O ÚLTIMO ATO
ATENÇÃO: Pode conter vocabulário pesado e explícito. Proibida para menores de dezoito anos.
CAPÍTULO QUATRO – ALMOST A FAIRY TALE
Pov Hyoga
A vida é engraçada.
Quando vivia nas ruas de Moscou, eu jamais me imaginaria numa situação assim: deitado numa cama extremamente macia, sendo acordado com toques e beijos suaves de meu amante, apenas para ver a incrível bandeja de café da manhã que ele preparou pra mim.
- Gato, você vai me acostumar muito mal… - eu sorri, olhando para a variedade de coisas que havia naquela bandeja: suco, café, torradas, manteiga, geléia, morangos, mamão, panquecas e mel.
- Imaginei que você estivesse com fome, depois de ontem… - Ikki sorriu malicioso e arqueou a sobrancelha.
Flashes da noite passada invadiram minha mente. Senti meu corpo esquentar apenas com a lembrança da forma ardorosa com que Ikki me possuiu. Eu realmente espero que não more ninguém no apartamento de baixo, porque não consegui controlar meus gemidos ontem à noite. Meu amante me levou a beira da loucura, com a paixão contida em seus toques vorazes. Trocamos juras de amor, enquanto ele se enterrava em mim por completo e tomava posse do que o pertencia.
As marcas que Ikki fez em meu corpo permaneceriam por dias em minha pele clara, e essa idéia me faz sorrir. Eu também o marquei, deixei manchas arroxeadas em seu peito, sua virilha, costas, bunda e pescoço. Ele também é meu, mesmo que a aliança em sua mão direita tente dizer o contrário.
O lençol que me cobria rapidamente me delatou, e eu sorri inocentemente quando Ikki encarou minha semi-ereção. Coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha e levei um morango à boca, chupando da forma mais indecente que consegui, antes de mordê-lo.
- Você é terrível! – ele se inclinou para me dar um selinho. Insatisfeito, eu segurei sua nuca e aprofundei o beijo. Ikki sorriu, antes de se afastar.
- Não vai comer comigo? – perguntei enquanto jogava uma quantidade generosa de mel sobre as panquecas.
- Já tomei meu café. Você estava dormindo tão gostoso que eu não tive coragem de te acordar…
Olhei o relógio no criado mudo e vi que já passavam das dez da manhã.
- Desculpa, dormi demais…
- Sem problema, loiro. – Ikki acariciou meus cabelos. – Você dormiu bem?
- Claro. O seu peito é um ótimo travesseiro… – brinquei.
- Gostaria de dormir assim com freqüência?
Parei o que fazia para observar aquele homem sentado na beirada da cama, olhando-me como se estivesse prestes a dizer algo extremamente importante.
- Admiro isso em você. – comentei, depois de comer um pedaço de panqueca. – Sempre vai direto ao ponto, não enrola… Também sou assim.
Ikki não disse nada, apesar de continuar me fitando, esperando por uma resposta à sua pergunta.
- Sim, eu adoraria dormir nos seus braços com mais freqüência, se é o que quer saber… Acho que isso ficou claro, depois de tudo o que eu disse ontem, gato. – respondi.
- Então, acho que você sabe aonde quero chegar. – Ikki pegou um morango, mordeu um pedaço e colocou o restante em minha boca.
- Exclusividade? – pode parecer insolência de minha parte, mas já esperava por isso.
- Tenta de novo. – ele respondeu seriamente, enquanto pegava um pouco de mel com o dedo e levava a minha boca.
- Sendo assim, não tenho idéia do que você pode querer. – fui sincero.
- Exclusividade, seria como se você fosse meu garoto de programa particular, não haveria maiores vínculos entre a gente além do sexo, do dinheiro… Quero mais que isso, loiro. Não quero garantir que você fique ao meu lado e seja fiel apenas pelo meu dinheiro.
- O que você quer de mim? – aquela conversa estava me assustando um pouco.
- Quero ser seu homem, seu amante, seu namorado… Tudo, menos um cliente qualquer.
- Olha, Ikki, se o problema for pagar, eu…
- Você não entendeu, amor. – Ikki retirou a bandeja da cama e depositou no chão. Logo em seguida, se assentou melhor e me puxou para seu colo.
Enquanto olhava em seus olhos, eu me perguntava onde foi parar aquele homem medroso e inseguro que conheci pouco tempo atrás. Ikki tinha um brilho nos olhos, uma certeza contida ali. Era a coisa mais linda de se ver, a segurança com que ele proferia suas palavras.
- Eu quero você na minha vida, loiro. Não quero te deixar jogado num apartamento alugado, te visitar só pra transar com você e deixar o dinheiro do mês sobre a cômoda. Não quero a exclusividade do garoto de programa, quero o amor e a fidelidade do Hyoga, o meu loiro, o meu lindo… Quero viver contigo.
Que Ikki tem muita lábia, eu já havia comprovado. Tenho certeza de que ele convenceria qualquer pessoa a fazer o que pedisse. Mas nessa situação, não posso me deixar levar… Vince me ensinou a ser prático e racional em momentos como este.
- Espera, Ikki! Olha, tudo o que você disse é muito lindo. Mas me responda uma coisa: onde fica a sua noiva nessa história toda? E a sua família? O que você pretende fazer com todos eles?
Ele não soube o que me responder, e nem seria necessário. Eu já sabia que aquilo tudo era papo furado, mesmo…
- Você quer que eu abra mão de tudo? Minha família? – Ikki segurou minha nuca e forçou-me a olhá-lo.
- Eu nunca seria capaz de te pedir este tipo de coisa. Só quero que seja sincero, sempre. Você ainda não está pronto para abandonar tudo e viver comigo como está propondo, então por que tenta me iludir? Eu sei o meu lugar, Ikki. Sou um garoto de programa, e o fato de amar você como amo, não altera em nada a minha profissão.
Ikki colocou as mãos em sua face e suspirou. Pareceu finalmente entender que estava viajando demais. Abandonar a família para viver com outro homem, era um passo grande demais para ele.
- Você está bem? – perguntei quando percebi que ele ficou abatido.
- Eu quero tomar as rédeas da minha vida. Por que não consigo?
- Porque você foi criado para seguir os passos dos outros… Na sua família, Ikki, o diferente é errado, inaceitável. – com uma das mãos em seu queixo, eu ergui sua cabeça para que me olhasse. – Você não precisa mudar tudo radicalmente, se ainda não está pronto. As coisas não precisam ser oito ou oitenta. Eu espero por você.
