"Frau Hermann está à porta e insiste em esperá-la voltar, Miss Watson." Avisou Pearl a uma Elisabeth que bordava com aspecto de poucos amigos. A jovem dama terminou seu ponto e ergueu o olhar, fitando Pearl pensativamente.
"Traga-a aqui, vou recebê-la." Mary estava em seu quarto, lendo, e John trabalhava. Elisabeth teria a sala de estar só para ela e sua visita indesejada.
Olivia entrou, majestosa e indignada, e mal esperou Pearl fechar a porta para começar a falar.
"Você quer me explicar por que não tenho notícias suas há um mês? Antes do Sarau dos Bigelow éramos amicíssimas, agora você manda a criada dizer que não está? Elisabeth! Está me ouvindo falar com você?" Com o último grito, parou de costurar e olhou para Olivia pela primeira vez desde que a outra entrara na sala.
"Boa tarde para você também, Liv. Você quer alguma coisa? Um chá, talvez uns biscoitos...?"
"Você pode agir o quanto quiser como uma inglesa insuportável depois que eu for embora, agora eu quero minhas respostas, Elisabeth! O que deu em você?" E por que tinha parado de falar com Olivia? Essa era uma resposta que ela não tinha direito, era uma resposta que não entendia direito, e pensar nos motivos que sabia para isso fazia o coração doer tanto, dava tanta vontade de chorar...
"Elisabeth... eu nunca tive segredos para você, por favor, não..."
"Mentira!" A voz saiu tão alta que até se surpreendeu com seu timbre. Olivia também parecia surpresa. "É mentira. Você escondeu coisas de mim sim." E, ao finalmente dizer isso em voz alta, teve de virar o rosto e escondê-lo nas mãos para que Olivia não a visse chorar. A austríaca levantou-se e andou até ela, afastando suas mãos do rosto com delicadeza e enxugando as lágrimas com um lenço.
"Nein. Nunca deixei de responder nada que você tenha perguntado para mim, Liz." Elisabeth teve de respirar com força para interromper o torvelinho de lágrimas e a cena patética que se formava.
"Se eu lhe perguntar algo agora, vai me responder a verdade? Toda a verdade?" Olivia disse que sim, pálida de preocupação, e apertou as mãos na saia de Elisabeth. "Por que não me disse... não me disse que foi noiva de Holmes?" Essa pergunta, para a surpresa de Elisabeth, fez Olivia sorrir. Felizmente não era um sorriso de desprezo, mas um sorriso de compreensão, como se tudo de repente fizesse sentido.
"É muito simples, na verdade. Eu nunca fui noiva de Sherlock Holmes." Elisabeth piscou algumas vezes e ia protestar quando Olivia a interrompeu, prosseguindo. "No entanto, ele me pediu em casamento sim. Nunca contei nada a você porque... bem, é uma história tão antiga e sem-graça, Liz. Não vale nem a metade das suas lágrimas." Vendo que Elisabeth continuava curiosa, Olivia soltou um suspiro. "Já que você quer saber a história toda, vou querer um chá completo, minha cara." A anfitriã tocou a campainha, deu ordens a Pearl e voltou a sentar-se em sua poltrona ao lado da que estava Olivia.
