O ÚLTIMO ATO

ATENÇÃO: Pode conter vocabulário pesado e explícito. Proibida para menores de dezoito anos.

CAPÍTULO TRÊS – YOU SHOULD NOT FIGHT A FEELING

Pov Hyoga

"Essa noite foi perfeita, loiro. O melhor encontro que já tive!".

As palavras que Ikki usou para se despedir ainda ecoavam em minha mente. Será que ele tinha consciência do significado do que disse? A frase como um todo, apesar de carinhosa, não seria tão alarmante, não fosse uma específica palavra utilizada: 'encontro'.

De todos os homens que já solicitaram os meus serviços, nenhum deles jamais chamou o que tínhamos de encontro. Negócios era o termo mais usual, e não posso negar que esta distância não declarada me agrada, pois sempre facilitou a realização do meu trabalho.

Agora, quando você chama de encontro, a coisa perde totalmente o sentido inicial. Deixa de ser trabalho, entende? Soa como um daqueles encontros entre dois futuros apaixonados, em que aquele momento significa o início de toda uma história de amor… Não foi o que aconteceu. Por mais que tenha sido divertido e espontâneo, aquilo foi apenas uma transação de negócios, certo? Ou será que foi mesmo um encontro?

Como pode uma simples palavra causar um nó tão grande em minha cabeça? Tudo bem, sei que não estou sendo completamente sincero. Não são apenas as coisas que Ikki diz que me confundem, mas ele como um todo. A forma como ele fala comigo, como me olha, me toca, me seduz… Parece que alguém invadiu minha cabeça, materializou o homem dos meus sonhos e o colocou bem na minha frente!

A primeira vez que reparei em Ikki, ele estava me encarando no clube. Senti um calor gostoso quando nossos olhares se cruzaram, mas foi no momento em que ele tentou me passar uma daquelas cantadas baratas, todo sem jeito, que eu soube que teria grandes problemas com esse cliente. Eu senti que seria necessário usar todo o meu autocontrole para não me envolver por ele, mas pelo que parece estou perdendo esta batalha.

Minha profissão nunca foi fácil, mas também nunca foi tão difícil. Jamais senti tanta vergonha do que faço como sinto agora. Não sou michê apenas pelo dinheiro, foi a única oportunidade que surgiu em minha frente e eu precisei agarrá-la com unhas e dentes para me manter vivo. Eu bem queria ser um desses caras com uma atividade tradicional e mal remunerada, mas nunca tive a chance.

Agora penso que deveria ter me esforçado mais, talvez. Quem sabe minha história seria diferente e, numa noite como essa, eu poderia dizer a Ikki que eu também adorei o nosso encontro, além de não receber um maço de notas das mãos dele…

Ok! Hora de voltar à realidade. Eu sou apenas um garoto de programa, Ikki é um advogado enrustido que se casará daqui a alguns meses. Entre nós dois não há nada além de uma transação comercial. Ele solicita um serviço e eu o executo, mediante uma boa quantia em dinheiro. Isso é tudo em que preciso pensar, fantasias mirabolantes não me levarão a lugar algum.

Ouço a distante voz do motorista de táxi me informando o preço da corrida, e só então percebo que já chegamos ao meu destino. Não, Ikki não foi deselegante me abandonando em uma esquina qualquer. Atendendo a um pedido meu, ele me deixou na porta do clube Millenium, pois eu não queria que ele soubesse onde eu realmente vivo. Pego minha carteira na mochila e entrego algumas notas ao taxista, deixando o veículo logo em seguida.

Caminho lentamente pelas escadarias do prédio. O elevador está novamente quebrado e já perdi as contas de quantas vezes isso ocorreu desde que me mudei pra cá, há dez meses. Divido um apartamento no subúrbio de Atenas com Vincent e Ícaro, meus melhores amigos. O lugar não é grande coisa, mas tem um quarto para cada um e o aluguel é barato, o que nos ajuda a economizar alguns trocados…

Nós moramos no sexto andar, eu estou exausto e ainda me restam quatro lances de escada para subir. O aluguel é barato, é o que eu sempre repito para mim mesmo enquanto subo os sujos degraus. O prédio é velho e as paredes definitivamente precisam de uma boa pintura, mas… O aluguel é barato! Acho que já deu pra compreender isto, não é?

Eu entrei em casa me esforçando para não fazer muito barulho. Eram quase sete da manhã, Ícaro e Vincent deviam ter acabado de chegar, e não queria acordá-los. Jogo minha mochila em um canto qualquer, deixo o celular e o relógio no criado mudo, tiro minhas roupas e me jogo na cama. Depois de travar uma pequena batalha com as cobertas, encontro uma posição confortável e a primeira imagem que me vem à cabeça quando fecho meus olhos é o rosto de Ikki.

Pensei naquele moreno que havia me levado a quase exaustão esta noite, e na capacidade que ele tinha de me deixar sempre com um gosto de quero mais… Será que é normal um michê se divertir tanto no trabalho? Talvez… Isso nunca havia ocorrido comigo, pelo menos até conhecer aquele lindo advogado.

oOo

Acordei com alguns raios de sol esquentando minha face. As escuras cortinas do meu quarto já não eram capazes de bloquear o sol, o que indicava que provavelmente já passava do meio dia. Eu trabalho na noite, portanto já me acostumei em ter os meus horários invertidos. Levei minha mão ao criado mudo e tateei a esmo até encontrar meu relógio, que já indicava mais de duas da tarde. Como de costume, Ícaro e Vincent estariam na cozinha a essa hora, tomando o café da manhã, ou melhor, da tarde.

Após minha higiene pessoal, sigo até a cozinha. Encontro Vincent sentado no balcão, com uma enorme caneca de café com leite nas mãos, e Ícaro sentado a mesa, digitando algo em seu notebook.

- Bom dia! – cumprimentei-os, enquanto pegava um pedaço de pão.

- Pela sua carinha satisfeita, eu diria que a noite foi proveitosa… - Ícaro não perdeu a oportunidade de me provocar.

- Eu diria que sim… - retruquei.

- Onde esteve, loiro? – o ruivo perguntou de forma espalhafatosa, finalmente desviando completamente sua atenção do computador.

- Estava com alguém. Um… - hesitei antes de dizer 'cliente', pois não parecia que essa palavra definiria bem o que Ikki significava para mim.

- Você não faz programa às quintas. – Vincent constatou, me interrompendo.

- Abri uma exceção. – eu queria muito cortar essa conversa ali, sabia muito bem o que ocorreria se as coisas continuassem seguindo esse rumo. Provavelmente eu ouviria mais uma série de perguntas, seguidas de sermões e conselhos de Vincent.

- Você não abre exceções. – o moreno retrucou, agindo exatamente como eu esperava.

- Eu sei me cuidar, Vince! – deixei claro que não queria prolongar o assunto.

