Elisabeth estava sentada na sala de visitas, bordando um lenço para John quando Pearl veio avisar-lhe que Frau Hermann viera para o chá.
Assim que a austríaca pisou na sala, Elisabeth pousou o bastidor na mesinha de centro e ficou de pé para saudá-la como vira Mary fazer tantas vezes.
"Boa tarde. Finalmente me deu o gosto de sua presença, senhora." Sorriram amavelmente uma para a outra e Elisabeth indicou-lhe que sentasse ao seu lado no sofá.
"Sinto não ter podido comparecer antes, mas mês passado estava cheia de encomendas, Miss Watson."
"Por favor, me chame de Elisabeth, Frau Hermann." Pediu a inglesinha, depositando sua mão sobre a da outra e provocando um riso surpreso nela. Curto, porém franco. Exatamente como a dona.
"Nesse caso, Elisabeth, tenho de pedir que me chame de Olivia."
"Por quê?" Quem se surpreendeu dessa vez foi a mais nova.
"Porque não é de bom-tom que só uma das metades seja chamada pelo prenome, parece que você é criança ou que eu sou sua superior, Elisabeth." Explicou, didaticamente, a loira. Lizzie teve de concordar, mesmo isso fazendo-a sentir-se incomodada.
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Dolly serviu o chá preto com torradas acompanhado de biscoitos amanteigados, geleia de laranja e cascas de laranja cristalizadas, sentaram-se no jardim, aproveitando o belo dia do lado de fora.
Elisabeth estava embevecida como Olivia era independente, madura, segura de si. Não era uma devassa, mas sim uma mulher livre, que amou a penas seu marido e não sentiu mais necessidade de um companheiro quando ele morreu.
Olivia, de sua parte, se encantou pela pureza e vivacidade de Elisabeth, a garota era inteligente, sempre querendo saber o porquê de tudo, e a mulher lamentou viverem naquele tempo e naquele local onde Elisabeth tinha tão poucas perspectivas de crescimento intelectual. Mas John era um homem de alguma cultura e, neste ponto, Olivia tinha de admitir: ele estava dando muitas oportunidades de liberdade e experimentação à irmã.
E foi daquele encantamento mútuo que surgiu, mais tarde, um laço mais profundo do que a amizade e que, por vezes, se manifestava de modo análogo à paixão. Elisabeth teria em Olivia a outra metade do seu modelo de mulher ideal (a primeira metade era Mary, mas faltava-lhe algo. Do ponto de vista da cunhada, Mary era ortodoxa demais, submissa demais) e isso, combinado com o temperamento expansivo e envolvente da boêmia judia, resultou em uma atração irrefreável por seus gostos e ideias. Olivia seria sua heroína assim como Mary ocupara o posto vago de sua mãe.
Para a outra, o relacionamento seria menos descomplicado. Por, inclusive, ser mais consciente e livre em relação à sua sexualidade, seu amor por Elisabeth beiraria o carnal. Ela depositaria na garota todas as suas expectativas, as suas carências, a sua não-realização como mãe, como irmã e como filha. Aquela jovem seria, sem o saber, a primeira mulher com a qual Olivia se daria bem na vida. A primeira pessoa que a amaria sem pedir nada em troca e sem precisar tocá-la. Olivia, até então, só se dera bem com homens e todos os que se aproximavam um pouco mais terminavam dormindo com ela. Elisabeth seria aquela que lhe mostraria que o amor não precisa do sexo para existir.
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No começo da noite, John e Mary chegaram, trazendo Holmes para o jantar. Ele ria, descontraído, ao conversar com o casal Watson, até que viu as duas sentadas na sala. Empalideceu instantaneamente. Olivia retribuiu ao seu olhar severo e tornou-se rígida, apreensiva.
Mas Elisabeth não percebeu assim o movimento dos dois, pensou que Sherlock olhara para ela e ainda estava magoado pela vez em que ela o expulsou da casa, alegando dor de cabeça. Pelo menos ele estivera muito estranho no último mês, mais frio do que o normal. Elisabeth estava bordando em segredo um lenço com as suas iniciais (até que ela bordava bem, em comparação com a sua escrita, era um gênio) para tentar se redimir.
"Boa noite, Frau Hermann, Lizzie..." Saudou John, amável como sempre. Embora estivesse feliz com a visita da salvadora da irmã (e esperava sinceramente que ficassem amigas para que ela tivesse com quem conversar e passear), estava temeroso com a forma como Mary reagiria, uma vez que já se expressara claramente contra essa aproximação "Mary, pode avisar a Dolly para colocar o prato de Holmes na mesa?" A esposa lançou um último olhar severo para Elisabeth e foi para a cozinha.
