Ventava muito na gelada manhã do começo de novembro em que Mary acordou sentindo os primeiros espasmos do trabalho de parto. A casa toda se colocou ansiosa, aguardando o momento em que o herdeiro dos Watson chegaria. Elisabeth passou o dia ao lado da cunhada, as duas falando animadamente sobre o momento em que segurariam o pequeno Lionel nos braços. Todos tinham tanta certeza sobre o sexo do bebê que nem discutiram nomes de menina.

Elisabeth convivera nos últimos meses com as amigas de Mary e de Helen que tinham filhos, tentando aprender ao máximo sobre como cuidar de bebês, como segurá-los, trocar suas fraldas, diferenciar seus choros... E os adorava! Quanto mais tempo passava com criancinhas ao seu redor, mais tempo queria tê-las em seu colo. Queria um bebê que fosse seu. Viu a barriga de Mary crescer com cobiça, pensando que não podia ser tão ruim assim ser casada se isso significasse ter filhos.

Além de gostar de crianças pequenas, o que Mary chamava de "instinto materno", Elisabeth apreciava cada vez mais a ideia de ser mãe como algo emancipador, algo que lhe conferiria o respeitável status de adulta, de alguém capaz de cuidar de algo tão precioso como uma criança. As regras sociais se encarregaram de matar o embrião do desejo de ser artista e o que sobrava de sonho e projeção era ensinar crianças suas a tocarem piano ou bordarem um lenço. Em muitos aspectos, Elisabeth não passava de uma mulher comum de seu tempo.

Junto com as descobertas de Elisabeth sobre a maternidade, Hector ia lhe mostrando pouco a pouco as práticas do desejo. Nos momentos em que ficavam sozinhos em algum corredor da casa dos Bigelow, que virara a segunda casa de Elisabeth, ele a empurrava contra uma parede e seus lábios ávidos cobriam os dela, sua língua acariciava o interior molhado da pequena boca enquanto as mãos corriam por suas costas, puxavam o quadril dela para junto do seu. Elisabeth correspondia o melhor possível para alguém que achava tudo aquilo divertido, mas bem menos excitante do que as solitárias explorações noturnas guiadas por fantasias que, graças às "aulas práticas" ministradas por Hector, tornavam-se cada vez mais detalhadas.

E, a cada semana, os pedidos dele se tornavam mais esparsos, mas menos pacientes.

"Já estamos nesses jogos há mais ou menos seis meses e você ainda não sabe se quer ser minha esposa ou não." Cobrou ele no meio da multidão barulhenta que se reunira para o aniversário de Cassandra, uma semana antes de Mary entrar em trabalho de parto. "O amor pode vir com o casamento, Elisa, mas eu não aguento mais ter de me controlar quando te toco para manter minha promessa de deixá-la casta para outro homem. Tem ideia de como isso me tortura?" Elisabeth já se tinha acostumado com a ideia de casar-se com Hector, mas pensava nisso para um futuro distante. Assumir um noivado - pior: um noivado público - significava comprometer sua honra a fazer os votos inquebráveis do matrimônio. E para isso ela ainda não estava pronta.

"Tornaremos público depois do batizado do meu sobrinho, para que Mrs. Watson possa participar da organização do enxoval e dos preparativos da cerimônia." Olhou nos olhos dele, tentando aparentar uma coragem que não sentia. "Eu vou me casar com você, Hector. Só quero poder ficar ao lado do meu irmão e da minha cunhada no nascimento do meu sobrinho, sem nenhuma atenção em cima de mim." Apesar de não estar plenamente satisfeito com a perspectiva de aguardar, Hector tornou-se imediatamente feliz com a promessa de Elisabeth de noivarem antes da primavera.

Era essa promessa que se infiltrava nos sonhos dela, que interrompia sua concentração ao piano e que pairava sobre ela a todo o momento, como uma sentença de morte. Mesmo enquanto fazia companhia a Mary entre o despertar e o momento de fato do parto, encontrava-se dividida entre a felicidade da chegada do sobrinho e a proximidade do batizado. Seus pensamentos egocêntricos só foram interrompidos quando o intervalo entre as contrações tornou-se ínfimo, no fim daquela tarde, e John decretou que era chegada a hora de realizar o parto.

Toda a criadagem – contrataram mais três pessoas, porque apenas Dolores e Pearl não dariam conta da nova casa e da nova formação familiar – pôs-se em polvorosa, arrumando o quarto, fervendo água e levando panos e bacias ao quarto do casal. Elisabeth se postou à cabeceira da cama, ao lado de Mary, segurando sua mão e sorrindo confiante para a cunhada.

A criança não saía e, quando se aproximava a meia-noite, John começou a dar sinais de preocupação. A barriga de Mary era gigantesca em comparação com seu corpo miúdo e aparentemente só Elisabeth não tinha pensado que isso pudesse ser um problema. Quando foi à cozinha buscar água para dar de beber aos esposos, ouviu conversas dos criados que fizeram seu peito se apertar em temor. Mas Dolly estava lá e, ao lhe passar a moringa cheia de água fresca, sorriu e disse que tudo daria certo. Pearl estava no quarto, dormindo, mas antes de dormir rezara a Deus pedindo que cuidasse da patroa e do patrãozinho.