- É aquele bonitão do clube? Aquele que parece gamado em você? – Ícaro voltou à conversa, me desarmando completamente com o seu questionamento.

Gamado em mim? O Ikki? Não sei se chega a tanto, acho que ele curte a minha companhia, não mais que isso. Mas devo confessar que a idéia de tê-lo gamado em mim agrada-me imensamente.

- Não vá se apaixonar pelo cara, hein? – Vincent finalmente perdeu um pouco daquele ar soturno, apesar de deixar transparecer que falava sério.

Vince, como eu o chamo, foi meu mentor quando cheguei ao Millenium. Me ensinou truques, deu dicas, me indicou aos melhores clientes e me ajudou a sair das mais variadas enrascadas. Posso dizer que confessamos muitos detalhes de nossa vida um ao outro, quase tudo, para ser honesto.

Eu entendo a preocupação dele. Não conheço sua história com grande riqueza de detalhes, apenas sei algumas coisas que escutei de Cleófas e outras que ele deixou escapar em nossas conversas…

O grande homem já tem trinta e dois anos, é o mais velho do Millenium e não atende clientes normais. Vincent tem pouquíssimos e antigos clientes, não sei ao certo quantos, mas pela quantidade de vezes em que ele sai, eu diria uns dois ou três no máximo. Nunca atende no clube, chega a viajar algumas vezes, essas coisas…

Mas o que ouvi dizer é que houve uma vez, e apenas uma, em que Vincent se apaixonou por um cliente. Achou que era correspondido, largou a vida de michê, mergulhou de cabeça no amor que estava vivendo, mas acabou abandonado à própria sorte… Depois disso voltou para o Millenium e Cleófas o aceitou de volta como gerente do clube. Pelo menos, foi essa a história que eu ouvi.

- É só um cliente, Vince. – tentei fugir novamente.

Eu entendo o receio que meu amigo tem de que eu me apaixone por um cliente. Vince sabe o quão dura é esta situação, e não a deseja para mim ou Ícaro. Sei me cuidar, é o que sempre repito. Não sou mais um cara facilmente manipulável, sei que as pessoas são bem mais do que deixam transparecer…

Mas o que venho me perguntando muito ultimamente, é se tudo realmente tem de ser tão a ferro e fogo… Nem todas as pessoas são iguais, não é verdade? Ikki, por exemplo, é completamente diferente de qualquer um que já conheci. O encanto que ele vem exercendo sobre mim realmente me assusta.

- Você não é a Julia Roberts, não espere encontrar o seu Richard Gere. – Vincent dispara mais uma de suas clássicas frases, parecendo adivinhar meus pensamentos.

- Foi apenas um programa… - consinto, abdicando de minhas esperanças.

- Somos michês, Hyoga. Pode até parecer que não, mas eles nunca se esquecem disso… - notei certo pesar em sua voz.

- É, eu sei. – será que sei mesmo?

- Não dê ouvidos a ele, loiro. O Vince sabe ser estraga prazeres quando quer… É tão óbvio que aquele cara gosta de você, só não vê quem não quer! – Ícaro manifestou-se.

Eu não respondi nada, limitei-me a comer meu pão em silêncio.

- Conta como foi… - o ruivo indagou, inclinando-se sobre a mesa e me encarando com interesse.

- Foi normal, Ícaro. Ele me pegou perto da escola, paramos para comer alguma coisa e depois fomos ao Royal Olimpic. – não pude evitar um sorriso.

- O quê? Ele te levou ao hotel mais caro de Atenas? Brincou! Tá vendo? É lógico que o cara gosta de você, loiro, nem tem como disfarçar… Se você fizer tudo direitinho, pode se dar bem, já imaginou?

Era incrível como Vincent e Ícaro eram completamente opostos. Enquanto um tratava de colocar meus pés no chão, o outro sonhava mais do que eu. Parecia até que eu tinha um diabinho e um anjinho em meus ombros, restava saber quem era quem.

- O Royal Olimpic é a melhor opção para quem não quer ser visto. Afastado, confortável, lindo… Mas o mais importante: exclusivíssimo e com total discrição. Não se iludam! – Vincent não perdeu a oportunidade de cortar minhas asas novamente.

Ao contrário de mim, Ícaro ignorou completamente as falas de Vince. Continuou com seus devaneios, perguntando-me absolutamente todos os detalhes do quarto de hotel onde, segundo ele próprio dizia, passaria sua lua de mel… Arrumar um noivo e conseguir se casar legalmente eram apenas detalhes, ele sempre emendava.

- Cara, ele deve ser muito rico… Pagar uma noite inteira com você e ainda mais no Royal Olimpic, não é pra qualquer um… O que ele faz? – Vincent perguntou.

Eu não queria continuar respondendo àquele interrogatório. O que eu tinha com Ikki, seja lá o que fosse, era somente meu e dele, de mais ninguém. Mas eram meus amigos ali, companheiros de todas as horas, não queria ser rude.

- Ele é advogado. – respondi um pouco sem graça.

- Tem certeza? Advogado não costuma esbanjar assim, não… - Vincent olhou-me de forma curiosa.

- Ele é dos bons, Vince. – limitei-me a responder objetivamente. Do que interessava a meus amigos saber que Ikki fazia parte de uma tradicional família de advogados? Pelo menos foi isso que ele deu a entender na primeira vez em que estivemos juntos…

- Tem um jeito de descobrir… - Ícaro sorriu travesso, digitando algo em seu notebook. – Qual o nome dele, loiro?

- Ikki. – respondi, enquanto observava meu amigo digitar o endereço do Google no navegador.

Ícaro digitou o nome de Ikki acompanhado das palavras advogado e Atenas, no campo de pesquisas. Pouco tempo depois, soltou um grito de surpresa:

- Uau! Você fisgou um peixão, Hyoga!

O ruivo entrou no site da Amamiya Advogados, um renomado escritório de advocacia, bastante conhecido. Em um canto da página, havia uma foto de Ikki abraçado a um homem que, pela semelhança, deveria ser o pai dele. Na legenda, a seguinte frase: 'Isao e Ikki Amamiya, terceira e quarta geração de advogados da família Amamiya. Tradição, ética e talento a serviço de Atenas'.

Agora sim eu entendia o medo que ele sentia, a responsabilidade em suas costas deveria ser grande demais.

- Você sabia disso? – Vincent olhou da tela do computador para mim. Seu tom de voz era irritado.

- Claro que não. Eu sabia que ele tinha dinheiro, mas não imaginei que fosse um cara tão importante… - respondi com sinceridade.

- Tome cuidado, Hyoga. – dizendo isso, Vincent foi para seu quarto.

Eu não entendi bem o que o grandalhão quis dizer. Tomar cuidado com o quê?

- Você, hein? Não bastava arrumar um cliente bonito? Também tinha que ser um dos sujeitos mais ricos da Grécia? – Ícaro brincou comigo.

