O Ano-Novo foi menos etílico do que o Natal e Holmes foi dormir logo depois da meia-noite, alegando cansaço. De fato, ele estava cansado. Não aguentava mais Devonshire ou Elisabeth. Não aguentava mais aquela prisão nevada. Não via a hora de Elisabeth finalmente depor, Marie-Louise ser condenada e ele ser alforriado daquela condição. Sim, alforriado, já que ele não era nenhum romântico querendo morrer de tuberculose por uma relação platônica e sem futuro, então se sentia preso a Elisabeth, angustiado. E, para piorar a situação, ela parecia mais bonita a cada dia. Engordava de novo, usava os cabelos soltos e rebeldes e não tinha medo de encará-lo desde a noite de Natal. Por que concordara em abraçá-la?

E, como em todos os anos, seis dias depois do começo do ano, chegou o aniversário de Sherlock. Só que, neste ano, ele teria de compartilhá-lo com outra Watson. Queria que fosse o irmão dela ali, para que eles pudessem beber, rir e falar sem preocupações. Com Elisabeth sempre havia aquela tensão, aquele medo de alguma coisa dar errado. Já estava arrependido dos presentes que comprara para ela.

"Feliz aniversário, Mr. Holmes!" Ela já acordou lembrando o fato, para o desgosto dele. Mas ele não deveria ser tão duro com ela, esse era o primeiro aniversário dela fora daquele quarto imundo em dezesseis anos. Holmes inspirou fundo e decidiu empurrar, mais uma vez, todos os seus descontentamentos para o fundo de sua mente e, mais uma vez, dar a Elisabeth momentos de felicidade.

Outra coisa que o incomodava era que ela, depois de usar seu prenome uma única vez na noite de Natal, tinha voltado a chamá-lo daquele jeito formal e quase infantil. Não que ele quisesse que ela usasse seu prenome, absolutamente, era apenas estranho, como se ela soubesse que podia usá-lo, mas preferisse não fazê-lo por motivos que ele não conseguia compreender. Elisabeth era um quebra-cabeça cujas peças Sherlock tinha dificuldade de montar e que ele ainda não tinha conseguido visualizar a figura completa.

"Feliz aniversário, Elisabeth." Felizmente, o sorriso saiu tão natural ao concluir a sentença que ela não percebeu o que se passava na cabeça dele segundos antes e não teve sua alegria reduzida.

Sem dizer mais nada, a jovem depositou em sua frente um embrulho mole de papel azul ("de um tom não tão bonito quanto os olhos dela", observou uma vozinha irritante no fundo de sua cabeça; vozinha essa que ele vinha tentando sufocar a meses e que só se manifestava para fazer elogios a Elisabeth) amarrado com uma fita de cetim vermelha. Holmes manteve o sorriso nos lábios e não abriu o envelope, se levantando.

"Espere um minuto que eu quero que você abra os meus primeiro." Não precisou parar de fazer seu caminho até o quarto para absorver bem a expressão surpresa e ligeiramente constrangida no rosto dela.

"Você tem alguma coisa para mim?" Ela perguntou, correndo atrás do detetive até seu quarto. Parou na soleira, talvez, pensou Holmes, ela estivesse consciente de que entrar seria muita intimidade, e ficou observando-o mexer no armário. De lá de dentro, ele tirou não um, mas dois embrulhos. Um mole como o de Elisabeth, embora maior, embrulhado em papel branco, e outro duro, retangular e pequeno, embrulhado em papel vermelho.

Ao virar-se, encontrou-a com o rosto pálido e a respiração cortada. Por mais que ele tivesse problemas em estar perto de Elisabeth e envolver-se, provocar tais oscilações de humor nela era um dos seus maiores prazeres. Ficou sério, estava em dúvida se os presentes realmente eram bons ou não. Entregou o embrulho pequeno e vermelho primeiro, aquele era o que mais temia que ela pudesse não gostar.

"Este é pelo seu aniversário." Ela o olhou uma última vez, mais relaxada, e abriu o embrulho lentamente. Era um livro.

