O ÚLTIMO ATO

ATENÇÃO: Pode conter vocabulário pesado e explícito. Proibida para menores de dezoito anos.

CAPÍTULO CINCO – THE FINAL ACT: THE FALL OF THE MASKS

Anteriormente:

- Está me dizendo que o Isao é…

- O amante que me fez feliz como nenhum outro, pra depois me abandonar? Sim, amigo, é o próprio.

Pov Hyoga

A revelação de Vincent provocou um misto de sentimentos dentro de mim. Posso dizer que a raiva e a confusão se destacavam dentre todos eles. Como Isao podia me chamar de pervertido, quando ele também era um homossexual? E como um de meus melhores amigos foi capaz de me trair?

Fiquei tão chocado, que minhas pernas fraquejaram e precisei me sentar.

- Isao Amamiya é gay? – resmunguei, tentando entender o que estava se passando.

- Sim, ele é. – Vincent confirmou.

Foi só então que reparei em meu amigo e seu estado deplorável. As lágrimas escorriam continuamente pelo rosto de Vincent, deixando-o com um aspecto frágil que eu jamais havia visto.

- Sente-se, Vincent! – indiquei a ele um lugar ao meu lado no sofá.

- Eu estou bem, Hyoga. Só preciso que você me perdoe por fazer o que fiz. Eu atrapalhei seu relacionamento, eu…

- Você não atrapalhou meu relacionamento, Vince. Não há qualquer possibilidade disto ocorrer. O problema aqui é o fato de você trair a minha confiança… – apesar de duras, minhas palavras soavam calmas, transmitindo uma tranqüilidade que eu realmente não sentia agora.

Esperei um momento para ver se ele se recuperava, o que não aconteceu.

- Você quer uma água, ou algo assim? – ofereci.

Vince negou. Eu não sabia muito bem o que fazer, Ícaro sempre foi melhor em conversar com pessoas deprimidas a este ponto.

- Eu vou chamar o Ícaro.

- Ele saiu, foi conversar com o Cleófas. – fiquei feliz ao ver que Vincent já não chorava tanto. – Você quer conversar, não é? – o grandalhão me encarou com seus grandes olhos castanhos.

- Eu apreciaria se me desse algumas respostas… – eu tentava não soar muito bruto, mas minha decepção era indisfarçável.

- Fui um idiota com você. Não tenho palavras para explicar o quanto eu sinto muito, Hyoga!

Calei-me por um momento. Eram tantas as coisas que deviam ser processadas em minha cabeça: Isao, a traição de Vince, o risco de perder Ikki…

- Por que nunca me falou sobre ele, Vince? – olhei em seus olhos.

- Sobre Isao? – soltou uma risada sarcástica. – Depois de quatorze anos mantendo tudo em segredo, acho que me acostumei a não falar sobre ele. Nem tenho idéia de por onde começar… Tem tanta coisa guardada aqui dentro, Hyoga. – Vincent apontou o próprio peito.

- Como vocês se conheceram?

- Eu comecei a trabalhar com o Cleófas aos dezoito anos. Era pobre, sozinho, sem estudo… Fui um dos primeiros funcionários do Millenium, você sabe disso, não é?

- Sei. – concordei.

- Uma noite, eu estava sem programa. Não tinha me saído muito bem nos primeiros dias, e acabei ficando mal visto no clube. Eu não me importei, na verdade. Achei até bom, não ter a obrigação de agradar ninguém aquela noite. E Foi então que eu o vi… Já te aconteceu de ver alguém e seu coração disparar, a boca ficar seca?

- Foi assim com o Ikki. – eu sorri pela primeira vez naquela conversa, relembrando a primeira vez que meu olhar cruzou com o de meu namorado.

- Eu quis o Isao desde o primeiro minuto em que o vi. Ele estava com outro michê, então não pude fazer muita coisa, a não ser ficar olhando pra ele. Num determinado momento, ele abandonou o michê e se aproximou de mim… Puxou conversa, foi gentil, simpático… Depois do programa, ficamos conversando… Ele me revelou que tinha trinta e cinco anos, era casado, tinha dois filhos… Isso me assustou bastante, ainda não estava acostumado a ver esse tipo de coisa…

- O Isao, simpático? – sorri incrédulo.

- Você se surpreenderia com o quão gentil ele era, Hyoga. A vida foi dura com ele também. Isao se reprimiu durante tanto tempo, que uma amargura se formou dentro dele, principalmente depois que nos separamos…

- O que aconteceu?

- Nossa química juntos era muito forte, não ignoramos isto. Isao passou a me procurar toda semana, às vezes duas ou até três vezes. Sempre me pagava a mais, me levava nos melhores hotéis, era tão carinhoso… Ficamos nessa situação por alguns meses. Uma noite, eu estava com um cliente no clube e o Isao chegou. Ele simplesmente deu um soco no cara, e iria bater mais se eu não o segurasse… Saímos dali e tivemos a noite mais incrível, foi uma das nossas transas mais lindas, e a primeira vez em que ele admitiu que me amava.

Vincent adquiriu um olhar saudosista e enxugou uma lágrima.

- Alguns dias depois, ele apareceu no clube, dizendo que tinha deixado a esposa e queria viver comigo. Eu sabia que era um passo enorme pra ele, sendo de uma família tradicional, super conservadora, casado a mais de dez anos, com dois filhos… Imagina o quão difícil foi, pra ele, tomar tal decisão!

- O amor faz coisas surpreendentes, não é?

