Entre ela e seu captor havia móveis e uma barreira de chamas, correu à porta. Não que tenha dado certo, estava trancada. Mas Elisabeth tentou transpô-la mesmo assim, esmurrando-a e gritando por socorro.
Ao notar que Yan não desistiria facilmente de seu plano, Elisabeth chegou à conclusão de que era melhor desistir daquele caminho. Olhou para o lado. O banheiro. Sua prisão era o único lugar possível. Não havia outros cômodos naquela casinha.
Yan reparou isso também, mas chegar até o banheiro, para ele, significava transpor muito fogo. Elisabeth não se virou para trás para checar qual tinha sido a decisão de homem tão cruel para salvar-se, apenas entrou no banheiro, quase se jogando, e trancou a porta.
Estava mais ou menos segura, afinal, chamas não respeitam portas trancadas e, logo, o ar estaria irrespirável. O que seu pai tinha lhe dito a respeito de incêndios...?
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Foi o Sargento Williams que a encontrou desacordada naquele banheiro alagado, envolta em toalhas encharcadas e completamente ferida. Mesmo coberta de fuligem e sangue, ele pode ver as maçãs do rosto salientes, os olhos redondos, a pele cor de creme, o queixo fino e as mãos delicadas. Foi quando notou também o vestido elegante – mesmo rasgado – e pensou que nunca teria chance com ela.
Fora da casa em chamas, ao lado da ambulância, a noite de primavera seria agradável não fosse o cadáver semi-carbonizado de um homem que a
Embaixada Russa identificou como Jaroslav Kundera, um assassino e estelionatário que desaparecera dos limites do Império Russo há dezenove anos. Isso e a ambulância carregando a moça, não identificada, até o hospital. Quem era a coitada?, se perguntava Bill Williams enquanto tragava seu cigarro.
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Elisabeth acordou com muita sede e, para a sua felicidade, havia um copo de água em uma mesa de cabeceira que não era sua. Tentou alcançá-lo e percebeu que seu braço esquerdo estava imobilizado. Ah, a queda.
Usou o direito para servir-se e, ao se virar, encontrou os olhos azuis muito escuros de uma mulher que nunca tinha visto em sua vida.
"Bom dia, Lizzie." Entoou ela, abrindo as cortinas. Que lugar era aquele? "Vejo que acordou bem hoje." Hoje?
"Onde estou?" Perguntou, surpreendendo-se com a rouquidão da própria voz.
"Ah." Ela fez. E parou de andar pelo quarto. "Vejo que ainda não tão bem assim."
Elisabeth subitamente sentiu medo daquela estranha de rosto afilado.
"Onde eu estou?" Repetiu a pergunta, apertando as mangas daquela que não era a sua camisola. Onde estava a que Mr. Holmes lhe dera?
A mulher sentou-se ao seu lado na cama e tocou seu joelho com a ponta dos dedos, em um afago. Elisabeth se encolheu. A estranha suspirou.
"Esse é o seu novo quarto, estamos na casa de John, seu irmão. Eu sou Mary, a esposa dele." Seu tom era lento, mas com uma inconfundível nota de impaciência.
"Mas... e o que Mr. Holmes disse sobre ser perigoso? E Yan? E Marie-Louise?" O coração batia forte contra as costelas. Nunca mais o veria no desjejum? Não o esperaria voltar do trabalho? E Mrs. Hudson não faria mais tranças em seu cabelo? Engoliu o choro.
"Hm... Isso não existe mais, Lizzie. O homem que você conheceu como Yan era Jaroslav, um procurado da polícia russa, e morreu. E Marie-Louise está desaparecida desde aquela noite."
A garota parou uns minutos para tentar entender.
"Espera... você disse 'aquela noite'? Não foi ontem? Como minha língua não está doendo?"
"Elisabeth," Mary começou bem devagar "você está aqui há duas semanas."
Lizzie congelou.
"Duas... semanas...? Estou dormindo há duas semanas?" A outra mulher negou com a cabeça.
"Não, Lizzie. Você acorda quase todo dia." Parou um minuto antes de prosseguir. "Uns dias bem, outros mal. Em alguns dias você tem febre, não come nada, só vomita e chora o tempo inteiro." Era difícil de entender.
"O quê? Por quê?" Interrompeu-a.
"Te deram morfina naquela noite." Ah. Fazia sentido. Baixou a cabeça. "Em outros, como hoje, você acorda bem disposta. Senta, conversa, come. Só que nunca tem ânimo para sair do quarto."
"E... eu recebo visitas?" Ele viria visitá-la, não viria? Claro que viria.
"Geralmente passamos o dia só nós duas. Quando John pode, fica conosco." Havia algo de rancor na voz, mas Elisabeth não captou inteiramente o que era.
"E..." Perguntava ou não? "...E Mr. Holmes?"
"Que tem ele?" Perguntou a loira, passando geléia em uma torrada que estava na bandeja enorme de café-da-manhã que Mary trouxera para ela.