Subiu as escadas pensando em Deus, em tudo o que Deus já tirara dela. Não tiraria Mary também. Como era mesmo aquele Salmo que Mary lhe ensinara? "Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam". Sim. Deus proveria. Deus cuidaria de Mary e traria muitas alegrias à casa dos Watson. Traria muitas alegrias a eles todos depois de tantas provações. Murmurando essas palavras que havia aprendido terem poder, abriu a porta do quarto onde estavam Mary e John.

Mary estava pálida de cansaço sob a barriga enorme que estremecia com as contrações. John sequer olhou para a água que lhe era oferecida, absorto no que parecia ser uma decisão difícil. Elisabeth andou até Mary e voltou a apertar sua mão, surpresa em encontrá-la fresca, quase fria. Olhando ao redor, com os olhos embotados de lágrimas, o médico pareceu não achar o que procurava.

"É grande demais. Terei que fazer um corte, Mary." A esposa o olhou apavorada, percebendo algo que escapava à compreensão de Elisabeth, mas assentiu, resignada com o devir. Ela virou-se para a cunhada e lançou um sorriso febril que não serviu para acalmar a confusão que agitava a alma de Elisabeth ou prepará-la para o que viria depois. Deu seu último grito, esmagando a mão que a acalantava com a força que lhe restava, e a criança saiu em um jorro de sangue, roxa, deformada. A placenta descolada gerou uma hemorragia que não podia ser contida e o aperto de Mary foi ficando cada vez mais fraco até o brilho de seus olhos desaparecer de vez.

Os dois Watson restantes ficaram imóveis por momentos a fio, contemplando os destroços das esperanças e da felicidade destruídas de uma só vez. Elisabeth tinha as mãos trêmulas quando enxugou o suor da testa da cunhada, acariciou seus cabelos desgrenhados e fechou seus olhos, embora não ousasse derramar nenhuma lágrima. John limitava-se a contemplar a criança enorme e ensanguentada que jazia em seus braços e que tinha custado a vida da mãe apenas para trazer ao mundo seu corpo natimorto. Ironia maior? Era o menino que tanto esperavam.

Findo o primeiro rito funerário de sua vida, Elisabeth saiu aos tropeços, sem conseguir chorar ou assimilar o que acontecera, do quarto fedido a suor e que pouco a pouco se assemelhava mais a uma câmara mortuária. Apoiou-se no topo da escada e contemplou um pequeno retrato de paisagem que fora pintado por Mary antes de gritar que os criados subissem para ajudá-los.

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Ao ouvir o grito de Elisabeth vindo do andar superior, Dolores soube que havia algo de muito errado. Dentro dela havia a suspeita de que o pior houvesse acontecido, mas mesmo assim não estava preparada para a cena que encontrou. Primeiro, para receber os criados que subiam a escada, estava Elisabeth totalmente transtornada, apoiada na parede para conseguir manter-se de pé. Dolly podia ver em seus olhos que ela lutava para manter-se acordada e sã. Depois veio o diálogo mais dolorido da vida de Dolores. Mais dolorido do que quando avisaram que seu pai tinha sido morto pela polícia, mais dolorido do que quando o pai de Pearl se levantou da cama vestindo as calças e disse que ela era péssima de cama, antes de sumir para nunca mais voltar.

"Mortos. O que eu faço, Dolly? O que se faz nessas horas? John não se mexe, ele não pode me ajudar. Quem eu chamo?" Mesmo as frases de Elisabeth não fazendo nenhum sentido aparente, a cozinheira conseguiu entender que sua patroa, sua amiga, aquela que havia dado um emprego e um teto para ela e sua filha, que contava cinco anos na época, aquela que preparara Pearl para poder ser governanta de seus filhos e ganhar mais do que Dolores ganhava como cozinheira, estava morta. E, aparentemente, o herdeiro dos Watson também. Agora seriam apenas o doutor, que devia estar em um choque maior do que Elisabeth, e a irmã dele, a pobre desequilibrada Miss Watson.

Dolly fez o que qualquer boa criada faria. Assumiu o controle da situação quando seus patrões não podiam. Mandou o único criado homem da casa, uma espécie de mordomo, chamar a funerária e Mr. Holmes e mandou as duas meninas responsáveis por ajudá-la na faxina irem buscar panos, água, um esfregão e lençóis limpos. Achou que Elisabeth precisaria de mais atenção, mas ela mesma se recompôs e foi andando de volta ao quarto à frente de Dolores. Viu que a patroa parou para respirar por um breve momento antes de abrir a porta e entrar sem olhar para cama. Pegou a manta que estava na cômoda esperando para envolver o bebê e que seria sua mortalha e caminhou em linha reta até o irmão, que ainda estava sentado na cadeira aos pés da cama com o filho morto nos braços, retirando o cadáver de seu colo e enrolando-o na manta. Dolly tentava não chorar com a cena, tentava não chorar ao ver que o sangue que sujava tudo era daquela a quem devia tanto. Olhou para a figura pálida e trêmula de Elisabeth, que tentava assumir o posto vago de dona da casa e o controle da situação.