- Sim. O Isao alugou um apartamento no centro da cidade, e foi lá que passei os três meses mais felizes da minha vida. Como o pai dele era contra a separação, ele largou a empresa e passou a trabalhar num escritório próximo de casa, eu arranjei um emprego numa loja de tatuagens… Estávamos bem, sabe? Passávamos as noites bebendo vinho, nos amando… Víamos filmes antigos, que ele adora! Nos finais de semana, ele visitava os filhos…

- E por que se separaram?

- No sábado, antes de sair para ver os filhos, ele me disse que gostaria que eu os conhecesse. A idéia era levar os meninos para passarem a noite em nosso apartamento. Ele saiu e eu fiquei cheio de planos, comprei doces, revistas, aluguei filmes… Eu queria agradá-los, apesar da situação difícil. Mas, algum tempo depois, eu recebi a visita de três homens encapuzados. Quebraram nossa casa inteira, me espancaram, e a última coisa de que me lembro é de um deles cuspindo em meu rosto e dizendo: "Chega de brincar de casinha, seu puto!".

Horrorizado, eu apertei a mão de Vince, demonstrando certo apoio. Ele sorriu tristemente e continuou:

- Acordei dois dias depois no hospital, com Isao sentado numa poltrona ao meu lado. Ele estava com uma expressão estranha, e eu só percebi o que estava acontecendo quando notei minhas malas no chão do quarto. Isao estava me dispensando, Hyoga, e senti uma dor tão grande no meu peito!

- Qual a justificativa que ele deu?

- Disse que tinha pensado melhor, não podia abandonar a família deste jeito… Que seu pai estava morrendo, e ele não queria dar um desgosto tão grande ao homem. Ele explicou que todas as minhas despesas médicas já estavam pagas, que o apartamento fora entregue ao proprietário, e que o meu patrão havia me dispensado, pois uma denúncia anônima afirmou pra ele que eu traficava dentro da loja…

Vincent voltou a chorar e, com a voz embargada, completou:

- Antes que ele saísse, eu perguntei se tudo o que passamos foi uma mentira. Isao se aproximou de mim, beijou minha boca, e negou. Ele disse que tudo foi mágico, e que ele realmente me amava, mas não o suficiente!

- Mas vocês continuaram mantendo contato? – como ele poderia avisar Isao depois de tudo o que passou?

- Depois daquilo, passamos mais de três anos sem nos ver. Eu ainda o amava, mas carregava uma mágoa tão grande dentro de mim, que passei a odiar a família dele inteira. Numa noite, ele apareceu no Millenium. Eu já não fazia programas como antes, já era exclusivo. Isao se aproximou de mim, e eu senti tudo de novo. A raiva, a mágoa, o amor… Estava tudo lá, Hyoga, aquele homem nunca tinha me deixado realmente. Ele estava sob minha pele, jamais deixaria de amá-lo. Eu cedi e nos amamos outra vez… Mas alguma coisa havia se quebrado, sabe? Ele já não era o mesmo homem de antes, eu não era mais aquele garotinho apaixonado…

- Vocês ainda se encontram?

- Raramente. Mas sinto tanta culpa depois, que me faz mal.

- Por que você nos dedurou, Vincent?

Meu amigo suspirou. Vincent parecia realmente arrependido do que havia feito.

- Eu não reconheci o Ikki no momento em que ele pisou no Millenium. Já o tinha visto em fotos, mas ele era criança em todas elas. Quando o Ícaro nos mostrou aquele site, e eu vi quem ele era, eu realmente me preocupei com você. Revivi em minha mente toda a minha história, e temi que o mesmo te ocorresse. Eu quis contar ao Isao que o filho dele estava freqüentando o Milenium, mas o Cleófas me aconselhou a não fazê-lo. Eu te alertei, Hyoga, mas você não me ouviu e acabou se envolvendo.

- Não é algo que se possa controlar, Vince. – eu expliquei impaciente, ainda não compreendendo as razões dele.

- Eu vi acontecer com você, as mesmas coisas que aconteceram comigo. Confesso que senti uma pontada de inveja, Hyoga. O amor de vocês sempre pareceu ser muito forte, talvez até mais do que o meu e de Isao, eu não sei… Mas a verdade é que mais cedo ou mais tarde vocês passariam pela mesma provação…

- Eu ainda não entendo.

- Hyoga, sei que por trás da minha atitude existe sim um pouco de inveja, você e Ikki se conectam de uma forma incrível e sei que não é sua culpa, mas isto me deprime. Sei também que o fiz tentando agradar e ganhar pontos com o meu homem, talvez buscando aquela cumplicidade que se quebrou quando ele me deixou. Mas também estava tentando te proteger, amigo, pois ninguém naquela família é exatamente o que parece!

- O que quer dizer?

- O Isao, que tem toda aquela pose de machista, é um homossexual enrustido. Sua esposa se faz de sonsa pra todo mundo, mas definitivamente não o é. O filho mais velho, que foi criado à imagem e semelhança do pai, também é homossexual. O caçula, que aos olhos de todos parece ser um adolescente rebelde e displicente, provavelmente é o mais bem estruturado e amadurecido naquela casa… Perdão, meu amigo. Eu só achei que o Isao descobrindo antes, seria o menor dos males, entende?

Eu ainda estava confuso, e Vince continuou explicando:

- Por muito tempo, Hyoga, eu acreditei que o pai do Isao foi o responsável por nos separar. O velho era conservador e estava muito decepcionado, não só com a separação do filho, mas também com o fato de Isao largar a empresa. Mas o homem estava muito doente, Hyoga, então meu amante nunca teve a coragem de revelar ao pai, o real motivo de sua separação. O velho Amamiya morreu sem saber da homossexualidade do filho.

