A relação com Helen não andava muito bem, depois de todos os problemas que elas enfrentaram quando Miss Bigelow descobriu do pior jeito possível a verdade sobre o passado de Miss Watson. Através dos tablóides, claro.

Elisabeth conseguiu fugir daquele confronto com a partida para Devonshire, embora as cartas magoadas de Helen tivessem conseguido chegar até ela. Não podia culpá-la por sentir-se do jeito que se sentia, mas não era como se contar a verdade fosse uma opção. Para ter alguma chance de recomeço, era preciso contar o mínimo possível ao mínimo de pessoas possíveis. Olivia, por exemplo, nunca lhe fizera uma só pergunta ou comentara sobre o que sabia do passado de Elisabeth. Estava sempre lá, gentil, calma e paciente. Estava sempre perto e sempre pronta para ajudar.

Helen não era Olivia. E Helen queria saber das coisas, queria compreender e exigia saber da verdade.

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Helen foi visitar Elisabeth assim que ela retornou de Devonshire. Entrou na sala de estar dos Watson com os lábios comprimidos em desgosto. Miss Watson descansou seu Dom Quixote na mesa de centro e esperou pela explosão que não viria. Helen sentou-se na cadeira ao lado da dela e ficou em silêncio também por não mais do que alguns segundos.

"Como você pode imaginar que eu nunca fosse descobrir? Ou você achou que eu gostaria de descobrir pelas fofocas? Pelos jornais? Você imagina como eu senti que nossa relação não significa nada para você?"

"Eu não imaginei que fosse sair nos jornais. Nem que alguém fosse se interessar por essa história. Já vivo com os fardos de memória sozinha, não é como se quisesse vê-los multiplicar-se. Mas você não acredita em mim, não é, Helen? Acha que exagero, que não confio em você? Confio em você e a conheço o bastante para saber que teve vida pacífica e calma, com seus pais e seus irmãos amados. Sabe o que é a dor, todos sabem, mas nunca sofreu de verdade." Elisabeth não dizia com mágoa ou qualquer emoção intensa, apenas sentia-se profundamente cansada.

Helen contraiu os lábios e os abriu duas vezes antes de falar em uma voz insegura.

"Tente me contar. Talvez eu entenda, talvez lhe faça bem."

"Não, Helen. Não hoje e não tão cedo. Minhas feridas ainda latejam e os pesadelos não me abandonaram. Mas, se você quer tanto 'entender', eu posso mostrar." E, com isso, desabotoou as mangas de seu vestido e as enrolou até acima dos cotovelos, expondo a pele rósea marcada por linhas pálidas e pontos brancos nos antebraços e na curva dos cotovelos, que seguiam suas veias finas verdes e roxas. Eram os caminhos que a morfina tinha traçado no côncavo de seus braços e que a loucura e o desespero tatuaram no resto. Helen deteve os olhos naquelas marcas distintas de quaisquer outras que já vira e reteve o impulso de tocá-las para comprovar que eram reais. Elisabeth tremia, exausta.

"Agora vá embora, por favor. Se quiser me visitar, apareça amanhã." Helen levantou sem discutir e saiu, mal balbuciando decentemente um adeus.

Quando ela saiu, Elisabeth afundou o rosto nas mãos e ficou assim, imóvel, por um bom tempo. Helen não apareceu no dia seguinte, mas mandou um bilhete pedindo desculpas e explicando que não iria porque já tinha ficado de lanchar com outra amiga. Elisabeth ficou feliz, não queria encontrar o olhar de piedade de Miss Bigelow.

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Apesar do estremecimento da amizade entre Miss Bigelow e Miss Watson, os Watson foram convidados ao sarau que os Bigelow ofereceram como boas-vindas ao retorno do mais jovem Dr. Bigelow, após sua estadia na França e em Viena para estudar com os grandes mestres sobre as doenças mentais. O segundo filho do velho Dr. Bigelow era bastante perspicaz e, todos diziam, muito promissor, ao contrário de seu irmão mais velho, o folgazão médico de clínica, Dr. Perseus Bigelow.

Era o primeiro grande evento social de Elisabeth, Mary acreditava que um sarau não tinha o esplendor necessário para servir como début de uma jovem herdeira como ela, mas John, em seu posto de médico, deixou claro que a saúde mental de Elisabeth ainda inspirava cuidados, que a irmã precisava habituar-se a grandes concentrações de desconhecidos e que, portanto, um sarau íntimo era muito mais adequado do que um baile para que ela fosse apresentada socialmente. Ela concordava mentalmente com John, se naquele salão cujos maiores barulhos eram risadas esparsas, preenchido apenas por quarenta pessoas, já se sentia intimidada, não conseguia imaginar como sobreviveria a um baile.