- Engraçadinho! Vou malhar, ok? – disse, enquanto já saía da cozinha.

Eu faço musculação todos os dias. Vincent me ensinou que um michê de luxo sempre cuida meticulosamente de seu instrumento de trabalho, ou seja, seu corpo. Peguei minhas chaves, o celular, a carteira, coloquei algumas coisas na mochila e parti para a academia que freqüento, que não por acaso fica no mesmo bairro em que moramos.

A caminho do lugar, eu refleti sobre minha mais recente descoberta. Eu já sabia que Ikki era rico, ele próprio havia me confirmado isso. E mesmo que não tivesse confirmado, suas atitudes falavam por si só. Desde o início deu pra perceber que ele é daqueles ricos que não abrem mão do luxo, querem sempre o melhor, não importando o preço.

Eu sei que minha vida é milhões de vezes mais fudida que a dele. Mas nem isso me impediu de sentir pesar por Ikki. Já é horrível tentar ser perfeito o tempo todo, imagina ter a obrigação de seguir o padrão de perfeição de outra pessoa?

Lembrei-me novamente do que ele me disse ao se despedir: "… O melhor encontro que já tive.". Ele se sente a vontade comigo. Apesar do receio, sempre acaba se soltando e sendo quem ele realmente é. Não quero me gabar, mas é tão legal pensar que eu sou a válvula de escape dele…

Isso é meio ridículo, eu sei. Não devo ficar imaginando que eu realmente tenho tanta importância assim para Ikki. Droga, eu sou apenas um garoto de programa! Seria tão mais fácil se ele me colocasse em meu devido lugar!

Eu malhei por mais de uma hora, não deixei de pensar em Ikki em momento algum. Aquele homem estava me enlouquecendo, essa era a verdade. O estranho é que ele não é o meu primeiro cliente bonito, nem o mais rico, muito menos o único com quem me encontrei por mais de uma vez. Então por que raios eu não consigo tirá-lo da minha cabeça?

oOo

Cheguei ao Millenium por volta das oito e meia da noite. Vincent, Ícaro e eu costumamos ir juntos, salvo em raras ocasiões. Esta noite, meu amigo mais velho saiu de casa com antecedência, o que me deixou intrigado e reiterou minha desconfiança de que Vince estava fazendo o possível para me evitar, apesar de ainda não entender o motivo de tal atitude. Os funcionários do clube têm uma entrada privativa e, antes de descer para o salão, passei em meu quarto para me arrumar e deixar minha mochila.

Quando Ícaro e eu descemos, o salão já estava cheio. Respirei fundo, coloquei meu melhor sorriso falso no rosto e caminhei por entre as pessoas, cumprimentando-os com acenos de cabeça. Observei Cleófas, meu chefe, conversando com Vincent no balcão do bar. Seus ânimos pareciam um tanto quanto exaltados, mas antes que eu pudesse me aproximar para saber o que estava acontecendo, eles subiram para o escritório.

Mesmo assim, continuei meu caminho até o bar. Quem sabe Nikos sabia de algo?

- Oi, Nikos. Pega uma água mineral pra mim? – pedi.

- Claro, Hyoga! – ele prontamente me atendeu, não perdendo a oportunidade de roçar seus dedos nos meus quando me entregou a garrafa.

Desde que cheguei ao clube, há alguns anos, Nikos nunca perdeu uma oportunidade de me lançar uma cantada ou me convidar para sair. Eu sempre neguei, apesar de ser educado em todas às vezes. Ele é um cara legal, bonito até, mas eu não busco um relacionamento.

Eu nunca quis me envolver com ninguém. É complicado demais, para não dizer impossível, considerando a vida que eu levo. Muitos garotos de programa tentam, mas eu não acredito que seria capaz de dividir as coisas. Se eu me deitasse com alguém que significa algo mais para mim, tenho certeza de que não me permitiria transar com mais ninguém. Então é melhor continuar assim, sozinho e focado em meu trabalho.

- Pensando em quê? – Nikos chamou minha atenção, enquanto enxugava alguns copos.

- Nada demais… – eu tomei minha água com calma. – O Cleófas estava brigando com o Vincent? – perguntei na lata, não costumo fazer rodeios.

- Não ouvi muita coisa, eu estava atendendo um cliente… - eu percebi que ele hesitou um pouco, provavelmente louco para me contar o que havia escutado, mas com medo de ser repreendido pelo chefe.

- E o que você ouviu? – perguntei de forma inocente, debruçando-me sobre o balcão, sorrindo de lado e acariciando meu pescoço delicadamente. Era jogo sujo, eu sei, mas a minha curiosidade era grande demais.

Nikos mordeu os lábios, olhando-me com desejo. Sem pensar muito, já foi logo desembuchando tudo o que sabia:

- Pelo que entendi, Vincent estava pedindo uma opinião ao Cleófas. Não sei sobre o que exatamente, mas eu ouvi o chefe dizendo ao Vince que a regra mais importante do clube é o sigilo. E disse ainda que se o Vincent fizesse o que estava pretendendo, prejudicaria a muita gente, inclusive ele próprio. Foi tudo o que ouvi…

- Obrigado, Nikos. – pisquei pra ele e saí do bar.

Estranho, aquela conversa não fazia muito sentido. O Vincent sempre foi super preocupado em seguir cegamente as regras do clube, o Cleófas o repreendendo era algo muito esquisito…

Deixei essas preocupações de lado quando avistei um homem alto, bem vestido, de cabelos curtos e negros, parado de pé no fundo do salão e de costas para mim. Por um momento, meu coração falhou uma batida, pensando na possibilidade de ser Ikki. Mas logo o cara se virou e eu me decepcionei ao ver que não era meu cliente favorito.

- Oi, tesão! Quanto você cobra? – disse um magrelo careca, enquanto alisava a minha bunda.

Eu já estou acostumado com este tipo de abordagem, mas confesso que fiquei puto com a atitude do cara. Não havia necessidade nenhuma de chegar pegando, como ele fez. Custava me cumprimentar educadamente?

A minha vontade era dar um soco na cara dele, ou então dizer que eu era areia demais para seu caminhãozinho… Mas eu não tinha tal direito. Estava vendendo meu corpo ali, não podia ficar esperando que todo cliente me abordasse de forma tímida e desajeitada, exatamente como Ikki fez na primeira vez.

- Quatrocentos euros por hora. – É, eu aumentei o preço. Se Ikki, gostoso daquele jeito, me pagava trezentos sem eu pedir, esse idiota tinha que me pagar muito mais…

- Nossa! O que você tem? Mamilos com gosto de cerveja?

Eu não respondi. Dei as costas e saí andando para o outro lado…

- Com esse preço você não vai arrumar cliente hoje, loiro. – Só agora percebi que Ícaro havia presenciado o ocorrido e viera atrás de mim.

- O cara é um ridículo… - Eu tomei o restante da minha água e joguei em uma lixeira.