- Mas, se ele não sabia do relacionamento de vocês, quem foi que mandou te espancar?

- Isobel Amamiya, a mãe do Ikki.

Não pude exclamar minha surpresa, pois neste momento meu apartamento foi invadido por quatro homens desconhecidos.

oOo oOo

Pov Ikki

Eu não entendo como pude estender aquele noivado por tanto tempo. É impressionante o alívio que senti por não mais iludir Esmeralda com falsas esperanças. Ela é uma boa moça, merece alguém que realmente a ame, se apaixone e se comprometa em fazê-la feliz.

Parado diante da janela do meu escritório, trago meu usual cigarro e penso nas palavras que minha ex-noiva usou para se despedir: "Se a sua felicidade está em outros braços, Ikki, não vou te impedir. Vá e seja feliz!". É o que mais quero fazer, largar tudo e ser feliz, nos braços de Hyoga.

Meu grande problema é que não me considero capaz de fazê-lo, abandonar minha família não é uma opção agradável, mesmo sendo a única possibilidade. Meu pai e minha mãe jamais aceitariam um filho gay, isso está claro em minha mente. E um filho gay que desperdiça um ótimo casamento para fugir com um ex-garoto de programa, definitivamente seria vergonhoso o bastante para desonrar o nome da família pelas próximas cinco gerações.

Quantas vezes, na mesa de jantar, ouvi minha mãe repudiar a homossexualidade, propagando idéias errôneas e preconceituosas a respeito? Meu pai sempre assentia, por muitas vezes concordava com gestos de cabeça e olhares furtivos, incentivando-a silenciosamente. Meu celular toca outra vez, o que tem acontecido bastante desde que acordei esta manhã. Pego o aparelho e o identificador de chamadas indica que mais uma vez, a chamada vem de minha casa. Minha mãe, sem dúvida alguma.

Esmeralda ligou para cancelar os preparativos do casamento e, desde então, minha mãe não tem me dado sossego. Pediu, ou melhor, exigiu que eu reatasse o noivado, pelo bem de todos os envolvidos. Entenda-se com isso que ela se refere ao bem da minha herança, que aumentará em níveis vertiginosos, caso eu me enlace com Esmeralda.

Eu disse não a minha mãe, pela primeira vez em muito tempo. Neguei e deixei bem claro que minha decisão não tinha retorno. O dinheiro de Esmeralda não é importante pra mim, jamais foi. Arrependo-me de fazer o que fiz, usei aquela pobre moça por interesses próprios. Por muito tempo, manter as aparências foi crucial para preservar a harmonia da família, de alguma forma.

Hoje sei que a vida ilusória que vivi foi meu maior erro. As mentiras inventadas me atam a uma situação vergonhosa. Não sou eu mesmo, nunca fui. Minha própria família não me conhece. Sou um estranho, para aqueles a quem amo. E assim foi até Hyoga surgir em minha vida. Meu loiro me vê como sou, ao lado dele eu me entrego, me abro, baixo todas as minhas guardas.

Pensar em Hyoga me aquece e encoraja. Foi por ele que terminei o noivado, e é por ele que contarei tudo a minha família o mais breve possível. Chega de me prestar a tal papel, não sou um fantoche, para fazer exclusivamente o que os outros querem. Meu loiro me oferece um amor tão lindo e pleno, que a única coisa em que posso pensar é correr para seus braços e me esconder do restante do mundo.

Meu celular toca novamente, e desta vez a ligação vem de um número desconhecido. Atendo, pois creio que minha mãe não deve estar tão desesperada assim.

- Alô.

- Ikki?

- Sim. Quem fala? – não reconheci a voz chorosa de imediato.

- É o Ícaro.

- Aconteceu alguma coisa?

- O Hyoga… Ele e o Vincent foram espancados, Ikki!

- O quê?

Ícaro me explicou que ao procurar por Hyoga em casa, encontrou-o muito machucado, assim como Vincent. Eles estavam no hospital municipal, e assim que o ruivo desligou o telefone eu corri para lá.

Estava tão assustado que não tenho a menor idéia de como consegui dirigir até o hospital. Encontrei Ícaro me esperando na recepção, e a feição dele provavelmente estava tão horrível quanto a minha.

- O que diabos aconteceu, Ícaro?

- Eu não sei, Ikki, não tenho idéia!

- O porteiro não disse nada? Como alguém pode entrar, machucar dois moradores do prédio, e ninguém ver nada? – minha indignação era muito grande.

- Eu não sei, Ikki! – ele parecia confuso e abalado demais para responder minhas perguntas.

- Cadê o Hyoga? Você chamou a polícia? – eu falava rápido, enquanto Ícaro me guiava pelos corredores do hospital.

O ruivo parou repentinamente e me olhou.

- Eu não tinha a menor idéia de como agir, Ikki. Acho que ainda não sei… Este tipo de coisa nunca aconteceu com a gente, sério!

- Calma! A gente resolve tudo agora, está bem? Só… Eu preciso ver o Hyoga, onde ele está? – Eu tentei passar a ele uma calma que nem eu mesmo sentia.

- Eles não nos deixam vê-lo. Eu te levo até o médico.

Continuamos caminhando pelo corredor e Ícaro falou com uma enfermeira. Para o meu desespero, ela nos mandou à sala de espera. Alguns minutos depois, um médico apareceu.

