O verão ia embora conforme setembro se aproximava e Elisabeth lembrava como admirava na infância a beleza da mudança de cor operada nas folhas. A macieira pouco a pouco parou de dar frutos e foi embranquecendo, depois amareleceria. O mundo era belo e o piano, seu melhor amigo. Mesmo com toda a inteligência de Holmes, ele estava enganado sobre o professor de música. Mr. Carter estava noivo e profundamente apaixonado por uma dama da orquestra. Miss Elisabeth Eliot tocava harpa e, segundo seu enamorado, parecia um anjo translúcido.
Paralelamente, Olivia continuava visitando sua jovem amiga quando Elisabeth não podia encontrá-la em Paddington ou em algum parque. A loira gostava cada vez mais da pequenina e o afeto era retribuído, senão em igual proporção, ao menos intensamente. Se bem que Elisabeth nunca poderia amar Olivia tanto quanto a austríaca iria amá-la, ela tinha outras pessoas a amar, afinal, e Olivia só tinha a si.
Já era meados de setembro quando Elisabeth finalmente foi convocada para depor na Scotland Yard. Ela encontrava-se apavorada, com medo de não conseguir fazer entenderem sua inocência e parar na forca. John também estava apreensivo, tinha medo de não conseguir proteger novamente sua irmãzinha das intempéries do mundo. Logo os dois irmãos e seu advogado – Elias Thompson, um sujeitinho com cara de rato – entraram na sala, o inspetor responsável pelo caso levantou-se para cumprimentá-los.
"Miss Watson, finalmente nos conhecemos. Sou o inspetor Jordan e, creio que vocês já se conhecessem, este é o meu assistente, o sargento Williams." Ela não deixou de encará-lo nem quando fez um pequeno aceno com a cabeça, concordando. O inspetor não pode deixar de se perguntar se já havia visto um olhar tão severo...
Elisabeth sentou-se, tentando não transparecer o nervosismo e o medo, e engoliu em seco. John olhou-a em seguida e apertou-lhe a mão por baixo da mesa, incentivando-a a ter força.
"Creio que a senhorita sabe porque estamos aqui, Miss Watson." Começou o inspetor.
"Para falar da morte de Yan... Jaroslav." Ela sentia-se atrapalhada, aquela sala era apertada e pouco confortadora.
"Sim... Esta é a oportunidade que a senhorita tem de me convencer de que é inocente, Miss Watson."
"Mas eu não sou inocente." Interpelou-o, Elisabeth, colocando as mãos unidas no colo e erguendo o queixo. "Não nego que sou a responsável pelo incêndio que matou Jaroslav. Nunca neguei." O policial Williams a encarava, surpreso com a aparente frieza do que ele pensava ser a mais adorável assassina que já vira, mas já fora admitido pelos outros policiais da corporação que as pessoas surpreendem, principalmente as belas, jovens e bem-nascidas.
Todos passaram alguns segundos em silêncio, inclusive o estupefato advogado, esperando que a mulher concluísse seu raciocínio. Finalmente, depois de um profundo suspiro, ela voltou a falar.
"Só que a morte não foi intencional. Sou culpada pelo incêndio, mas inocente do assassinato, inspetor."
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Saíram da delegacia no fim da tarde e John deixou Elisabeth em casa antes de seguir para o trabalho. O inspetor ficara chocado com o depoimento da moça, com todos os detalhes da fatídica noite e das torturas que ela passara em sua juventude. Segundo o advogado, o caso provavelmente seria arquivado como legítima defesa, embora eles ainda tivessem que esperar outros depoimentos que corroborassem a sua versão, como o de Marie-Louise e, ainda segundo o advogado, seria interessante ter o de Holmes também – afinal, argumentou Mr. Thompson, ele fora a primeira pessoa de fora da família a vê-la e era uma pessoa de destaque na sociedade inglesa, cujo depoimento teria crédito.