- Ele vem hoje? – ele me perguntou.

- Ele quem? – fiz-me de desentendido.

- O Presidente da República. Você sabe de quem estou falando… Não se faça de bobo!

Eu olhei para a entrada do salão. Engraçado como eu ainda estava esperançoso, apesar de Ikki ter dito ontem à noite que sua noiva chegaria hoje.

- Não, ele não vem. – respondi, resignado.

- Tem certeza?

- Tenho. Há essa hora, ele deve estar comendo a noivinha dele. – até eu mesmo me surpreendi com a raiva com que disse isso. Eu estava com ciúme? Um michê com ciúme da noiva do cliente? Meu Deus, eu sou muito ridículo!

Depois disso, eu resolvi fazer a droga do meu trabalho direito. Olhei pelo salão, analisando os potenciais clientes. Avistei um gordinho, sentado perto do palco vazio. O cara tinha um espesso cabelo castanho, cavanhaque, trajava camiseta e calça jeans, além de ter um ar meio tarado, pois praticamente comia a todos com os olhos. Mas também parecia ser endinheirado, tendo em vista que em sua mesa já havia uma garrafa do uísque mais caro do clube.

Despedi-me de Ícaro com um aceno de cabeça e me aproximei da mesa do gordinho.

- Posso te fazer companhia? – eu disse com minha voz carregada de sensualidade.

- Claro. – ele respondeu, sorrindo de lado.

Eu me sentei e ele já foi logo me perguntando o preço. Sem me fazer de rogado, mantive os quatrocentos euros. Fazer o quê? Ikki elevou meu padrão de qualidade. Ok, sendo sincero, digamos que eu não me importarei se não conseguir programa algum hoje.

- Você é caro. – ele disse, simplesmente.

- Geralmente, os melhores são… - retruquei.

O cara parou para pensar um pouco, eu olhei novamente para a entrada. Na semana passada, eu estava exatamente numa situação assim, acertando o preço, quando Ícaro apareceu e disse que um amigo estava me chamando. Quais as chances disso acontecer novamente?

- Passivo ou ativo? – Carl, o gordinho, me tirou de meus devaneios.

- O que você quiser…

- Sem camisinha é o mesmo preço?

- Não faço sem camisinha e não beijo na boca. Isso não é negociável! – Eu me irritei um pouco, não sei dizer se pela pergunta de Carl ou pelo fato de Ícaro não aparecer ainda.

- Acho que não compensa… - ele respondeu, fitando-me de forma estranha.

- Está bem. Você vai encontrar garotos mais baratos por aí… - eu me levantei e então Carl segurou meu braço, me impedindo de sair.

- Você é muito bonito… - ele acariciou minha cintura e eu senti nojo. Asco mesmo, de sentir meu estômago embrulhar.

Nesse momento eu soube que ele aceitaria o programa. E olha que sequer usei meus métodos de sedução… Mas, ao invés de ficar feliz pela grana que eu ganharia, fiquei decepcionado. Eu não queria ir, mas não tinha escolha, era o meu trabalho…

Eu e Carl subimos para o meu quarto, e assim que eu tranquei a porta ele me passou o pagamento. Quando aquele homem começou a retirar a roupa, eu senti vontade de sair correndo daquele quarto. Mas como o bom profissional que eu sou, fiz um falso elogio, permaneci ali e retirei minhas roupas também.

Bom, eu estava cobrando caro demais para ficar ali parado. Aproximei-me dele e comecei a fazer o meu trabalho, beijando seu pescoço enquanto acariciava seu corpo. Como de praxe, perguntei o que ele queria, e não me surpreendi ao saber que ele preferia que eu fosse passivo.

Quando Carl começou a me tocar, eu realmente odiei meu trabalho. Aquele perfume enjoativo, a ruidosa respiração, aqueles beijos babados percorrendo meu corpo, o hálito ruim que exalava de sua boca… Não sei como consegui conter a vontade de vomitar.

Eu não vou mentir e dizer que nunca passei por uma situação assim antes. Isso já aconteceu diversas vezes, mas a diferença é que eu sempre soube lidar muito bem com esse tipo de cliente. Ligava o piloto automático e simplesmente fazia o meu trabalho, da melhor forma possível.

Desesperado, fecho meus olhos e procuro refúgio em minha mente. Na minha cabeça, eu estou em um lindo quarto de hotel. Estou nu sobre a cama e Ikki está deitado sobre mim, me beijando, acariciando, amando…

- Ikki… - eu deixo escapar.

Para a minha felicidade, ou não, Carl para imediatamente.

- O nome é Carl, garoto. Honestamente, por quatrocentos euros, eu achei que você fosse melhor do que isso.

Eu respirei fundo, disposto a fazer com que o investimento de meu cliente valesse à pena, mas não consegui ir em frente. Eu sei que estou completamente louco, mas esta noite eu não acho que seja capaz de transar com qualquer um.

- Olha, eu te peço desculpas, mas… - coloquei minhas duas mãos no peito dele e empurrei, forçando-o a sair de cima de mim.

- Que porra é essa? – Carl começou a se alterar.

- Só pegue o seu dinheiro e vá embora! Eu não estou me sentindo muito bem… - Deus do céu, nesse momento, eu acabei de arruinar a minha reputação!

Carl tentou impor seu peso sobre meu corpo, querendo forçar uma situação. Porém, eu rapidamente me levantei e repeti firmemente:

- Vá embora! Ou eu chamo a segurança! – peguei o telefone, numa posição ameaçadora.

Conformado, Carl vestiu suas roupas, pegou seu dinheiro e saiu resmungando palavrões. Depois que ele se foi, eu percebi a merda que tinha feito. A única vez em que eu travei desse jeito foi no meu primeiro programa, e olha que nele eu consegui ir até o final.

Eu já havia visto Carl algumas vezes no salão, era um cliente recente, mas assíduo. Com toda a certeza ele reclamaria com Cleófas e aí eu estaria ferrado. Sem contar o dinheiro que eu perdi. Essa história louca com Ikki já estava me dando prejuízo.

Ouvi alguém bater na porta.

- Quem é?

- Vincent.

Vesti-me o mais depressa que pude e o mandei entrar. Quando ele abriu a porta, notei que estava com uma expressão preocupada em sua face, e deu uma bela olhada pelo quarto ao invés de falar logo o que queria.

- O que foi, Vince?

- Cleófas quer falar com você. – disse rapidamente, antes de sair do quarto.

Eu caminhei para a sala do meu chefe com Vincent logo atrás de mim, sem dizer uma só palavra. Era óbvio que ele estava me evitando, mas depois eu me preocuparia com esse detalhe. No momento havia coisas mais importantes em que pensar. Eu imaginava o que Cleófas queria: eu levaria uma bronca e seria questionado dos motivos que me levaram a ter aquela atitude. Ainda não sabia o que diria, mas na hora eu bolava alguma coisa.