- Boa tarde! Eu sou o Dr. Lukas Podolski, responsável pelos dois pacientes.

- Eu quero ver o Hyoga! – já fui logo dizendo.

- Temo que não será possível, senhor… – fez uma pausa, esperando que eu me apresentasse.

- Ikki Amamiya, eu sou namorado do Hyoga.

Só parei para pensar no que havia dito, depois que as palavras saíram da minha boca. Mas, por incrível que pareça, não lamentei por minhas palavras, talvez a naturalidade com que o médico me olhou tenha ajudado bastante. Senti alívio, isso sim, por dizer abertamente o que Hyoga significava para mim.

- Bom, senhor Amamiya, o seu namorado chegou aqui bastante machucado. Ele e o amigo parecem ter levado uma grande surra, mas parece que não existem maiores detalhes de como aconteceu.

O médico olhou o relógio, antes de continuar:

- Vincent Cassillas tem muitas escoriações, fraturas em três costelas e no braço esquerdo, nada grave. Alexei Hyoga Yukida fraturou o maxilar, algumas costelas, sofreu muitas escoriações e teve uma pequena hemorragia nasal, que já controlamos. Porém, o Sr. Yukida tem uma lesão um pouco mais séria, ele recebeu muitos golpes no abdômen, o que causou uma ruptura no baço. Creio que seja necessária uma esplenectomia, para a remoção da parte lesionada.

- Não é arriscado? – ao mesmo tempo em que tentava me controlar e conversar com o médico, minha raiva subia cada vez mais ao saber o que fizeram ao meu loiro.

- Uma cirurgia sempre tem seus riscos, senhor. Não é um procedimento simples, ainda mais que o senhor Yukida perdeu bastante sangue. O que posso garantir é que farei tudo o que estiver ao meu alcance. Na ficha dele, diz que o senhor é o seu contato de emergências, então preciso de sua autorização para realizar o procedimento. O senhor autoriza?

- Sim, claro.

- Ótimo! O senhor pode me acompanhar, por favor? Deve preencher alguns papéis...

- Quando poderemos vê-los? – perguntei, enquanto eu e Ícaro seguíamos o médico.

- O senhor Cassillas está sedado, mas já poderá receber visitas… Entretanto, o senhor Yukida, Infelizmente não. O levarei agora mesmo para a sala de operações.

Eu assenti, apesar do aperto em meu peito ao saber que não poderia ver o meu Hyoga tão cedo. Eu precisava tocá-lo, senti-lo junto a mim pra ter certeza de que tudo estava bem.

- Quanto tempo deve durar a cirurgia?

- Cerca de duas ou três horas.

Depois de preencher os papéis com a autorização e aguardar por um tempo na sala de espera, eu resolvi cuidar do próximo passo, ou seja, chamar a polícia. Antes que eu pudesse pegar o celular, Ícaro apareceu.

- O Vincent acordou! – disse o ruivo.

Na ânsia de saber o que aconteceu, esqueci a ligação e fui ao encontro do amigo de Hyoga.

O quarto era conjunto, e assim que entrei fiz uma nota mental para resolver este problema o mais rapidamente possível. Cumprimentei dois pacientes sentados nas duas primeiras camas e me aproximei da terceira, onde Vincent se encontrava. Ícaro permanecia ao seu lado, chorando um pouco.

- Vincent. – chamei-o, tentando disfarçar a surpresa com os hematomas do seu rosto.

- I-Ikki. – ele falou com dificuldade, pois seus lábios estavam cortados e inchados.

- Olha, eu sei que dói muito pra falar, mas eu preciso saber o que aconteceu com vocês, pra relatar os detalhes à polícia.

Vincent negou veementemente com a cabeça e apertou a minha mão.

- Vo-Você não quer… Não… Não envolva… A polícia… Di-Discreto… – eu vi algo mais em seu olhar. Seria desespero? Havia algo errado nisso, e eu precisava descobrir.

- Eu preciso saber o que houve, Vincent! – fui enfático, era inadmissível deixar o responsável por aquilo impune.

- Qua-quatro homens… Entraram no… apartamento… Não me lembro… de nada mais.

Ele não estava me contando tudo, consegui perceber isso. Mas resolvi não insistir, e deixá-lo descansar. Pelo menos ele deu algumas pistas e, nesse momento, saber como andava a cirurgia de Hyoga era mais importante.

Voltei para a sala de espera e deixei Ícaro ao lado de Vincent. Hyoga já estava na sala de operações há duas horas, e ainda ficaria ali por mais algum tempo. Sentei-me no sofá e escorei minha cabeça no móvel.

Só percebi que havia adormecido, quando senti meu celular vibrar no bolso. Olhei no visor e era minha mãe de novo, ignorei a chamada e olhei o relógio. Caramba! Eu dormi por uma hora! Esfreguei os olhos, me levantei e fui até a máquina de café.

Ouvi alguém pigarrear. Quando olhei pra trás, vi o Dr. Podolski parado na porta.

- Como foi a cirurgia?

- Excelente! Ele vai se recuperar bem. – o médico sorriu pra mim.

- Eu já posso vê-lo?

- Se quiser. Mas o Sr. Yukida está sedado, pode não acordar… Devo avisá-lo que seu namorado passará a noite no CTI, mas não se preocupe, pois é normal isto ocorrer no pós-operatório. Quer vê-lo agora?

Não pensei duas vezes, antes de seguir o médico pelos corredores.

