Quando Elisabeth subitamente desceu as escadas, Mary ficou tão surpresa de não tê-la visto passar que sequer fez perguntas. Holmes olhou-a por um breve momento, conferindo se ela havia se machucado ou não. Não notou nenhum ferimento aparente, então simplesmente desviou seu olhar e tornou a conversar com Watson.
Elisabeth, por sua vez, não estava olhando para o detetive naquela noite. Só pensava como era uma pena que fosse sexta-feira e como desejava Olivia ao seu lado. Seres humanos são tão volúveis, completava em seu raciocínio, e pensar que em apenas algumas horas agradecia a ausência da amiga. Tudo culpa daquele sargentinho inconveniente. Mas, se ia obedecer a Mary, não podia pensar nele assim, pois o tal sargentinho tinha chances de ser seu futuro marido. Eca!
No teatro, porém, todos os pensamentos desapareceram. Elisabeth amava o balé, amava os figurinos, as luzes, as coreografias, a história...
No fundo, havia um desejo secreto de ser artista também. Porém, não devia pensar em tais bobagens. Abanou a cabeça com vigor, forçando-se a prestar atenção no espetáculo. Sabia que não haveria nenhum príncipe para salvá-la da vida a que estava destinada e, justamente por isso, gostava tanto das histórias de fadas e dos romances. Se fosse uma princesa, se fosse bela, delicada e bem-criada, será que seria feliz?
Nesse momento, escondida pelo leque, não pode evitar olhar para Holmes. Ele acompanhava tudo de olhos fechados, Elisabeth sabia que o detetive não via graça nenhuma em balés, porém apreciava a beleza das obras musicais de Tchaikovsky. Era engraçado pensar que quase o imaginara como um príncipe. Holmes. Riu baixinho. Mary cutucou-a com o leque, repreendendo-a por rir em um momento inapropriado. Realmente, devia voltar a olhar para o palco.
A noite da família Watson e de seu acompanhante passou sem outros incidentes de devaneio relevantes e todos chegaram em casa cansados e prontos para mais uma agradável noite de sono. Entretanto, a mais jovem do grupo teve de se deter por um momento para lavar e enfaixar seu joelho, pois o corte feito na varanda ainda sangrava.
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Amanheceu um sábado como todos os outros no outono. Ligeiramente frio, porém ainda agradável. John saiu cedo para atender um paciente seu mais idoso que estava sofrendo uma crise de asma e Mary pôs-se de pé com o marido, para arrumar tudo do modo mais agradável possível. Elisabeth levantou as oito com a intenção de caminhar longamente no parque, sozinha. Aproveitou que Mary voltara para o quarto e correu para cozinha, onde pediu a Dolly que lhe aprontasse uma cesta de piquenique. Enquanto esperava, foi à sala de estar e ficou alguns minutos decidindo que livro leria daquela vez. Escolheu um de Jane Austen, que ganhara há pouco tempo de Olivia, voltou à cozinha, pegou a cesta e saiu.
O dia estava claro e tranquilo e Elisabeth andou algumas quadras dentro do parque, estendendo, por fim, sua toalha em um canto de grama vazio. Na verdade, havia muitos cantos de grama vazios. O parque em si estava praticamente vazio, afinal, era sábado e nem estava calor. Mas, apesar de tudo, a moça teve apenas aproximadamente meia hora de paz em seu solitário piquenique.
Sem que Elisabeth soubesse de onde, uma bola enorme e vermelha caiu bem no seu colo e, logo em seguida, um grupo barulhento formado só por mulheres interrompeu sua paz. O ruidoso trio era composto por uma jovem adulta e duas meninas. A mais velha, de longos cabelos negros e faiscantes olhos verdes foi quem primeiro se aproximou. Tinha a idade de Elisabeth e um porte que chamava a atenção principalmente pela elegância de seu andar e a inteligência dos seus olhos que em nada enfraqueciam a vivacidade de seu sorriso.
"Com licença, mas eu creio que essa bola pertence a nós." Disse a do meio, que se assemelhava em muito a mais velha, tendo apenas os olhos mais escuros e sendo infinitamente mais bela. Aquela, pensou Elisabeth, se os pais a direcionassem, não teria a menor dificuldade para encontrar um marido quando chegasse à idade.
"Penny!" Ralhou a mais velha, puxando a garotinha para trás de si. "Sinto muito por atrapalharmos sua paz, senhorita, mas as desastradas das minhas irmãs jogaram a bola longe demais por acaso."
"Não foi por acaso, Helen. A Penny disse que ela devia estar chateada por estar tão sozinha e jogou a bola aqui. Ainda bem que não caiu em cima do bolo." A terceira menina se aproximou um pouco, olhando timidamente para Elisabeth com seus verdes olhos de longos cílios. Ela não era tão bonita quanto Penny, mas seus olhos eram hipnotizantes tanto pelo formato amendoado quanto por transbordarem doçura e inocência. Nesse momento, Elisabeth sentiu-se tomada por tamanha ternura por ela que não achou a ideia de irem perturbá-la nem um pouco ofensiva.