- Então, como ficamos?
- Na mesma? – retruquei.
- Não quero mais que você trabalhe.
- Eu preciso conversar com o Cleófas a respeito.
- Ele não é seu dono, Hyoga! – Ikki irritou-se.
- De certa forma, ele é… Olha, quando Cleófas pagou minha dívida com a gangue que me atraiu até a Grécia, ele não o fez por simples caridade. Foi uma boa ação da parte dele, mas desde o início ficou bem claro que se tratava de um empréstimo.
- E você foi para o Millenium para pagar o que devia a ele.
- Em momento algum Cleófas me obrigou a trabalhar no clube dele, eu poderia me virar da forma que eu quisesse, desde que arrumasse a grana. Mas se eu optasse por fazer qualquer outro trabalho, eu teria um prazo de seis meses para conseguir todo o dinheiro. Já no clube, ele me daria o tempo que eu precisasse, sem pressa alguma. Foi mais fácil assim, no Millenium eu posso selecionar os clientes, cobrar mais caro, tem segurança, alimentação de graça…
- Não pensei que o Cleófas fosse tão cretino! – Ikki levantou-se da cama e quase me derrubou no chão.
- Não é bem assim, gato! Ele me conheceu, viu que seria uma boa contratação para o comércio dele e me comprou. Não se trata de cretinice, mas de bom faro para os negócios… - dei um sorriso falso, porém não tive coragem de erguer os olhos.
- Como você pode encarar numa boa todo o mal que já te fizeram? – Ikki se ajoelhou diante de mim e acariciou meu rosto.
- Ficar remoendo não adianta. Uma coisa que aprendi muito cedo foi que devo ser objetivo. Você tem que se adaptar às situações, e aproveitar a primeira oportunidade para escapar. Não tenho mágoa do Cleófas, ele sempre foi bom pra mim. E a partir do momento em que me disse que bastava pagar a minha dívida para conseguir minha liberdade, esse passou a ser meu objetivo, entende?
- Por isso você cobrava caro? – Ikki beijou minha boca.
- Não. Eu cobro caro porque sou gostoso demais, gato. – fiz graça, provocando um belo sorriso no rosto dele. – Mas todo o dinheiro que ganho, eu sempre repasso a maior parte pro Cleófas, pra abater a dívida.
- Quanto você já pagou?
- Trinta mil quinhentos e sessenta e sete euros.
- E quanto ainda falta?
Eu hesitei um pouco e Ikki sorriu, acariciando meu rosto logo em seguida, procurando me deixar a vontade para dizer.
- Quarenta e seis mil.
- O quê? – a surpresa dele me deixou ainda mais desconfortável.
- Eu te disse que não era tão simples…
- Eu pago. É só esse o problema? – ele respondeu, com a naturalidade de alguém que fala sobre o tempo.
- É, esse é o único problema.
- Então está tudo resolvido, podemos acertar os detalhes?
- Que detalhes? – perguntei.
- Seu apartamento, sua mesada, quando falamos com seu chefe… essas coisas, meu namorado!
Eu sorri, adorei a maneira dele simplificar tudo, como se o resto não importasse tanto assim… E pensando bem, realmente não importava, desde que estivéssemos juntos.
oOo
Uma semana depois…
Bati à porta do quarto em frente ao meu pela terceira vez.
- Vince, eu sei que está aí! Preciso falar com você.
Sem resposta. Exatamente como tem acontecido nos últimos dias.
- Vincent! – chamei novamente, ainda esperançoso.
Nada. Ele ainda não vai falar comigo e estou começando a desistir de tentar… Ainda assim, não posso deixar de adverti-lo:
- Eu só queria avisar que o meu namorado vem aqui hoje, então… - não pude concluir, pois a porta se abriu e um inexpressivo Vincent surgiu diante de mim.
- Não trazemos clientes aqui, são as regras…
- Eu não vou trazer um cliente! É o meu namorado! – embora irritado com a petulância dele, procurei manter meus nervos sob controle, pois era a primeira vez que ele falava comigo em dias.
- Se você diz… - Vince usou seu tom mais debochado e me virou as costas.
- Por que está me tratando assim? – entrei no quarto, sem me importar em fechar a porta.
- Não quero falar disso!
- É ciúme? – indaguei.
Vincent olhou-me incrédulo.
- Você realmente se acha demais… O que foi? Pensa que estou apaixonado por você? – o deboche estava ali novamente.
- Confesso que isso passou pela minha cabeça… Do contrário, qual outro motivo você teria para agir assim, Vince?
- Quantas vezes eu te falei para não se envolver? Quantas vezes eu te avisei de que sexo é a única coisa que esses caras querem de você? Eu sempre te pedi para tomar cuidado, não se deslumbrar, não se tornar um desses babacas que acreditam no primeiro que aparece…
- Você fala como se fosse algo fácil de controlar! Pois te conto uma novidade, Vincent: Não dá pra mandar no coração! Eu me apaixonei pelo Ikki e ele por mim, por que é tão difícil para você aceitar a minha felicidade?
- É tudo uma ilusão, Hyoga! Quando menos esperar, tudo se desfaz como fumaça.
- Não pense que acontecerá comigo exatamente o que aconteceu com você! O Ikki me ama, não é como o idiota que te abandonou!
Pela expressão no rosto do meu amigo, eu percebi que peguei pesado. Vincent agarrou meu pescoço com uma das mãos e me segurou contra a parede. Não sei dizer se a mágoa em seus olhos era pelo que eu disse ou pelo abandono em si.
- Escuta bem, pirralho! Você se surpreenderia com a semelhança entre o seu namoradinho e tantos outros canalhas que já vi. Ele não é diferente dos outros, Hyoga! Nenhum deles é. No começo é assim: Vocês sonham juntos, planejam, se amam… Depois, sabe o que acontece? Tudo cai por terra. Ele nunca vai deixar de ser um cliente, e você sempre será apenas um garoto de programa! Pode ter certeza que a vida que te espera não é um conto de fadas ao lado do príncipe encantado, está mais para um bordel onde você só tem um cliente vip…
Essas palavras me magoaram mais do que eu esperava. Quando contei a meus melhores amigos minha decisão de ficar ao lado de Ikki, eu sabia que a reação de Vince não seria das melhores, mas a agressividade com que ele lidou com a informação me deixou atônito. Eu realmente cheguei a pensar que meu amigo sentia algo mais por mim, mas agora entendo que ele se vê em mim. Ele realmente acha que vou sofrer o mesmo que ele sofreu.