Quando cheguei até o meu loiro, eu não pude acreditar no que haviam feito com ele. Seu rosto estava cheio de hematomas, resultantes do ataque brutal. Por que alguém faria algo tão desprezível?

Ao contrário do que eu queria, não o toquei. Ele parecia tão frágil, que tive medo de fazê-lo. Hyoga se remexeu um pouco, a anestesia geral parecia estar perdendo o efeito.

- Amor? – chamei baixinho.

Hyoga abriu os olhos devagar, e pareceu bastante surpreso em me ver. Com um olhar confuso, ele correu os olhos pelo quarto, olhando o chão atentamente.

- Como se sente? – perguntei sem pensar e ri nervosamente logo depois. – Desculpe, pergunta idiota, não é?

Ele não me respondeu, e provavelmente não o faria, por causa do maxilar quebrado.

- Você me assustou demais, loiro. – não percebi que estava chorando até que algumas lágrimas molharam minhas bochechas.

Eu sabia que ele precisava me dizer algo. Hyoga estava aflito, agoniado, seus olhos transmitiam uma urgência que eu jamais havia visto.

- O que você quer me dizer, amor? Quer explicar o que aconteceu?

Ele balançou a cabeça levemente, afirmando que sim.

- Então faça um esforço, Hyoga. Eu preciso dizer a polícia quem é o culpado por isso.

Meu namorado negou com a cabeça, ainda mais aflito. Lembrei-me da atitude de Vincent e soube imediatamente o que ele quis dizer.

- Você não quer que a polícia se envolva? É isso? – quando Hyoga assentiu, eu fiquei ainda mais confuso. – Por quê?

Ele fez um esforço descomunal, e nem posso imaginar a dor que sentiu ao me dizer, com os dentes travados:

- Sua… Família… Não… é… como… você… imagina…

- Sr. Amamiya, sinto muito, mas o senhor tem que sair. – o médico me chamou.

Olhei para Hyoga, disse que o amava e saí de lá.

Se eu realmente queria saber o que aconteceu, eu precisava ver de perto. Se nenhum dos dois queria a polícia envolvida, alguma coisa muito grave tinha acontecido. E o que Hyoga quis dizer com aquela frase? Meu corpo inteiro gelou, quando um pensamento louco passou por minha cabeça: minha família tinha algo a ver com isso tudo? Ou algum parente da Esmeralda, talvez.

Disposto a acabar de vez com a dúvida, fui até o prédio onde tudo aconteceu. Chegando lá, praticamente interroguei o porteiro sobre o ocorrido, mas o homem me jurou que não viu nada de anormal na portaria. Ele disse que ninguém pediu para ser anunciado na cobertura de Hyoga, portanto não fazia idéia de como eles entraram.

Lembrei-me das câmeras de segurança, e pedi para ver a fita. O homem disse que não, fez-se de desentendido, mas depois de receber algumas notas de cem, acabou cedendo. Olhar a movimentação de um dia inteiro da portaria era chato e entediante, mas igualmente importante. Os agressores de Hyoga estavam ali, e eu iria encontrá-los.

De repente, o que vi fez todo o meu corpo se retesar. Era meu pai quem entrava no prédio. Ele disse algo ao porteiro, esperou por um tempo e depois entrou no elevador. Continuei acompanhando a imagem e notei que, depois de meia hora que meu pai havia deixado o edifício, quatro homens truculentos também saíram, em seqüência.

Ainda atônito e cheio de ódio, chamei novamente o porteiro e o questionei. O homem me garantiu que meu pai pediu para ser anunciado em outro apartamento.

- Você tem certeza disto? – insisti.

- Sim senhor, tenho certeza absoluta. A cobertura nunca recebeu visitas de fora, pelo menos não no meu turno.

- E os outros homens? Reconhece algum?

- São moradores, senhor. Mudaram-se há dois dias para o duzentos e um.

Esta declaração me deu a certeza de que eu precisava. O apartamento duzentos e um pertencia a minha família. Na verdade, estava em nome de minha mãe, mas meu pai poderia usufruí-lo tranquilamente.

Saí daquele prédio com apenas uma certeza. Eu ia acabar com meu pai! De alguma forma ele descobriu meu segredo, mas eu nunca poderia imaginar que ele teria a coragem de tentar matar o homem que eu amo.

A crueldade com que Hyoga foi tratado despertou uma forte repulsa dentro de mim. Decidi que jamais submeteria meu amor a tais brutalidades novamente. Vê-lo naquela cama e saber que minha própria família, sangue do meu sangue, está por trás disso, não me deixou qualquer outra opção. À contragosto, eu fui obrigado a escolher entre os Amamiya e Hyoga. Sem qualquer dúvida em minha decisão final, entrei em meu carro e parti.

Parei o veículo em frente ao edifício da Amamiya Advogados. Eu sabia que meu pai estava lá, pois ele tem se atolado no trabalho ultimamente. Antes de descer, vasculhei meu blazer atrás de meus cigarros. Prometi a Hyoga que pararia, e hoje cumprirei minha promessa. Retirei um cigarro do maço, acendi e joguei todos os outros pela janela. Este seria o último. Enquanto tragava, peguei meu celular e disquei um número que, apesar de saber de cor, não estou tão acostumado a ligar.

- Alô? – a voz soou baixa, em meio a uma música do The Auditions que tocava muito alta.

- Shun.

- Ikki? Estranho você ligar! – pelo tom de voz eu soube que ele sorria, enquanto abaixava o volume do som.

- Eu sei. Incomodo você?

