Devonshire, 25 de dezembro de 1888
Alex,
Primeiramente, eu gostaria de desejar um Feliz Natal para você e a família, como manda o código, embora você saiba que eu não ligo nem um pouco para esta data desde os oito anos.
Passadas as formalidades, vamos ao que importa. Espero sinceramente que o comportamento de Michael tenha se abrandado na universidade e que Bernie esteja mais tranqüilo com relação aos filhos. Mike é só um moleque cheio de energia e logo assentará, estando pronto para assumir o comando dos negócios da família Reynolds.
Quanto aos progressos de Theo, nem preciso lhe dizer o quanto estou feliz (embora imagine que nosso pai esteja mais) e pouco surpreso, o menino sempre levou jeito para a coisa. Tenho certeza de que ele será um ótimo administrador das nossas terras e os moradores da região já o amam tanto quanto amaram seu avô e amam você. Sabe que Theodore é meu sobrinho mais querido, temos personalidades próximas e gostos similares.
Creio que você já me perdoou por não passar o Natal, o Ano-Novo ou o meu aniversário com vocês de novo. Talvez no próximo ano eu consiga ir a Sussex para o verão ou os feriados, veremos.
Elisabeth está bem, na medida do possível. Ela agradeceria sua manifestação de pesar e afeto presente na última carta se soubesse que falo dela a você. Sabe que isso não vai acontecer nunca. De fato, ela nem sabe que tenho uma irmã mais velha ou que eu seja capaz de gostar tanto de alguém como gosto de você, papai e Theo; ela realmente acredita na descrição de homem-máquina que Watson faz de mim por aí. Tudo o que posso dizer é que esta situação é, no mínimo, irônica e confortável.
Devon tem lindas paisagens, mas estão todas cobertas de neve, o que faz com que eu e ela passemos os dias trancados no chalé. Agora você entende porque tenho lhe escrito tantas cartas: porque as opções de diversão aqui são ínfimas. Certo, estou sendo muito duro com Elisabeth, ela é uma boa companheira de conversas e não é de todo ruim nos jogos de cartas.
Com você, e apenas com você, eu posso ser totalmente sincero, Alex. Aceitei fugir para Devonshire com Elisabeth porque, como já lhe expliquei superficialmente, a situação em Londres ficou completamente fora de controle quando os tablóides descobriram o julgamento de Mrs. Marie-Louise Watson e toda a história escandalosa por trás – aparentemente, as historietas que Watson publica sobre meus trabalhos fizeram dele uma espécie de celebridade em Londres, o que torna a história macabra da vida de Elisabeth algo vendável. Você não pode imaginar quão rápido ela parou de comer e dormir, não agüentando a pressão. Ela é muito nobre para causar preocupação deliberada aos outros, então levamos duas semanas para perceber que ela estava realmente definhando. Mary e Watson quem deveriam vir com ela para cá, mas a adorável esposa de meu melhor amigo pegou uma febre infecciosa e ficou de cama, impossibilitada de viajar. É claro que estou lisonjeado por ter sido escolhido para estar aqui com ela ao invés dos Bigelow – embora Mary tenha insistido firmemente na família Bigelow como sendo a melhor opção; foi Watson quem me disse que confiava mais em mim do que neles –, mas é maçante estar aqui, além de ser uma tortura. Não durmo direito, sempre preocupado com o sono dela, não posso fumar muito, por causa da saúde dela, e estou preso no meio do nada até fevereiro, para cuidar dela. E ela e o irmão ainda me chamam de homem-máquina.
Infelizmente, Hermann ainda me entende. Não consigo deixar de vê-la quando estou em Londres, não tanto pelos prazeres mundanos que partilhamos, mas porque vejo que aquela bruxa austríaca conhece o mais íntimo de mim sem que eu lhe diga uma só palavra e conforta minhas ansiedades.
Alonguei-me demais nessa carta, sinto muito por abusar de sua paciência, querida irmã.
Mande meus cumprimentos ao velho Sir Richard Holmes, aos meninos e ao meu cunhado.
Daquele que sempre a ama,
Sherlock.
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Não foi um pesadelo que a fez acordar, mas um sonho de lembranças. Lembranças da noite de Natal, que passara embriagada de vinho, junto de Holmes, no tapete próximo à lareira da única sala do chalé. Era perturbador não lembrar quais partes eram reais e quais ela inventara em seus sonhos. Tanto as partes reais quanto as imaginárias faziam seu coração bater terrivelmente forte. Levantou da cama, tonta, ansiosa. Há três dias andava pela casa com o cabelo solto, todo cacheado, ou apenas preso em tranças frouxas. Os olhares que Holmes lhe lançava indicavam que ele sabia que ela fazia de propósito, para agradá-lo.
