Duas semanas depois de sua chegada, Elisabeth já começava a circular pela casa e Mrs. Hudson achou que era de bom-tom dar-lhe um vestido pois não cabia a uma moça de vinte e dois anos andar pela casa de um homem solteiro de camisola. Sherlock comprou um vestido de verão. Disse que, no inverno, compraria outro para ela.
"Vovô viu a... a uva." O homem entrou em casa e foi recebido com aquela frase. Elisabeth estava sentada à escrivaninha.
Dois dias atrás tinha insistido que Holmes lhe ensinasse a ler e a escrever para que ela pudesse entender o que diziam os jornais com os quais ele passava tanto tempo quando estava em casa. Sendo assim, ele lhe redigiu uma lista das letras do alfabeto e dedicou algum tempo ensinando-lhe as suas combinações sonoras.
No dia seguinte ao pedido, voltou para casa com uma cartilha, alguns maços de folhas, lápis e canetas para ela.
No exato momento em que ele se aproximava para ver seus progressos, ela chupava a ponta da caneta e seus dedos se encontravam sujos de tinta preta. Elisabeth podia estar aprendendo a escrever, mas não tinha a menor noção de comportamento, estando sentada na cadeira com um dos pés sobre o assento e toda curvada sobre o papel.
Holmes pigarreou, fazendo-a largar a caneta e se virar. Já percebera que ela não sabia sorrir – e nem era ele o melhor exemplo para ensiná-la – mas seu rosto iluminou com sua presença no cômodo.
"Mr. Holmes... o senhor voltou mais cedo do que eu esperava..." Ela correu as mãos sem jeito pelos cabelos, tentando arrumá-los um pouco.
"É meia-noite, Elisabeth. Ia ficar acordada a noite inteira me esperando?" Aproximou-se dela e puxou seus ombros para trás e empurrou seu pé desnudo para o chão, delicadamente.
A garota aprendera rápido de Sherlock não era um grande fã de demonstrações de afeto físicas, então apenas ajeitou o vestido, sem abraçá-lo como fazia nas primeiras semanas.
"Não, senhor. Eu... eu estava praticando..." E lhe mostrou um papel tomado de garranchos que Holmes deduziu que ela pretendia que fossem letras. "...e me distraí com a hora. Não sabia que era tão tarde."
Holmes deu um meio sorriso irônico e puxou a cadeira dela para trás, fazendo-a se levantar.
"De qualquer forma, Elisabeth. Não deveria estar acordada até tão tarde, senão perderá o café da manhã e não acordará a tempo de receber seu irmão amanhã. Ele vem visitá-la." Enquanto falava, ia guiando-a para seu quarto.
"Ele vem...? O J-John vem...?" E corou profundamente, dessa vez não de prazer, mas de vergonha pelo que havia acontecido na última visita de Watson, uma semana atrás.
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Uma semana depois da chegada de Elisabeth à Baker Street 221B, o médico arrumara um horário em sua agenda para vê-la, diziam Holmes e Mrs. Hudson, mas Elisabeth não entendia por que precisava de um médico, estava tão bem daquele jeito.
E ele chegou e ela reconheceu-o imediatamente, seu bigode estava diferente, mas que importância isso tinha?
Deu graças adeus por Mrs. Hudson ter penteado o seu cabelo pela manhã e posto uma fita neles, assim não pareceria tão mal diante dele. Sentiu seu coração palpitar loucamente, as bochechas ficarem coradas, os olhos encherem de lágrimas e sua boca se contorcer em um sorriso, coisa que nunca acontecia. Estava ainda mais agitada do que quando Holmes tocava para ela.
"PAPAI!" Finalmente ele viera. Ela sabia que não tinha chamado por todos esses anos por ele em vão. E ele estava ali, diante dela, sorrindo e abraçando-a. Pelo menos até ela gritar por ele.
"Não, Lizzie. Não." Ele murmurou, afastando-se dela. Mas ela se agarrou novamente a ele. Não queria que ele se afastasse nunca mais. "Eu não sou o papai. Ele está morto, Lizzie. Sou o John, seu irmão."
Com essas palavras, ela se afastou, olhando para ele em desespero. Como alguém poderia dizer algo tão horrível assim com aquela calma?
"O... quê...?" Ficou encarando-o por uns segundos. "Por que está dizendo isso, papai? Eu não tenho irmãos..." Com essas palavras, o homem loiro à sua frente pareceu desmontar diante dos seus olhos.
"Lizzie... você não se lembra de mim...? Não se lembra de mim ou de nosso irmão mais velho?" Ela se encolheu contra a cabeceira da cama ante àquelas palavras.
"Eu não tenho irmãos! Por que está fazendo isso comigo?! PAPAI! PAPAI!" Watson tentou tocar seu braço, porém recebeu um tapa de presente. "VÃO EMBORA DAQUI! EU QUERO O MEU PAI! PAPAAI!"
O médico foi embora, arrasado, murmurando que voltaria em breve.