Dr. e Mrs. Bigelow se aproximaram deles assim que entraram e, após sorrirem e elogiarem os Watson da forma estranhamente espontânea e contagiante que caracterizava o casal Bigelow, lhes avisaram que seus filhos estavam perdidos pelo salão e que Mr. Holmes e sua prima já haviam chegado. Elisabeth achou que ia vomitar ante a ideia de encontrar Mrs. Dashwood socialmente.

John, fingindo não perceber o nervosismo da irmã, conduziu-as pela multidão até encontrarem um jovem grupo alegre que ria deliciosamente de alguma piada dita anteriormente. Pararam para falar com eles, pois o grupo era capitaneado por Miss Helen Bigelow e Mr. Harold Wilcox, seu noivo. Helen parecia ainda mais bonita do que o usual, animada por alguma força interna que lhe rebrilhava os olhos e corava as faces. Seu noivo era um belo espécime de homem, embora sua presença parecesse servir apenas para realçar ainda mais a de Helen, que magnetizava todos ao seu redor naquela noite.

A bela olhou fixamente para Elisabeth ao apertarem as mãos e em seus olhos havia o claro desejo de que esquecessem para sempre o que passara entre elas; Elisabeth aquiesceu tacitamente e sentou à roda, no lugar que lhe era oferecido.

Quinze ou vinte minutos depois, juntou-se ao grupo a razão do sarau, Dr. Hector Bigelow, que muito educadamente sorriu as convivas conforme se apresentavam ou trocavam exclamações de reencontro. Helen introduziu-os um ao outro. Foi aí que seus olhares se encontraram pela primeira vez. Verde no azul, exatamente como um belo dia no Hyde Park. Ele era realmente bonito, pensou a Watson.

Não pensem, leitores, que houve alguma fagulha de paixão ou desejo na constatação de Elisabeth. Sim, ela ficou extasiada ao contemplar os rijos, bem desenhados, traços célticos dele, mas foi uma experiência puramente artística. Algo como olhar o Davi de Michelangelo. É bonito, muito bonito, pode-se até perder o fôlego por um segundo, mas logo passa. Voltemos à narrativa.

O sorriso dele não esmoreceu nem um pouco ao ser apresentado a Miss Watson, mas Elisabeth viu em seu belo rosto uma pergunta que não soube decifrar.

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No caminho para a sala de jantar, Hector deu um jeito de caminhar ao lado da irmã, tomando o braço dela no seu e dedicando-lhe toda sua atenção.

"Vi que fez curiosas aquisições, Helen. Os cabelos de Mrs. Jenkins são de um tom de rubro que jamais vi igual. E a voz de Sir Wotton? Tão melódica! Fico sempre surpreso com as maravilhas que seu pequeno hábito de colecionar amigos interessantes nos traz."

"Mistress Jenkins é bela mesmo, mas começa a me cansar. Sabe que não tenho paciência para pessoas desprovidas de inteligência. E Sir Wotton deveria ser ouvido de olhos fechados, pois seu gosto para roupas é terrível." Após uma pausa, Helen continuou. "Detesto quando você está por perto, Hector. Sua presença joga luz à mediocridade dos outros e ofusca suas qualidades. Papai e mamãe deveriam ter lhe dado algum defeito além de ser meu irmão." Hector jogou a cabeça para trás e riu, beijando a mão de sua irmã em seguida.

"Sou péssimo músico, extremamente obsessivo com as coisas que me interessam e não tenho paciência com arte sacra."

"Bobagens!" Exclamou Helen teatralmente. "Ainda é mais interessante do que a grande maioria dos presentes aqui. Era mais interessante do que todos na roda em que estávamos. Não. Todos não. Há alguém que, atualmente, me cativa mais do que você."

"Ah, está apaixonada a esse ponto por Harry Wilcox? Felicito-a, Helen." Hector parecia realmente satisfeito, embora houvesse malícia em seus olhos.

"Harry?" Repetiu Helen, gargalhando em seguida. "Oh não! Harry é fascinante, eu o amo, mas ele é tão previsível e bondoso que me cansa. Não, não. A aquisição valiosa que continua brilhante mesmo perto de você é uma mulher. Uma moça, melhor dizendo."