Ela se jogou, exausta, em uma das poltronas da sala de estar. Ainda bem que era sexta-feira e, depois do trabalho, Olivia iria se resguardar para o shabat porque ela não queria receber visitas. Naquele dia, não se sentia disposta a receber ninguém. Depois do longo relato contendo as lágrimas, estava com uma dor de cabeça aguda e, aparentemente, pouco disposta a abandoná-la tão cedo. Abandonou o livro que começara a ler, as letras pequenas só estavam piorando o seu estado, e levantou-se para ficar jogada na grama do quintal como gostava de fazer nos momentos de modorra.
A grama começava a ficar sem viço e quebradiça, dando mostras da força do outono que chegava, fazendo Elisabeth lamentar que, em breve, se despediria do calor agradável que agora preenchia todas as partes de seu corpo em contato com a terra acalentadora.
Depois de vinte minutos de bem-vindo silêncio, Pearl veio incomodá-la em visível agitação.
"Miss Watson, Miss Watson!" Chamou a garotinha, sentando-se na grama ao lado dela. Elisabeth tirou do rosto a mão que cobria seus olhos e a encarou, entediada. "Há um homem em frente a casa há algum tempo, olhando a casa sem esboçar nenhuma intenção de se anunciar. Ele parece tão desolado, o pobre..."
A senhorinha levantou seu tronco, subitamente curiosa, apoiando-se nas mãos. Quem poderia ser? questionou-se, com o coração batendo à boca. Tinha também um pouco de medo misturado à já dita curiosidade naquela ansiedade toda.
"E você já o viu antes, Pearl?" A menina confirmou com a cabeça antes de responder.
"Algumas vezes, senhorita. Embora eu não saiba seu nome." E parou para pensar um pouco, compenetrada. "A primeira foi quando ele veio avisar ao Doutor que a senhorita estava viva e tinha sido encontrada entre os escombros da casa, teve outra há uns meses, quando a senhora Mary o enxotou daqui. E isso sem contar com todas as vezes que ele vinha vê-la quando estava desacordada ou tonta no primeiro mês em que esteve aqui, senhorita. Ele é policial, não é?"
Essa descrição surpreendeu completamente Elisabeth. Não fazia o menor sentido aquele rapaz estar visitando-a...
"E qual é a cor do cabelo dele?"
"Muito ruivo, senhora." Realmente, não fazia sentido nenhum ele estar ali.
Elisabeth levantou-se, espanando a terra da roupa e correu para a sala de estar. Mary já estava lá, espiando entre as cortinas. Quando a cunhada entrou no cômodo, ela virou-se, com um sorriso traquinas e satisfeito nos lábios.
"Eu sabia!" Gemeu a loira. "Sabia que ele tinha ficado encantado com esse seu rostinho lindo, Lizzie! Ninguém viria quase todo dia falar com uma desorientada por simples cumprimento ao dever." Elisabeth empurrou delicadamente a cunhada e espiou também.
Era o sargento Williams, como ela tinha imaginado, que estava rondando a calçada da casa dos Watson. Será que ele realmente tinha ido até lá cortejá-la? Elisabeth sentiu um pouco de pena dele, pois ele não a agradava nem um pouco.
"Coitado dele..." Murmurou a mais nova. "Todo esse tempo andando que nem um bobo ao redor da casa e nem para tocar a campainha. Será que ele tem algum problema, Mary?" Se ele não a agradava fisicamente, agradava-a menos ainda com aquele comportamento – em sua opinião – fraco e pouco masculino. Um homem de verdade, pensava Elisabeth, que quisesse cortejar alguém, não viria de mãos abanando à casa da moça e não ficaria um tempão do lado de fora com cara de palerma.
"Não fale bobagens, menina! Ele deve estar inseguro, pois a sua família tem condição e, além disso, ele já foi maltratado uma vez aqui. Mas não o deixemos esperando, Elisabeth, vamos convidá-lo a entrar!"
"O quê?" A moça ficou entre a surpresa e a indignação com aquela atitude da cunhada. "Mas eu não quero que ele entre, Mary! Além do mais, ele é policial, que crie coragem sozinho para vir falar comigo!"