Diante de tal declaração, Helen sentiu vontade de morrer e corou profundamente de vergonha das indomáveis irmãzinhas. Vergonha essa que foi imediatamente amenizada quando Elisabeth riu abertamente e estendeu a bola para a menor das três.
"E por que 'ainda bem que não caiu no bolo'?" Perguntou depois que a menina pegou a bola.
"Porque ele está muito bonito. É de laranja, não é?" Elisabeth fez que sim com a cabeça e as duas menorzinhas lançaram olhares cobiçosos para o doce.
"Já sei," Sugeriu a Watson "porque vocês não me fazem companhia e me ajudam a devorar esse bolo? É comida demais para uma pessoa só." As duas meninas deram gritinhos de alegria e sentaram-se, servindo-se sem a menor cerimônia do belo doce de Dolly. A mais velha sentou ao lado de Elisabeth, sem comer.
"Foi muita gentileza de sua parte, convidar-nos. Aliás, mais gentileza do que elas mereciam." Elisabeth não conseguia esconder que estava encantada com a beleza das três. Quando é posto que Cassy, a caçula, não era tão bonita quanto Penny é apenas porque Penelope era realmente linda, pois as três irmãs eram belíssimos exemplares da ascendência celta.
"Bobagem, suas irmãs são umas gracinhas."
"São umas pestinhas, isso sim." As duas olharam as meninas, se entreolharam e riram. "Eu sou Helen Bigelow e elas são Penelope e Cassandra Bigelow, minhas irmãzinhas." Declarou Helen, estendendo-lhe a mão. Elisabeth apertou-a e sorriu de volta.
"Eu sou Elisabeth Watson. Você é parente de Augustus Bigelow, o editor-chefe da 'Medicine Today'?" Helen sorriu, orgulhosa.
"Sou filha dele. Mas como você ouviu falar da revista do papai? Desculpe-me a intimidade, mas não parece ser o tipo de pessoa que gosta de ler sobre novas técnicas cirúrgicas."
"Ah, não. Com todo o respeito, mas a revista do seu pai não me interessa nem um pouco. Meu irmão é que a compra todo mês e admira muito o trabalho. Ele é médico, sabe?"
Helen ficou alguns segundos em silêncio, revezando-se entre encará-la e observar as irmãs, que voltaram a jogar bola, depois de comer o bolo quase todo. Elisabeth esperou pacientemente, curiosa pelo que viria a seguir.
"O seu irmão não é o Doutor Watson, é? O bibliógrafo do magnífico detetive, Mr. Holmes?" Foi a vez de Elisabeth corar, em parte de orgulho de seu irmão, em parte por não ter gostado de todos aqueles adjetivos que Helen usou para descrever Mr. Holmes.
"Bem... É sim." Com isso, Helen ruborizou completamente e deu um gritinho de surpresa, abrindo seu leque e se abanando.
"Ah, meu... Não acredito! Não acredito que você não só os conhece como é irmã do Doutor Watson!" A 'irmã do Doutor Watson' não sabia como reagir diante daquilo. Todos que conhecia tratavam John como uma pessoa absolutamente normal e Sherlock como uma pessoa absolutamente inconveniente, apesar de o adorarem. "Eu sou tão fã do seu irmão! Já li tudo o que ele publicou! Tudo! E Mr. Holmes é tão genial como ele o descreve? Não, espere, não me conte. Não quero me decepcionar." Elisabeth estava pasma e não sabia respondê-la, não sabia como reagir diante daquela descompostura da outra. Com o silêncio atônito da companheira, Helen percebeu aos poucos o papel ridículo que estava interpretando e tratou de se conter, ficando em silêncio um pouco e se abanando com vigor.
"Sinto muito." Declarou, puxando o cabelo para frente do colo e penteando-o com as mãos. "Podemos fingir que isso nunca aconteceu, por favor?" Elisabeth concordou com a cabeça, servindo-se de um pouco de chá e colocando também para a sua companheira.
"Não se culpe, acho que eu reagiria do mesmo modo se conhecesse a irmã de Tchaikovsky." Declarou, tentando acalmá-la e dando um pequeno sorriso em seguida.
"Você é muito gentil, mas meu comportamento beirou as raias da inconveniência. Eu nunca devia ter dito aquelas coisas, agora você vai pensar que eu quero ser sua amiga só por causa do seu irmão." Elisabeth sentiu um calor gostoso de prazer ao ouvir a frase.
"Você quer ser minha amiga...?" Perguntou, surpresa.
"Oh, bem, sim. Foi por isso que eu vim com Penny e Cassy buscar a bola. Eu poderia simplesmente ter continuado sentada no banco ao invés de me sentar com você. Mas, depois do meu pequeno 'show', eu não a culparia de não querer mais olhar para mim."