"Ah, Olivia, quer ficar para o jantar?" Perguntou a moça, empolgadíssima com a ideia. O estômago de Holmes afundou uns três centímetros, só vira Elisabeth ficar excitada assim quando ela soube que iam à estreia d'O Fantasma da Ópera. E, como se não bastasse, afundou um pouco mais ao se lembrar de tudo o que acontecera naquela noite e depois, por causa dela.
"Não posso, sinto muito, mas é impossível. Tenho um sarau hoje daqui a pouco," Neste ponto olhou com intensidade nos olhos de Holmes "Liz." E voltou a mirar a pequena, já amável de novo. "Quem sabe um dia eu não te levo comigo?" Nisso, Mary, que entrava na sala, riu com sarcasmo.
"Acho que não seria aconselhável para a reputação de uma moça frequentar esse tipo de lugar." Olivia estreitou os olhos por um breve momento e depois relaxou, levantando-se.
"Bem, tenham uma boa noite e um ótimo jantar, adeus." Elisabeth levantou-se de um salto, indo atrás dela.
"Espere, eu a acompanho até a rua!" Holmes reparou também como Elisabeth se ocupara com sua visita e mal o olhara e reparou como ela estava relaxada, corada. Na presença de Olivia ela ficava feliz, não se retraía toda e nem empalidecia por não respirar.
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"Eu fico esperando o coche com você, Olivia." A loira sorriu.
"Não, não seria bom, Elisabeth. Volte para dentro, não queremos que pegue um resfriado." Ela ia contestar, mas teve o raciocínio interrompido pela voz firme de Holmes vinda de suas costas.
"Sim, Elisabeth, volte para dentro que eu fico aqui fazendo companhia para Frau Hermann." Elisabeth virou-se rapidamente, pronta para contestar os dois (tão rapidamente que as trancinhas que usava chicotearam seu rosto, fazendo-a sentir-se ridícula), mas viu a intensidade com que Holmes fixava Olivia, a ponto de sentir seu estômago escorregando pelas pernas de ansiedade. Não conseguiu dizer mais nada e saiu, murmurando boas-noites.
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"Pronto, Chuck, ela já fechou a porta, pode falar." Olivia tirou um cigarro de seu velho estojo pintado com uma cena de valsa vienense em cores vivas e borradas, ao estilo impressionista, que um ex-namorado seu dera-lhe de aniversário e acendeu-o com um fósforo vulgar. Tragou lentamente e deixou a fumaça escapar com displicência.
Holmes permaneceu alguns momentos em silêncio, tentando não permitir que a presença de Olivia turvasse o seu raciocínio.
"O que você está fazendo aqui, Hermann? O que quer dessa vez?" Rosnou por fim. Olivia riu baixinho, tragando mais uma vez antes de respondê-lo.
"Ah, agora eu voltei a ser 'Hermann, a austríaca devassa, judia e malvada que partiu o...'"
"Não desconverse! Responda objetivamente à minha pergunta: o que você quer rondando a família deles? Quer arrastar Elisabeth para o buraco que você cavou para si mesma?" Ela o enervava até o último fio de cabelo e Holmes só não estava aos berros por considerar tal atitude patética e inútil.
"Eu só acho curioso, Chuck," Ela jogou a bituca no chão e pisou-a com a com a ponta do sapato. "que, há um mês, eu fosse 'Liv' de novo e, agora, porque eu mexi com 'Lizzie', voltei a ser 'Hermann'."
Holmes franziu a testa com rancor e desprezo. Não só por ela, mas por si mesmo, por ser tão fraco quando se tratava de Olivia.
"...ou, talvez, eu devesse dizer 'Liz'." Provocou, sorrindo de forma sardônica e exibindo todos os seus dentes.
Foi a vez de Holmes começar a rir, desagradável. Olivia cerrou o rosto, esperando o bote. Ela era uma das pessoas que mais conhecia e entendia Sherlock.
"Eu sabia que você não ia deixar isso passar em branco. Você não mudou nada mesmo, Liv." Nisso o coche que Pearl chamara para Olivia já surgia no fim da rua, trotando suavemente. "Deixe-me ser bem claro com você, Hermann: se não quiser problemas pessoais comigo, se afaste de Elisabeth. Porque se alguma coisa acontecer com ela por sua causa, eu caço você até o fim do mundo como fiz com a madrasta dela. Eu prometi ao Watson que cuidaria dela e você não está imune a isso."
Olivia fez um meneio de descrença com a cabeça e virou-se para subir no coche. Parou, antes de pisar nas escadas, virou para ele, suspirou e deu-lhe um adeus suave com os dedos.