"Você ficou maluca, Elisabeth? Sabe o quão difícil será arrumar um pretendente para você, por mais bonitinha e agradável que seja? Você tem vinte e dois anos, foi re-alfabetizada há menos de seis meses, não foi apresentada à sociedade, tem apenas uma amiga – de péssima reputação, diga-se de passagem – e, para finalizar, é viciada em morfina!" Neste ponto, Mary parou para respirar, triunfante, e suavizou um pouco o tom. "Pense bem, querida, ele não é feio, é jovem, tem uma profissão digna – com perspectivas de subir na carreira –, parece ser um homem decente... John não poderá sustentá-la a vida toda, Lizzie, você precisa de um marido. E, se o sargento Williams deseja desposá-la, por que não dar-lhe uma chance?"
Elisabeth mordeu os lábios, pensando em tudo o que Mary lhe dissera e parecia soar correto. Deu-lhe as costas e andou um pouco pelo aposento, olhando as coisas. Será que agora, quando mal começava a se acostumar com sua vida, teria de mudar tudo de novo? Não queria se casar com ninguém. Ninguém mesmo? Não, ninguém, pensou com força, enxotando quase-pensamentos diabólicos que zanzavam em sua cabeça. Porém, tinha que se casar. Era o normal, era a convenção. Até Olivia se casara um dia...
Com um suspiro profundo, Elisabeth baixou os ombros e se encaminhou para a porta.
"Ei, onde você pensa que vai?" Interpelou-lhe a cunhada.
"Convidá-lo para um chá, ué." Respondeu, dando de ombros.
Com essa resposta, Mary colocou-se na sua frente para a saída do cômodo.
"Você? E o que você é, uma trabalhadora que vai namorar no portão?" Elisabeth parou de andar e encarou a cunhada, confusa. "Deixe que eu cuide disso, meu bem. Além do mais, você tem que trocar de roupa, pois é o cúmulo do desleixo receber um pretendente assim, imunda de terra e grama." Depois de todas as afirmações da cunhada, Elisabeth só pode admitir que não entendia nada das convenções vitorianas e limitou-se a obedecer a cunhada, indo para o quarto colocar um "vestido adequado".
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Quando desceu de novo, o sargento Williams estava sentado com Mary na sala de estar, ambos conversando animadamente sobre um assunto trivial e interromperam-se quando ela entrou no cômodo. Mary olhou para ela e sorriu, aprovando a roupa escolhida. Já Williams olhava-a, atônito e subitamente constrangido. Elisabeth sabia que estava bonita, afinal, Olivia fizera aquele vestido azul especialmente para combinar com os olhos dela, mas aquela reação era um pouco demais. A moça só conseguia encontrar uma resposta para o motivo de tanta admiração: o homem era um tolo.
"Boa tarde, sargento. A que devemos sua visita?" O rapaz piscou algumas vezes antes de responder.
"Eu... eu... Você esqueceu o seu lenço na delegacia." Respondeu, finalmente, se erguendo e tirando um pedaço de pano branco do bolso. De fato, o lenço era dela (inclusive, era o lenço que Mary lhe bordara de boas-vindas) e Elisabeth teve de sorrir de leve, entre a gratidão e o achar graça nas ações dele.
"Muito obrigada, sargento. Eu ficaria desolada se perdesse esse lenço." Mary olhou-a com intensidade, como se a incentivasse a ser mais efusiva nos agradecimentos. Elisabeth lançou-lhe em resposta um olhar tão intenso quanto, como se dissesse para ela ficar quieta.
"Ah, mas que tolice a minha!" Exclamou Mary teatralmente. Elisabeth sentiu o coração dar uma volta com o medo do que a cunhada faria a seguir. "Esta sala é muito pouco adequada para uma conversa a três! Passemos para a sala de jantar, sim? Assim ficaremos mais confortáveis."
A mais nova dos três já desistira de tentar controlar Mary, então apenas concordou e saiu da sala. Mary foi à frente achando que ninguém percebia o seu divertimento e Elisabeth e William foram condenados a um silêncio constrangedor durante os segundos que transcorreram até chegarem ao divã junto do piano.
Os três sentaram-se, com Mary entre os dois. Elisabeth limitava-se a olhar para o chão, frustrada com a situação forçada e constrangedora, onde apenas a cunhada e o rapaz conversavam.