- Claro que não! Uma ligação rara assim, jamais me incomodaria!

- Acho que não fui um bom irmão pra você, Shun.

- Do que você está falando? Sempre foi o melhor.

- Não é verdade! Você sempre foi tão honesto comigo, tão doce… Eu nunca fui capaz de retribuir a confiança que você me dedicou…

- Cara, você está me assustando! Não está pensando em se matar, né? – Shun brincou, coisa que ele sempre faz quando está nervoso.

- De certa forma, é exatamente o que vou fazer. O Ikki Amamiya que você conhece vai deixar de existir, Shun.

- Do que você está falando, Ikki? Para com essa brincadeira! Não tem a menor graça!

- Shun, eu sou gay.

Ele não disse nada e eu voltei a falar.

- Eu sou gay. Sempre escondi isso de todo mundo, mas essa é a verdade. Eu sou gay, nunca quis ser advogado, detesto o meu apartamento e definitivamente não suporto os finais de semana em Creta.

- A única pessoa que gosta dos finais de semana em Creta é a mamãe, Ikki. – ele riu, não dando tanta importância assim a minha declaração anterior.

- Eu acabo de dizer que sou gay, e você se importa com Creta?

- Não me importo nem um pouco com a sua homossexualidade, mano. Pra falar a verdade, eu sempre soube.

- Como?

- Há alguns anos, não me lembro quantos, mas eu era pequeno… Fui até o porão lá de casa atrás de você e te vi com o vizinho…

- Por que nunca disse nada, Shun?

- Só fui entender o que tinha visto, muitos anos depois… Mas depois que descobri a seu respeito, eu queria que você se sentisse a vontade para revelar. Ainda mais numa família como a nossa, era importante que tudo fosse feito no seu tempo… E parece que o momento finalmente chegou, não é?

- Sim, chegou. Mas o mais importante, mano, é que eu encontrei alguém. – eu sorri. – Encontrei alguém que eu amo e me ama de volta. Este homem me completa de uma forma que eu não consigo nem explicar, Shun. É por isso que vou embora com ele…

- Você vai nos deixar?

- Esta não é a vida que eu quis, irmão. Mas quero que tenha a certeza de uma coisa: Eu amo você! E não importa pra onde eu vou, as portas da minha casa sempre estarão abertas pra você! Quer dizer, se você for capaz de conviver com um irmão gay!

- Estou feliz por você, Ikki! Tão feliz!

- Sério?

- Claro que sim! Eu quero conhecer seu namorado, quero conhecer a casa de vocês! Promete que mantém contato comigo? Preciso saber que você vai ficar bem!

- Eu vou te ligar todos os dias, Shun!

- Eu te amo, Ikki! Espero que você seja muito feliz!

- Eu também, Shun! E pode deixar que a partir de agora, nada vai atrapalhar minha felicidade!

Desliguei o telefone me sentindo muito melhor. Porém, ainda havia uma conta a acertar, e esta não seria das mais fáceis.

- Precisamos conversar! – meu pai disse em um tom duro, assim que me viu entrar em sua sala.

- Tem razão, Isao, precisamos conversar! – minha raiva ao vê-lo era tão grande, que eu o segurei pela gola da camisa e o joguei sobre a mesa.

- O que significa isso? O que aquele michê disse a você?

Não esperei para ouvir mais nada, desferi dois socos no rosto de meu próprio pai.

- O que está acontecendo? – a secretária entrou na sala, desesperada.

- Fica longe disso! Isso é entre ele e eu! – gritei, sem nem ao menos olhar para a moça.

- Senhor Isao! Devo chamar a polícia?

- Não, Vivian. Eu cuido disso. – meu pai a tranqüilizou, embora ainda estivesse sob meu agarre.

Quando a mulher saiu, eu o olhei com um ódio insano. Acho que estava extravasando ali toda a minha fúria e angústia repreendidas por anos a fio.

- Talvez ela deva chamar a polícia, assim eles fazem justiça e te prendem por tentativa de assassinato! – provoquei.

- Do que você está falando, filho?

- Não me chame assim! Eu não sou seu filho, nunca fui! Sempre fui um fantoche em suas mãos! Fiz somente o que você quis! Vivi a vida que você idealizou! Eu nunca dei um passo sem o seu consentimento! E o que ganhei com isso? Você tenta matar a minha única fonte de felicidade?

- Ikki! Se acalme! Não confie no que aquele puto disse a você! – ele tentou argumentar, me enfurecendo ainda mais com o termo pejorativo.

Voltei a socar seu rosto, colocando em meu punho toda a minha frustração.

- Não fale assim dele! Você é um imbecil, covarde e manipulador! Você não tem moral pra falar dele!

- Está bem, eu posso ser tudo isso que você disse. Mas apesar disso tudo, sei que te dei uma boa educação. E em nome dela, peço que me solte e converse comigo civilizadamente, de homem pra homem.

Apesar de sua situação nem um pouco favorável, ele ainda mantinha a voz altiva e autoritária de sempre. Recuperando um pouco de minha razão, soltei-o e cruzei os braços.

- Muito bem, diga o que quer de mim. – ele disse, enquanto se erguia da mesa e aprumava seu terno caro.

- Eu sou gay.

- Já sei disso.

- Eu queria que ouvisse de minha própria boca. Eu sou gay. – repeti, sabendo que aquelas palavras causavam dor a ele.

Meu pai se apoiou na mesa e me olhou nos olhos.

- Você diz que foi um fantoche em minhas mãos. Eu apenas tentava garantir que você tivesse uma vida bem sucedida, sem obstáculos.