"John Keats?" O tom de surpresa na voz dela fez com que Sherlock se alarmasse. Tinha se enganado?

"Você não gosta? Eu não entendo nada de poesia, mas a mocinha da loja garantiu que era realmente bom e tem um poema aí que todas as meninas adoram. Acho que se chama 'Star' alguma coisa." Realmente não fazia a menor ideia do conteúdo do livro, só sabia que Keats tinha sido um poeta romântico, do tipo que achava que morrer de amor era uma honra, do tipo que Elisabeth adoraria.

"Bright Star." Pelo tom que ela usou para corrigi-lo, ele sentiu-se mais seguro na escolha do presente. "Eu gosto de Keats. Já li essa coletânea na casa de Helen. É só que... eu nunca imaginei que você pudesse me considerar algo relacionado à poesia como um bom presente."

"O presente era para você, não para mim, Elisabeth. Mas, de fato, nunca me dê nada relacionado à poesia. A não ser que você esteja se presenteando e dizendo que quer um livro interessante para você ler na minha casa." Com aquela piada infame, Elisabeth riu e balançou a cabeça. Eles ainda estavam na soleira do quarto de Holmes.

"E o outro embrulho?" Ela perguntou, curiosa, enquanto apertava o livreto contra os seios. Holmes teve de lembrar-se de desviar o olhar daquela região, seria muito constrangedor se ela o pegasse olhando para seu colo.

"É pelo Dia de Reis. Minha mãe sempre me dava um presente pelo meu aniversário e um presente pelo Dia de Reis quando eu era criança, para que eu não me sentisse triste por ver todas as outras crianças ganhando presentes no dia que deveria ser o meu dia especial." Por que compartilhara aquela história com ela? Por que sentia tanta facilidade em se abrir com Elisabeth? Quando ela sorriu, doce e tímida, alguma coisa dentro dele sentiu que ao menos a primeira pergunta estava respondida.

"Obrigada. Ano que vem eu providencio dois presentes para você, detetive." Ele não pôde deixar de sorrir também enquanto lhe entregava o embrulho branco.

Era um vestido escolhido a dedo. Verde de um tom que deixava os cabelos dela ainda mais claros e os olhos mais brilhantes, feito para ser usado nos passeios de tarde.

"Sh...Holmes, é lindo!" Por um instante, além de sentir-se satisfeito consigo mesmo, o coração dele falhou uma batida ao perceber que pensou por um momento em como preferiria aquele vestido jogado em um canto do quarto, junto com todas as roupas que ela estivesse usando. Desviou os olhos de Elisabeth e precisou focar-se em sua respiração, estava a mais de um mês sem sexo e na presença daquela que tanto o perturbava. Péssima ideia, péssima ideia.

"Mas você ainda não abriu o meu presente! Vamos, vamos!" Sem esperar resposta, ela foi saltitando para a sala e Holmes foi atrás, grato por ela estar se comportando de maneira tão infantil, o que reduzia consideravelmente sua atração sexual por ela. Ele nunca se sentiu atraído por menininhas ou mulheres tolas, talvez tenha sido por isso que nunca teve vontade de casar. Bom, quase nunca.

Como que para afastar seus pensamentos das tolices de seu passado, Elisabeth estava parada no meio da sala, segurando o embrulho azul em suas mãos e oferecendo-o a ele. Ao tomá-lo das pequenas mãos brancas, ele pôde reparar que Elisabeth tremia de antecipação. Desfez o laço e abriu o papel sem dizer uma só palavra, parecia que a atmosfera de sagrado que tinham conquistado no Natal retornara sem avisar.

Eram seis lenços. Pequenos, brancos, delicadamente bordados com uma linha cinzenta com leves tons de azulado que ele reconheceu imediatamente como a cor de seus olhos. Cada um dos lenços tinha seu monograma na ponta e as bordas recobertas por arabescos delicados.

