Outubro chegou e trouxe consigo os ventos gelados que anunciavam a proximidade do inverno. Elisabeth não gostava muito dos meses frios do ano, sentia muita falta do sol, dos pássaros, dos insetos, da grama e das flores. Além disso, o parque ia se tornando cada vez mais hostil conforme o tempo esfriava. Visitara a casa de Helen algumas vezes e descobriu que amava a biblioteca da casa dos Bigelow quase tanto quanto estava afeiçoada aos donos dela.

Naquela tarde, fora tomar chá com Olivia e, depois de devorarem os biscoitos amanteigados de Dolly – cujas habilidades culinárias já tinham feito Elisabeth ganhar alguns quilinhos muito bem-vindos aos olhos de todos –, a germana trançava os cabelos de sua pequena inglesinha, que tinha a cabeça repousada em seus joelhos.

"Liz, quando é o seu aniversário?" A mais moça surpreendeu-se com a pergunta e virou mais a cabeça para conseguir encarar Olivia.

"Por que essa pergunta agora, Liv?" Olivia continuou a fazer sua caprichada trança e deu de ombros.

"Eu só queria saber para poder costurar um vestido bem bonito para você."

"E desde quando você precisa de desculpas para me dar presentes? Eu te conheço não tem nem seis meses e você já me deu um vestido e dois chapéus, simplesmente porque 'tinha feito-os se inspirando em mim'." Olivia riu em resposta.

"O que eu posso fazer se acho você uma modelo muito inspiradora? Além disso, pare de querer sempre ter a última palavra e apenas responda à pergunta, Lizzie." Ela ficou uns segundos em silêncio, séria.

"Eu não sei."

"O quê?"

"Eu não sei quando é o meu aniversário, Liv. Não sei quando foi a última vez que eu comemorei, tampouco." Foi antes de o papai morrer? Quando...?

Dormiu no colo de Olivia e foi assolada de repente por uma lembrança antiga e enterrada.

Elisabeth acordou. Dessa vez, o surto durou um bom tempo, já nem fazia mais ideia de quanto. Fez algum esforço para andar até a janela, que bom, a perna que Yan torcera já estava mais forte...

Estava nevando lá fora! Ela amava a neve, porque significava... Não conseguia lembrar o que a neve costumava querer dizer. Ficou sentada no beiral da janela fazendo círculos no vidro e assoviando baixinho. Tinha fome, mas não queria ver ninguém. Encontrar Tia Marie significava fingir que acreditava nela ou apanharia. Olhou o próprio reflexo no vidro e o que viu foi uma menina já bem magra, com olhos desproporcionais ao rosto e o cabelo desgrenhado. Elisabeth tinha uma cicatriz rosada na testa, onde estava escondida agora aquela cicatriz? A Elisabeth de vinte e dois anos correu os dedos pelo couro cabeludo próximo à linha da testa e descobriu algumas saliências que podiam muito bem ser cicatrizes antigas.

Quantos anos tinha? Mais do que dez, menos do que quinze. Lá pelos quinze anos foi quando os momentos de submissão e sobriedade foram se tornando mais erráticos até sumirem. Provavelmente, não chegaria aos trinta se John e Holmes não a tivessem resgatado em abril daquele ano.

Alguém abriu a porta. Era uma senhora de meia idade, de rosto amável e triste, Lizzie sabia que deveria reconhecê-la, mas não fazia ideia de quem fosse. A senhora entrou, mas parou e espiou o corredor antes de encostar a porta novamente. A menina não lhe deu muita atenção, logo voltou a olhar a brancura do lado de fora com nostalgia. Queria brincar lá.

"Lembra de mim, Lizzie? Eu sou..." Nessa parte, a memória de Elisabeth estava embotada e ela não conseguia lembrar quem era a mulher. "Trouxe para você um pedaço de torta de maçã..." Era maçã? Talvez fosse amora, não tinha muita certeza. "É um presente de aniversário, embora já tenha passado, mas você não teve como aproveitá-lo esse ano."

Finalmente olhou para a mulher de novo. Sabia que devia sorrir em agradecimento, só não tinha vontade. Não tinha vontade de nada. Será que ia demorar muito até que a ruiva lhe aplicasse outra dose de morfina? Queria morfina...

"Não quero torta." Resmungou, esfregando as juntas dos braços com a coberta em que estava enrolada. "Quero o meu remédio. Chame a enfermeira, eu quero dormir." Dormindo encontrava papai.

A mulher pareceu desapontada e um pouco surpresa.

"Lizzie, você precisa comer... Além do mais, é inverno, você sempre gostou do inverno. De repente, a sua madrasta te deixa ir brincar um pouco lá fora, fazer um boneco de neve..." A menina ficou irritada, não queria comer e não gostava daquela mulher. Elisabeth ficou um pouco surpresa com a selvageria dos seus sentimentos naquela época. Sabia que estava sonhando, mas ainda não queria acordar, queria se conhecer um pouco mais.

"Eu não gosto de você. Vai embora. Eu quero o meu remédio." A outra ainda tentou insistir, mas Elisabeth se levantou e, com uma força inesperada para a sua condição física, empurrou a fonte de sua irritação e jogou a torta no chão. "Vai embora!" Foi quando começou a gritar e ter um flashback do efeito de seu narcótico, fazendo a Elisabeth atual ficar enojada e acordar.