- O Ikki é diferente… - eu disse baixinho, muito mais pra mim do que pra ele. Não posso fraquejar agora, tenho que acreditar no homem que amo, sem me importar com as palavras duras de Vincent.
- O Ikki é exatamente igual a ele… Vai te abandonar da mesma forma, diante do primeiro obstáculo que enfrentarem. Eles são iguais, Hyoga. Você descobrirá isso da pior forma.
Vincent me soltou e, sem dar oportunidade pra que contra-argumentasse, deixou a casa.
Passei o dia inquieto, pensando nas palavras de Vince. Enquanto ajudava Ícaro com a louça, tentei disfarçar ao máximo minha frustração, pois não queria incomodar o ruivo com minhas neuras.
- Qual o problema, loiro? – Ícaro perguntou. Enquanto ele lavava a louça, eu secava e guardava no armário.
- Nada. - respondi, rezando para que ele não insistisse no assunto.
- Hyoga, ninguém pode viver por você.
- O que quer dizer? – perguntei.
- A vida é sua. Ninguém pode amar por você. Nem sofrer, chorar, sentir dor, nada disso. Você não deve ignorar a experiência dos outros, mas não se esqueça de acumular as suas próprias.
Eu provavelmente fiz uma cara engraçada, porque Ícaro riu e voltou a explicar:
- O que aconteceu com Vincent foi terrível, mas faz parte da história dele. Você não deve basear as suas escolhas no sofrimento alheio, entende? As pessoas são diferentes, e por mais que Vince queira te influenciar, a sua história é diferente da dele. O que rola entre você e o Ikki, é algo somente de vocês. Nenhum de nós pode julgar o quão verdadeiro é. Siga o seu instinto, loiro. E, se no final das contas você quebrar a cara, estarei aqui por você, ok?
Não consegui dizer nada, apenas me aproximei e o abracei. Era disso que eu precisava. A minha decisão já estava tomada, eu não voltaria atrás. Mas ainda assim necessitava de um apoio, alguém que me dissesse que eu estava fazendo a coisa certa ao seguir meu coração.
- Vai ficar tudo bem… - Ícaro sussurrou em meu ouvido.
- Agora eu sei disso. – respondi ainda abraçado a ele.
Em parte, minha insegurança se devia também ao fato de não ver Ikki há uma semana. Meu namorado precisou viajar a negócios, e o medo de que ele voltasse atrás em nossos planos se fez presente o tempo todo. Falamo-nos todos os dias por telefone, mas mesmo assim eu estava receoso.
Eu precisava ver Ikki novamente, sentir seus braços ao meu redor, ouvi-lo planejar sua vida ao meu lado… Não via a hora de tornar tudo real, deixar as neuroses de lado e ser feliz.
- Ele vem aqui hoje, você se importa? – perguntei enquanto me afastava de Ícaro.
- Claro que não! Vocês vão dormir aqui?
- Não sei… Ikki disse que tem uma surpresa pra mim…
Algum tempo depois, eu tomei meu banho e fiquei pronto para receber Ikki. Estava louco de saudades, não posso negar. Ouvi a campainha e corri para abrir a porta, com o meu melhor sorriso no rosto.
- Oi, loiro.
Não respondi, simplesmente me joguei pra cima de Ikki e o abracei possessivamente. Ele estava ali, veio pra me ver, e só então eu percebi quanta falta havia sentido daquele cheiro, daquele corpo…
- Você não tem idéia de quanta saudade eu senti, Ikki. – confessei sem me soltar de seus braços.
- Eu também, Hyoga!
Beijamo-nos intensamente, sem nos importarmos com absolutamente nada ao redor. Os vizinhos que se danassem! Enquanto Ikki atacava minha boca com sofreguidão, eu o acariciava por toda a parte, certificando-me de que não era um sonho, de que ele estava realmente ali pra mim.
- Olha, se vocês continuarem se empolgando assim, eu vou pular aí no meio! – Ícaro brincou, trazendo-nos de volta a compostura.
Sem graça, eu me afastei de meu namorado, segurei sua mão e o conduzi para dentro.
- Bom, vocês já se conhecem, então posso pular as formalidades, certo? – comentei.
- Como vai, Ícaro? – Ikki cumprimentou educadamente, estendendo a mão direita para meu amigo ruivo.
- Vou muito bem. E você, doçura? – eu ri com o apelido. – Bom, vou deixar vocês sozinhos agora, tenho uns compromissos… Juízo, hein? – dizendo isso, Ícaro pegou uma mochila e saiu do apartamento.
Depois que o ruivo fechou a porta e eu a tranquei, voltei-me para Ikki com um sorriso safado nos lábios.
- Enfim, sós! – brinquei.
- O seu outro amigo não está? – perguntou, à medida que se aproximava de mim.
Eu apenas neguei com a cabeça.
- Bom saber disso, meu loiro. – Ikki me puxou pela cintura e me beijou novamente, desta vez, de forma ainda mais despudorada.
Meia hora mais tarde, estávamos no meu quarto, nus e exaustos, com novas marcas de amor em nossos corpos. Eu, sentado na cama com as costas apoiadas na cabeceira, acariciava os cabelos de Ikki, que estava meio deitado sobre meu peito.
- Meu quarto não é grande coisa. – desculpei-me, enquanto Ikki acendia um cigarro.
- Eu gosto. É aconchegante, tem o seu cheiro… - sorriu, entre uma tragada e outra.
- E a surpresa que você prometeu? – eu não resisti à curiosidade.
- Não está aqui… Você vai ter que esperar.
- Onde está?
- Eu não vou te revelar nada, loiro. Você vai ter que esperar! – ele riu.
- 'Tô curioso! O que você está aprontando? – eu puxei levemente os cabelos dele.
- Ai! Vai me torturar para que eu diga, é?
- Não é uma má idéia…
- Malvado!
- Gostoso! – retruquei, roubando-lhe um beijo que ele imediatamente retribuiu.
- Eu preciso te tirar daqui pra te entregar a surpresa… - Ikki revelou.
- O que estamos esperando, então?
- O próximo round? – ele disse, levando uma das mãos à minha coxa.
Sem mais, retirei o cigarro da boca dele e joguei no cinzeiro, atacando meu amor logo em seguida.
oOo
Quando chegamos ao local da surpresa, fiquei atônito. Parado diante de um lindo prédio num bairro nobre da cidade, eu ainda não podia acreditar que tudo estava se tornando realidade.