"E você tem irmãos, sargento?" Perguntou a loira, e devia ser a trigésima vez que Mary tentava puxar assunto com ele.
"Por favor, Mistress Watson, eu não estou aqui a trabalho. Vamos esquecer o 'sargento', certo? Me chame de Will." Ele sorriu ao falar com Mary, mas os seus olhos relancearam para Elisabeth. Normalmente Mrs. Watson não acharia graça nenhuma nessas intimidades praticamente forçadas que o jovem sargento assumia, mas, no momento, estava tão esbaforida em casar Elisabeth que até achou graça na proposição, pedindo, em retorno, para ser chamada de Mrs. Mary. "Mas, sim, Mrs. Mary, eu tenho, na verdade, cinco irmãs."
Mary deu um gritinho e riu em seguida.
"Por Deus, são muitas crianças, não é mesmo, Lizzie?" Elisabeth riu amarelo e concordou, voltando a ficar aérea em seguida.
Não suportava o jeito bronco de tentar parecer educado daquele homem e, quando o olhava, não conseguia desviar os olhos das unhas sujas e roídas dele. Um horror.
"Então, Mrs. Mary, é a senhora quem toca o piano?" Nesse momento, Mary olhou para Elisabeth, que se sobressaltou de seu devaneio.
"Não, quem toca é Elisabeth."
"Muito mal." Apressou-se em dizer a moça, implorando internamente que Mary não decidisse contradizê-la. Doce ilusão, ela devia conhecer melhor a cunhada.
"Não ligue para ela, Will, minha cunhada é apenas muito tímida." Mary riu, balançando uma das mãos no rosto de William, para distraí-lo e ocultar o beliscão que dera na coxa de Elisabeth, que gemeu baixinho. "Mas você vai tocar alguma coisa para nós, não vai, Elisabeth?"
Diante do rosnado da cunhada, que a encarava de forma quase assassina, Elisabeth murmurou que, sim, poderia tocar alguma coisa para entretê-los. Apesar de estar morrendo de dor de cabeça, completou em pensamento.
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Ao entrar no corredor e ouvir os acordes que escapavam pela porta aberta da sala de jantar, Holmes não pode deixar de rir baixo. Watson, que acompanhava o amigo, fez um meneio de descrença com a cabeça, rindo também.
"Não é possível, Elisabeth. Diante deste quadro, Watson, temos três opções:" Começou a enunciar o detetive, um pouco antes de entrar no cômodo, em voz suficientemente alta para que fosse escutado pela moça ao piano. "Ou a sua irmã só conhece essa música, ou eu começo a acreditar em coincidências ou..."
Antes que terminasse a frase, Holmes viu o rapaz sentado no divã bem perto de Elisabeth, inclinando-se para ela como se houvesse esquecido que o mundo existia. O estômago do detetive afundou alguns centímetros.
"Ou...?" Perguntou a causa de tanto tormento, sem parar de executar a peça de Beethoven.
"Esquece." Rosnou o homem, virando-se para o amigo. "Watson, achei que você tivesse dito que suas mulheres estivessem sozinhas e tristes em casa, precisando de um pouco de ar fresco e companhia." Se John estivesse menos intrigado com a presença do policial, teria notado o tom de ironia maldosa na voz de Holmes, mas não estava prestando tanta atenção assim a ele.
"Eu realmente pensei que assim fosse, meu caro, mas vejo que me enganei. Mary, você tem alguma explicação a apresentar?" A esposa olhou para o marido, apenas um pouco frustrada por Holmes ter chegado para estragar o clima tão meticulosamente criado por ela, mas ainda assim, vibrante com a perspectiva de adquirir em breve um concunhado.
"Eu posso explicar, Dr. Watson." No entanto, foi o próprio William quem respondeu, erguendo-se do divã, entre o constrangido e o amedrontado. Não pretendia enfrentar aquelas figuras ilustres tão cedo, ainda mais quando Elisabeth parecia-lhe feita de gelo. "A sua adorável irmã esqueceu o lenço na delegacia e eu vim devolvê-lo."
"A essa hora da noite?" Perguntou Watson erguendo as sobrancelhas, irônico.