"São... lindos." Ele murmurou, estupefato. "Foi você quem fez?" Ela concordou com um aceno de cabeça. Sherlock não pôde deixar de notar que estava corada, esperando por sua aprovação. "São realmente uma obra de arte, Elisabeth. Você deve ter demorado muito tempo fazendo-os. Para isso, não precisou negligenciar seus estudos de piano, precisou? Porque eu... um presente para mim... não valeria a pena. Você borda bem, borda muito bem, mas o que faz ao piano... Eu não vejo uma amadora tocar piano como você há muito muito tempo." Depois dessa frase, ele parou de falar, percebendo que havia elogiado-a demais e com os elogios mais sinceros e educados que tinha para ela. Para piorar, ela também notou a sinceridade de seus cumprimentos e passou de ligeiramente corada para profundamente vermelha.

"Eu... eu trabalhei neles por alguns meses. Olivia me instruiu sobre os bordados. Eu não me descuidei do piano. Não tenho como me descuidar do piano, só me dediquei um pouquinho a outra coisa também." Ele guardou os lenços com cuidado no bolso interno do casaco e sorriu gentilmente. Elisabeth sorriu de volta e parecia tentar encontrar forças para dizer algo que Holmes não queria ouvir.

"Acho que já chega de comemorações de aniversário, não é mesmo? Vamos comer o café-da-manhã?" Para seu alívio, ela soltou o ar que vinha segurando e só se deteve da comida para guardar seus presentes no quarto. Holmes examinou os lenços mais atentamente. Os pontos não eram tão perfeitos quanto poderiam ser um dia, mas eram uma obra de arte para o tempo de prática de Elisabeth. Ela chegaria lá, ele tinha certeza.

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Mrs. Marie-Louise Watson tinha se declarado culpada de todas as acusações desde o começo do julgamento e argumentado que Jaroslav a obrigara a manter Elisabeth em cativeiro e a ministrar morfina nela, para mantê-la quieta. No fim das contas, a própria Elisabeth se convenceu de que Marie-Louise gostava dela e sentiu-se satisfeita com ela não ter sido condenada à forca. Não que Elisabeth tenha perdoado-a, apenas a odiava menos. Já a morte de Jaroslav Kundera, como o previsto, foi arquivada como legítima defesa.

Não que Holmes tenha ficado em Londres para ver qualquer parte disso. Ele sequer voltou com Elisabeth, partindo para um trabalho nos arredores da grande cidade. Não era realmente um trabalho importante, o importante era se afastar dela.

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Atrapalhada com a bandeja, Elisabeth mal conseguiu manejar um jeito de bater à porta e esperar. Fazia mais ou menos uma semana que Holmes havia regressado a Londres e finalmente Elisabeth tinha uma boa desculpa para se deslocar até Paddington, Olivia queria lhe mostrar novos modelos de vestido que chegaram à loja. Mrs. Hudson lhe dissera que ele estava em casa com um hóspede, um primo, e que gostaria da surpresa. Ela concordou com a ideia, afinal, tinha passado a última semana tentando encontrar um jeito de resgatar a intimidade que tinham partilhado no chalé em Devonshire e que se tinha perdido com o fim do julgamento de Marie-Louise, já que ele mesmo não tinha se importado sequer em visitar a casa dos Watson em seu regresso, apenas almoçando em particular com John.

Não chegou a esperar dois minutos antes que a porta do apartamento se abrisse e seu bom humor murchasse imediatamente ao ver que era uma mulher que estava do outro lado da soleira. Uma mulher linda, de aproximadamente trinta anos, loira e alta. A mulher não registrou sua presença, falando sem parar no tom que as pessoas arrogantes e mimadas usam para serviçais, nem notando que as roupas de Elisabeth eram boas demais para qualquer empregada.

"Você demorou. O que aconteceu com Hudson para só atender nosso pedido de café-da-manhã vinte e três minutos depois de termos tocado a campainha? O que você está fazendo parada aí, menina? Vamos, vamos, coloque a bandeja na mesa; arrume-a!"