Mas ela não ligava. Apenas queria ser deixada quieta em seu canto, soluçando e mordendo a fita que arrancara de seus cabelos. Não podia ser verdade, de jeito nenhum que aquilo poderia ser verdade. Ele não morreria, não a deixaria sozinha. Ele nunca a deixaria sozinha...
Então, contra sua vontade, a porta do quarto se abriu e, entre as lágrimas, Elisabeth viu Sherlock se aproximar, fumando seu cachimbo e olhando-a com repreensão naqueles olhos cinzentos. Estava encrencada.
"Sabe, além de mim e do Dr. Watson, você não tem mais ninguém no mundo sem ser sua madrasta. Você já tem vinte e dois anos, Elisabeth. Deveria pensar um pouco mais. Se não quer voltar para aquele lugar imundo do qual te tiramos, deveria ser menos intragável." Dito isso ele saiu sem nem olhar para trás.
Como ela o odiava! Odiava sua frieza, odiava como ele sempre fazia questão de lembrar-lhe que ela estava ali de favor, que ela dependia dele. Odiava seu cheiro de tabaco e as entradas pouco acima de suas têmporas naquele cabelo negro. Odiava seus ternos, odiava como ele lhe empurrava aquela tal "civilidade". Como o odiava!
Mesmo assim, odiava ainda mais seu coração estúpido, que insistia em dar saltos dentro de seu peito quando ele aparecia de noite para acalmá-la de seus pesadelos e odiava quando seu sangue decidia martelar dentro de suas orelhas quando ele tocava seu violino na sala.
Pensando nisso, dormiu.
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Mas naquela noite, enquanto trocava de roupa e deitava-se na cama, pensava que nunca conseguiria odiar Mr. Holmes em tempo integral. Não sendo ele a primeira pessoa a ser boa para ela desde seu pai. Então decidiu-se, no dia seguinte se arrumaria o melhor possível e o trataria da forma mais amável que conhecia. Tudo para deixar Mr. Holmes satisfeito com ela.
Acordou de manhã bem cedo e não saberia dizer o porquê. Sentada à janela da sala, viu o sol nascer e a temperatura esquentar até o xale em que estava enrolada tornar-se dispensável.
Não pensava em nada especificamente, apenas olhava as ruas londrinas com cobiça, querendo fazer parte daquilo também. Viu as pessoas acordarem, o cheiro de pão invadir as ruas, os moleques começarem a vender o jornal, as crianças brincarem nas calçadas, as carroças passarem... Viu tudo e quis estar lá. Olhou para a porta, levantou-se e tocou-a a medo, olhou para o quarto de Mr. Holmes. Não poderia fazer isso... Para onde iria? Como ele ia ficar quando acordasse? E Mrs. Hudson? E o seu... irmão?
Afastou-se da porta e da possibilidade de liberdade. Elisabeth não sabia naquele momento, mas esta estava trancada. Olhou para aquela sala. Vazia, não fazia o menor sentido. Não que ela mesma contasse como alguém ali. Sempre fora um fantasma.
Com a ponta dos dedos, acariciou o veludo da poltrona em que Sherlock costumava sentar-se e observou que havia outra ao lado desta, mais perto da lareira, mas ainda perto o bastante dele. Por que manter aquela poltrona ali, naquele lugar descabido? Virou de costas para a outra poltrona, quase com ciúmes, e voltou-se para a original.
Aproximou o rosto do estofado, dava para sentir o cheiro doce de tabaco impregnado ali... Elisabeth sorriu e sentou-se defronte ao móvel, recostando a cabeça na almofada e pegando novamente no sono. Dentro de sua cabeça, Sherlock tocava no violino algo que ele lhe apresentara como Beethoven.
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E foi ali que ele a encontrou, dormindo recostada na poltrona com um sorriso nos lábios. Não sabia dizer se era só ela ou se todas as mulheres da face da Terra eram esquisitas daquele jeito.
Sacudiu seu ombro delicadamente, chamando seu nome. Ela acordou e, ao ver quem a sacudia, arregalou seus grandes olhos azuis com o susto e corou furiosamente como uma criança que é pega comendo biscoitos antes do jantar.
"Elisabeth, seu irmão chega daqui a pouco. Vamos, venha tomar café."
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Nota da autora:
Minha primeira nota desta fic. Espero que estejam gostando dela, demorei um bocado para postá-la por medo mesmo. Nunca imaginei que esta fiction fosse ter audiência (por causa da pouca fama de fictions de Sherlock Holmes) e minhas expectativas foram confirmadas. De qualquer forma, agradeço aos que estão lendo.
Athena: eu não sei bem dizer quando surgiu essa ideia e espero que esteja se divertindo.
Goldfield: Você já conhecia o plot desta história, espero que esteja correspondendo às suas expectativas.
Uma recomendação aos que estão lendo: acho que tem uma música que combina perfeitamente com a Elisabeth e vocês deveriam ouvi-la. É "Wishing you were somehow here again" do "Fantasma da Ópera".
Beijos,
Nii
