Porém, ela não dormiu muito, quando Holmes achava que ia ter um pouco de paz, ouviu um barulho de vômito seguido de choro baixo vindo do quarto dela.

"Mrs. Hudson, vamos precisar de panos e uma bacia!" Gritou para a escada, rezando para que ela ouvisse, antes correr para o quarto onde se abrigava Elisabeth.

Ao chegar lá, encontrou-a encolhida em um canto da cama, suando, tremendo, chorando e com a boca ainda suja de vômito. Encaminhou-se até o banheiro e molhou uma toalha, levando para ela e limpando sua boca com cuidado.

"Pronto, pronto. Não precisa ficar com medo de mim, eu não vou te machucar. Pronto, Elisabeth, pronto."

Ela foi falar, mas acometeu-lhe nova ânsia e vomitou de novo. Holmes segurou-a pelos ombros, para que não se desequilibrasse e voltou a gritar por Mrs. Hudson, que veio correndo com bacias e panos.

Elisabeth agarrou as mãos dele, que ainda seguravam seus ombros, com força e todo seu corpo tremia.

"Frio... tenho frio..." Balbuciou, entre as batidas da mandíbula.

Holmes colocou uma das mãos em sua testa, sentido-a fervendo de febre.

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Elisabeth passou os dias subsequentes tendo febres altas, vomitando e tremendo muito. Segundo Watson, que ainda não conseguira um horário vago para visitá-la, esses eram sintomas decorrentes da crise de abstinência e que passariam em pouco mais de uma semana, podendo voltar sem aviso.

Já os pesadelos eram recorrentes e Holmes já não sabia mais o que fazer para consolá-la. Estava fora de cogitação passar a noite com ela em algum dos quartos, mas ela só dormia se ele ficasse ali, lhe segurando a mão e, em algumas noites quando se encontrava mais cansado, acabava dormindo na cadeira mesmo, com a cabeça recostada sobre o colchão dela.

Aquela noite não foi diferente das outras, Holmes dormia quando começou a ouvir os gritos de Elisabeth em seu quarto, às quatro da manhã. Nunca entendeu por que ela sempre acordava às quatro da manhã. Nem um minuto a mais, nem um minuto a menos.

Quando entrou no quarto, ela engatinhou até a beirada da cama para ficar mais perto dele, chorando. Holmes sentou-se na mesma cadeira ao lado dela e esperou que Elisabeth fizesse o que sempre fazia, balbuciar coisas ininteligíveis e agarrar sua mão, tremendo, até pegar no sono novamente.

Dessa vez, ela agarrou-o pelo pescoço e enfiou seu rosto na curva de seu ombro, soluçando.

"Ele chamou meu nome dessa vez... Eu desci as escadas e ele estava lá, em uma poça de sangue, dizendo para que eu fosse embora... Mas eu não posso ir embora, Mr. Holmes, não posso deixá-lo ir embora..."

Sherlock não entendia bem a dor que Elisabeth sentia. Mesmo porque nunca chegara a conhecer seu pai, que abandonara sua mãe com ele no ventre e Mycroft ainda uma criancinha. E, mesmo quando a mãe morrera há dez anos atrás, não sentira toda essa dor imensa que consumia a sanidade da mulher em seus braços.

"Elisabeth... foi só um sonho... só um sonho... ele está morto há dezesseis anos... dezesseis anos... não há nada que você possa fazer." Ele disse aquelas palavras com o intuito de apaziguá-la, fazê-la parar de chorar, mas ela apenas o empurrou e saiu da cama, tentando correr para fora do quarto.

O que não surtiu muito efeito de fato, já que ela não aguentou o próprio peso no sexto ou sétimo passo e tombou no chão, agarrando a cabeça com as mãos e balançando o corpo para frente e para trás, como que para esquecer as palavras que ouvira.

Sherlock levantou-se da cadeira e foi ajudá-la a voltar para a cama, porém Elisabeth empurrou-o com ódio.

"Vai embora daqui! Vai embora daqui!"

Como normalmente era de seu feitio, o homem de fato foi embora. Nunca lhe apetecera muito a ideia de ajudar alguém que não queria de modo nenhum sua ajuda. Saiu do quarto e largou-a chorando naquele canto do cômodo, onde Mrs. Hudson encontrou-a na manhã seguinte.

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Ele não tinha o menor intuito de visitar o quarto naquele dia. Afinal, Elisabeth poderia agir como uma criança, mas não seria ele que a trataria como uma. Não mais do que já a tratava.

Sentia-se realmente indignado. Abrigava-a em sua casa, acordava todas as noites para fazer-lhe companhia, cuidava de suas crises, ia ler em seu quarto ao invés de ler na sala, ainda não pegara nenhum caso, decidido a dedicar-se a cuidar dela integralmente e era assim que ela o tratava? Estava certo era antes, quando não permitia que mulher alguma entrasse na sua vida de jeito nenhum.

Puxou o violino e começou a tocar, sequer percebendo que ela se aproximava, usando as paredes como apoio.

"Mr. Holmes..." Chamou em um sussurro, respirando ruidosamente com o esforço. Era a primeira vez que saía de seu quarto desde que chegara lá.

Sherlock finalmente notou-a e virou-se, depositando o violino cuidadosamente no chão ao lado da poltrona.

"Sim, Elisabeth?" Perguntou, olhando-a segurar-se no parapeito da janela. Estava surpreso como seu corpo era frágil.

"Por que... o senhor não veio me ver... hoje...?" A cada pausa, inspirava com força, como se todo o ar da sala não lhe bastasse.

Sherlock subitamente deu-se conta de que ela não tinha posto o robe sobre sua fina camisola para a primavera e o verão. As formas angulosas de seus ossos projetavam-se sob o tecido, fazendo-o lembrar de suas caveiras nos laboratórios de Cambridge.

"Porque eu não acho que mereça ser tratado como fui ontem por você, Elisabeth. Você não é mais criança, as pessoas não perdoam facilmente. Se quer que os outros gostem de você, terá de ser minimamente tratável." Achou que ela fosse chorar, mas apenas andou até a poltrona dele e sentou-se no chão aos seus pés.

"Me perdoa." Murmurou, abraçando seus joelhos e calmamente recostando a cabeça neles. Holmes ficou surpreso com aquele movimento de intimidade. Elisabeth o incomodava com toda a sua magreza, seus cabelos curtos demais, sua ausência de civilidade e aquela incapacidade de manter distância física.

Porém seus grandes olhos de um azul brilhante lembravam-no Watson, permitindo que o ato de olhar para ela não lhe fosse tão incômodo.

"Claro que perdoo." Sussurrou, passando uma das mãos por seus cabelos.

"Toca para mim." Mentalmente, enquanto pegava o violino, Sherlock anotou que deveria ensiná-la a pedir em vez de ordenar. Mas não agora, nesse exato momento, o peso morno de sua cabeça em seus joelhos e a audiência muda e atenta de seu recital desviavam-lhe a atenção para o fato de que não deveria tê-la perdoado tão facilmente só porque ela tinha se arrastado de seu quarto até a sala para vê-lo, só porque ela queria ouvi-lo tocar.