"Que pena. Eu esperava doses de romance, talvez um noivado rompido e você vem me dizer que está encantada por uma moça. Quem é ela? Não vi ninguém fascinante assim em nosso grupo."

Neste momento chegaram à sala de jantar, onde tiveram de sentar-se. Felizmente, Mrs. Bigelow tinha colocado seus filhos favoritos lado a lado e puderam continuar seu assunto, apenas adotando o tom de voz e a postura de conspiradores, que tornavam tudo tão mais divertido.

"Essa é a graça da história, Hector. Eu também não a vi. Quem reparou na flor exótica por desabrochar foi Cassandra. E, para completar o quadro, Penelope parece não fasciná-la mais do que um retrato de uma bela figura que foi pintado sem talento. Não me olhe assim, Hector, minha nova amiga aprecia sim a beleza, mas de um jeito todo peculiar."

"Muito bem, quem é essa misteriosa figura que não se atormentou por um rosto como o de Penelope e que cativou você, Helen, a tal ponto que a minha presença não a faz se esquecer dela?"

"Eu lhe garanto: ela é encantadora, apenas precisamos nos aproximar o bastante."

"Chega de suspense, estou no limite da curiosidade. Force mais um pouco e perderei o interesse." Bufou Hector, enxugando os lábios com impaciência em seguida.

"Olhe para frente. Um pouco mais para o centro da mesa. Ali, entre Mr. Holmes e Dr. Watson."

"Elisabeth Watson é a presença que a atormenta, Helen? Mas como?" E observou com calma a garota a quem mal dirigira o olhar a noite toda. Ali estava ela, comendo silenciosa entre duas das presenças mais curiosas de Londres, em uma mesa cheia dos convidados mais distintos, dignos e especiais dentre os contatos dos Bigelow, e, no entanto, parecia alheia a tudo, muito focada em seu próprio prato sem tampouco comer dando mostras de saborear o que estava em sua boca.

Na verdade, ela parecia desconfortável, como se não gostasse da comida, do ambiente, das pessoas ou da festa em si. Não chegava a ser antipática, a expressão em seu rosto era dócil demais para tanto. Antes o fosse, porque, olhando-a com calma, Hector só conseguia achá-la sem sal. Contudo, Helen estava encantada por ela, trouxe-a para perto na sala de música, fazia questão de tocar seus cachos da cor mais escura do mel e comentar os detalhes de seu vestido branco que lhe deixava a pele ainda mais corada. Quando a primeira pessoa sentou-se ao piano, Helen manteve as mãos entrelaçadas com ela e cochichava alguma coisa em seu ouvido de vez em quando.

Hector só queria entender o que tanto atraía a irmã e passou a noite observando-a, curioso. Helen não se encantara pela beleza de Elisabeth, certamente, pois, apesar de ter dentes brancos e apenas um deles ser ligeiramente torto, apesar de ter uma boca miúda e bem desenhada numa bonita cor vermelha, apesar de ter olhos de um belo tom de azul e grandes cílios, apesar de ter um nariz arrebitado, um rosto sem máculas de doença, belos cabelos e uma boa compleição, Elisabeth tinha um conjunto indesculpavelmente mediano. Comum demais para que o físico tivesse sido a razão de figurar como a peça mais cara da coleção da irmã – embora seus olhos fossem um pouco grandes para a pequenez de seu rosto e corpo, causando um desequilíbrio perturbador e quase agradável ao olhá-la.

De qualquer modo, não achando nada de extraordinário nos traços de Elisabeth, Hector liberou suas habilidades recém-diplomadas e passou a psicanalisar seus gestos e expressões. Falava pouco e para dentro, quase estrangulando a voz suave. Não suportava olhar muito tempo para um mesmo ponto, então seus olhos moviam-se agitados pelo salão como um passarinho se debatendo na gaiola. Não ria quase nada, limitando-se a sorrir com o canto da boca ou rir nervosamente, engolindo a gargalhada em seguida e encarando o chão com força. Era uma moça tensa, perturbada por seus demônios interiores e apavorada com o mundo ao redor. Seria ela muito especial em algum tipo de habilidade ou seria a sua própria história o motivo de tanto fascínio? Certamente seus contatos eram o motivo para Helen mantê-la por perto. Quem recusaria a amizade da única irmã do Dr. John H. Watson? Ainda mais quando ele passava a frequentar sua casa junto com a família e seu ilustre amigo, Mr. Holmes. No entanto, Helen não fazia nenhum esforço para trazer qualquer um dos dois ao seu grupo seleto e parecia genuinamente fascinada com algo em Elisabeth que Hector não era capaz de ver.

