Nota da Autora: Por distração, publiquei o capítulo anterior com "...lhe apresentara como Beethoven." Foi uma ignorância da minha parte. Beethoven não compôs peças para violino. Substituam por Mendelssohn.

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O doutor sentou-se à mesa junto com seu amigo detetive e os dois olhavam-se em um silêncio incômodo. Sherlock não ousava dizer que a irmã caçula dele causava um terrível transtorno à sua rotina e à sua vida como um todo e John, por sua parte, travara ao tentar confessar que tinha ciúmes da devoção que Elisabeth tinha por ele, conforme lhe dissera Mrs. Hudson.

Esperavam, na verdade, pelo motivo de tamanha confusão. Problemática ou não, Elisabeth era mulher e, como mulher, demorava a se arrumar.

Quando há muito já tinham desistido de travar uma conversa informal e Holmes lia o jornal enquanto Watson tomava sua sagrada xícara de chá, Elisabeth entrou na sala.

Ambos ficaram impressionados como o vestido que seu irmão mandara a ela especialmente para aquele dia lhe caíra bem. O rosa claro atenuava sua palidez e, graças à alimentação rigorosa imposta por Mrs. Hudson, ela estava menos magra.

Não que Elisabeth ficasse bonita, na opinião de Holmes, mas chegava perto. Para o seu gosto, ela tinha olhos grandes demais e o cabelo muito curto. Era muito magra e não sabia portar-se. Embora não pudesse reclamar de seu comportamento naquela manhã.

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Sabia que era uma regra de etiqueta evitar olhar nos olhos de quem falava consigo, porém não era por isso que Elisabeth Watson não dirigiu o olhar ao irmão nem uma vez. Queria evitar uma cena, queria evitar lágrimas em seus olhos caso ele se parecesse tanto com seu pai quanto lembrava-se.

"Lizzie, estou surpreso com a sua mudança. Com seu bom comportamento. Não imaginava que Holmes pudesse lhe ensinar tanto... Acredite, minha querida, virei buscá-la para morar comigo e minha esposa assim que for possível." Nesse momento, ele colocou uma das mãos sobre a mão dela que repousava na mesa.

Não acostumada com o toque de ninguém além de Mrs. Hudson, Elisabeth sobressaltou-se.

Olhou para ele por um instante, mas tornou a baixar os olhos rapidamente, lembrando-se de sua decisão. Sequer conseguiu registrar suas feições direito.

Menos mal, ficava apenas a voz suave martelando em seus ouvidos.

Em algum grau, ele percebeu seu desconforto e mal lhe dirigiu a palavra novamente. Também podia sentir o peso do olhar de Holmes sobre si e, em alguns momentos, ousou olhá-lo para confirmar suas suspeitas, dando de cara com sua expressão grave e nem um pouco disfarçada do que fazia.

Será que não tinha conseguido agradá-lo dessa vez?

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Finalmente ele fora embora. John Watson vinha visitando-a todos os domingos há dois meses e uma semana, contando com aquele.

A moça levantou-se da cadeira onde tomara seu café da manhã, totalmente rígida, e foi para seu quarto, cabeça baixa e olhos distantes. Ele vinha reparando que aquelas visitas de seu amigo faziam a Elisabeth mais mal do que bem.

Bateu à porta do quarto. A voz suave dela veio de dentro dizendo para que entrasse.

"Eu queria entendê-la." Começou, de pé e a encarar o topo de sua cabeça – Elisabeth lia um livro. "Por que detesta tanto quando seu irmão está aqui?"

Ela deu de ombros e virou uma página.

"Não detesto quando John me visita." Sherlock não ia corrigi-la dizendo que mentia muito mal, era perda de tempo.

"Ah, ainda bem. Porque você vai morar com ele." A castanha ergueu o rosto do livro bem rápido, completamente apavorada.

"Por quê?"

O detetive não podia dizer que era porque não se deram bem, afinal, não era verdade. Quanto mais o tempo passava, mais Elisabeth se interessava por seu trabalho e chegava a fazer alguns questionamentos pertinentes quando ele lhe narrava algum caso. Não que ela acompanhasse-os de perto, de jeito nenhum. Afinal, era uma mulher, extremamente sensível e irmã caçula de seu melhor amigo. De jeito nenhum que ia arriscá-la ou ao seu trabalho.

Não, não tinha nada a ver com Elisabeth. Ou melhor, tinha tudo a ver com Elisabeth. Como Holmes já tinha deixado claro anteriormente, não era cabível para a sociedade vitoriana que um homem e uma mulher morassem juntos sem serem casados ou possuírem laços de sangue e sua relação ser casta.

Tentou explicar isso a ela sem que soasse ofensivo, mas Elisabeth ainda não era exatamente uma pessoa racional.

"O que tem de tão extraordinário em você ser homem e eu mulher, Mr. Holmes? O que toda a gente tem com isso? Não fazemos nada de errado, todos sabem disso." Contra-argumentou Elisabeth, fechando o livro e erguendo-se da cama.

"Que toda gente, Elisabeth? Quem é toda essa gente que você conhece? Eu, seu irmão e Mrs. Hudson? Não conta, minha cara." Se algo a irritava era quando Holmes falava didaticamente consigo. Não era retardada, ele não precisava usar aquele tom. "Quando conhecer o mundo real, conversamos sobre o que as pessoas podem achar ou não."

Elisabeth não tinha mais o que dizer. Contraiu os lábios e caiu sentada na cama, sentindo o peito se retorcer. Seu coração sempre se retorcia daquele jeito quando olhava para seu bem-feitor. Não sabia bem que desejo era aquele, não sabia exatamente o que queria do grande detetive Sherlock Holmes. Definitivamente, queria tocá-lo...

Ela achava que não, mas Holmes a decifrava como a um livro aberto. Os olhos azuis contraídos, os lábios crispados... Ia pagar por aquela desfeita, certamente. O mais provável era que Elisabeth passasse alguns dias sem falar com ele direito até passar todo o rancor. Pelo menos era o que achava até sua expressão mudar novamente. Ela sentou-se e pareceu prender a respiração, suas pupilas dilataram consideravelmente e o rosto ficou ainda mais pálido. Não... não era possível... Aquilo nos olhos de Elisabeth era desejo? Se o fosse melhor que ela partisse quanto antes, se não, também era urgente sua partida, afinal, era ele quem estava buscando sinais na inocente irmã de Watson.

"Tenho que ir trabalhar." Disse, simplesmente, e fechou a porta atrás de si.

Não podia ser, não podia ser.

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Dentro do quarto, Elisabeth apertou os olhos com as mãos, seu pulso tinha disparado loucamente, a visão estava borrada, estava tonta, a pele tinha se arrepiado, mesmo sentindo-se estranhamente quente. E o que era aquele enjoo, afinal? Seria sua crise retornando?

"Mr. Holmes!" Gritou, chorosamente, sentindo-se começar a entontecer.

Em menos de dez segundos ele já escancarava a porta, pronto para cuidar dela, sempre preocupado com seu bem-estar.

"Elisabeth, o que está sentindo?" Quando ele segurou-a pelos seus braços, tudo piorou. Por alguns instantes, ela achou que fosse desmaiar.

"Mr. Holmes, acho melhor eu ir mesmo para a casa de meu irmão." Balbuciou.

"Por que diz isto, garota?" Se tinha uma coisa que ele detestava, era quando Elisabeth começava a delirar.

"Porque o senhor me deixa doente."