"Até logo, Chuck." Sentia falta dele, sentia falta de Saul.
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Holmes ficou alguns minutos na rua, se recompondo até perceber que estava com mais fome do que raiva e vergonha e entrou na casa.
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Não é um fragmento essencial à história, leitor(a), se quiser, pode pulá-lo, mas eu sempre quis descrever o lar dos Watson em Londres.
Era uma casa pequena, branca e simpática de três andares e jardineiras nas janelas. O primeiro andar era composto pelo vestíbulo anexo ao corredor principal que abria para a esquerda, a direita e desembocava no fim da casa, numa porta de acesso à sala de jantar – que também servia como ateliê das mulheres e era onde estava a escada para o segundo andar.
Falemos da primeira porta que os visitantes viam: era estreita e da mesma cor da fachada, com pequenas folhas entalhadas na madeira do umbral, e abria para a sela de visitas, um cômodo todo em verde e dourado, íntimo e acolhedor, com duas poltronas que convidavam seus ocupantes a se esticar e ficar mais um pouco. Esta sala possuía duas janelas com cortinas de cambraia branca bordadas por Mary, uma delas tinha margaridas na jardineira e abria para o minúsculo jardim, com uma boa vista do portão de perro torcido que fechava elegantemente a propriedade dos Watson e a outra, sem jardineira, dava para os arbustos floridos do "jardim lateral" (esse nome era um eufemismo para a estreita faixa de terra entre a parede e a cerca viva, onde Mary plantara arbustos de rosas). O chão dessa sala era acarpetado, tornando-a ligeiramente desconfortável nas horas quentes de verão, apesar de ser um cômodo arejado. Além das poltronas e da mesinha de centro, o único móvel do cômodo era uma estante de madeira nobre que guardava os poucos romances de Elisabeth, os livros narrando as aventuras de Holmes e Watson e os meigos bibelôs de Mary.
A segunda porta que se via no corredor era um pouco adiante da primeira, à direita. Dava para o território da fiel Dolly, com seus temperos e cheiros intensos, herdados da miscigenação da fé muçulmana (seu pai) com a cultura hindu (sua mãe). De frente para a porta ficava o grande armário de madeira clara que comportava a louça comum e, bem ao seu lado, a pia larga e brilhante. O meio do cômodo era ocupado por ma ampla mesa-bancada onde Dolly podia preparar os ingredientes das refeições. O fogão era bojudo e funcionava a lenha como todos os outros fogões da época – a pilha de toras secas ficava ao lado da fossa, no quintal. A despensa era um pequeno armário de quatro portas, recheada por potes de canela, pimenta e grãos. O quarto de Dolores e Pearl tinha acesso pela cozinha, mas ninguém da casa além das duas entrava lá.
A última porta era também a mais interessante, pois atrás dela estava a belíssima sala de jantar com seus móveis modernos e seu piano-armário de madeira clara. Essa sala tinha o formato de um L invertido, sendo mais curta à direita e o braço mais longo – que descia contornando o corredor – à esquerda. Ao entrar no cômodo, a primeira coisa que se via era a escada para o segundo andar e, um pouco à esquerda dela, as grandes portas de vidro que abriam para o quintal. Essas portas forneciam praticamente toda a iluminação necessária ao cômodo, porém, como se não fosse o bastante, ainda havia mais duas janelas, ambas viradas para o jardim lateral. Os móveis eram, além do piano, a mesa de jantar retangular (quase quadrada) de madeira cor de caramelo e seis cadeiras rodeando-a que faziam parte do conjunto que ocupava a quina do cômodo, próximo às portas para o quintal. Havia também um mimoso divã de estofado cor de creme com pequenas flores de todos os tipos que ficava ao lado do piano, para costurar, repousar ou ouvir a música e, por último, a robusta cristaleira envidraçada que guardava a louça dos dias de festa e ficava perto da mesa, encostado na parede contígua à das portas.
Subindo as escadas, chegava-se ao minúsculo cômodo enfeitado com duas aquarelas de temas campestres feitas pela mãe de John e que abria para os dois amplos quartos de dormir, o escritório onde o médico trabalhava em casa e o quarto de banho.
Comecemos pelo segundo menor cômodo – o banheiro nem vale a pena ser descrito, posto que lá houvesse apenas um cesto de roupas, uma pia e uma banheira com chuveiro – o escritório de Watson. Era realmente pequenino, com apenas uma janela voltada para a rua, e nele cabia com alguma folga a ampla escrivaninha voltada de costas para a janela, com sua grande cadeira estofada atrás e uma cadeira menor e menos confortável à sua frente, e, junto à parede ao lado da porta, uma alta estante abarrotada com os livros de trabalho de Watson. Creio que o único detalhe desse cômodo que realmente vale a pena ser mencionado é a pequena pintura ovalada que John encomendara que fizessem de Mary e que ele mantinha em sua mesa, dentro de uma moldura de madeira trabalhada.