Elisabeth andou de fato até a mesa, aturdida. Não tanto porque se sentisse intimidada ou tivesse a intenção de fazer o trabalho de uma criada, mas porque nunca passaria pela sua cabeça que o primo (cousin) em questão fosse uma mulher. Uma mulher arrogante, desprezível, que abriu a porta em seu robe-de-chambre jogado de qualquer jeito por cima da camisola que se podia entrever. O que faria? Não queria servir àquela megera e tampouco via como dizer quem realmente era de uma forma educada. Não queria ser educada com ela. Não queria vê-la nunca mais. Felizmente, ela saiu da sala sem conferir se Elisabeth cumpria suas ordens ou não e a jovem pôde ouvir sua voz trinar chamando seu "querido Sherlock" para o desjejum. Assim que se viu sozinha, Elisabeth precipitou-se para a porta, sentindo a raiva e a humilhação crescerem a cada passo. Nem visitaria Olivia depois, só queria ir para casa. Porém, não foi rápida o bastante e Holmes entrou na sala sozinho, vendo-a tentar sair do apartamento. Reconheceu o vestido verde que ele mesmo lhe dera de aniversário e, apreensivo ao compreender vagamente a situação, chamou-a.

"Elisabeth." Ela, já com a mão na maçaneta, teve de virar-se com o sorriso de uma condenada nos lábios. Ele optou por fingir que a interrupção desastrosa de sua hóspede nunca ocorrera e levar adiante a brincadeira preparada pela jovem Watson. "Desde quando você trabalha aqui? Mrs. Hudson tem que parar de contratar qualquer mocinha que bate aqui pedindo por emprego, sem me consultar. Duvido que você tenha as qualificações necessárias para esse emprego, minha cara." E riu a risada curta e nervosa que Elisabeth sabia ser uma manifestação de sua inaptidão social e que aparecia quando ele se esforçava para ser simpático.

Pelo menos, ela reparou, ele estava usando suas roupas normais de ficar em casa. Talvez não fosse tão íntimo assim daquela mulher... Ela permitiu que sua expressão suavizasse um pouco e semi-sorriu, indicando ser incapaz de brincar no momento.

"Sinto muito vir aqui sem avisar. Eu não queria atrapalhar a sua... reunião de família. Estava vindo visitar L..."

"O que está acontecendo aqui? Por que você não arrumou a mesa como é paga para fazer?" A prima de Holmes irrompeu no cômodo, acabando com o breve momento de paz. Ele olhou para a pequena, ansioso, por um breve momento antes de interromper a histeria da outra mulher.

"Abigail, você já foi apresentada à Miss Elisabeth Watson?" Abigail, a prima, parou de falar e sua ferocidade foi substituída por uma palidez carregada de espanto. Será que Holmes já havia mencionado-a a sua prima?

"Ah. É... é um prazer... Miss Watson..." Ela estendeu-lhe a mão ao mesmo tempo em que Holmes continuava a apresentação.

"Elisabeth, essa é minha prima em segundo grau, Mrs. Abigail Dashwood." Com a menção do Mrs. e do sobrenome diferente, Elisabeth olhou para baixo, procurando pela aliança que de fato estava lá.

"Igualmente, Mrs. Dashwood." Murmurou Elisabeth, retribuindo o aperto, rezando para que sua voz não tivesse saído como um rosnado.

"Abigail está na cidade para resolver pendências pessoais e, como Mr. Dashwood viajou a trabalho, eu estou assistindo-a." Elisabeth soltou um "ah" no tom mais desinteressado que conseguiu, o que não foi difícil, já que não queria saber absolutamente nada da vida daquela mulher irritantemente alta.

"Na verdade, nós sairemos daqui a pouco para encontrar uns amigos da família e estamos nos arrumando, Miss Watson. É uma pena que você tenha atravessado a cidade para nos encontrar de saída." O tom de voz e a expressão de seu rosto diziam que ela não sentia nem um pouco por Elisabeth não poder ficar e ela pareceu mais do que aliviada ao se despedir. Conversaram por menos de quinze minutos e Elisabeth já odiava aquela mulher!