"Sherlock era amigo do meu marido, muito amigo mesmo. Quando Saul adoeceu, ele pediu a seu irmão que fizesse o possível e o impossível para salvá-lo e ele fez; seu irmão foi irrepreensível, Elisabeth. Ele reduziu o sofrimento de Saul o quanto pôde. Mas câncer de boca... Eu fiquei viúva com a idade de vinte e nove anos. Sherlock foi um bom amigo para mim como antes tinha sido para Saul. Eu estava ferida, estava sozinha... Pouco mais de um ano após a morte de Saul, nós bebemos muito e estivemos juntos, como homem e mulher, pela primeira vez. Ele me salvou, querida, do túmulo que eu havia cavado para mim mesma, da minha decisão de perecer no auge de minha vida. Por ter mostrado a mim mesma que eu ainda era mulher, lhe serei eternamente grata. Mas eu não amei Sherlock Holmes, não como amei Saul. Amava-o como meu amante, como um amigo querido, mas não como alguém com quem queremos dividir a cama, cada detalhe de nossos dias, os defeitos, os problemas... Não. Eu tinha tomado a firme decisão de morrer Frau Hermann e mantenho-a até hoje. A questão é que Sherlock não entendeu isso. A maioria dos homens não entende. Eles ficam achando que serão eles a nos mudar, a entrar em nossos corações. Ele também nunca me amou. O que você tem que entender a respeito de Sherlock Holmes é que ele é um menininho ferido, assustado e solitário até hoje. Um menininho que descobriu que o mundo não era perfeito, então se fecha no seu quarto para brincar com seus brinquedos. Só que Sherlock é um homem adulto com um coração de menino, então se fecha em seu trabalho. Eu o ninei, eu o acalentei, eu dei a ele a segurança de um porto. E o que ele pensou? Que o mais correto, o mais 'natural' seria que nos casássemos e consolássemos um ao outro para o resto de nossas vidas." Nesse ponto Olivia riu e levou uma de suas mãos à testa, como se ainda tivesse pena do homem que rejeitou. "E o pedido foi tão ridículo! Tão sem emoção, tão burocrático, que eu não pude sentir na hora nenhum pesar por rejeitá-lo, mas ele sofreu. Como ele sofreu! Na época, eu não fazia ideia de todas as rejeições que ele já tinha enfrentado. Bem, isso não importa. Você descobrirá sozinha. Prosseguindo, ele veio me dizer que já tinha pedido o consentimento da família, que eles não estavam muito felizes, mas acabaram por aceitar e que deveríamos esperar apenas que o bom Dr. Watson arranjasse um novo colega de apartamento para que ele pudesse se mudar para o meu! Assim, como se meu consentimento estivesse implícito! Eu o rejeitei. Rejeitei com toda a paciência do mundo e o rejeitaria tantas outras vezes quantas fossem necessárias. Essa é a história, Liz." A história era, de fato, bem menos do que Abigail dera a entender, mas, mesmo assim, Elisabeth continuava sentindo ciúmes de Olivia, sentindo aquela dor no peito e a vontade de chorar.
Não conseguiu dizer nada. Já se comprometera demais apenas em pedir que Olivia contasse a história a ela. Ao chorar pensando no possível noivado de Holmes e Olivia.
"Mas não existe mais nada entre nós. De novo, não vou mentir para você. Nos encontramos de vez em quando, mas costuma ser mais para conversar e ele resmungar da vida do que qualquer coisa." Elisabeth assentiu. Não queria saber mais absolutamente nada daquele assunto. Não queria mais pensar naquilo.
/
"Estranhei seu bilhete. Você não costuma me procurar e muito menos para tomar chá em uma confeitaria." Enquanto sentava, Sherlock retirava suas luvas, colocando-as em seguida no bolso do sobretudo que repousava em sua cadeira. Era um dia gelado de março e, apesar de não nevar, um vento úmido assolava aqueles que não podiam ficar em casa.
Dias assim davam uma coloração especial às faces de Olivia e o vento rebelde libertava alguns de seus cachos dos penteados que usava para tentar domá-los. Sherlock se espantava como Olivia conseguia ter tanto magnetismo com tão pouca beleza em suas feições. Naquele momento, ela ria baixinho, segurando a xícara fumegante próxima aos lábios sem, no entanto, beber seu chá.
"Essa apreensão é vergonha de ser visto comigo, Sherlock?" Ele a olhou espantado e, por um momento, pareceu que ia dizer algo sério, mas apenas riu.
"Não vou cair nos seus jogos. Não mais."
"Chamei você aqui porque não quero que me procure mais." Ele se ergueu parcialmente da cadeira, já agarrando o sobretudo.
"Só isso? Poderia ter dito por um bilhete, não?"
"Pare com isso. Não aja como se eu fosse uma das suas concubinas. Sou sua amiga, por mais que agora você me rejeite, e creio que você precisa falar com alguém." Mal terminou de falar, Olivia fez sinal para o garçom, pedindo em seguida todo o que ela já sabia que Sherlock ia pedir.
"Falar sobre o que exatamente, gnädiges Frau?" Olivia respirou aliviada, ele sentara-se de novo e suas mãos já se contorciam de curiosidade. Agora era torcer para que não fugisse do assunto.
"Sobre a confusão em que você se meteu e que gira em torno de Elisabeth Watson."
"Não sei do que está..."
