson lhe dera para recuar, na noite anterior. Mas agora era tarde demais.

Em questão de segundos, Mrs. Hudson batia à porta de entrada, apavorada com aqueles gritos. Holmes explicou-lhe em poucas palavras o que estava acontecendo e levou-a até o quarto para ver o estado da menina. A velha senhora quase começou a chorar ali mesmo ao visualizar cena tão deplorável.

"Mr. Holmes, vou preparar o desjejum para vocês dois. Ela deve estar faminta. Enquanto isso, o senhor pode preparar um banho para ela?" Os dois praticamente gritavam para se fazerem ouvir mutuamente acima dos uivos sofridos de Elisabeth.

"Eu?" Indagou, quase ultrajado.

"Por favor, senhor. Não estou pedindo-lhe para dar-lhe o banho, isso faço eu. É só providenciá-lo enquanto eu faço uns ovos e umas panquecas. Não acha que já estou sobrecarregada com essa loucura que o senhor inventou agora?" Sem dar tempo para resposta, ela saiu do quarto em direção à cozinha, deixando-o a sós com Elisabeth, que finalmente parara de chorar e o encarava como um animalzinho curioso.

"Ah, finalmente você cansou." Rosnou, ligeiramente irritado.

Ela encolheu-se mediante aquele tom de voz e fê-lo apavorar-se, com medo de outro ataque.

"Eu sou Sherlock Holmes, amigo do seu irmão John." Mas ela não esboçou reação nenhuma com a menção do nome do irmão do meio. "Aquela era Mrs. Hudson, nossa amiga." Holmes não falava com ela como se falasse com uma criança, falava com ela como se falasse com uma bomba prestes a explodir. "Eu vou preparar um banho para você e Mrs. Hudson foi preparar nosso café da manhã."

"... papai...?" A voz trêmula era totalmente infantil e isso o irritou profundamente.

"Não está aqui. Você fique quietinha aí enquanto eu vou até o banheiro e encho a sua banheira."

"... papai?" A menina insistiu e lágrimas voltaram a escorrer pelo rosto. Holmes decidiu que o melhor a fazer era simplesmente ignorar o ataque que estava por vir. Mas não veio ataque nenhum. Ela simplesmente se enfiou debaixo dos cobertores e ficou soluçando baixinho, atormentada por seus próprios demônios.

Holmes ficou encostado no portal do banheiro, esperando a banheira terminar de encher e observando a neblina do lado de fora, que cobria tudo. Mesmo na primavera, Londres não deixava de ser Londres.

Mrs. Hudson entrou no quarto com uma bandeja cheia de comida que depositou na cama que um dia já havia pertencido a um Watson e agora abrigava outra. A mulher não tocou o monte de cobertores que era Elizabeth, apenas disse:

"Pronto, pronto. Ninguém pode te machucar agora. Aqui nesse quarto nós temos Mr. Sherlock Holmes, o homem mais inteligente e bondoso de toda Londres. Na verdade, em bondade, ele só perde para o seu irmão, o Dr. Watson." Holmes entendia que Mrs. Hudson queria acalmar a garota, mas precisava mentir tão descaradamente? "Aliás, após tomar o café da manhã dele, Mr. Holmes vai sair e comprar roupas novas para você." Essa última frase a mulher disse por sobre o ombro e Holmes entendeu como uma ordem e sua deixa para sair. "Vamos querida, pode comer..."

Não ouviu mais nada depois daquilo. Apenas foi até o seu quarto e pegou algumas poucas libras. Afinal, comprar umas roupas de baixo, uma camisola, um robe e umas meias para uma garota não poderia sair tão caro assim. Talvez até lhe comprasse um vestido...

Quando chegou na loja de Olivia Hermann, que ficava naquele mesmo quarteirão, levou um susto enorme. Por que cobravam tão caro por aquelas coisas?! E quem diria que mulheres precisavam de tantos apetrechos e quinquilharias inúteis? Não. Não ia gastar todas as suas economias em coisas tão inúteis. Comprou apenas coisas essenciais e vestido nenhum. Aliás, comprar roupas íntimas femininas fez surgir um sorriso malicioso no rosto da vendedora. Parecia dizer "quem diria, Mr. Holmes..."

Ao chegar em casa de novo, encontrou Mrs. Hudson esperando-o à porta com as mãos nas cadeiras.

"Mr. Holmes, só isso?! E o que a menina vai vestir?!" Exclamou, olhando as coisas que comprara.

"Para quê, se ela não vai sair do quarto?" A mulher bufou com sua atitude blasé e correu para o quarto onde dormia agora Elisabeth.

Holmes deu-lhes alguns minutos e subiu também. Mrs. Hudson cortara os cabelos da moça bem curtos, tirando-lhe aquela juba imunda e emaranhada. E, agora, com um banho e um pouco de cor em seu rosto graças à comida, ela não parecia tão assustadora. Embora ainda fosse horrivelmente magra e os curativos que Mrs. Hudson tivera de fazer nela o lembrassem de sua condição.

"Olá, Elisabeth. Lembra-se de mim? Sou Mr. Holmes, lembra?" Ela agarrou Mrs. Hudson com força e medo, encolhendo-se contra o colchão.

"Vá embora. Você é amigo dela... Eu vi você com ela..." Sibilou, encarando-o com os olhos vidrados em loucura.

"Elisabeth!" Ralhou Mrs. Hudson. "Não fale assim com Mr. Holmes. Foi ele quem tirou você daquele lugar horrível, foi ele quem lhe preparou o banho e foi ele quem lhe comprou essas roupas novas e macias."

A garota correu seus olhos de um para outro rapidamente, tentando associar as palavras.

"Foi...?" Perguntou, estendendo a mão para ele.

Holmes fez que sim com a cabeça, temeroso de qual seria sua reação. Para sua surpresa, Elisabeth encarou-o com a mesma expressão que ele tinha no rosto. Como se não soubesse o que fazer.

"Bem, eu tenho muito trabalho a fazer, vou deixar os dois a sós." Holmes observou-a em desespero enquanto ela descia as escadas, resoluta de sua decisão.

A mulher de cabelos castanhos, agora curtos e espetados para todos os lados como os de um moleque, estendeu a mão para ele, como se quisesse que se aproximasse.

Holmes, hipnotizado, obedeceu e sentou-se na beira da cama, tendo sua mão agarrada pela moça.

"Canta para mim..."

"Cantar...?" Perguntou, surpreso. "Posso tocar para você?"

Ela virou de lado para encará-lo e Holmes perguntou-se como seus ossos suportavam.

"Depende... vai ter que sair daqui...?" A voz já começava a ficar embargada de sono.

"Vou..." Sherlock manteve o mesmo tom baixo para conversar com ela.

"Então, depois." E dormiu profundamente depois disso.