"John. John, você precisa reagir. Ao menos saia desse quarto e vá tomar um banho, jogar essas roupas fora. John, olhe para mim. Acabou. Saia do quarto." O médico só reagiu quando Elisabeth adotou um tom imperativo em sua voz, levantando e saindo do quarto com a energia de um morto-vivo. A patroa parou por um instante, limpando as mãos no lençol de cama já imundo, e andou até o armário de Mary. "Dolly." Chamou, forçando a criada a voltar a realidade. "Me ajude a escolher algo para vesti-la para o caixão." Dolores se arrastou até o armário, não queria fazer essa tarefa. Não queria que a tarefa fosse feita. Falar a palavra caixão era concretizar a tragédia instalada naquele quarto rançoso de suor. Mas obedeceu. Dolores sempre obedecia aos Watson.

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Holmes chegou à nova casa dos Watson, cujas luzes estavam quase todas acesas, temendo o estado de caos em que a casa estaria. Agora que o mastro dos Watson estava morto, quem cuidaria de Elisabeth e John? Quem coordenaria a criadagem? Foi surpreendido no vestíbulo por ter o criado à sua espera, explicando-lhe que os homens da funerária ainda não haviam chegado. No corredor, um agradável cheiro de sopa de cebola dominava o ambiente, apesar de serem três horas da manhã. Holmes estava intrigado. Quem era a pessoa que dera aquelas ordens? Quem mantinha a casa funcionando?

Encontrou Watson na biblioteca, jogado no divã, adormecido. Na mesinha ao lado do divã estava um vidro de calmantes ainda com pouco mais da metade dos comprimidos. Deu ordens a uma criada que encontrou descendo as escadas com uma trouxa de roupas ensanguentadas para que levasse uma manta de lã para Dr. Watson e não se esquecesse de alimentar o fogo da lareira da biblioteca. Aproveitou e perguntou à mocinha se Elisabeth tinha precisado de calmantes para dormir também e se encontraria Mrs. Johnson (ele se recusava a chamar Dolores pelo prenome) no segundo andar.

"Mrs. Johnson está cuidando da sopa, Mr. Holmes, na cozinha. Quem está organizando a limpeza do quarto é Miss Watson, senhor." A garota fez uma pequena mesura e saiu, levando seu fardo de existência quase criminosa. A ideia de Mary não estar mais perto de Watson era quase criminosa.

Holmes subiu as escadas com curiosidade dobrada. Elisabeth estava organizando as coisas? Em que estado de nervos ela estava? A criada parecia abalada, mas segura do que dizia e do que fazia, não parecia que havia uma patroa gritando e se descabelando com elas. E não havia. Elisabeth terminara de vestir Mary e o rebento quando Holmes entrou no quarto e, apesar de muito pálida e com olheiras escuras embaixo dos olhos, parecia completamente dona de si. O quarto estava quase às escuras, exceto por algumas velas perfumadas, e totalmente frio, já que apagaram a lareira para que os corpos demorassem o máximo o possível para feder. Com o cheiro de calêndula dominando o ambiente, Holmes nem imaginava que, há menos de uma hora, aquilo era um caos fedido a suor.

"Natalie, acho que terminamos aqui no quarto. Ajude-me a cobrir os corpos com esse lençol até os homens da funerária chegarem, sim?" Ela só percebeu a presença dele no cômodo quando Holmes se voluntariou a ajudá-la em mais um rito funerário que Elisabeth tinha que cumprir, adiantando-se à criada. Terminado o trabalho, Holmes virou-se para a criada, que continuava parada no cômodo sem saber o que fazer.

"Natalie, vá ver se Mrs. Johnson precisa da sua ajuda. Miss Watson precisa descansar. Chame-nos quando a mesa estiver posta." Natalie fez uma mesura com a cabeça e saiu. Elisabeth continuava parada ao lado da cama, no lugar onde antes segurava a mão de Mary, e Holmes percebeu que ela olhava os vultos dos cadáveres enquanto apertava um objeto não identificado em sua mão esquerda.

Ele andou até o seu lado e colocou uma das mãos em seu ombro como ela mesma fizera antes com John.

"Vamos sair daqui, Elisabeth. Você precisa trocar de roupa, descansar." Ela o encarou e, naquela penumbra, sua pele parecia ainda mais suave e seus olhos mais brilhantes. Holmes se sentia um sádico por pensar que o sofrimento trazia nuances belas à Elisabeth. Após um longo momento olhando-o, Elisabeth apenas se deixou conduzir para fora do quarto sem dizer nada.

Elisabeth desabou quando Holmes tentou convencê-la a soltar o que quer que estivesse em sua mão. Ganindo baixinho, abriu-a e Holmes pôde ver que ela segurava o crucifixo de Mary. Engoliu o bolo que se formava em sua garganta e, pela terceira vez em sua vida, abraçou Elisabeth. Pela primeira vez, de forma espontânea e afetuosa. Ela não era uma criança, era uma sobrevivente.