- É o que eu estou pensando? – perguntei a Ikki, o sorriso não abandonava meu rosto em momento algum.
- Se você está pensando que ali está a nossa casa, sim.
Eu sou muito idiota por ficar todo bobo com o que ele disse? "Nossa casa" soava tão bem aos meus ouvidos, que eu não consigo sequer explicar. É um mundo novo se abrindo pra mim, cheio de promessas. Eu quero manter o controle e não fantasiar demais com isso tudo, mas acho que já é tarde.
O prédio era daqueles com apenas um apartamento por andar, duas suítes, uma varanda enorme, uma decoração linda, closet na suíte máster… Enfim, todo o conforto que eu nunca pude imaginar que um dia teria.
- Isso tudo é realmente pra gente? – perguntei incrédulo.
- Não. Isso tudo é pra você, amor! Você gostou?
- Se eu gostei? Fala sério, Ikki! É perfeito!
- Vem, quero que veja tudo!
Ikki me mostrou cada detalhe do apartamento, empolgado como uma criança. O lugar era simplesmente lindo!
- Senta aqui, loiro. – ele me indicou o sofá da sala.
Com um semblante sério, meu namorado pegou alguns papéis em cima da mesa de centro e me entregou.
- Assina aqui, aqui e aqui. – pediu, indicando-me com o dedo onde eu deveria assinar.
Eu já fui logo pegando a caneta que Ikki oferecia e assinando a primeira folha, porém ele me impediu de continuar minha tarefa.
- Você sempre faz isso? – perguntou, enquanto segurava a minha mão.
- Isso o quê?
- Assina qualquer coisa sem ler?
Fiquei completamente sem graça. A empolgação era tanta que esqueci até mesmo deste detalhe.
- Leia. – Ikki pediu.
Não sou muito bom com contratos, mas, pelo que pude perceber, aquelas folhas diziam que o imóvel no qual estávamos e mais outro, no mesmo prédio, estavam sendo transferidos para o meu nome.
- O que significa isso, Ikki?
- Significa que este apartamento é seu. E, não importa o que aconteça, ninguém pode tirá-lo de você.
- Não posso aceitar isso…
- Por que não?
- É muito, Ikki. Não posso nem imaginar o valor deste apartamento! Não, não posso aceitar!
- É um presente meu, loiro! Vai recusar um presente meu? – Ikki acariciou meu rosto, beijando meu pescoço logo em seguida.
- Por que você faz essas coisas? – tentei me desvencilhar de suas carícias. Ele estava me distraindo com aqueles beijos.
- Por que eu amo você!
- Você não vai se arrepender disto depois? – insisti.
- Qual parte do 'eu amo você' não deu pra entender? – Ikki riu.
- Você não tem que me dar um apartamento para provar que me ama… - argumentei.
- Um não, mas talvez dois sejam o bastante, não acha? – ele retrucou. – Aceita, vai.
Confesso que não pensei muito. Era um presente, afinal de contas.
- Ok, eu aceito. – concordei, assinando os papéis.
- Eu já conversei com o Cleófas, e transferi o dinheiro pra conta dele.
- Então, eu finalmente estou… – eu não consegui proferir a palavra.
- Livre! – Ikki completou minha frase.
Eu tinha tanto pelo que agradecer a este homem, que eu sequer sabia como fazê-lo. Beijei-o demoradamente, como forma de externar tudo aquilo que queria explodir em meu peito. Em toda a minha existência, nunca havia experimentado tanta devoção, tanto carinho, vindos de uma pessoa. Eu nunca pensei que a felicidade bateria em minha porta algum dia, e agora ela me sorri, prometendo-me uma vida linda.
oOo
Quatro meses depois…
Amo todos os cômodos de minha casa, mas a suíte máster me agrada um pouco mais do que os outros, apenas por um objeto específico: a banheira de hidromassagem. É exatamente ali que passo longos momentos relaxantes depois do trabalho, ou quando Ikki não vem me ver.
Com minha banheira em mente, entrei no elevador, louco para chegar logo em casa e descansar os pés. Há dois meses trabalho num pet shop próximo de casa, e ainda estou me acostumando com o fato de passar a maior parte do dia em pé, dando banho em cachorros… Não reclamo do emprego, considero até muito legal, melhor do que qualquer um que já tive. É claro que Ikki relutou bastante à idéia, mas no fim eu consegui fazê-lo ceder, com muito jeitinho…
Trabalhar para mim não é um capricho. Não é por que tenho um namorado rico e que me deu onde morar, que eu tenho de ser sustentado por ele. Sendo assim, eu banco oitenta por cento das minhas contas, e pretendo aumentar esta porcentagem assim que puder.
Entro em casa e, pelo silêncio, percebo que Ikki ainda não chegou. Geralmente passamos a noite juntos às quartas feiras, pois ele sempre inventa alguma desculpa para não ver Esmeralda: noite de pôquer com os amigos, trabalho atrasado, essas coisas…
O relógio da sala marca seis da tarde, ainda tenho tempo de um banho relaxante antes de meu amor chegar. No banheiro, enchi a banheira com sais de banho, e fiquei ali de bobeira, aproveitando toda aquela espuma.
Não fazia nem dez minutos que eu estava relaxado no banho, quando ouvi a porta da sala se abrindo.
- Loiro? – ouvi Ikki me chamar.
- Estou aqui!
- Dia cansativo? – ele sorriu, ao ver-me na banheira.
- Um pouco. – assenti. – Você chegou cedo…
- Estava na academia, vim direto pra cá.
Recostado no batente da porta, Ikki estava sem camisa e o suor escorria pelo seu corpo moreno. Uma tentação.
- Gosta? – ele perguntou, notando minha apreciação.
- Entra aqui, gato… Vem cá que eu te mostro o quanto eu gosto… - eu mordi os lábios.
Ele rapidamente retirou seu short, o tênis e entrou na banheira, já envolvendo minhas pernas em sua cintura. A avidez dele me fez rir.
- Insaciável, do jeito que eu gosto… - lambi sua orelha, fazendo com que ele se contorcesse de desejo.
Ikki atacou minha boca com voracidade. Por mais que eu tente, não consigo encontrar as palavras certas para descrever os beijos dele. São deliciosos, é o que posso dizer. Meu gato me envolve em seus braços como se tivesse medo de que eu desaparecesse no ar a qualquer momento. Ele segura minha nuca com força, e sua língua atrevida invade minha boca com tanto desejo, que eu me derreto em seu colo e deixo-o fazer de mim o que bem entender.