"Não tente bancar o idiota. Nós dois sabemos muito bem o que está acontecendo. O único inocente nessa história é ela e o que eu te peço é que não parta o seu coração. Não brinque mais com suas emoções do que já brincou." Ele servia-se de chá enquanto ouvia e, ao começar a falar, pareceu se esquecer de toda a comida presente na mesa.
"Eu não fiz nada demais. Não a cortejei, não a seduzi, me mantive o mais distante possível. Não, espere. Deixe-me terminar de falar. Eu sei que não foi o bastante. Eu vejo quando olho em seus olhos, quando noto a palidez de seu rosto. Eu sei que... que Elisabeth me ama." Concluiu a frase quase em um sussurro, olhando com determinação para as mãos de Olivia, que agora se ocupavam em partir um pedaço de bolo. Não queria ter dito isso em voz alta, dizer era como admitir que era verdade. E, se era verdade que Elisabeth o amava, o que ele estava fazendo? Tomou um gole de chá, tentando ganhar tempo para pensar. Ao olhar para frente, encontrou o rosto da austríaca repleto de compreensão. Como ele odiava essa imensa capacidade de Olivia entender os seus mínimos sinais! "Mas como me afastar dela? E o apoio que Watson precisa e só eu posso dar? E o apoio que ela precisa e só eu posso dar?"
"Chuck... Não precisa se afastar se você gosta dela, tem..."
"Não. Nem me venha falar em casamento." Irritado, ele fez um gesto com a mão como se afastasse a ideia daquela mesa. "Eu gosto dela. Gosto, não tenho vergonha disso. Preocupo-me com ela, sofro com seu sofrimento e..."
"E a deseja. De um jeito que eu nunca vi você desejar ninguém, meu amigo..." Aquela piedade nos olhos de Olivia estava deixando-o com mais raiva da situação. Será que ela não via? Que não entendia?
"Eu nunca poderia dar a ela o amor de que precisa, Olivia. Você não vê? Não vê o buraco negro que ela é? Quantos problemas ela tem? Eu não poderia lhe dar amor, não poderia lhe dar uma vida estável, meu trabalho é um risco. Ficar preocupada comigo causaria mais crises a ela. Nós acabaríamos nos odiando. Além disso, ela é uma criança, emocionalmente falando. Uma tolinha romântica. Não. O homem que casar com Elisabeth Watson precisará amá-la acima de tudo. Precisará preferir morrer para não viver sem ela. E eu não sou esse homem. Nunca serei." Bebeu mais chá e esfregou o rosto com as mãos, antes de recomeçar a falar. "Eu agradeço a sua preocupação, Liv. Sinto muito por ter estado tão estranho com você. Eu... nós temos nossas divergências, mas você tem razão. Você é minha amiga." Ao concluir a frase, apertou a mão que ela tinha deixado sobre a mesa. Olivia sorriu em retorno, afetuosa. Aquela declaração tinha aquecido todo um pedaço de seu coração que estivera endurecido desde que Sherlock tinha decidido afastar-se dela por mágoa.
"Eu te adoro, Chuck. E adoro aquela menina também. Só quero o melhor para vocês dois." Murmurou, acariciando fraternalmente a mão dele em retorno.
"Eu sei. Concordo com você. Acho que vou visitar meu pai ou ver se arranjo outra desculpa para ficar umas semanas longe de Londres. Elisabeth merece isso. E... quando ela estiver casada e feliz, eu poderei ser amigo dela, assim como sou seu."
"Você nunca poderá ser amigo dela, Chuck. Não enquanto estiver sufocando todos esses sentimentos que nutre por ela."
"Eles vão esvanecer também. Assim como todos esvaneceram."
/
Havia dias de abril em que o sol brilhava com força no Hyde Park e Elisabeth saía para passear com os Bigelow. Hector costumava encontrá-las nos fins de tarde e, após brincar com as meninas e ler poesia com Elisa e Helen, acompanhava Elisabeth até sua casa. Ela gostava dele, de toda a atenção que ele lhe dedicava e de sua delicadeza em lidar com os sentimentos dela.