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24 de dezembro de 1888
Elisabeth nunca tinha bebido tanto quanto naquele dia, Mary não permitia excessos em casa, mas Holmes não se importava.
"Não sou sua babá." Foi o que ele lhe disse quando perguntou se podia se servir de mais vinho, depois de tomar três taças. "Mas esteja pronta para lidar com as consequências de um pouco mais de álcool do que o normal." Depois dessa frase, ele sorriu, misterioso, e Elisabeth se sentiu intimidada e não reencheu sua taça. Sua cabeça já girava e vê-lo rir dela pelo nariz, sardônico, pouco antes de servir a si mesmo e a ela de mais vinho, fez com que Elisabeth ficasse ainda mais tonta.
A ceia de Natal já acabara, mas nenhum dos dois tinha manifestado o desejo de ir dormir e ficaram sentados à mesa, conversando e bebendo vinho. Elisabeth nunca imaginara que Holmes pudesse lhe contar coisas de sua juventude nos campos de Sussex, na casa paterna, ou das coisas que aprontou em Cambridge, com seu amigo Trevor. Ela, que acreditava não ter nada para contar que ele já não soubesse, apenas escutava e fazia uma pergunta ou outra de vez em quando. A cada gole de vinho, ele parecia sorrir e relaxar mais, como se retirando a máscara social que usava permanentemente. Não que ele tivesse ficado expansivo ou começado a gargalhar, nenhum dos dois fez ou teve vontade de fazer algo assim. Até porque, Elisabeth não sabia dizer se era a noite de Natal, a luz laranja da lareira ou a garrafa de vinho que eles tinham esvaziado, mas aquele momento tinha uma atmosfera sagrada demais, que podia ser rompida com qualquer movimento brusco.
"Elisabeth, é a segunda vez que você estremece. Está com frio. Por que não vamos dormir?" Ela não tinha estremecido de frio, tinha estremecido porque percebera que talvez nunca mais chegasse tão perto do verdadeiro Holmes, embora não pudesse lhe contar essa verdade.
"Não estou com sono." Percebera que talvez nunca mais tivesse coragem de falar as coisas olhando em seus olhos, sem se esquecer de respirar, sem sofrer. "Mas, realmente, essa sala está ficando fria."
Holmes arregalou os olhos por um instante, surpreso com algo que ela não sabia dizer o que era, e depois voltou a sorrir, relaxado.
"Por que não fazemos assim: você leva essa garrafa e as taças para aquele tapete perto da lareira e eu vou pegar umas mantas para nós, assim continuamos a conversar?" Ela não sabia o que responder, na verdade, não tinha o que responder além de fazer exatamente o que ele tinha sugerido e sentar no tapete, encarando as flamas e sentindo seu coração bater descompassado pela primeira vez na noite.
O tapete não era muito grande, tampouco a lareira, para ficarem sentados perto do fogo, seus corpos ficariam próximos. Bastante próximos. Bebeu mais um gole de vinho, tentando manter a calma e a coragem que tinham estado lá a noite toda. Holmes chegou sem fazer barulho e depositou uma manta com cuidado sobre seus ombros, sentando em seguida, já enrolado na dele.
"Esta noite está sendo... surpreendente." Ela murmurou. A coragem tinha ido embora e Elisabeth estava apavorada com a possibilidade de ter ido embora de vez. Os olhos estavam um pouco doloridos de olhar o fogo e ela passou a encarar o chão, não conseguia olhar para ele.
"Sempre podemos culpar o álcool por noites assim, minha cara." Depois disso, ficaram alguns segundos em silêncio. Será que, com a proximidade física, a simpatia dele tinha ido embora também? "Por que você está com o seu cabelo sempre preso?"
Essa pergunta foi a mais surpreendente da noite. Nunca tinha imaginado que ele pudesse reparar ou se importar com isso.
"Mary me disse que mulheres honradas não ficam com os cabelos rebeldes por aí." Droga, por que não era capaz de falar em um tom mais alto do que um resmungo envergonhado?