Retribuo com gosto todas as carícias que ele faz em meu corpo. Tocamo-nos com intensidade, querendo passar em cada toque toda a necessidade que temos um do outro. Os altos gemidos ecoam pelas paredes do banheiro, externando o prazer ardente que sentimos.
Beijando-me o tempo todo, Ikki me possui naquela banheira. A conexão que ocorre entre nossos corpos é tão forte que meus olhos enchem d'água, pois eu nunca vivi nada assim. É tão lindo vê-lo ali, sorrindo pra mim, olhando fixamente em meus olhos, enquanto nos tornamos um só corpo. Eu me agarro a ele e grito seu nome, quando sinto meu êxtase se aproximar.
- Goza pra mim! – ele pede e sua boca está tão próxima da minha que eu posso sentir sua respiração quente contra meus lábios.
Obedeço meu amante e despejo minha semente, que logo se mistura a água da banheira. Ikki beija novamente minha boca de modo apaixonado e segura minha coxa com mais força. Sinto seu membro pulsar dentro de mim, quando ele desprende nossos lábios e, gritando meu nome, derrama seu sêmen no preservativo.
Por um momento, permanecemos na mesma posição, e não me importo se a borda da banheira machuca minhas costas. Ikki sorri e enche meu rosto de beijos, antes de tomar minha boca novamente com a mesma paixão de antes. Deus, eu poderia morrer neste momento que eu iria feliz como nunca…
- Como foi o trabalho? – ele perguntou, retirando-se suavemente do meu corpo e livrando-se da camisinha.
- Bem. – eu sorri e acariciei seu rosto, quando ele voltou a me abraçar.
- Quer que eu faça o jantar?
- Você não existe, sabia? – respondo, beijando sua boca logo em seguida.
oOo
Eu comprei um cachorro. Não que isso seja de grande importância, mas eu comprei. Ainda não sei o nome que darei a ele, talvez Ikki me ajude a escolher. Enquanto isso, o chamo de Totó. Senti necessidade de uma companhia, para suprir a solidão nos dias em que meu namorado não está.
Sei que Ikki faz o possível pra ficar comigo sempre que pode, inventa mil e uma desculpas pra me ver ao menos duas ou três vezes na semana, mas sou muito exigente e carente. Não é o suficiente. Quero poder ligar pro meu amor sempre que sentir vontade. Quero dormir com ele todos os dias, e sentir sua presença o tempo todo. Confesso que em alguns momentos me arrependo de tê-lo impedido de abandonar tudo. Mas, ainda assim, sei que estamos no caminho certo. Tudo tem que mudar aos poucos, a começar por nossas próprias atitudes. Ele ainda não está pronto pra me assumir publicamente, isso se torna óbvio com os nossos encontros furtivos, que quase nunca ocorrem ao ar livre.
Enquanto as coisas não mudam, resolvi comprar um filhotinho de labrador, de cor preta. Espaço na cobertura eu tenho de sobra, e carinho pra dar também. Agora só me resta saber se Ikki vai gostar da surpresa.
oOo
"A gente se vê no horário de almoço, meu loiro."
A mensagem, enviada na sexta feira de manhã para meu celular, me fez sorrir. Eu não via Ikki há três dias, e isso já estava me matando.
Quando abri a porta de casa, e vi meu namorado esparramado no sofá, esperando por mim, quase não acreditei. Pulei sobre ele, louco de saudades.
- Ai! Quer me matar, é? – ele reclamou, mas segurou-me firmemente sobre o corpo dele.
- Estava enlouquecendo de saudade.
- Eu também, amor.
Então Ikki me beijou, e eu me senti em casa novamente. Eu estava completo agora, nos braços dele. Não me fiz de rogado e aproveitei cada segundo, disposto a tirar todo e qualquer atraso. Agarrei seus cabelos negros e aprofundei o contato de nossas bocas ao máximo. Queria senti-lo profundamente, de todas as formas.
Ikki gemeu quando eu acariciei seu membro por cima da calça social.
- Hmmm, parece que ele também sentiu minha falta... – provoquei.
- Você nem sabe o quanto, loiro!
Arranquei sua camisa e a gravata, deixando-o com aquele peito que eu amo completamente exposto. Diante do banquete, deliciei-me com beijos e mordidas em seu pescoço, no tórax, queixo e boca. Ikki gemia baixinho, deixando-me completamente ávido por mais.
- Loiro, acho que o Zorro está envergonhado. Olha como ele está encarando a gente…
- Quem? – subitamente eu parei o que fazia.
- O Zorro. – ele apontou na direção do nosso cachorro.
- O nome dele não é Zorro.
- Por que não?
- Eu não gosto desse nome…
- Vai chamar o Zorro de Totó pro resto da vida?
- A gente pode falar disso depois? – perguntei, enquanto voltei a acariciar seu membro rígido.
- Como você quiser, amor.
Ikki inverteu nossas posições, ficando por cima de mim. Ele retirou o meu uniforme e me beijava com paixão quando eu senti algo vibrar em suas calças. A confusão demorou poucos segundos, pois logo o telefone celular dele começou a tocar.
Meu namorado ignorou completamente o toque, e continuou a me beijar e explorar meu corpo com suas mãos.
- Você não vai atender? – perguntei em meio aos beijos.
- Não.
O telefone continuou tocando, e aquilo já estava me incomodando.
- Atende, vai. – pedi.
- Não sei se você reparou, mas eu estou no meio de uma coisa importante aqui. – Ikki me olhou de forma divertida e apontou meu corpo. Adorei ouvi-lo falar assim.
- Eu não vou conseguir me concentrar com esse telefone tocando, gato!
Vencido, Ikki sentou-se no sofá, finalmente retirou o telefone do bolso e atendeu.
- Alô.
A expressão dele mudou completamente.
- Oi, Esmeralda.
Se arrependimento matasse, eu cairia durinho ali mesmo. Se soubesse que era a minha rival, jamais pediria que ele atendesse.
- Sim, eu já estou indo pro aeroporto. – olhei para ele, confuso. Como assim aeroporto? Com um olhar, Ikki deixou claro que me explicaria depois.
Meu gatinho estava tão sério, que eu achei melhor brincar um pouquinho, só pra descontraí-lo. Ajoelhei-me diante dele no carpete, enquanto Ikki olhava atentamente cada um de meus movimentos.