- Isto não é desculpa! Eu sempre fui infeliz e você sabe disso!

Ele sorriu, foi até o mini bar e começou a preparar seu uísque on the rocks.

- Eu sempre soube, Ikki. Quando você era pequeno, não era tão bom em disfarçar como agora.

- E ao invés de conversar comigo, você me reprimiu de todas as formas.

- A nossa família tem um nome a zelar, Ikki. Um nome muito maior do que nossas vontades, distúrbios e tendências pervertidas. – ele voltou a se apoiar na mesa e tomou um grande gole do seu uísque.

- Você é inacreditável, sabia? Eu sou assim, pai! Nasci homossexual, não é uma vontade, distúrbio, e muito menos uma tendência pervertida!

Ele sorriu e tive muita vontade de socá-lo de novo.

- O nome não importa, na verdade. O que importa é sua vida sendo jogada ao léu por algo tão…

- tão… - desafiei-o a prosseguir, mas ele não aceitou a afronta.

- A Esmeralda é uma boa moça. Vocês teriam filhos lindos, estabilidade… Já imaginou o poder que teria dentro da Grécia?

- Não quero poder, prefiro amor!

- Por que abandonar tudo, Ikki?

- Eu amo o Hyoga.

- São coisas diferentes. Você pode amá-lo e ainda assim preservar o sobrenome de sua família. Fique com ele, então. Mas mantenha as aparências e se case com a Esmeralda.

- Não suporto viver esta vida dupla. Quero o Hyoga, somente ele.

- Então pague por ele, satisfaça esse seu desejo insano o quanto quiser… Mas não jogue a sua vida pela janela, Ikki!

- Eu não posso mais fingir! – gritei.

- É claro que pode! Não é difícil, você apenas tem que pensar em sua própria família!

- Eu não vou recolocar esta máscara. Não vou fingir que sou algo que não sou. Fingi por tanto tempo, que já não sou mais capaz de fazê-lo.

- Sim, você é. E é exatamente isto que vai fazer!

- Eu já disse que não posso, pai!

Isao jogou o copo de uísque no chão e me agarrou pela gola de minha camisa.

- Eu me escondo por quarenta anos! Abri mão da minha vida, pelo nome Amamiya, por esse escritório e a sua herança! Se hoje você pode andar em carros importados, pagar putos caros e até mesmo dar boa vida a um michê qualquer, foi porque escolhi manter as aparências, ao invés de correr atrás da minha felicidade! Então não me diga que você não pode fazer o mesmo, garoto! Por que eu fiz isso por você!

Do que ele estava falando? Eu realmente fiquei sem palavras e meu pai percebeu isso.

- Você é… – tentei dizer, mas não consegui.

- Gay, viado, frutinha, maricas? Sou, e não vejo orgulho algum nisso. – ele me soltou e se afastou.

Não consegui falar mais nada, e ele se viu incentivado a continuar.

- Será que isso tem a ver com a genética, essa sua tara por garotos de programa? Digo isso, porque eu também me encantei com um. O que você acha, Ikki? – meu pai sorriu novamente, estava claramente gostando da provocação.

- Não sei como foi com você. – respirei profundamente. – mas o que sinto por Hyoga não é só uma tara. Eu realmente o amo, pai.

- Ah, meu filho! Não duvide do meu sentimento pelo Vincent. Eu o amei e amo muito. Mas um homem tem de fazer certos sacrifícios.

- Vincent?

- Surpreso novamente? Viu como é fácil manter as aparências? Você também pode fazer isso, Ikki! Acha que fiquei todo este tempo longe do Vince? Acredite, eu não seria capaz!

- Minha mãe…

- Sabe de tudo! Pra falar a verdade, se você me acha manipulador, deveria ver sua mãe jogando este jogo… – ele voltou ao bar e preparou outro uísque, desta vez separou dois copos e entregou um a mim. – Isobel é muito mais esperta do que parece. Se soubesse disto antes, talvez eu tivesse escolhido outra esposa…

- O que quer dizer? – a minha vida era uma mentira muito maior do que eu imaginava.

- Eu fiz a mesma besteira que você quer fazer… Houve uma época em que eu surtei, cismei que ver o Vincent poucas vezes não era o suficiente, e dividi-lo com outros clientes era insuportável. Então eu larguei a empresa, pedi o divórcio à sua mãe e me mudei com o Vince pra um apartamento no centro.

Ele olhou pela janela e suspirou.

- Foram bons tempos…

- O que aconteceu?

- Eu fui tolo, em achar que poderia fugir da minha vida. Por mais que quisesse, eu tinha uma obrigação para com essa família. Isobel recordou-me deste fato. A sua mãe não aceitou ser chutada, e quando descobriu que eu a deixei por um homem… Bom, digamos que não se tornou a mais agradável das mulheres. As chantagens que ela me fez, todas as ameaças… Eu finalmente percebi o que estava fazendo, ou seja, não estava zelando pelo nome Amamiya. As fofocas começaram a surgir, meu pai estava doente, e então houve o espancamento do Vince. Bom, eu finalmente cedi! Não agüentei a pressão e fiz o que tinha de fazer!

- Então não foi você quem tentou matar o Hyoga?

- Não dei mais que um soco no seu garoto, pode ter certeza! – minha vontade de socá-lo novamente veio com força, depois do que disse. – O que fizeram a ele?