"Eles são rebeldes? Rebeldes como?" Depois dessa pergunta, a coragem que tinha ido embora voltou de repente e Elisabeth falou bem rápido, quase com medo de ela ir embora de novo:
"Você quer ver?" E, depois de perguntar, olhou fundo em seus olhos, impressionada com ainda se fascinar com o tom de cinza que eles tinham. Ele sorriu, não como se achasse algo engraçado, mas era um sorriso similar a... ternura?
Parou de olhá-lo, a coragem iria embora de novo se continuasse a fazer isso, e virou-se para tirar os grampos que prendiam o seu coque. Com isso, os cachos que tinham passado o dia todo presos foram se soltando e caindo pelos ombros dela, recomeçando a enrolar-se, como se quisessem manifestar a felicidade de estarem livres. Depois de terminar, não conseguiu olhá-lo de novo, não sabia o que ele ia achar do seu cabelo ou de sua ousadia. Ficou parada, encarando o chão e respirando rápido, acuada. A coragem estava indo embora de novo.
"Por que você não olha para mim, para que eu possa saber como fica o seu rosto assim?" Ela virou-se, mesmo sem querer virar, e encará-lo fez com que começasse a ficar vermelha. Ficar vermelha não era algo comum para ela e era extremamente embaraçoso. Agarrou a taça de vinho e bebeu o resto de seu conteúdo de uma vez só. Depois disso, ficar sentada era insuportável.
Mas ele ainda estava olhando-a, daquele modo escrutinizador e indecifrável, e ela não podia deitar ou virar-se. Nunca uma situação tinha sido tão boa e tão ruim simultaneamente. Com aquela coragem etílica que enchia seu cérebro e seus músculos, Elisabeth se aproximou mais de Holmes, querendo tocá-lo. Foi quando ele riu de novo e fez com que ela parasse de se mexer, insatisfeita por ter se aproximado consideráveis centímetros do corpo dele, mas ainda não estando perto o bastante.
"Você devia usá-lo assim mais vezes, combina com o seu rosto." Ela piscou os olhos um pouco, surpresa com o elogio, e estendeu a mão para tocar seu rosto. Sherlock segurou-a, subitamente sério, antes que pudesse completar seu intento.
"Elisabeth, sinto muito, mas eu acho que você está confundindo as coisas." Seu coração afundou alguns centímetros com a recusa, sentindo-se subitamente estúpida, e voltou para onde estava sentada antes. Ficaram novamente em silêncio, dessa vez um silêncio incômodo. Ela o ouviu suspirar e já ia levantar-se para seu quarto antes que tudo ficasse ainda mais embaraçoso quando ele falou de novo. "Por que não tomamos mais uma taça? Não vamos terminar o Natal assim, certo?" A moça olhou para seu acompanhante e os olhos azuis antes cheios de coragem refletiam apenas vergonha e arrependimento. Depois de servir aos dois, Holmes entrelaçou seus dedos nos cabelos dela e deu um beijo terno em sua testa. "Está tudo bem, nós sempre podemos culpar o álcool por esse tipo de situação. Você é muito inexperiente, é normal que confunda as coisas. Eu não estou chateado com você."
Na verdade, desde a parte em que Holmes jogou a manta sobre seus ombros, Elisabeth não tinha certeza se aquilo era sonho ou lembrança, mas continuemos.
Ela colocou sua taça no chão e ergueu o rosto para encará-lo, sem medo, sem vergonha.
"Você pode me abraçar? Eu me sinto tão sozinha..." Diante da hesitação dele, ela tentou explicar mais o pedido. "Eu juro que não estou confundindo nada, só preciso de um ombro amigo, Sherlock." Outro segundo de hesitação e ela já estava pronta para pedir desculpas pela intimidade quando ele a abraçou. Foi um abraço forte, prendendo-a contra seu peito, como uma mãe abraça uma criança.
"Você sabe que não está mais sozinha, não sabe? John e Mary sempre estarão do seu lado." Elisabeth soltou um suspiro e enterrou seu nariz nas roupas dele, respirando e tentando absorver o perfume que ela já conhecia da velha poltrona em Baker Street.
"Não me abandone." Murmurou, angustiada. "Eu não peço mais nada. Nunca vou pedir mais nada. É a única coisa que eu quero de presente Sherlock, só não me abandone."
"Eu já estou aqui."
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Nota da Autora: Desculpem pela absurda demora de atualizações. Faculdade e complicações pessoais sugaram completamente toda a minha criatividade por meses, mas agora isso foi resolvido, com um presente de natal atrasado para vocês. O próximo capítulo já está sendo trabalhado, com o amor de sempre. Espero que tenham gostado. Beijos, Nii