Com um sorriso sedutor nos lábios, eu abri seu cinto e o zíper da calça. Sentindo a pressão que seu membro fazia na cueca, eu o apertei levemente, acariciando um pouco. Ikki ofegou e notei o tesão e a apreensão em seu olhar.
- Oi? Não Esmeralda, está tudo bem. Eu só estou um pouco ocupado aqui. – meu gato mordeu o lábio, reprimindo um gemido quando eu libertei seu pênis da cueca.
Ikki negou com a cabeça, implorando que eu não fizesse o que pretendia. Não dei atenção, e abocanhei o membro de meu amante.
- Hmm… Esmeralda, posso te ligar depois?
Eu realmente fazia o meu melhor, enquanto aquela chata não parava de falar. Eu queria enlouquecê-lo, queria que ela percebesse o que estava acontecendo.
- Oh, Caralho! – Ikki gritou, quando eu o engoli por inteiro.
Rendendo-se, ele agarrou meus cabelos e passou a controlar meus movimentos, intensificando-os.
- Não foi nada, princesa. Eu bati o joelho no móvel, só isso…
Quando ouvi o apelido carinhoso, apertei suas pernas com força e parei o que fazia.
- Eu tenho que desligar agora, Esmeralda. Tenho algo importante pra fazer. – Ikki tentou acariciar meu rosto, mas eu me esquivei.
- Um beijo, até segunda. – ele finalizou a chamada. – Loiro? – olhou-me confuso, como se perguntasse o que tinha feito de errado.
- Princesa? – a irritação em minha voz era indisfarçável.
- Eu preciso manter as aparências, Hyoga. Prefiro chamá-la assim a dizer 'meu amor'. Parece menos falso.
Fazia algum sentido. Pensando melhor, até mesmo o tom de voz dele era diferente ao chamá-la. Não tinha a doçura e suavidade perceptíveis ao me chamar de loiro ou amor.
- Desculpa. Essa situação está pior do que tinha imaginado. Achei que lidaria melhor com tudo isso. – Eu sentei no carpete e apoiei minhas costas no sofá, ao lado das pernas dele.
- Qual é o problema, Hyoga?
- Não quero dividir você com ela, quero te ver com mais freqüência… Olha, eu sei que é a mim que você ama. Mas é claro que rola uma insegurança. Sei lá, é muito mais fácil pra você me dispensar e manter sua vidinha perfeita. Às vezes penso que estou sobrando, entendeu?
Não era a primeira vez que tínhamos esta conversa e acredito que não seria a última. Nos últimos quatro meses, minha insegurança com a ausência de Ikki cresceu de forma completamente descontrolada.
- Vem cá, meu amor. – Ikki fez com que eu me sentasse sobre seu colo, de frente para ele.
- Eu tenho que parar de fazer isso. Não quero me tornar um chato! Quero que você se sinta bem quando está aqui. – comentei, enlaçando seu pescoço com as duas mãos.
- Eu só me sinto bem quando estou aqui com você, loiro. Em nenhum outro lugar no mundo, eu me sinto tão em casa. Sei que às vezes não parece, Hyoga, mas aqui é onde está a minha vida. É onde está o homem que amo, a nossa casa, nossas coisas, nosso cachorro… Nossa vida juntos, loiro! Se eu pudesse me mudar pra cá agora mesmo, e ainda assim ter o amor e apoio da minha família, não pensaria duas vezes! Mas é a minha família, não sei se consigo deixar tudo pra trás agora! Eu preciso de mais tempo, pra decidir o que fazer, Hyoga! Você mesmo me convenceu disso, lembra? E então, você me espera, amor?
- O tempo que for preciso. – assenti, sendo completamente sincero.
Ikki me beijou apaixonadamente, provando pro meu coração aflito que era a mim que ele pertencia, e que nada mudaria isso.
- Acho que sei de uma coisa que vai fazer com que se sinta bem melhor. – ele comentou, depois que nos afastamos.
- O quê?
- Eu disse pra todo mundo que tinha uma viagem, uma despedida de solteiro de um amigo em outra cidade.
- E?
- Olha no bolso esquerdo do meu blazer.
Corri até o paletó que ele havia deixado sobre o outro sofá. Vasculhando o bolso esquerdo, encontrei dois tickets pro ferryboat, com destino à ilha de Mikonos.
- Vamos hoje depois do seu trabalho e voltamos domingo à noite. Gostou? – ele se levantou, arrumando suas calças.
- Era disso que eu estava precisando… - sorri pra ele.
- Não, na verdade você está precisando é de outra coisa, mas resolvo isso num instante!
Dizendo isso, Ikki se aproximou felinamente de mim, me ergueu e fez com que eu enlaçasse sua cintura com minhas pernas. Estávamos a caminho do quarto quando ouvimos a campainha. Pelo horário, eu soube que era Ícaro quem estava chamando, pois costumamos almoçar juntos.
Somos vizinhos, agora. O apartamento a mais que Ikki me deu de presente, eu emprestei para meus amigos por tempo indeterminado. O ruivo aceitou sem pensar muito, mas Vince relutou por uns dois meses até ceder e vir morar aqui.
- Loiro, você está aí? – Ícaro chamou.
- Ahhhh! Quem eu tenho que matar, pra finalmente poder transar nesta casa? – Ikki esbravejou, enquanto me descia do seu colo.
- Vou aproveitar e pedir que ele cuide do Zorro, tá? – Ikki riu quando reparou que eu chamei o cachorro pelo nome que ele havia escolhido.
- Te espero no quarto, não demora! – concordou, me beijando brevemente.
oOo
Não sei bem há quanto tempo estou observando as estrelas aqui fora. A noite está fresquinha, gostosa pra se namorar ao ar livre. Comprei uma ótima garrafa de vinho, fiz um jantar especial, tudo pensando em Ikki. Olho a mesa romântica que montei na cobertura, e me sinto um idiota.
Eu não estou chateado com meu namorado, eu entendo que em alguns momentos não haverá como ele fugir. Mas, justo hoje, a família dele tinha que inventar um jantar de aniversário pra Esmeralda?
Nunca pensei que o ciúme me consumiria tanto. Só de imaginar aquelazinha pendurada no pescoço do Ikki a noite inteira, meu estômago embrulha. Pego meu celular e vejo as horas: faltam quinze minutos para a uma da manhã. A vontade de ligar pra ele é quase incontrolável, ainda mais com as várias taças de vinho que tomei.
Sem muita consciência, eu aperto a tecla de discagem rápida e ligo pra Ikki.