"Bem, não, senhor. Eu vim no fim da tarde, pouco depois dos senhores deixarem a delegacia..." Holmes observava o rapaz por cima do ombro do amigo. Como era feio! Como era vulgar! Típico de um mero sargentinho da Scotland Yard., pensou com desdém. O médico despertou o detetive de seu transe, rindo.
"E o que ainda faz aqui, garoto?" Até que Holmes simpatizava com a forma quase agressiva com que Watson tratava o moleque, afinal, onde ele achava que estava? Quem ele pensava que era? Quem ele queria enganar, tendo estampado em sua cara de pateta que estava completamente encantado por Elisabeth?
"Marido, eu o convidei para o jantar, em retribuição ao seu gesto de gentileza..." Mary saiu em sua defesa, levantando-se e acariciando o rosto do marido, tentando fazê-lo perceber que era melhor que fossem gentis com o rapaz. "Dolores já está finalizando o preparo da sopa e..." Watson relaxou um pouco e olhou para o ruivo com uma ponta de pena.
"Bem, uma vez que foi convidado, não tenho pretensão nenhuma de desconvidá-lo, sargento, mas eu gostaria de avisar que minha família vai hoje ao teatro, depois do jantar, e eu agradeceria muito se o senhor não se demorasse demais após a refeição."
Elisabeth respirou aliviada, tocando as últimas notas de "Para Elisa" e alongando os braços para o alto. Ela levantou-se, juntando-se finalmente ao grupo de pessoas em pé.
"Mr. Holmes, o senhor irá nos acompanhar ao teatro hoje?" O detetive tentou relaxar e se concentrar apenas em Elisabeth, esquecendo o rapaz insolente que se intrometia na reunião.
"Sim, sim. Seu irmão providenciou as entradas e me chamou. Como eu não estou trabalhando hoje, decidi aproveitar e assistir a um pouco de Tchaikovsky. Veremos uma de suas peças mais recentes: A Bela Adormecida."
"Mas isso não é uma história infantil?" Holmes deu uma risada curta com aquele comentário e puxou de volta para trás um fio de seu cabelo negro que escapara do penteado, caindo na testa.
"Se essa for a sua objeção para não escutar Tchaikovsky, você não precisa ir, minha cara."
"Se você me garante que é bom, eu vou." Retrucou Elisabeth, sorrindo. Holmes queria que seu estômago ficasse impassível às mudanças de expressão de Elisabeth, pois, com aquele mero sorrisinho barato – que ela certamente já dera para o sargentinho, pensou –, o órgão deu um giro de 360° dentro dele.
"E qual é o seu compositor favorito, William?" Mary queria desesperadamente interromper aquele caminhar de coisas. Se Elisabeth achava que ela era boba, pois ia mostrar que não era.
"Senhora, para ser franco, eu não conheço muito de música erudita... Mas posso afirmar que aquilo que a senhorita Elisabeth tocou ao piano foi a coisa mais bela que eu já ouvi em toda a minha vida." A dita senhorita sobressaltou-se um pouco. Não se lembrava de ter dado autorização a Williams para que a chamasse pelo prenome.
"'Aquilo' seria 'Para Elisa', de Beethoven, sargento?" Indagou Holmes, com pretenso interesse. Mas o rapaz era mais digno do que aqueles joguinhos de gato e rato, então apenas manteve a cabeça erguida e ignorou parcialmente o comentário feito por seu ex-ídolo.
"Se este é o nome da peça, Mr. Holmes, então a minha resposta é sim." Retrucou, firme. Pela primeira vez na noite, Elisabeth sentiu algo próximo à admiração por seu pretendente. Ela gostava de homens fortes e, em sua opinião, tinha-se que ser muito homem para encarar Sherlock Holmes daquele jeito.
"Não ligue para ele, rapaz, Holmes é só um velho cão de caça que ladra e não morde. Você tem que entender que Elisabeth é a nossa garotinha e qualquer um que se aproxime dela tem que passar por inspeção rigorosa." Declarou Watson, rindo, enquanto abria uma garrafa de vinho que estava na cristaleira e servia-o.