Quando eu e Vince entramos no escritório do chefe, o que vi não era o que eu esperava. Conversando com um sorridente Cleófas, estava Ikki. Vestido com um terno preto muito bem cortado e com um cigarro nas mãos, ele não percebeu minha presença de imediato.

Eu fiquei parado ali, sem conseguir sequer dizer alguma coisa. Meu coração parecia que saltaria pela boca, minha respiração ficou alterada e minhas mãos suavam. Caramba! A minha vontade era de correr até ele e agarrá-lo ali mesmo…

Mas não foi o que eu fiz. Cleófas ergueu os olhos para mim e logo em seguida Ikki virou a cabeça, seguindo o olhar do meu chefe. Então nossos olhares se cruzaram, ele me deu um sorriso de lado e disse:

- Oi, loiro.

Eu estava tão surpreso que não consegui responder. Apenas abri meu melhor sorriso, um pouco sem graça por saber que meu chefe e um de meus melhores amigos estavam nos observando.

- Cuidou do cliente dele, Vincent? – Cleófas perguntou.

- Não havia nenhum… - Vince respondeu sério demais, até mesmo pra ele.

- Nenhum? – como estava olhando fixamente para Ikki, demorei alguns segundos para perceber que a pergunta do meu chefe era dirigida a mim.

- Ele já tinha ido. Ejaculação precoce, sabe? – eu respondi com a maior cara de pau, provocando risos apenas em meu chefe.

- Bom, melhor assim… – Cleófas olhou para Ikki. – Senhor, como prometido, eis o seu escolhido. – apontou para mim.

Vendo a minha expressão um tanto quanto confusa, Ikki apressou-se em esclarecer a situação:

- Eu expliquei ao seu chefe, Hyoga, que por alguns percalços cheguei aqui um pouco mais tarde do que o previsto, e infelizmente você já havia sido requisitado por outro…

- Porém, - Cleófas interrompeu. – o jovem aqui não queria abrir mão de você de forma alguma, Hyoga. Então eu e Vincent fomos obrigados a intervir… Felizmente não foi necessário destratar um cliente para agradar outro. Todos saíram satisfeitos nessa negociação…

Disfarçadamente eu ri um pouquinho, lembrando-me de que o Carl não saiu tão satisfeito assim.

- Vamos? – Ikki jogou o cigarro fora e me estendeu sua mão, com um lindo sorriso no rosto.

Hesitante, eu olhei para os outros ocupantes do recinto. Cleófas sorria satisfeito, provavelmente ele ganhara uma pequena fortuna para decidir intervir em meu programa. Já Vincent realmente me preocupou, com aquela expressão esquisita em sua face. Meu amigo demonstrava claramente seu desgosto com a situação, dizendo apenas com o olhar que eu deveria me repreender por minhas atitudes.

E, pela primeira vez desde que cheguei ao clube Millenium, eu não segui os conselhos de Vincent. Segurei a mão que Ikki me oferecia e deixei-me guiar pelo estreito corredor. Eu sei que amanhã acordarei e minha vida continuará a mesma coisa, sei que novamente não passarei de um garoto de programa, sem estudo e sem família. Isso já não me importa, honestamente. Desde que eu possa fazer desta noite, um presente para mim mesmo. Eu terei meu primeiro encontro com Ikki hoje, e tenho certeza de que será inesquecível.

Estávamos caminhando pelo corredor, de mãos dadas e em silêncio. Só então eu percebi que ainda não havia dirigido uma só palavra a Ikki.

- Você me pegou de surpresa… - comentei.

- Eu percebi. – ele riu. – Desculpa por não avisar antes… Fiquei sabendo de última hora que Esmeralda não vinha mais neste fim de semana.

Então é esse o nome da noiva? Será que a tal de Esmeralda sabe o quanto é sortuda por estar comprometida com um homem como Ikki?

- Sua família também vai continuar lá? – seria muito ridículo se eu me ajoelhasse agora e agradecesse aos céus por ter esse homem à noite toda só pra mim?

- Sim. O Shun, meu irmão, foi pra lá também. Eu os convenci a passear um pouco pela cidade antes de voltarem. – Ikki sorriu de lado, como uma criança que se vangloria de uma travessura.

- Isso é bom. – respondi.

Percebi que estávamos nos aproximando do meu quarto, e uma sensação angustiante se apossou de mim. Esta noite era pra ser diferente, eu não queria simplesmente passá-la com ele naquele quarto sujo e impregnado com o cheiro de outro homem. Mas como dizer isso a Ikki sem que soasse pretensioso demais da minha parte?

Eu não sei se foi o meu jeito hesitante, ou se nossa ligação era mais forte do que eu imaginava, mas Ikki pareceu ler a minha mente, pois antes que eu formulasse uma forma bacana de dizer a ele que não queria passar a noite naquele quarto, ele parou, olhou para mim e disse:

- Tem alguma coisa que você queira pegar aqui?

- Passaremos a noite em outro lugar? – eu tive de fazer essa pergunta idiota só para ter certeza do que eu estava ouvindo.

- Eu tenho outros planos… – ele respondeu simplesmente.

- Preciso pegar minha mochila, e… – lembrei-me momentaneamente daquele homem horroroso em cima de mim. – Um banho não seria ruim.

Ikki assentiu com um aceno de cabeça. Pelo seu silêncio e a expressão séria em seu rosto, eu percebi que ele realmente ficou incomodado com o fato de saber que eu estava com outro cliente. Eu entrei no quarto para tomar meu banho e ele preferiu me esperar do lado de fora. Não quis forçar a barra, achei até melhor que ele não entrasse mesmo.

Procurei não demorar muito, vai saber se meu príncipe se transformaria num sapo, não é verdade? Eu mantenho um pequeno guarda roupa aqui no clube, em caso de necessidade, e mais uma vez essa idéia se provou extremamente útil. Vesti uma bata azul clara e uma calça jeans branca. Não gosto de prender meus cabelos quando estão molhados então os deixei soltos sobre meus ombros. Nos pés, sandálias de couro. Com uma última olhada no espelho, decidi que estava pronto para Ikki. Afinal de contas, eu estava me arrumando para ele, não vou negar. Peguei minha mochila e saí do quarto.

Quando me viu, Ikki assobiou. Sério, assobiou! E eu adorei! O jeito como ele me trata é tão incrível, eu realmente me sinto uma pessoa, não um objeto. Essa é a melhor coisa que ele poderia fazer por mim. Eu não sou uma boneca inflável quando estou com ele, não tenho palavras para descrever o quanto essa sensação é maravilhosa.

Quase na saída do salão, avistei Ícaro com um cliente freqüente, o ruivo piscou para mim e fez sinal de positivo com as duas mãos. Eu sorri para ele, um pouco sem graça, mas sorri.

- Quais são os planos para hoje, gato? – finalmente perguntei a Ikki, assim que entramos no carro.