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O objeto de tanta atenção não fazia ideia de que suscitava todo o tipo de questões em Hector Bigelow. Elisabeth nem reparara muito profundamente em Hector Bigelow ou qualquer pessoa que estivera próxima dela além de John, Mary e Holmes. No momento em que estiveram à mesa, Elisabeth bem que tentou conseguir alguma atenção de Holmes, mas Abigail monopolizou-a toda, fazendo todo aquele canto da mesa rir dos absurdos venenosos que proferia com o maior cinismo. A beleza de seu rosto fazia com que todos tolerassem a veleidade de seus sentimentos. Elisabeth a desprezava.

Tentou sentar-se perto de John na sala de música, mas Helen puxou-a para perto e exigiu toda a atenção que Elisabeth era capaz de dar naquele momento. Brincou com seu vestido, elogiando o bom gosto de sua costureira – esse elogio deixou-a feliz, por não ser para ela e por poder revertê-lo em elogio para Olivia depois –, e acariciou seus cachos, felicitando-a por usá-los soltos em um arranjo tão mimoso com pequenas florezinhas misturadas ao cabelo. Depois, na hora da música, insistiu com veemência que Elisabeth tocasse também. Queria muito ouvi-la, queria muito que todos soubessem que ali havia um coração que transbordava música, mas Elisabeth conseguiu desvencilhar-se dela, argumentando, com razão, que não tocava tão bem e que faria papel de boba em tocar claudicante na frente de toda aquela gente educada.

"Então você tem de vir uma tarde aqui tocar só para nós, Elisa." Sussurrou Helen, enquanto batiam palmas a uma execução robótica de Beethoven. "Cassy está morrendo de saudades de você, ela e Penny sentiram muito por serem crianças demais para participar de um evento desses. Você toca com muito mais paixão do que essa Mrs. Hubbard. Ainda mais peças românticas. Sei que não tem a execução perfeita, mas o vigor é infinitamente mais importante do que prensar as teclas certas na hora certa. Você tem beleza, Elisa, e beleza não se adquire com prática, apenas se estimula o crescimento." Esse elogio fez com que Elisabeth corasse profundamente e precisasse sentar de novo, sentindo o coração bater forte. Helen era tão loquaz quando queria, tão sedutora quanto um cavalheiro deveria ser. Olhou ao redor mais uma vez, queria ir para casa. Não aguentava mais essa sessão de tortura que os ingleses de sua época insistiam em chamar de divertimento.

Para piorar suas angústias, a próxima pessoa que se voluntariou a sentar ao piano foi a alta, bela e maligna Abigail Dashwood, que executou muito bem uma complicada peça de Schubert, provocando aplausos empolgados da plateia e uma contração desconfortável no estômago de Elisabeth. No intervalo entre as apresentações, ela não aguentou mais seguir as normas sociais e levantou-se com a desculpa de que estava com muito calor e precisava de um ar. Helen indicou-lhe como chegar ao jardim dos fundos ou a uma varanda e perguntou se Elisabeth queria companhia. Não, obrigada, ela precisava ficar sozinha.

Andou até um balcão da casa que dava vista ao belo jardim dos fundos dos Bigelow, cultivado com todo o amor por Mrs. Bigelow e Cassandra, mas que, no momento, encontrava-se coberto de neve. Apoiou seus cotovelos na murada do balcão e ficou olhando o céu quase sem estrelas de Londres. Queria voltar à tranquilidade de Devonshire e sair dessa vida em sociedade. Brincou um pouco com o leque que trazia nas mãos, pensando se voltava para a sala de música ou ficava mais um pouco sozinha. O problema era que Elisabeth não gostava de ficar sozinha perto de grandes grupos de pessoas, esse tipo de situação fazia-a sentir-se vulnerável a qualquer um que chegasse perto e decidisse conversar com ela. Gostava da real solidão encontrada na natureza. Interrompendo seus pensamentos e concretizando seus temores, uma figura indesejada aproximou-se dela por trás.

"Ele tinha me dito que você era um bicho-do-mato, mas não imaginei que fosse antissocial a esse ponto, Miss Watson." Elisabeth virou-se assustada e encontrou Mrs. Dashwood parada atrás dela com uma expressão de profundo desprezo no rosto.