"Não estou tão velho assim, amigo. E gostaria que você tivesse o decoro de falar apenas por si ao elucidar ações." Retrucou Holmes, pegando o copo que Watson lhe oferecia.
Dessa vez, Elisabeth não pode deixar de rir baixinho, achando graça de todo aquele mau humor de Holmes. O detetive percebeu subitamente que devia estar fazendo papel de ridículo e decidiu se afastar um pouco. Foi para o jardim, fumar antes da refeição.
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O jantar transcorreu rápido para William, que, apesar de encantado com as maneiras de Elisabeth, a doçura que ela dedicava à família – ele percebera sua timidez e compreendera que levaria um tempo para que a moça pudesse lhe dedicar o mesmo afeto espontâneo – e haver simpatizado com o casal Watson, sentia-se incomodado com a presença agressiva de Holmes.
Mas, ainda bem, seus pensamentos foram desviados para outros mais agradáveis quando obteve os primeiros momentos a sós com o objeto de sua afeição. Para a surpresa do pobre sargento, ela tomara sozinha a iniciativa de levá-lo ao portão.
William ficou ainda alguns segundos em silêncio olhando-a sob a luz da casa e dos lampiões. As roseiras que circundavam a casa ainda estavam floridas, exalando um suave perfume que deixava tudo mais belo.
"Foi uma tarde... surpreendente, Mr. Williams." Elisabeth estava, no fundo, desnorteada com tanta atenção. Era-lhe muito mais comum ficar sozinha ou se relacionar de forma mais equilibrada com as pessoas, mas aquele rapaz se intrometera em sua vida e parecia querer ser apenas sua sombra, para estar ao seu lado o tempo todo.
"Foi realmente muito agradável, Miss Elisabeth."
"Watson." Retrucou ela, cortando seu sorriso.
"Como?"
"Miss Watson." Ela manteve o tom firme e depois deu um pequeno sorriso formal. "Não confunda, Mr. Williams, termos sido amáveis convosco com estarmos lhe dando intimidades." E, diante do olhar atônito do detetive, ela completou: "Para usar o meu prenome, senhor, ainda terá que me provar que suas intenções são sinceras." William ficou ainda mais confuso com aquela frase – afinal, estava bem escuro e ele não conseguiu ver o brilho maroto nos olhos de Elisabeth –, mas não teve chance de falar nada, pois ela deu-lhe as costas – estava realmente difícil de prender o riso – "Bem, boa noite, sargento." E entrou na casa.
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Nota da autora: Eu não costumo fazer isso, só que o erro dessa vez foi crasso. Não sei se algum dos meus leitores percebeu (talvez algum arquiteto ou alguém mais atento do que eu), mas eu descrevi os quartos no segundo andar como sendo virados para o quintal com um espaço mínimo separando as varandas e disse que a escada ficava do outro lado do andar, em um hall mínimo. Só que, Houston, temos um problema. Eu também coloquei a escada próxima ao quintal, no primeiro andar.
Façamos o seguinte: a escada fica em seu lugar de direito no primeiro andar e sai (obviamente para todo mundo menos para mim) no lado do segundo andar que fica próximo ao quintal. Para não terminar de destruir toda a arquitetura tão cuidadosamente (mal) bolada da casa, transformemos o halzinho em um corredor que corta o segundo andar, separando os quartos (e destruindo a parede contígua). Obviamente, o espaço entre as varandas aumenta. Mantenhamos o quarto de banho e o "escritório" do John próximo à rua e o resto das mudanças necessárias vocês imaginam que é demais para a minha "leiguisse" arquitetônica concertar tantas bobagens de minha autoria. Mil desculpas pela interrupção e pela minha incompetência, já podem voltar à história.
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Elisabeth ficou alguns segundos no corredor, esperando que o seu pretendente já tivesse ido embora e saiu de novo, contornando a casa pelo jardim lateral. Ao chegar ao quintal, correu para baixo de sua varanda e, se apoiando na parede da casa, passou a tirar suas botinas.
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Holmes, que conversava com John e Mary dentro da casa, viu Elisabeth passar correndo pelas portas de vidro que davam acesso à parte de trás da casa. Argumentando que precisava fumar um pouco, saiu.