Hector, por sua vez, continuava procurando obsessivamente o que fizera Helen se encantar por Elisabeth, sem compreender racionalmente o porquê de ele mesmo estar se encantando por ela. Havia algo no toque de suas mãos, no torcer travesso de seus lábios ao sorrir, no trinar de sua voz. Havia algo cada vez em que ela sentava ao piano, forte e poderosa como nunca com suas mãos que se moviam cada vez mais rápido e com mais segurança sobre as teclas brancas e pretas. Descobrira Liszt há pouco tempo e dedicava-se a tentar dominar "Um sonho de amor" dele. Algo do soturno de sua música encontrava eco nos abismos fundos de Elisabeth que Hector apenas tinha ligeiros vislumbres.
"Eu me divirto muito quando estou com você, Miss Watson." Confessou em uma tarde quente, no jardim dos fundos da casa dos Bigelow. Elisabeth apenas esmigalhou a folha que tinha nas mãos e levou-a ao rosto, aspirando seu perfume. Ela conhecia aquele olhar de admiração, era similar ao que o Sargento Williams tinha lhe devotado na época em que visitava sua casa. Visitas essas que passaram a ser desestimuladas por Mary depois que ela vislumbrou o mundo que os Bigelow tinham a oferecer a Elisabeth. "Gostaria de saber se posso alimentar meus afetos, se eles são correspondidos ou se, ao menos, posso ter esperanças de vê-los correspondidos um dia." Porém, Hector era muito mais confiante e ousado do que Williams jamais o fora. Hector era belo, culto, vivido e tinha uma idade próxima da sua. Era atraente. Era o melhor par que Elisabeth poderia arranjar. Ela sabia disso racionalmente. Sabia que deveria continuar a flertar com ele. Ainda mais considerando que ele era um psiquiatra, que poderia cuidar melhor do que ninguém dos fantasmas dela.
"Não posso dizer que correspondo seus afetos, doutor, mas eu gostaria muito de conseguir correspondê-los um dia." Tinha que ser honesta com ele. Tinha que mostrar-lhe que seu coração, infelizmente, já estava ocupado e implorar-lhe que escavasse uma brecha em seus sentimentos. Que desse um jeito de fazê-la feliz, de fazê-la com que ela o amasse de volta.
Hector se aproximou mais dela, segurando a mão que estava com a folha esmagada, aspirou seu perfume também e sorriu. Ela gostava do sorriso dele, era bonito e quase perfeito. E ele gostava dela de um jeito inofensivo, de um jeito aberto e correto. Diferentemente... não. Não deveria ficar pensando em Holmes, embora apenas esse mantra que repetia já fosse uma forma de pensar nele, porque ele não gostava de Elisabeth, ele não se importava com Elisabeth e ele desaparecera da vida de Elisabeth. De fato, desde a conversa com Olivia, Holmes evitava ao máximo aparecer na casa dos Watson e, até aquele momento, tinha conseguido não visitá-los nenhuma vez, limitando-se a sair apenas com John. Mergulhara no trabalho, arrastando o bom doutor consigo.
"Em que está pensando, Miss Watson?" Foi chamada à realidade por Hector, que a olhava de modo inquisitivo. Esforçou-se para se concentrar no presente; nas folhas que começavam a colorir as árvores, na grama que surgia sobre a terra, no sol que rebrilhava em tudo, em Hector. Ele poderia ser seu presente para o resto de seu futuro e esse pensamento não a repugnava de todo, apenas não a deixava feliz.
"Gosto da primavera. Gostava de todas as estações, quando era criança, mas hoje o inverno não me traz muitas lembranças boas." Para falar isso, teve de sufocar a memória dos dias passados em Devonshire, do abraço apertado na noite de Natal. Sufocou tudo de uma só vez, como se sentasse em uma mala excessivamente cheia que precisava ser fechada.
Hector não respondeu de imediato, correndo o polegar pelo contorno do rosto dela, enquanto sorria pensativo. Elisabeth continuava usando os cachos soltos, arrumados de um jeito ou de outro, mas soltos o bastante para que todos soubessem que estavam ali, como se usá-los soltos fosse uma magia que atrairia o responsável por isso de volta para ela.
"Eu acho que você fica ainda mais bonita sob o sol da primavera. Você foi feita para brilhar de dia, querida amiga." Elisabeth corou e se esquivou do carinho. Hector ainda não compreendera que elogios tão diretos a ela faziam-lhe mais mal do que bem. Elisabeth passara muitos anos ouvindo Jaroslav e Marie-Louise falando de quão feia, quão estúpida, quão rebelde, quão insuportável ela era para conseguir aceitar de uma só vez que era tudo mentira. Era mais fácil acreditar que aqueles que a elogiavam estavam apenas contando-lhe mentiras gentis.