- Você tem alguma preferência? – eu o senti inseguro, talvez tenha interpretado errado a minha pergunta. Como dizer a ele que hoje eu não vou me esquivar do carinho dele? Como explicar que hoje eu quero sim, ser cortejado?

- Ikki, eu posso te pedir uma coisa? – meu tom sério chamou a atenção dele.

- O que quiser… - confesso que essa resposta me deixou um pouco atordoado.

- Eu não quero receber dinheiro nenhum esta noite.

Ele me olhou mais espantado do que o magrelo careca quando eu disse meu preço.

- Como assim? – Ikki me perguntou sem entender nada.

- Lembra quando você disse que ontem foi o melhor encontro que você já teve? – eu olhei profundamente em seus olhos.

- Lembro.

- Aquilo foi um programa, Ikki. Maravilhoso, mas ainda assim um programa. Hoje eu quero um encontro, gato. Um encontro de verdade, como eu nunca tive antes. Então, será que dá para você me convidar pra tomar aquela cerveja?

- Cerveja? Não, fica pra outra ocasião. Tenho outra coisa em mente, confia em mim? – ele me sorriu de forma adorável.

- Confio. – limitei-me a dizer. Não importava o que estivesse passando pela cabeça dele, tenho certeza de que valeria a pena.

Ikki ligou o carro e enquanto ele prestava atenção na estrada eu tomei a liberdade de escolher um cd para que escutássemos. Não costumo ser folgado assim, mas ele sempre me deixa a vontade demais, é inevitável.

No caminho, ele parou num supermercado vinte e quatro horas. Ri muitíssimo quando fui proibido de descer do carro. Alguns minutos depois, Ikki retornou com uma sacola, que fez o possível para esconder de mim, mas eu pude distinguir as duas garrafas de vinho.

Seguimos de carro por mais um tempo, e conversamos animadamente durante todo o trajeto. Após uns dez minutos, chegamos a um condomínio fechado, com belos prédios. Eu não precisei nem de dois segundos para saber onde estávamos, quando Ikki apertou o controle e o imenso portão de ferro se abriu.

- Você me trouxe pra sua casa? – não consegui disfarçar meu espanto.

- Algum problema? – ele sorriu.

- Claro que sim! É a sua casa, gato. As pessoas não podem me ver aqui…

- Deixe que eu me preocupe com isso, está bem?

- Você é completamente louco… Ontem mesmo estava cheio de medo, hoje me traz pra sua casa… – não é que eu não tenha gostado da atitude, claro que eu gostei. Só tinha medo de causar problemas a ele…

- Fica tranqüilo, loiro. Eu sei o que estou fazendo. Relaxa!

Dizendo isso ele colocou a mão em minha coxa, e só então eu percebi que foi a primeira vez que ele me tocou, desde que saímos do clube. Pensei um pouco no que poderia fazer com que ele agisse assim e a única coisa que veio em minha mente foi Carl. Será que Ikki estava com nojo de mim por ter sido tocado por outro? Mais tarde eu questionaria isso a ele, com toda a certeza.

Entramos pela garagem, totalmente vazia, diga-se de passagem. O elevador, idem. Como eu já imaginava, o apartamento de Ikki era na cobertura, que ocupava o andar inteiro do edifício.

Uma vez dentro do apartamento, eu literalmente fiquei boquiaberto. A casa mais linda que eu já tinha visto em toda a minha vida. Acho que era três vezes maior do que o meu apartamento.

A sala de estar era enorme. Na decoração, o branco predominava nas paredes e sofás. O restante dos móveis alternava em tons de marrom, o que dava um ar elegante ao ambiente. Porém o mais impressionante eram as janelas. A sala estava cheia delas, que ocupavam uma parede inteira. A vista era impressionante: dava pra ver boa parte da cidade e, se observasse com atenção, mesmo a noite era possível avistar o mar ao fundo…

Eu estava ali, admirando o lugar quando o interfone tocou. Eu cheguei a prender a respiração, temeroso, porém Ikki logo me tranqüilizou:

- É a pizza que eu pedi.

- Eu não vi você pedir pizza… - comentei.

- Pedi enquanto comprava os vinhos. – ele respondeu antes de atender o interfone.

- A sua casa é linda… - elogiei poucos minutos depois de recebermos a pizza.

- Obrigado. Para ser honesto, eu acho exagerada demais. Se a escolha fosse minha, preferiria um lugar menor.

- Você vai viver aqui depois que casar? – eu nem sei por que perguntei isso, apenas imaginei a tal Esmeralda se tornando dona daquele lugar incrível. Nunca senti tanta inveja de alguém como agora…

- Eu não sei… - Ikki se aproximou e me puxou para que me sentasse no sofá. Estava tão encantado com a casa dele que fiquei o tempo todo parado admirando a vista da janela. – Depende do que a Esmeralda decidir.

- Vocês já marcaram data? – eu insisti.

- Vamos falar de outra coisa? Eu realmente não estou interessado em falar da Esmeralda agora…

- Sem problema, gato. Quer falar do quê, então? – eu me insinuei pra ele, mordendo meus lábios e acariciando seu peito.

- Você deve estar com fome, vamos comer antes que a pizza esfrie.

Dizendo isso ele se afastou de mim e foi até a cozinha. Ok, eu realmente não entendi porra nenhuma, mas fazer o quê? Levantei-me e o segui.

A cozinha dele era daquelas com um balcão no meio, chamam de ilha se não me engano. Ikki abriu a garrafa de vinho e nos serviu, logo depois colocou dois pedaços de pizza em um prato e entregou para mim, separando dois pedaços para si mesmo em outro prato. Sentamos um de frente para o outro, com aquele balcão nos separando.

- Gostou do vinho? – ele me perguntou, tentando puxar assunto. Eu já estava há algum tempo em silêncio, aquela cena na sala realmente me chateou.

- Sim. – voltei a encarar a minha pizza.

- Por que está chateado? Fiz alguma coisa errada? – ele perguntou entre um pedaço de pizza e outro.

- Você quer que eu tome outro banho? – tentei não soar magoado, mas foi impossível. – Ou se preferir eu posso encher a sua banheira com álcool e me desinfetar, o que acha?

Ikki me olhou sem entender nada, e eu me senti um idiota. Se não era nojo o que ele sentia, então o que era?

- Você quase não me tocou hoje, está com nojo por causa do cliente que eu atendi? – esclareci minha dúvida, em um tom bem mais ameno.

- Eu não estou com nojo de você. Que idéia mais maluca, loiro! – ele riu muito da minha besteira.

- Então…

- Hyoga, como eu poderia te cumprimentar de forma mais íntima na sala do seu chefe? Ainda mais com aquele tal de Vincent nos olhando com tanto desgosto? – tenho que admitir que a explicação dele fazia o maior sentido.