"Você está sendo severa demais, Helen. Não foi tanto assim. É só que eu não estou acostumada com esse tipo de reação e acabei exagerando também." Helen ergueu uma sobrancelha.
"Não está acostumada com esse tipo de reação? Como assim? As pessoas devem agir com você desse modo toda hora nos saraus, nos bailes... Afinal, o seu irmão é uma pessoa pública." A quase-loira fez que não com a cabeça.
"Aliás, eu nunca fui a um baile." Helen não pode disfarçar a surpresa e, dessa vez, ela veio acompanhada por uma nota de revolta.
"O quê? Por quê? Que espécie de irmão é o Dr. Watson?"
"Não, não. John é muito bom para mim. É só que eu cheguei à cidade há menos de um ano e nem tenho amigas aqui. Eu morava no interior."
"Ah, bem..." Diante disso, Helen desarmou-se. "Então eu posso me encarregar de eu mesma levá-la ao seu primeiro baile."
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Aos sábados, Olivia orava, jejuava e pensava muito em Saul. Gostava de seus cabelos encaracolados da cor da areia e de seus olhos cor de mel. Saul era a pessoa mais doce e gentil que já conhecera, até vir Elisabeth. A moça parecia encarnar todas as qualidades que louvava em seu falecido marido com a vantagem de não poderem unir-se carnalmente. Era uma vantagem porque Olivia não queria casar-se de novo e o sexo parecia levar embora todos aqueles que ela gostava. Como Chuck.
A loja pertencera a Saul quando era vivo e ele e Holmes conheceram-se antes mesmo de o detetive mudar-se para a Baker Street. Na verdade, fora Saul quem indicara os seus atuais aposentos ao detetive.
"Assim ficará perto de nós." Disse Olivia à época, sorrindo e servindo vinho aos homens que mais amava. Sherlock se introduzira em sua casa como um irmão para Saul, os dois gostavam de jogar xadrez por longas horas e discutir teologia. Teologia, aliás, era a maior discordância entre eles.
"Eu não entendo, Chuck," Fora Saul quem inventara aquele apelido ao então jovem rapaz. "como um homem tão bom como você possa ser tão desprovido de fé." Naquele dia, Holmes riu, balançando a cabeça. Estava de bom humor, havia resolvido o caso que daria origem ao primeiro livro de seu amigo "Um estudo em vermelho". Saul compraria todos enquanto estivesse vivo e ambos ririam, discutindo os pontos em que Watson fantasiara. Olivia continuava comprando os exemplares da "Strand Magazine" que continham as aventuras de Sherlock, mas enfiava-os todos sem ler em uma caixa no fundo do armário. O único que leria seria o conto em que Watson narrava sua suposta morte e lê-lo-ia apenas depois de ver a notinha no jornal que noticiava o ocorrido. Adotou um segundo luto, mas isso é outra história.
"Sabe que Saul pede por você em todas as orações, não é? Ele implora ao Senhor por sua alma todas as manhãs. 'Cuide de Chuck, vele por Chuck, perdoe Chuck.'" Nesse momento, Olivia gargalhou de uma forma sincera como nunca mais faria e Holmes riu também, balançando a cabeça como se achasse os dois loucos.
"Eu estou tentando desenhá-lo, Chuck, mas nunca acho que está ficando bom. Veja." Ela pegou um desenho torto que lembrava vagamente as feições de Holmes, mas nunca poderia ser tomado pelo detetive.
"Liv, posso ser sincero? Sally, posso ser sincero com a sua esposa?" Perguntou o detetive, provocando uma crise de riso geral. "Gnädiges Frau, eu acharia melhor se você se dedicasse aos lindos vestidos e chapéus que faz, ao invés de tentar reproduzir meus tão mal-formados traços." Olivia deu-lhe um tapa suave no ombro e pegou seu desenho de volta.
"Você é um bobo, Sherlock Holmes, mas seu alemão está realmente melhor." Nesse momento ele sorriu para ela e Olivia sentiu seu coração pregar-lhe uma peça. Olhou fixamente para Saul, que sorria sem suspeitar de nada. Amava-o. Amava Saul e apenas Saul.
"Amava Saul e apenas Saul." Era a frase que mais repetiria em sua mente pelo resto dos seus dias quando seu coração tentava pregar-lhe uma peça. Apenas Saul, pensava, sempre que era pedida em casamento. O que, aliás, vinha diminuindo com o passar dos anos. Não que ela se importasse.
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N/A: Essas minhas intervenções estão tornando-se mais comuns do que eu gostaria, palavra. Mas eu gostaria de situar que alterei toda a cronologia Holmesiana de propósito. Eu sei que há muitas coisas que não aconteceram em 1888, mas isso é uma fiction.