O quarto do casal era o maior cômodo do andar, ocupado principalmente pela larga cama de casal feita em madeira sólida. Ao seu lado havia uma mesinha com a jarra de água e, um pouco mais à direita de um observador vendo da porta, uma janela que, na verdade, era uma porta e abria para uma varandinha com vista para a macieira e próxima a do quarto de Elisabeth, separadas apenas por uma muretinha em forma de grade e cinquenta centímetros para uma queda de livre de alguns metros. Dentro do cômodo, havia ainda a penteadeira de Mary, de madeira clara e bancada praticamente vazia – com apenas um vidro de perfume, uma bíblia, um terço, pouca maquiagem e uma pequenina caixinha de joias – e o armário de John e o baú de roupas de Mary.
O quarto de Elisabeth era ligeiramente menor que o outro, possuindo a mesma varandinha perto da mesinha com água ao lado da cama de solteira, só que espelhado. A moça não possuía uma penteadeira, sua escrivaninha ampla de madeira pintada de branco funcionava também como tal. Ao lado da escrivaninha havia um espelho de corpo inteiro, não que Elisabeth passasse muito tempo se mirando, mas Mary achou que seria bom para quando ela saísse – como se Elisabeth tivesse alguém para sair com ela. Além da escrivaninha, havia apenas o pequeno armário dela e um biombo decorado para que se vestisse atrás dele.
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Pronto leitor(a), acaba aqui a parte descritiva, agora você já pode respirar aliviado(a) e voltar para a história.
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Holmes encontrou Mary com uma expressão profundamente contrariada, olhando pela janela lateral mais próxima ao piano, onde Elisabeth estava sentada com John, praticando uma canção que havia aprendido com a professora. O irmão não tinha quase nenhuma desenvoltura e, mesmo tendo aprendido a tocar o instrumento quando era bem pequena e não tendo nenhuma oportunidade de tocá-lo nos últimos dezesseis anos, Elisabeth demonstrava muito mais graciosidade e ouvido musical, já movimentando os dedos pelas teclas com alguma rapidez. Sherlock sorriu, reconhecendo a melodia e aprovando a escolha da moça.
"Para Elisa?" Perguntou, aproximando-se silenciosamente e se divertindo muito ao ver ambos errarem a nota com o susto.
Ela olhou-o, um pouco aborrecida e um pouco curiosa com todo aquele tempo em que ele passara lá fora, supostamente com Olivia.
"Sim, Beethoven é o favorito do meu professor. E me agrada bastante." O moreno não pode ocultar sua surpresa.
"Professor? Achei que estivesse tendo aulas com Mrs. Carter." Elisabeth corou ligeiramente com o questionamento e não respondeu, deixando Holmes ainda mais irritado sem entender o porquê.
"Bem, Holmes, Mrs. Carter já é uma senhora de idade e ficou doente, por isso, seu filho Ronald passou a dar aulas para Elisabeth em seu lugar." Mary respondeu pela cunhada. "É um homem muito educado e achei honroso manter o compromisso da mãe conosco, mesmo trabalhando exaustivamente na Orquestra Londrina."
"E ele precisava escolher justo essa música para ensinar a você, Elisabeth? Parece que ele a está cortejando, caso não saiba." Retorquiu o detetive, praticamente ignorando Mary.
Dessa vez, Elisabeth virou-se para ele, muito séria, quase ofendida.
"Por favor, Mr. Holmes, ele é um homem muito educado..." John cortou-a, tentando encerrar a discussão.
"Além disso, Holmes, ele tem trinta e três anos."
"Bem, não entendo o que isso prova, ele é mais novo do que nós, Watson." Finalmente ele saiu um pouco da postura agressiva, tentando arrebanhar o amigo em sua linha de raciocínio.
"Mais novo do que vocês ou não, Holmes, ela ainda é onze anos mais nova do que ele, uma criança." Encerrou Mary, aproveitando para alfinetá-lo um pouco.
Holmes não conseguiu pensar em um modo de contrargumentar sem expor seus pensamentos pouco decentes a respeito da irmãzinha de seu melhor amigo, então se calou e foi para o jardim fumar, enquanto esperava Dolly e Pearl terminarem de servir o jantar. Elisabeth ainda olhou para as costas dele por alguns segundos, mas voltou a tocar, intrigada com as reações estranhas do Grande Detetive.