"Por favor, não diga essas coisas..." Murmurou, tentando não ser rude com ele, mas deixando claro que não queria que ele mentisse apenas para agradá-la.
Hector franziu o cenho. Como psiquiatra, gostaria de entender mais sobre o trauma que fazia Elisabeth rejeitar de forma tão veemente qualquer menção feita às suas qualidades. Claro que, em sua ânsia por entendê-la, Hector revirara todos os documentos sobre ela que pudera encontrar e questionara Helen sobre tudo o que podia saber. No fim das contas, o que descobrira não era muito mais do que tinha deduzido sozinho e do que estava nos jornais. Tanto tempo isolada! Tanto tempo de tortura! Queria entender cada gatilho que travava o desenvolvimento do que Helen chamara de "flor exótica" para poder desfazê-lo e ver Elisabeth desabrochar. Mas ela construíra altos muros de treliça ao seu redor e permitia que Hector visse apenas o que ficava a mostra entre as varetas que tanto protegiam quanto a isolavam.
"Por que não, se é verdade?" Elisabeth riu aquele riso de amargura e nervosismo que tanto irritava Hector. Ela nunca gargalhara aberta e sinceramente com nada que ele dissera, mas sempre tinha aquele riso sardônico para oferecer às coisas que ele dizia.
"Eu sei que não é verdade. Sei que você só está tentando ser gentil. E não quero sua gentileza. Eu sou sem-graça, sei disso e não quero me iludir pensando que sou mais do que sou, obrigada." Elisabeth se virou e ia entrando na casa, quando a voz magoada de seu acompanhante a interrompeu.
"Então acha que minto para você? Por que eu mentiria para você? Por que eu cortejaria uma mulher que acredito ser 'sem-graça' ou o que quer que seja que você acredite ser? Não, Miss Watson, você terá de se decidir. Ou eu sou completamente louco e alimento sentimentos por uma mulher que desprezo ou eu sou completamente louco e adoro uma mulher que meus pares considerariam desprezível ou você está enganada, minha cara, e adorá-la é perfeitamente aceitável." Ela se virou, indignada. Principalmente indignada porque não tinha argumentos para contradizê-lo, mas tinha plena certeza de que era feia, de que era estúpida. "Já considerou que existe a possibilidade de quem mentiu foram aqueles que a convenceram de sua ausência de qualidades? Existe muita gente cruel no mundo, disposta a mentir para nós para que acreditemos ser menos do que somos, mas existe pouca gente disposta a mentir para nós para que acreditemos ser mais do que somos. Diante disso, eu acho que tenho vantagem lógica de estar dizendo a verdade, não?" Sem ter nenhum argumento plausível, Elisabeth limitou-se a olhá-lo com raiva, bufando diante da possibilidade de estar errada. E se estivesse errada? O que isso significaria?
Ela começou a visualizar porque, atualmente, rejeitava tanto a possibilidade de ter qualidades atraentes ao sexo oposto. Se as tivesse, qual seria a desculpa para Holmes ter se afastado? Se as tivesse, por que ele colocara seu coração em um local inacessível a Elisabeth? Se podia conquistar outros homens, por que não podia conquistar o único que a interessava? A compreensão de o porquê ser normal seria tão ruim deu-lhe uma súbita vontade de ficar sozinha, de se enterrar em um piano e expulsar suas emoções através da música, para que não começasse a chorar de forma patética. Estava cansada de ser patética.
"Por favor, não duvide mais da minha sinceridade." Elisabeth olhou em seus olhos muito verdes e decidiu que ia se convencer, pouco a pouco, que Hector falava a verdade. Assim como ia se convencer a amá-lo. Aproximou-se novamente dele e, passando sua mão próxima de seu rosto sem tocá-lo, se permitiu sorrir, gentil.
"Começou a ventar. Ficarei com frio se continuarmos aqui fora. Entremos, eu vou tocar alguma coisa para você ao piano." Hector sorriu de volta, certo de que tinha entrado mais alguns centímetros no coração de Elisabeth.