"Ele...? Ah, Mr. Holmes. Bem, saiba que ele não tinha me dito nada a seu respeito." Ela tremia da cabeça aos pés ao encarar Abigail, mas não podia permitir que essa mulher a maltratasse gratuitamente. Não com Mary, John e Holmes como exemplos de coragem e firmeza de caráter.

Após um minuto em silêncio, como que avaliando sua possibilidade de ganhar a batalha, Mrs. Dashwood jogou a cabeça para trás com afetação e riu.

"Mas que gracinha! Você realmente acha que eu vou me importar com qualquer coisa que diga? Ainda mais que eu sei que ele não falou de mim para você porque ele não fala nada para você. Nada da família, nada do passado, nada dos amores dele. Nada. Você é muito criança para saber de qualquer coisa sobre o mundo dos adultos, Lizzie. Aliás, deveria ter ficado em casa hoje para não passar pelo vexame de ser a pessoa com menos de trinta anos mais muda do jantar."

"N...Não sou criança! E nós conversamos! Muito! Eu... eu..." Parou por um momento, olhando com raiva o rosto cruel de Abigail e tentando controlar sua vontade de chorar. "...não tenho que ficar aqui escutando suas sandices!" Mas Elisabeth não deu nem três passos antes que a voz melodiosa de Mrs. Dashwood a fizesse parar.

"Claro que não é criança. Conversam muito, de fato. Ele lhe dedica bastante atenção, é preocupado com você e regozija com seus progressos. Assim como eu ouvi dizer que você dedica bastante tempo de suas visitas aqui em ouvir Miss Cassandra Bigelow falar de suas bonecas. Quantos anos ela é mais nova do que você? Doze?" Elisabeth entendeu onde ela queria chegar e manteve-se de costas, para que Abigail não visse seu rosto contraído para conter as lágrimas de humilhação. "Aliás, aposto que, como vocês são tão próximos, ele até já lhe contou que quase casou uma vez. Faz uns... sete anos?" Casar? Holmes já tinha manifestado desejo de contrair matrimônio com alguém? "Como era o nome dela...? Era um nome estrangeiro... Acho que ela era bávara ou talvez suíça... Ah! Austríaca! Frau Hermann! Do primeiro nome não me lembro, mas já dá para sentir todo o absurdo da situação. Uma judia austríaca, só Sherlock para pensar que seria uma boa ideia!"

Olivia? Olivia fora noiva dele? Foi demais para que Elisabeth conseguisse suportar imóvel. Levou a mão colo, pressionando as mãos contra as veias que pulsavam na linha que começava seu pescoço. O coração batia, indiferente à vontade de morrer que ela sentia. Ciúmes. Ciúmes de Sherlock Holmes. Quão mais patética essa situação poderia se tornar? Sem dizer palavra, se afastou da sacada e de Mrs. Dashwood, que, Elisabeth tinha certeza, não se incomodara nem um pouco com a ausência de civilidade dela.

Só queria ir para casa chorar. Chorar de ciúmes, chorar de vergonha, chorar de desilusão. Olivia? E ninguém lhe contara nada? E ninguém, ninguém achara que seria importante que Elisabeth soubesse? E se ele ainda a amasse? Isso explicaria porque ele ficava tão retraído na presença de Olivia, porque ele não gostava que Elisabeth andasse com ela. Olivia! E elas eram tão amigas! E Olivia agira o tempo todo de forma tão desprendida, como se gostasse tanto dela! Oh, céus, por que o peito doía tanto?

Cambaleante, encostou-se a uma parede e, ao constatar que se perdera nos corredores da casa dos Bigelow, se permitiu chorar uivando baixinho.

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Nota da Autora: Prometi mais interação com a Abigail e aqui está. Sinto informar, mas ela é só uma personagem esporádica e não é uma grande vilã. Não, ela não é terrivelmente má. Fútil sim, cruel sim, egoísta sim, mas não é do tipo que te tranca num quarto por dezesseis anos para esconder que matou o seu pai (embora o Dr. Watson pai não fosse nada santo e vocês saberão mais dos pecados dele em breve).

Aliás, para conhecer mais dos pais deles, das histórias do Holmes antes da Elisabeth e tudo o mais que não cabe no plot principal, tenho agora o "Histórias antes da História". Procurem no meu profile e comentem, sim?

Beijos,

Nii