- Alô? – a voz dele estava sonolenta, sinal de que estava dormindo.
- Oi, gato!
- Está tudo bem? – ele sussurrou e eu soube que ela estava ao lado dele na cama.
- Só queria ouvir sua voz. – respondi, sem conter o choro.
- Amor, você está bem? – apesar do deslize de me chamar carinhosamente, ele continuou sussurrando.
- Ela está aí com você? – ignorei a pergunta dele novamente.
- Está. – Ikki nunca mente pra mim, por mais que a situação me cause algum tipo de dor.
- Você transou com ela?
- Sua voz está diferente, o que aconteceu? – a urgência em sua voz deixou clara a sua preocupação.
- Eu estou bêbado. Agora me responde, gato. – insisti.
- Não, eu não consegui.
- Está mentindo pra mim?
- Nunca! Eu broxei, loiro. Eu broxei e nós tivemos nossa primeira briga em um ano ou mais.
Comecei a rir sem parar.
- Você vem me ver amanhã? – pedi, já sabendo a resposta.
- Amanhã é complicado, amor. Final de semana é difícil de arrumar qualquer desculpa. – respondeu-me com pesar em sua voz.
- Ok. Você me liga, pelo menos?
- Sabe que sim. – assentiu.
- Então está bem, boa noite, gato!
- Boa noite, loiro!
Mais tarde, durante a madrugada, acordei com braços fortes me envolvendo por baixo do edredom, enquanto aquele perfume tão conhecido alcançava minhas narinas.
- Ikki? – Me virei na cama, pra constatar de que era ele mesmo ali.
- Shhh… Volta a dormir, ok?
- O que você está fazendo aqui? – perguntei ainda incrédulo.
- Eu queria dormir de conchinha com você. – explicou, enquanto forçava-me a virar novamente e encaixou seu corpo atrás do meu.
- Você veio… - sussurrei com um imenso sorriso nos lábios, antes de adormecer.
oOo
Ouço a campainha e não tenho a menor vontade de atender. O dia hoje está tão péssimo e eu estou tão intragável, que acredito estar fazendo uma boa ação, ao privar qualquer um de minha companhia.
- Hyoga!
A voz de Ícaro. Então ele já sabe, e veio ver como estou.
Hesitante, abri a porta.
- Oi, vizinho! – desde que veio morar aqui, Ícaro passou a me cumprimentar desta forma.
Não respondo, assim que vejo que o ruivo tem em suas mãos um exemplar do jornal 'O Tempo'.
- Posso entrar? – Ícaro se encolhe, provavelmente por causa de minha expressão assustadora.
- Você sim, o jornal não. – volto para meu sofá, onde um isopor lotado de cerveja me espera.
- Então você já leu, Hyoga?
Arranquei o jornal das mãos dele e fui direto a maldita página, a razão de todo o meu mau humor. Com escárnio, pus-me a ler a notinha da coluna social.
"O casamento do ano
Em breve, o casamento mais esperado pela elite ateniense finalmente se realizará. O casal Ikki Amamiya e Esmeralda Abante definiram a data para sua união. O enlace ocorrerá no dia quinze de outubro deste ano e, com ele, a fusão das duas maiores heranças da Grécia. A moça declarou recentemente a esta coluna, que já não via a hora de se tornar oficialmente uma Amamiya, depois de cinco anos de namoro. A cerimônia, que promete ser um marco na alta sociedade, não teve o local divulgado. Felicidades aos noivos!".
- Três meses, Ícaro! Ele vai se casar com ela em três malditos meses! – atirei o jornal longe.
- Talvez tenha sido um mal entendido, loiro!
- Ele podia ter me avisado… - eu desabei no sofá, desolado.
- Hyoga, não fica assim… - meu amigo tentou me consolar.
Eu não estava iludido, achando que Ikki terminaria com a noiva, abandonaria tudo pra ficar comigo. Depois disso nem acredito que em algum momento ele o faça. Não quero ficar cobrando, mas está difícil me contentar em vê-lo furtivamente, sem data certa, escondidos.
E com esse casamento, eu praticamente não o veria nunca! Esmeralda já não larga do pé dele agora, imagina quando estiver casada? Sinto tanta raiva dela, tanta inveja… Aquela loira aguada pode circular por aí com o Ikki, acariciá-lo em público, gritar aos quatro cantos que eles estão juntos… Ela esfrega o bom partido que fisgou na cara dos outros, enquanto eu fico aqui, vendo aquela mulherzinha se divertir com o meu homem.
Meu telefone toca pela décima primeira vez. Sei que é Ikki, pois ele está tentando me ligar desde o início da manhã.
-Não vai atender? – Ícaro me pergunta.
- Não.
- Hyoga, vocês precisam conversar. Vai agir como uma criança mimada agora?
- Ele marcou a data do casamento, Ícaro. Não temos nada para conversar.
O ruivo pegou meu telefone e jogou em cima de mim.
- É a você que ele ama. E vocês podem resolver esta situação, se permanecerem unidos. Deixa de besteira e atende, vai! – logo depois, Ícaro saiu da casa pra me dar privacidade.
Atendi o aparelho.
- Oi, Ikki!
- Eu estou tentando te ligar há um tempão, loiro. Onde você estava?
- Estava comprando um presente de casamento pros noivos… - ironizei.
- Não faz assim…
- Quando você pretendia me contar?
- Não acredite no jornal, amor. Eu não vou me casar coisa nenhuma.
- Se não é verdade, então por que publicaram esta nota?
- Porque foi tarde demais pra impedir. Marcamos a data há três dias, mas… Rompi o noivado ontem à noite.
- Você o quê?
- Eu terminei tudo com ela, amor. Agora sou apenas seu.
- É sério?
- Sim. – ele riu.
- Como ela reagiu?
- De forma bem madura, até! Chorou, questionou... Mas acabou aceitando e me desejando felicidades.
- Qual a desculpa que você usou?
- Disse que amo outra pessoa.
Aquilo foi um verdadeiro alento pra mim, as coisas finalmente estavam se encaminhando.
- E a sua família? Já sabem? – me empolguei.
- Não. Vamos aos poucos, está bem?
- Ok. Eu entendo.
- Está feliz? – Ikki estava tão animado quanto eu.
- Você não sabe o quanto, gato. Não vou te dividir com mais ninguém… Isso é tão bom!
- Olha, eu vou ter que desligar… Eu passo aí mais tarde! O que você quer fazer?