- É, mas…

- Depois que saímos de lá, você me pediu um encontro, lembra? Quando você faz programa, imagino que todos já vão te pegando sem pestanejar, certo? Então, eu queria que fosse diferente esta noite… Queria que você sentisse como é um primeiro encontro de verdade. Desculpe-me se passei uma impressão errada.

Deus, existe homem mais perfeito? Depois disso eu realmente não resisti e toquei a mão dele sobre o balcão.

- Isso pode? – sorri.

- Claro que pode… - ele acariciou meu rosto de forma doce.

- Então, o que as pessoas fazem num primeiro encontro de verdade? – eu perguntei.

- Conversam, se conhecem…

- E se a química der certo, pode rolar algo mais? – provoquei, inclinando-me sobre o balcão.

- Depende, você é do tipo que transa no primeiro encontro? – rimos juntos.

Terminamos de comer e fomos para a sala. Lá, eu me esparramei no sofá ao lado dele. Foi então que percebi algumas fotos sobre um móvel e fui até lá.

Nos porta-retratos, reconheci o pai de Ikki em muitas das fotos, junto com uma senhora ruiva e um garoto de cabelos castanhos.

- Minha mãe e meu irmão. – ele confirmou o que eu já sabia.

Em outra foto, a família estava toda reunida, acompanhada de uma loira muito bonita.

- Esmeralda? – perguntei.

- A própria. – Ikki assentiu.

- Vocês parecem uma família daqueles comerciais de margarina… - comentei.

- Só nas aparências.

- Imagino. Essas famílias que parecem perfeitas demais são as mais problemáticas… Meus pais adotivos, por exemplo: apaixonados diante das pessoas, mas por trás de portas fechadas, escondiam altos podres… - eu sorri forçado, pois detesto me lembrar daqueles dois idiotas.

- Os meus pais também não são tudo o que aparentam. O Shun não pegou muito essa época, mas eu me lembro bem de quando o casamento deles quase acabou…

- Foi há muito tempo?

- Eu tinha uns treze anos. – ele continuou. – Eles brigavam muito, meu pai saiu de casa, minha mãe tentou se matar… Até que o meu avô se meteu na história e acabou fazendo com que se resolvessem. Desde então passaram a agir como se nada tivesse acontecido.

- Deve ter sido uma barra pra você, na época. – eu o abracei por trás, ele alisou meus braços em volta de sua cintura enquanto eu beijava seu ombro.

- Já passou… Com você deve ter sido pior!

- Foi barra pesada também. Mas como você mesmo disse, já passou. Não dói mais, dos ferimentos que eles me causaram, só restaram as cicatrizes…

- Você chegou a usar drogas? – ele voltou a perguntar, enquanto se sentava no sofá.

- Não. Detesto perder o controle sobre meus próprios atos… – eu fui até o som e olhei os CDs que ele tinha. – Gato, posso colocar uma música?

- Claro.

Eu escolhi um cd da Alicia Keys e sentei-me no sofá novamente.

- Seu cliente foi gentil hoje? – não entendi a razão da pergunta dele.

- Sabe, eu não fiz programa algum hoje. – senti a necessidade de explicar.

- Como assim? E o cara que subiu com você? – Ikki encheu nossas taças de vinho novamente.

- Não consegui ir em frente. Eu simplesmente travei, gato. Daí devolvi a grana e mandei o cara embora.

- É sério isso? – sua voz soava quase esperançosa.

- Juro.

- Eu fico imaginando o quanto seu trabalho deve ser difícil. Você tem muitos clientes bizarros? – apesar de entrarmos nesse assunto por iniciativa dele, notei que Ikki não se sentia nem um pouco a vontade em me imaginar com outros homens.

- Aos montes. – eu ri, apesar do assunto sério. – Semana passada eu atendi um cliente que gosta de se vestir de colegial.

Ikki gargalhou.

- É sério! Ele veste o uniforme completo, aquela saia azul marinho, blusinha branca, gravatinha vermelha, presilha no cabelo, sapatilha. E o tempo todo eu tive que chamá-lo de princesinha…

- E como você fez pra… Você sabe…

- Pensei em coisas excitantes. – respondi.

- Tipo? – ele insistiu.

- Você me chupando. – eu disse com a maior naturalidade possível, e posso jurar que vi Ikki corar. – Ficou envergonhado?

- Um pouco, confesso… Posso perguntar uma coisa?

- Claro. – eu ri.

- Você e o Vincent são…

- Amigos, apenas isso. Por quê?

- Ele não parece gostar muito de mim, e tenho a impressão de que é por sua causa. Já rolou alguma coisa entre vocês?

- Nunca. Nossa relação sempre foi de amizade. Acho que ele se sente responsável por mim, como um irmão mais velho…

- Sei. Ele é assustador, parece ser bem durão. Aposto que os clientes dele devem adorar um sadomasoquismo… - rimos com o comentário.

- De certa forma… Ele tem uma jacob's ladder. – eu ri mais ainda.

- O que é isso? – Ikki arqueou a sobrancelha.

- Sabe aqueles piercings de argola? Então, uma jacob's ladder é quando você coloca vários deles, um atrás do outro, na extensão do seu pênis, formando tipo uma escadinha… O Vince tem seis argolas.

Ikki me olhou com uma cara tão espantada que eu ri muito.

- Como você sabe que ele tem isso? – arqueou a sobrancelha de novo.

- O Ícaro me disse uma vez, eu pedi pra ver, e o Vince me mostrou. Não é nada do que você está pensando… Eu tenho um respeito enorme por meus amigos, jamais levaria as coisas para outro nível.

- Lembre-me de não me tornar seu amigo.

- Pode deixar. Já perdi esse tipo de respeito por você faz tempo… - eu me aproximei um pouco mais dele, nossas pernas passaram a se roçar e eu comecei a acariciar seus cabelos negros.

- Fala mais de você. – ele pediu.

- O que quer saber? – eu continuei o cafuné.

- Várias coisas…

- Então pergunta…

- Ok, vamos fazer tipo um bate pronto. Eu pergunto e você responde rápido, o que vier na sua cabeça…

- Jogo perigoso esse, hein? – eu ri.

- Tá afim?

- Claro. – me arrumei melhor no sofá.

- Seu signo?

- Aquário, e o seu?

- Leão. Do que você gosta?

- Ahmm… Música, cinema, ler, viajar, esportes, sexo, pintar, dançar, você… - a última palavra não foi dita sem pensar, muito pelo contrário.

- Adorei a resposta! Um animal?

- Cisne. O seu?

- Fênix.

- Não vale, a fênix é uma ave mitológica! Tem que ser um animal que exista!

- Quem disse?

- Eu.

Ikki se fingiu de ofendido e me encheu de cócegas.

- O que você odeia? – ele continuou o questionário.

- Meu trabalho. – respondi triste e ele me fez um carinho no rosto.

- Uma pessoa?