- Surra. Brutal. – respondi. – Acha que foi a mamãe que…

- Que mandou baterem no seu michê? Com toda a certeza! A minha presença lá no mesmo dia, foi apenas uma coincidência. Surras misteriosas fazem muito mais o estilo de Isobel. Particularmente, eu prefiro suborno… Se bem me lembro, você deve entendê-lo como um aviso.

Vendo meu olhar completamente perdido, ele continuou:

- Isobel foi a primeira a perceber suas perversões, Ikki. Tem vigiado cada um de seus passos desde então. Não pense que um loiro bonito como aquele passaria completamente despercebido por ela…

Meu pai sorriu quando viu que eu estava sem reação.

- Sabe, eu fui até lá e tentei subornar o seu namoradinho… Ele não aceitou, isso é bom. O garoto gosta mesmo de você… Deveria mantê-lo. Com discrição, claro! Você não vai querer sua mãe no seu pé! É por isso que digo, filho, a melhor saída é manter as aparências, como eu fiz! Garanto a você, que o problema não é o seu michê, mas o rompimento com a Esmeralda. Você saiu dos trilhos, deixou de seguir o plano e isso sempre traz problemas… Eu, por exemplo, dei a Isobel um nome conceituado, um cartão de crédito sem limites e faço o papel do maridinho perfeito diante dos outros. Assim posso ver meu Vince, e fica tudo bem!

- Você foi covarde! E isso, eu não sou! – eu me levantei, retirei calmamente minha gravata e a depositei sobre a mesa.

- O que quer dizer com isso?

Eu retirei também o blazer e o coloquei no mesmo lugar.

- É o Hyoga que eu quero, pai. Mais ninguém. Pelo amor dele sou capaz de abrir mão de absolutamente tudo. Se não der certo, paciência! Pelo menos viverei momentos incríveis ao lado dele. Você diz que devemos zelar pelo sobrenome da família. Se essa família não pode me aceitar como eu sou, não quero fazer parte dela! A partir de hoje, não precisa mais me considerar um Amamiya.

- O que está fazendo, Ikki? – Isao olhou-me confuso.

- A família Amamiya não passa de uma peça de teatro, pai. Cada um desempenha o seu papel perfeitamente, bancando a família feliz e bem estruturada… Desde que nasci, fui obrigado a compactuar com esta ilusão, tornando-me um mero coadjuvante de minha própria vida. Hoje, eu me recuso a continuar com este papel ridículo. Se você quiser, Isao Amamiya, pode continuar com a sua maldita encenação. Mas deixo claro que este, é o meu último ato.

Antes de passar pela porta, eu disse:

- À propósito, devo te informar que Vincent também foi espancado esta manhã.

Sem olhar para trás, eu saí daquele escritório disposto a nunca mais voltar.

Estava a caminho do meu carro, quando meu celular voltou a tocar. Era a minha mãe. Porém, desta vez eu não a ignorei.

- O que você quer, Isobel? – depois do que ela fez, eu não conseguiria tratá-la de forma mais digna.

- É assim que você trata sua mãe?

- Eu não irei perder meu tempo com os seus joguinhos… Sei que foi você a responsável!

- Tudo bem, sejamos objetivos, então. Eis o que você vai fazer: você vai ligar pra Esmeralda, dizer que cometeu um grave erro e reatar o noivado. Eu quero vocês dois casados em no máximo três semanas, Ikki. Vou enviar uma nota ao jornal e dizer que vocês anteciparam a cerimônia, porque se amam muito e não suportaram esperar! E quanto ao seu novo brinquedinho, acho bom que fique longe dele ou eu posso quebrá-lo de vez.

- Você terminou? – perguntei, com a maior frieza que consegui concentrar em minha voz.

- Sim.

- Ótimo, agora me escuta. Nunca mais procure por mim. A partir de agora, o que eu faço da minha vida não te diz respeito. E quero que fique bem claro pra você: deixe o meu namorado e os amigos dele em paz. Se você fizer qualquer mal a ele novamente, Isobel, eu acabo com você! Eu jogo o nome dessa família tão profundamente na lama, que você morrerá pobre, sozinha e sem status algum! E você bem sabe, que se tem alguém que pode fazer isso, esse alguém sou eu.

Desliguei o telefone, ignorando os xingamentos dela.

A sensação de liberdade que eu senti foi inexplicável. Tanto que eu não quis pegar meu carro, já não queria nada que me lembrasse aqueles dois idiotas que se diziam minha família. Fui de táxi até o apartamento de Hyoga, pois precisava recolher algumas roupas e objetos pessoais dele, além de verificar se Zorro tinha comida e água suficientes.

Enquanto o táxi fazia o percurso até o hospital, minha mente fervilhava com idéias sobre o que fazer a partir de agora. De uma coisa eu tinha certeza, minha vida começava agora.

Continua…


N/A: Olá! Então, eu sei que havia dito que este seria o último capítulo… Bom, eu errei em meus cálculos. Quando fui escrever, ficou grande demais e tive que dividir. A fic terá mais um capítulo e um epílogo, ok? Espero que não se importem.

Quanto ao capítulo, o Ikki finalmente criou coragem e bateu de frente com os pais. Quando tive a idéia de fazer essa fic, a primeira coisa que pensei foi no diálogo de Ikki com o pai, mais precisamente quando ele fala que sua família é como uma peça de teatro… Foi daí que veio o título da fic.

Espero que tenham gostado!

Agradecimentos especiais à: liliuapolonio, Arcueid, Keronekoi, Lua Prateada e Ignea. Obrigada pelas reviews!

Beijos a todos que estão lendo!

Mamba