Viu a garota tirando os sapatos de costas para ele e não pode deixar de achar engraçado o fato de ela sequer perceber que era observada. Elisabeth deu um nó entre os cordões dos dois sapatos e lançou-os sobre um dois ombros, depois disso, suspendeu a saia até a altura dos joelhos – permitindo sem saber que Holmes visse suas pernas e seus adorados tornozelos – e, como uma macaquinha, começou a galgar a escada que dava para o telhado.
Era uma escada de ferro anexada à parede e pintada da mesma cor da casa, de modo que fosse o mais invisível o possível. O objetivo de sua existência era facilitar a manutenção das calhas e do telhado, mas Elisabeth descobrira que, por ela, podia chegar à sua varanda sem passar por dentro da casa. O homem achou graça, mas ficou preocupado que ela pudesse cair de lá e se ferir. Andou até a escada em passos leves, ela já estava na metade dos degraus.
"Elisabeth!" Chamou-a sussurrando e percebeu que foi um erro, pois ela de fato quase caiu com o susto e parou de subir, virando para olhá-lo por cima do ombro.
"Mr. Holmes!" Sussurrou de volta, surpresa e sentiu o rosto queimar ao perceber que estava com as pernas de fora em uma posição... constrangedora. Parou de olhá-lo e voltou a subir as escadas, dessa vez mais rápida e tentando se concentrar apenas em não cair.
"Você está tentando se matar, sua louca?" Elisabeth, que já estava na altura da sua varanda, parou de subir e olhou de novo por cima do ombro para ele.
"Vire de costas!" Rosnou. Holmes não obedeceu e ficou olhando-a. Era uma pena que estivesse tão escuro, pois Elisabeth gostaria de ter uma vaga ideia do que se passava na cabeça do detetive.
"Mr. Holmes, que barulho é esse no quintal?" Quando ouviu a voz da cunhada com aquela indiscutível nota de preocupação, Elisabeth não teve dúvidas de que Mary logo, logo sairia para averiguar o que o detetive estava "aprontando".
Ignorando que o homem ainda a olhava e o quão inapropriada era a situação – e só pensando em um modo de escapar dos comentários de Mary sobre Williams até a hora do teatro – a jovem pulou para dentro de sua varanda. Infelizmente, as coisas podiam ficar piores e Elisabeth perdeu o equilíbrio na aterrissagem e caiu no chão de pedra, ralando o joelho. Holmes, que assistia a tudo com genuína curiosidade, sentiu o coração falhar uma batida de preocupação. Que problema aquela cabeça-oca tinha arranjado dessa vez?
"Elisabeth!" Chamou de novo. "Elisabeth, você está bem?"
Ela se debruçou na amurada, fazendo sua trança curta balançar no espaço vazio.
"Pare de me chamar! Assim Mary verá que eu não estou mais no portão!"
"O quê? Elisabeth, você está falando muito baixo!"
"Shhh!" Exasperou-se ela, levando um dedo aos lábios. Logo depois percebeu o quão idiota era a ideia, uma vez que era noite de lua nova e ele não devia ter visto nada, então simplesmente entrou em seu quarto.
Holmes continuou no jardim, rindo em silêncio e aproveitou para fumar de fato seu cachimbo, quando Mary saiu da casa, desconfiada.
"Com quem estava falando, Holmes?" Perguntou, olhando o entorno. Se não estivesse tão escuro, ele poderia ver seu cenho franzido e o nariz cheirando o ar como um cão de caça, mas o detetive conhecia-a há tempos e podia perfeitamente imaginar a cena.
"Com ninguém, adorável senhora." Ele gostava da mulher, achava, na verdade, que era uma das poucas que merecia ter se casado com Watson. Ela só era um pouco enervante, às vezes.
"E que barulho todo era esse? Está ficando maluco é, Holmes?" Dessa vez o tom era brincalhão, parecia mais com a jovem simpática que havia desposado seu melhor amigo.
"Era só uma gatinha que subiu no telhado, cara amiga." Ela lhe lançou um último olhar desconfiado e, dando de ombros, voltou a entrar na casa.