"Ele... Ele vem me ver?" Sentiu o rosto empalidecer com a lembrança de seus dedos longos, manchados com queimaduras de ácidos variados.
Mary mordeu de leve o lábio inferior e ficou um longo momento encarando-a em silêncio.
"Não." Respondeu, por fim, mordendo a torrada sem nenhuma sombra da tensão de segundos atrás. "Ele está fora do país a trabalho e, quando estava na Inglaterra, não tinha tempo de vir te ver." Será que ela sabia o quão cruel estava sendo? Olhou-a fixamente, estudando-a como já vira Mr. Holmes fazer com outras pessoas. Sabia. "Sabe quem vem te ver? Um rapazinho da sua idade, Sargento Williams. É uma gracinha, foi ele quem te salvou do incêndio. Ficou tão preocupado... Claro que eu suponho que esse seu rostinho lindinho tem a ver com essa preocupação toda." Trinou.
Elisabeth não queria saber de mais nada. Mr. Holmes não tinha tempo para vê-la. Passou o dia sentada na cama, repassando os meses em que morou com ele.
//
Elisabeth acordou com muita sede e, para a sua felicidade, havia um copo de água em uma mesa de cabeceira que não era sua. Ao pegá-lo, notou cicatrizes em suas mãos. Lembrava-se de cortar-se com a porcelana, mas isso não fazia sentido.
Ao se virar, encontrou os olhos azuis muito escuros de uma mulher que nunca tinha visto em sua vida.
"Bom dia, Lizzie." Entoou ela, abrindo as cortinas. Que lugar era aquele? "Vejo que acordou bem hoje." Hoje?
"Onde estou?" Perguntou, surpreendendo-se com a rouquidão da própria voz.
"Ah." Ela fez. E parou de andar pelo quarto. "Vejo que ainda não tão bem assim."
Elisabeth subitamente sentiu medo daquela estranha de rosto afilado.
"Onde eu estou?" Repetiu a pergunta, apertando as mangas daquela que não era a sua camisola. Onde estava a que Mr. Holmes lhe dera?
A mulher sentou-se ao seu lado na cama e massageou as têmporas. A estranha suspirou.
"Esse é o seu novo quarto, estamos na casa de John, seu irmão. Eu sou Mary, a esposa dele." Seu tom era lento, mas com profundamente impaciente.
"Mas... e o que Mr. Holmes disse sobre ser perigoso? E Yan? E Marie-Louise?" O coração batia forte contra as costelas. Nunca mais o veria no desjejum? Não o esperaria voltar do trabalho? E Mrs. Hudson não faria mais tranças em seu cabelo? Engoliu o choro.
"Isso não existe mais. Yan morreu. E Marie-Louise sumiu desde então."
A garota parou uns minutos para tentar entender.
"Espera... você disse 'desde então'? Não foi ontem? Onde estão meus cortes?"
"Elisabeth," Mary começou bem devagar "você está aqui há mais ou menos um mês."
Lizzie congelou.
"Um... mês...? Estou dormindo há um mês?" A outra mulher negou com a cabeça.
"Não, Lizzie. Você acorda quase todo dia." Parou um minuto antes de prosseguir. "Às vezes bem, às vezes mal. Às vezes você tem febre, não come nada, só vomita e chora o tempo inteiro." Era difícil de entender.
"O quê? Por quê?" Interrompeu-a.
"Te deram morfina naquela noite, disso você deve lembrar." Sim. Lembrava. Baixou a cabeça. "Em outros você acorda bem, como hoje. Senta, conversa, come. Só que nunca quer sair do quarto."
"E... eu recebo visitas?" Ele viria visitá-la, não viria? Claro que viria.
"Geralmente passamos o dia só nós duas. John dificilmente fica conosco." Havia, definitivamente, rancor em sua voz.
"E..." Perguntava ou não? "...E Mr. Holmes?"
"Que tem ele?" Perguntou a loira, mordiscando um biscoito amanteigado que viera na bandeja de café-da-manhã que Mary lhe trouxera.
"Ele... Ele vem me ver?" Sentiu o rosto empalidecer com a lembrança de seus ombros largos mexendo suavemente enquanto tocava o violino.
Mary a olhou de forma intranqüila e, quando falou, estava exasperada.
"Não." Terminou de comer o biscoito e limpou as mãos na saia. "Ele não tem tempo para te ver." Será que ela sabia o quão cruel estava sendo? Olhou-a fixamente, estudando-a como já vira Mr. Holmes fazer com outras pessoas. Sabia. "Sabe quem te visita? Sargento Williams, foi ele quem te salvou do incêndio e ficou tão preocupado... Claro que esse seu rostinho lindinho tem algo a ver com tanta preocupação. Ele é um ótimo partido, viu Lizzie?" Trinou. "Uma gracinha de rapaz."
Elisabeth não queria saber de mais nada. Mr. Holmes não tinha tempo para vê-la. Passou o dia sentada na cama, repassando os meses em que morou com ele.
