Se dirigiu à casa ampla e iluminada onde moravam seu melhor amigo e as duas mulheres da vida dele. Holmes ansiava por ser ele mesmo a contar-lhes que o pesadelo tinha terminado. Graças a ele.
A criada abriu a porta e, convidando-o a esperar, informou que seu senhor e a patroa haviam saído rapidamente para visitar um amigo, Dr. Doyle, mas que já estariam de volta. Elisabeth estava em casa, informou.
"...Mas está dormindo, Mr. Holmes, coitadinha, teve outra crise." Sherlock sentiu raiva, afinal, Elisabeth tinha melhorado antes de toda aquela confusão para piorar de novo. "O Dr. Watson acha que é a tensão."
E não disse mais nada, voltando para a cozinha. Holmes presumiu que fosse o medo de Marie-Louise voltar a atacá-la. Tão logo acordasse, lhe contaria o ocorrido, assim ela poderia dormir tranquila, finalmente.
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Elisabeth acordou com fome. Bom sinal, o enjoo tinha passado. Considerando que estava sozinha com Dolly e Pearl em casa, não tirou a camisola, apenas jogando o roupão por cima, sem amarrá-lo, e foi para a cozinha.
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Passado um quarto de hora lendo o jornal, Holmes ouviu passos no corredor e fechou-o, erguendo a cabeça. Elisabeth estava parada no umbral que ligava o corredor à sala. Usava uma camisola diferente da que havia lhe dado, era mais fresca. Claro, estavam no verão, absolutamente esperado. Mas algum quase-pensamento que passou por sua cabeça e que não conseguiu identificar fez a boca de seu estômago se contrair.
"Mr. Holmes?..."
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"...O que faz aqui?" Havia estacado ao vê-lo sentado em seu sofá. Fechou o roupão rapidamente, sentindo o rosto empalidecer e a respiração ficar rasa. Na verdade, o que queria mesmo perguntar era: "por que não veio antes?" ou dizer: "tive tanto medo...", mas foi o orgulho que falou naquele momento.
E o tempo passou em câmera lenta quando ele se mexeu, quando dispôs o jornal com as folhas elegantemente arrumadas antes de falar. Ele era tão metódico... E se levantou, arrumou a camisa, correu os dedos pelos cabelos. Elisabeth queria ficar olhando-o para sempre. E queria também que ele fosse embora para nunca mais voltar.
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Aquela frieza o surpreendeu. Elisabeth nunca fora exatamente efusiva, mas tanto distanciamento era demais. O aperto no estômago irradiou pelo tórax. Se mexeu um pouco para ganhar tempo, arrumou o jornal, ficou de pé.
"Você está bem? Digo, está se dando bem na casa do seu irmão?" Não queria responder naquele momento, queria ter certeza de que ela estava feliz antes.
Elisabeth abriu e fechou a boca pequena algumas vezes. Puxou o cabelo para trás da orelha, sorriu. Sorriso pequeno, discreto. Tímido. Só então reparava o quão tímida era a moça.
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"Estou. Mary é muito boa para mim." Seu estômago resmungou baixinho, ainda tinha fome, mas não queria tirar os olhos dele, não queria se afastar.
"Mas a que devemos sua visita? Não estava trabalhando, Mr. Holmes?"
"Não exatamente. Eu estava procurando Mrs. Watson. Ela está presa agora, Elisabeth."
Por um momento Lizzie ficou confusa. Ele estava falando de Mary? Então piscou algumas vezes e tudo fez sentido.
"Estamos... Estamos falando de... da minha madrasta?"
"Estamos."
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Ela contorceu todo o rosto, fazendo um esforço enorme para não chorar. Não conseguiu. As lágrimas saíram com força e o rosto ficou vermelho de tanta força que Elisabeth fazia para conter os soluços. Pôs a mão na frente da boca, tentando calar-se, mas a violência do choro aumentava a cada segundo. Um choro alto, de alívio.
Holmes se aproximou e puxou as mãos que apertavam o rosto em formato de coração, tentando acalmá-la.
"Acabou, Elisabeth. Acabou." Foi nesse momento que ela abraçou-o com força, tremendo descontroladamente e sem parar nem um momento com as lágrimas e os uivos.
"Eu tive tanto medo... Tanto medo... Por que... você não veio antes, Sherlock? Por que você me deixou sozinha...?" Ele não conseguia corresponder ao aperto ou responder às perguntas, apenas queria que aquele contato físico que o deixava desconfortável acabasse.
Delicadamente, empurrou-a pelos braços, cortando a intimidade.
"Você agora está segura, pode dormir em paz, garota." E tentou sorrir, ignorando a cena de segundos atrás e ignorando que seu sangue pulsava com força nas orelhas.
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Elisabeth tomou consciência do que fizera e sentiu vergonha. Sentia vergonha de demonstrar seu afeto de mão única por ele. Esquecera de que Holmes era um iceberg.