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Mais tarde, tentava esquecer a lembrança sentada ao piano. John e Mary estavam particularmente de bom humor naquela noite, talvez tivessem se reconciliado. Subitamente, parou de tocar, provocando surpresa às suas companhias. Sem levantar do banco, Elisabeth virou-se e encarou o irmão com uma seriedade com a qual ele estava pouco acostumado.

"John, quando eu faço aniversário?" O loiro encarou-a com surpresa, inclusive por ele mesmo não se lembrar da data. Ficou pensativo por uns instantes, cofiou o bigode, deu uma tragada em seu cigarro.

"É verdade... Quando mesmo, Lizzie?" Ela sorriu, não estava surpresa.

"Se eu soubesse, não estaria perguntando, mano." John riu, sem-graça.

"Acho que era no inverno. Eu me lembro de o papai trazendo você para casa em fevereiro e nós comemoramos o seu aniversário 'atrasado'. Na verdade, foi só uma festinha para você esquecer que sua mãe tinha morrido, mas você ficou tão feliz. Nunca tinha comido torta de amoras antes. Costumava ser a sua favorita." Ah, então devia ser torta de amoras na lembrança...

Elisabeth se lembrou de uma cena – ou imaginou-a –. Ela era realmente pequena e estava intimidada com aquela mulher tão refinada e mais velha que mamãe, que mal conseguia disfarçar a sua tristeza pela presença daquela menininha na casa, e dois meninos muito mais velhos do que ela, ambos loiros como papai e que também não gostavam da ideia de Elisabeth passar a morar ali. Agora tinha certeza da lembrança: ela começou a chorar quando colocaram bolo branco na mesa – era o favorito de mamãe, o único que ela sabia cozinhar e o que sempre fazia para os aniversários dela e de Lizzie. Comeu-o depois sozinha, inteiro, encolhida em um canto da biblioteca, para que ninguém visse como detestava estar ali e como apenas queria que mamãe fosse buscá-la logo. Não lembrava mais do rosto dela.

"Você devia ter uns três anos e eu lembro que achei que era a criança mais bonita que já tinha visto na minha vida. Todos nós achamos." John sobressaltou Elisabeth ao interromper seu fluxo de lembranças com as dele. A moça riu, amarga.

"Sua mãe não achou." Arrependeu-se imediatamente do comentário ao ver a sombra que perpassou o rosto do irmão, John nunca optara por qual lado ficar. Não culpava o pai, para não perdê-lo, e não amava Elisabeth completamente, para não trair sua mãe. Passou a gostar mais dela nesses dias em que moravam juntos, adultos, onde podia esquecer os pais por alguns momentos.

"Ela achou sim. Era por isso que se recusava a vê-la na maior parte do tempo. Minha mãe sempre quis uma menina." Depois daquele comentário, o assunto morreu.

/

Todos esqueceram o assunto "aniversário de Elisabeth" até o fim de outubro, quando chegou uma carta endereçada a John, cujo remetente era do condado onde ficava a Mansão Watson. Ele abriu-a na mesa do café da manhã e, ao ler um dos papeis que estavam dentro do envelope, caiu na gargalhada. Mary foi a primeira a tornar-se curiosa e inclinou o corpo mais perto do marido, tentando ler o que ele segurava. John não se fez de rogado e passou o papel velho para a esposa. A atual Mrs. Watson prendeu o ar e levou a mão à boca, dividida entre o assombro e a comicidade.

"Não é possível..." Murmurou estupefata. Elisabeth tornou-se curiosa também e, abandonando uma carta que Helen lhe mandara da Irlanda, voltou suas atenções aos outros comensais.

"O que houve? O que é isso que vocês estão lendo?" Perguntou a moça, ávida como um cãozinho. Mary lançou um olhar divertido para John e estendeu-lhe o papel, ao mesmo tempo em que dizia:

"Tome, é melhor que você veja por si mesma." Era a certidão de nascimento de Elisabeth. Ali estava o nome do pai, o nome da mãe, o nome completo dela... e seu aniversário.

"Eu nasci no dia seis de janeiro! Já posso dizer a Olivia quando é meu aniversário! Viu John? Agora sabemos quando é! Podemos fazer bolo e... O que é tão engraçado nisso tudo?" Elisabeth interrompeu seu momento de felicidade para lembrar-se que John e Mary ainda estavam com aquelas caras cômicas, como se estivessem lendo uma piada.

"É que, Lizzie, você nasceu exatamente no mesmo dia que o Holmes. É uma coincidência inimaginável." Explicou John, parando de achar graça e voltando a tomar seu chá.

"Mais coincidência ainda se pensarmos que eles têm personalidades tão diferentes..." Murmurou a cunhada, pensativa. Elisabeth achou ligeiramente cômico, como um trocadilho bobo, mas não entendia toda a graça que os dois viram. Mas, se nascera no mesmo dia que Sherlock Holmes, Elisabeth tinha uma desculpa muito boa para poder lembrar-se da data e presenteá-lo quando chegasse perto. É, talvez fosse mais engraçado do que ela pensara a princípio.