- Ah! Sábado é dia de cineminha, o que acha? A gente aluga uns filmes e fica de bobeira em casa… - eu sabia que, apesar da proposta, ele não gostaria de sair de casa hoje.
- Ótimo! Até mais tarde, então, amor! Beijo!
- Um beijo, gato!
Desliguei o telefone tão feliz que demorei a perceber que a campainha estava tocando. Imaginei que Ícaro havia voltado, pra saber como foi minha conversa com Ikki. Abri a porta radiante.
- Ruivo, você não vai…
Não pude completar a minha frase, pois fui atingido por um soco, que acertou minha face em cheio. O golpe foi forte o suficiente para que eu me desequilibrasse, então caí diante de meu agressor. Apesar da visão embaçada pela pancada, não demorei muito para identificar que o homem parado em minha frente, com raiva transbordando por todos os seus poros, era ninguém mais, ninguém menos, que Isao Amamiya.
- O que diabos você fez com o meu filho, seu pervertido?
Não respondi, qualquer coisa que eu dissesse pioraria a situação.
- Você vai embora desta casa agora, seu oportunista. E nunca mais vai se aproximar do meu filho, entendeu? Estar perto de gente como você, só vai desviá-lo do caminho correto!
O homem bufava, estava completamente fora de si.
- E qual é o caminho correto? Ser infeliz pelo resto da vida dele? – tomei coragem e me manifestei.
Quando Isao estava prestes a desferir outro golpe sobre mim, Vincent entrou na frente, segurando o braço do Sr Amamiya sem muita dificuldade.
- Pare com isso, Isao! Não é assim que você vai resolver as coisas.
- Ele está corrompendo o meu filho!
- Não diga isso. Por favor, não diga isso! – Eu nunca tinha visto Vince daquela forma, tão doce e carente.
As palavras de meu amigo fizeram efeito, e Isao se aquietou um pouco.
- Leve-o daqui! – o homem mais velho pediu a Vincent.
- Eu não vou sair. É a minha casa, foi um presente do seu filho, ninguém vai me expulsar daqui! – esbravejei.
- Não provoca, Hyoga! – Vincent me alertou.
- Provocar? Ele invade a minha casa, me agride, e quem está provocando sou eu? De que lado você está Vince? – levantei, parando diante dos dois.
- Você não tem o direito de acabar com a vida do meu filho. – Isao, bem mais calmo, se dirigiu a mim.
- Digo o mesmo para você. Ikki é feliz comigo, de uma forma que jamais poderia ser ao lado de qualquer mulher… A única pessoa que está acabando com ele é você!
- Quanto você quer? – o homem mais velho voltou a falar.
- O quê?
- Quanto você quer pra sumir da vida do Ikki? Sumir pra sempre…
- Não há dinheiro neste mundo, que possa fazer com que eu fique longe dos braços dele. Sinto muito, senhor, mas eu só vou embora se o Ikki pedir. E ainda assim, nem devo ir muito longe, só pro caso dele mudar de idéia. – apesar de indignado com a proposta, respondi à altura.
- Hyoga, junta suas coisas. Vamos sair daqui, apenas por enquanto. Depois tudo se resolve com calma… - Vince praticamente suplicou, aquela situação não estava fazendo bem a ele.
- Eu vou esperar pelo Ikki.
- Ele marcou a data do casamento, Hyoga. O que acha que vai acontecer? Você será abandonado, é melhor pular fora do barco antes que afunde! – Vincent tentou argumentar.
- O Ikki não vai se casar. Ele terminou tudo com a Esmeralda ontem à noite. Aquela nota no jornal está completamente desatualizada. – eu falei olhando nos olhos de Isao, provocando-o descaradamente.
- Como é? – Vincent pareceu aterrorizado.
- É isso mesmo que você ouviu, Vince! O Ikki terminou com a Esmeralda, e agora que o pai dele já sabe da nossa situação, acho que vai até facilitar as coisas pra gente.
- Acha que pode mais do que eu, garoto? Eu sei muito bem como manter meu filho nos trilhos. Arrume suas malas, pois você não dura nem mais um dia aqui! E se faz tanta questão em esperar pelo Ikki, farei com que ele mesmo te escorrace daqui.
Com um último e significativo olhar para Vincent, Isao deixou meu apartamento.
- Eu sei que o Ikki não vai ceder à pressão dele, Vince. O que você acha que esse idiota pretende fazer?
Meu amigo não respondeu absolutamente nada, e quando me virei para saber o porquê, notei que estava chorando.
- Vince, o que houve?
- Perdão, Hyoga! Eu vi a notícia no jornal, e acabei me precipitando.
- Do que você está falando, Vincent? – a reação dele estava me deixando apreensivo.
- Fui eu quem disse ao Isao o que estava acontecendo, Hyoga. Eu o chamei aqui.
- Por quê? Como você pôde fazer isso comigo? Eu sou seu melhor amigo, Vince! Você deveria zelar por mim.
- A família é tão importante pra ele! Ser um exemplo digno pros filhos sempre esteve acima de qualquer coisa, acima até mesmo do amor que ele sente por mim. Quanta ironia do destino, não é? O filho mais adorado ser exatamente igual a ele, em absolutamente todos os aspectos, até mesmo na sexualidade! Diz, Hyoga, como eu poderia esconder do homem que eu amo, algo tão importante sobre a família dele?
- Está me dizendo que o Isao é…
- O amante que me fez feliz como nenhum outro, pra depois me abandonar? Sim, amigo, é o próprio.
Continua…
N/A: Tardei, mas não falhei! Rrsrsrs
Desculpa gente, eu realmente estou em falta com vocês. A demora desta vez foi demais, eu sei… Mas tentarei ser mais rápida na próxima, ok?
A quem adivinhou qual era o segredinho do Vincent, os meus parabéns! Taciana e Lua Prateada, espertíssimas, deram o palpite certeiro!
Quero agradecer de coração a: Arcueid, Keronekoi, Moni-d, Taciana, e Lua Prateada.
Taciana: Sua resposta vai por aqui mesmo, na falta do email. Obrigada pela review, fiquei felicíssima em saber que você curte tanto esta fic. Espero que a demora na atualização não tenha feito você desistir dela… E quanto à 'Encontros e desencontros', eu explico a alteração na personalidade do Shun um pouco mais pra frente, a essa altura você já deve ter lido, espero que tenha feito algum sentido… Obrigada mais uma vez! Beijo!
Bom, espero que vocês tenham gostado do capítulo! Beijão pra todos vocês!
Mamba