Na verdade, nunca lhe passou pela cabeça se perguntar por que ele dedicara um mês a caçar de forma febril aquela que lhe fez tão mal ou por que ele se importava tanto com ela. A seu modo, mas se importava. Elisabeth não entendia ainda as sutilezas da alma do detetive.
"Obrigada." Murmurou, enxugando as lágrimas no roupão. Choraria muito mais depois, mas não mais em sua frente. "Obrigada, Mr. Holmes, nunca poderei agradecer o bastante."
Ele olhou para a janela, interessado em algo lá fora. Agora só queria que ele fosse embora.
"Creio que veio ver meu irmão, não é mesmo, Mr. Holmes?"
"Sim, sim." Respondeu, distraído. Por que ele não a olhava enquanto estavam se falando?
"Acho que John irá se demorar na casa do Dr. Doyle... Eu dou o recado que você veio e ele te procurará." Disse, tentando imitar a firmeza educada de Mary.
Dessa vez ele a olhou, surpreso. Será que tinha sido ríspida?
"Você está passando mal, Elisabeth?" Perguntou, preocupado. Não, não tinha sido ríspida, ele só viu o que queria acreditar e achou que Elisabeth não estava bem.
"Estou com um pouco de dor de cabeça, Mr. Holmes. Gostaria de ficar sozinha e não queria deixá-lo aqui na sala sem companhia. Não insista, por favor." Ele ficou ainda mais surpreso e não contestou.
"Dolly!" A criada apareceu quase que imediatamente. "Leve Mr. Holmes até a porta e me providencie um chá, por favor. Até logo, Mr. Holmes, e muito obrigada, de novo."
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Holmes deixou a casa dos Watson, confuso. Que Elisabeth era aquela? Ela não estava passando mal, estava expulsando-o. Quando aquela garota se tornara tão voluntariosa?
Voluntariosa e bonita, uma voz estúpida completou em sua cabeça. Não era bonita, retorquiu o ego de Holmes, ela apenas o desafiava.
E, conforme caminhava pelas ruas, um sentimento adormecido brotava nele: luxúria. Correu as mãos pelos cabelos e olhou para o chão ao perceber que não tirava os olhos dos colos femininos. Que embaraçoso! Um homem de trinta e quatro anos portando-se como um adolescente! Inferno de garota que o botava fora dos eixos!
Em casa, recorreu ao uísque para ver se o desejo que lhe apertava as roupas passava. Não passou. Ao contrário, uma vez alcoolizado, começou a pensar com quem se aliviar, ao invés de como ignorar a situação.
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A porta da alfaiataria Hermann estremeceu com as batidas pouco amigáveis que recebia. E, ao abrir a porta, Olivia não pode esconder o espanto.
"Chuck, o que faz aqui?" Sussurrou, esquecendo-se até de que não eram mais amigos para ela utilizar seu apelido íntimo.
"Ajude-me, Liv. Preciso de você, agora." Rosnou o homem, entrando sem ser convidado.
Ela não se surpreendia com esse comportamento, mas assim já era humilhante, afinal, já fazia um bom tempo que eles sequer falavam-se.
Não que isso fizesse a menor diferença para ele, que já havia galgado a escada e adentrado o apartamento. Olivia seguiu-o, temerosa, mas com uma ponta de expectativa.
Quando ele acercou-se de sua presença, apertou-a contra si lascivamente, mordendo-lhe o pescoço. A austríaca gemeu de prazer, sem estar totalmente certa se queria aquilo. Porém, quando os ágeis dedos de violinista dançaram em suas costas, as dúvidas se foram e restou só a carne.
Não chegaram à cama. Na verdade, desde que começaram aquele estranho relacionamento dos dois, só deitaram-se uma vez na velha cama do casal para nunca mais. A viúva não tinha o hábito de macular o leito matrimonial com seus amantes.
Tudo foi muito intenso, quase bruto, e sem nenhum sentimento além do desejo. Quando terminaram, Sherlock rolou para o lado e começou a se vestir. Olivia acendeu um cigarro.
"Chuck," chamou-o, ao que o detetive indicou com um meneio de cabeça que ouvira "procure ela." Com essa frase, ele virou-se para encará-la, verdadeiramente surpreso.
"Ela quem?"
"Eu não sei," respondeu a austríaca, dando de ombros "talvez a mulher cujo nome você não parou de balbuciar enquanto fazíamos sexo." Neste ponto, o detetive suplantou o homem, assim como a curiosidade suplantou o decoro.
"E que nome foi?" Olivia sabia que não havia uma só gota de cinismo naquela pergunta, quando verdadeiramente se envolvia no ato, Sherlock apagava algumas de suas reações durante o mesmo.
"Liz." Ele crispou os lábios ao ouvi-lo. "E não, meu caro, não foi Liv. Primeiro porque eu ainda escuto bem e segundo porque você nunca murmuraria o meu nome involuntariamente, Chuck."
Depois dessa, Sherlock levantou-se grosseiramente e se despediu, apressado, saindo em seguida.