- Você. – sorrimos um pro outro.

- Prefere dia ou noite?

- Noite.

- Praia ou serra?

- Serra… eu acho. – rimos.

- Inverno ou verão?

- Inverno.

- Sol ou chuva?

- Depende… Sol para passear e chuva para ficar agarradinho no sofá. – sorri sugestivamente.

- Livro ou filme?

- Livro.

- Amor ou paixão?

- Nunca vivi nenhum dos dois… Mas acho que deve ser melhor quando estão juntos.

- A pior coisa que já te aconteceu?

- A morte da minha mãe.

- E a melhor?

- Te conhecer… - Eu me sentei sobre o colo de Ikki com uma perna de cada lado de seu corpo, e olhei fixamente em seus olhos enquanto ele continuava o questionário.

- Sua maior qualidade?

- Honestidade.

- Pior defeito?

- Arrogância.

- Seu melhor amigo?

- Eu me divido entre Ícaro e Vincent. Se eu pudesse fundir os dois, formariam o melhor amigo perfeito… - rimos de novo e eu me remexi no colo dele, provocando um leve gemido. – Minha vez…

- Fala. – Ikki assentiu.

- Conta um segredo seu, algo que ninguém mais saiba.

- Eu sou gay.

- Ah! Que novidade! – eu belisquei a cintura dele.

- Ok, são vários! – Ikki sorriu.

- Conta todos… - eu deslizei minhas mãos por seus cabelos negros.

- Eu quase morri de ódio hoje, quando cheguei ao clube e você estava com outro cara. A idéia de outra pessoa te tocando me deixa doente, eu penso em você vinte e quatro horas por dia. Quando eu transo com a Esmeralda, eu imagino que estou com você e faço um esforço descomunal pra não chamar o teu nome… Mas o maior dos meus segredos eu descobri ontem à noite, loiro…

- E qual é?

- Eu estou apaixonado por você! Sei que não deveria, mas estou. Foi inevitável…

Senti um calor tão gostoso no peito ao ouvir as palavras dele. Que o restante se danasse, não me importo mais se estou me envolvendo. Alguém me disse uma vez que é impossível lutar contra um sentimento, começo a acreditar na veracidade desta afirmação.

- Você é um homem incrível, gato! Queria ter te conhecido em outra circunstância… - Ikki deslizou suas mãos por minhas costas.

- Eu não me importo com o que você fez da sua vida até esse momento, loiro. Você não tinha escolha, eu faria igual se estivesse no seu lugar. Tenho orgulho de você, porque é um sobrevivente, teve a coragem que poucos teriam na vida.

- Eu me sinto sujo…

- Você fez o que tinha de fazer, loiro. Pra mim, você é mais limpo do que muitas pessoas que já conheci. Você é lindo, Hyoga. Sei que muitos outros já tiveram o seu corpo e isso não me faz te amar menos. Eu te amo por completo, não apenas a sua beleza, mas a tua história, o teu caráter… Enfim, eu amo quem você é, não o que você fez.

Não pude mais segurar as lágrimas que insistiam em inundar meus olhos. Nunca, em toda a minha vida, eu escutei algo mais lindo do que isso. Não sou um cara culto, mas no mesmo instante lembrei-me de um livro que li há muitos anos, cuja fala de um dos personagens transmitia exatamente o que eu queria dizer àquele homem que me fitava com olhos tão amorosos.

- 'Os beijos que lhe guardei, ninguém os teve nunca! Esses, acredite, são puros!'* – recitei, entregando a Ikki as únicas coisas que eu fui capaz de preservar: minha boca e meu coração.

O moreno sorriu e tocou meus lábios com a ponta de seus dedos, numa quase reverência. Ele sabia o quanto aquilo significava pra mim, o quanto de entrega havia no meu gesto…

Ikki segurou minha nuca com uma das mãos, enquanto a outra descansava em minha cintura. Delicadamente, ele puxou meu rosto de encontro ao dele e nossas bocas se tocaram. Eu fechei meus olhos e entreabri os lábios, abrindo passagem para sua língua invadir minha boca.

Então Ikki me beijou, e o meu mundo parou. Provei do sabor da boca dele e soube que tudo o que passei até hoje foi necessário, para que eu vivesse este momento. Sua língua se entrelaçou com a minha lentamente, e nada mais existia pra mim.

O cheiro de Ikki me invadia as narinas, seu peito colado ao meu subia e descia de forma descompassada, ele segurava minha nuca com força, prendendo-me a ele, aprofundando o contato de nossas línguas, diminuindo a distância entre nossos corpos, mas mantendo o ritmo lento e gostoso do beijo.

Pus as mãos em seu peito e me afastei, arfante. Nossos olhos se encontraram novamente, e eu me senti perdido naquele azul intenso.

- Eu amo você… – nunca pensei que diria isso a alguém.

- Eu também te amo! – Ikki retribui, deitando-se comigo no sofá e me beijando novamente logo em seguida.

Não sei dizer por quanto tempo ficamos assim, nos beijando no sofá da sala de estar dele. Tão pouco notei quando as coisas esquentaram àquele ponto. Mas quando finalmente nos separamos, nossos lábios estavam vermelhos e inchados de tantos beijos, nossos sapatos e camisas estavam jogados em algum ponto da sala, as calças abertas e um arfante Ikki encontrava-se deitado sobre meu corpo, confortavelmente encaixado entre minhas pernas abertas…

Uma fina garoa começa a cair lá fora. O som da chuva, junto com as risadas do meu amor soa como música para meus ouvidos. Eu me pergunto por que demoramos tanto a nos encontrar, por que perdemos tanto tempo longe um do outro. Pois é muito claro pra mim, enquanto estou aqui agora, que esse sempre foi meu lugar no mundo, esse sempre foi o propósito de tudo: Estar agarrado a Ikki, numa noite chuvosa, sendo beijado apaixonadamente por ele.

Continua…

*Frase retirada do livro 'Lucíola', de José de Alencar. Quando li esse livro, esta frase ficou gravada em minha mente, e achei perfeita para a ocasião. Recomendo a leitura, é um romance maravilhoso…

N/A: Olá! Sei que demorei a atualizar esta fic, mas tive um bloqueio enorme nesse capítulo. Ainda acho que não ficou tão bom, gosto mais dos dois primeiros, mas foi o que consegui fazer… rsrsrsrs

Eu quis mostrar um pouco do dia a dia do Hyoga, além do conflito dele em relação ao Ikki. Espero que vocês tenham gostado. Pelos meus cálculos, a fic terá mais dois capítulos, acho que agora não demoro muito não, porque o final já está pronto na minha cabeça.

Agradecimentos especiais a: Lua Prateada, Keronekoi, lissouma, medeia, Arcueid, liliuapolonio e Moni-d. Obrigada, as reviews de vocês foram um incentivo e tanto!

Um grande beijo a todos que estão acompanhando…

Mamba