O ÚLTIMO ATO
ATENÇÃO: Pode conter vocabulário pesado e explícito. Proibida para menores de dezoito anos.
CAPÍTULO SEIS – PROMISES OF HAPPINESS
Pov Hyoga
Algumas pessoas odeiam hospital. Não sei se me enquadro neste grupo, mas posso dizer que é um dos ambientes mais angustiantes que já vi. Eu estou aqui, deitado nesta cama, sozinho, completamente arrebentado e desesperado por notícias de Vincent ou de Ikki.
Eu sei que Vincent não corre risco e está melhor do que eu, pois o médico comentou a respeito. Já Ikki, ninguém saberia me dizer o estado em que ele está. Pergunto-me se, a esta hora, ele já tem conhecimento de toda a verdade sobre os próprios pais. Eu queria estar ao seu lado, abraçá-lo e fazer com que se sinta melhor. Meu amor precisa de mim e eu estou aqui, preso a esta cama.
A enfermeira entra e injeta alguma coisa em minha veia, provavelmente algum remédio para amenizar a dor ou me fazer dormir por toda a noite. Eu tento dizer a ela que não posso dormir até que meu namorado retorne, mas o efeito do medicamento é muito rápido e logo já não tenho mais qualquer consciência.
Acordei com o corpo bastante dolorido, tanto pelos hematomas quanto pelo fato de estar deitado há muito tempo. Olhando à minha volta, percebi que não estava mais no CTI. Imaginei que o quarto privativo foi algum arranjo de Ikki, já que meu plano de saúde não cobriria nada assim.
A porta se abre e vejo meu namorado entrar, trazendo um copo de café em suas mãos. O ar despojado de Ikki não passa despercebido e, apesar do semblante preocupado e apreensivo em seu rosto, não há mais qualquer tensão em seus ombros.
- Você está lindo, gato. – embora eu ainda tenha alguma dificuldade na fala, já não dói tanto.
Ikki depositou o café sobre uma mesinha e se aproximou de minha cama. Somente então reparei em suas coisas na poltrona ao meu lado, e percebi que ele dormiu no hospital comigo.
- Está se sentindo melhor? – ele perguntou, enquanto se sentava em minha cama.
- Sim. Embora eu deva estar com uma péssima aparência. – não preciso olhar um espelho, pra saber que meu rosto está ainda mais inchado e roxo do que ontem.
Ikki acariciou minha face delicadamente. Tocou os hematomas em meu rosto tão suavemente, que por pouco eu não sentia o calor de sua mão.
- Sinto muito por isso. – sussurrou.
- Não é sua culpa. – eu tentei tranqüilizá-lo.
- Sim, é. Machucaram você simplesmente para me atingir… Nunca imaginei que te exporia a tal perigo, amor.
- Não tinha como você saber…
Depois de alguns momentos em silêncio, em que meu namorado apenas me observava, ele finalmente se abriu.
- Falei com minha família… - disse tristemente.
- E? – não pude conter minha ansiedade.
- Todos eles já sabiam da minha homossexualidade. Shun me apoiou bastante, disse que quer conhecer você…
Eu sorri, jamais esperava isso do irmão dele.
- E seus pais? – perguntei.
Ikki abaixou a cabeça e segurou minha mão entre as suas.
- Não se preocupe com eles.
- Não é com eles que estou preocupado, gato. – era óbvio que Ikki não estava bem. A conversa com seus pais deve ter sido muito mais difícil do que eu acreditava.
Algumas lágrimas começaram a escorrer de seus olhos, mas ele rapidamente as enxugou e voltou a falar, sem me encarar.
- Tenho de esclarecer algumas coisas com você. Agora eu não sou mais parte daquela família, o que significa que os bens deles já não mais me pertencem… Não trabalho mais na empresa, e não acredito que possa continuar vivendo no apartamento, já que ele não está em meu nome.
Ikki falava rápido, sem me dar oportunidade de interromper.
- O que eu estou tentando dizer, é que eu não tenho mais um alto padrão de vida. Não tenho carro importado, não moro em condomínio de luxo, não sou um advogado extremamente bem pago… Eu tenho as minhas economias, mas… Não é muito! Nunca tive que me preocupar com essas coisas, e a maior parte do meu dinheiro provinha de um cartão corporativo da Amamiya Advogados. Eu não…
Com os dedos sobre sua boca, eu o calei. Quando o fiz, Ikki finalmente olhou-me nos olhos.
- Eu não me importo com nenhuma destas coisas, gato.
- Não tenho muito a te oferecer…
- Quem disse? O seu amor me é mais do que suficiente!
- Loiro…
- Basta, gato! Eu nunca me importei com o seu dinheiro, não é agora que vou começar a me importar! Estamos bem, amor. Se permanecermos unidos, todo o resto se encaixa, de um jeito ou de outro.
- Posso morar com você? – Ikki coçou a cabeça, sem jeito.
- Hmmmm… Deixe-me pensar… Você vai cozinhar pra mim?
- Sempre que quiser… - ele sorriu e beijou o meu queixo.
- E me fazer massagem nos pés quando eu chegar do trabalho?
- Quer café na cama também, patrão? – fiquei muito mais tranqüilo quando Ikki riu abertamente. – Ok, faço massagem e tudo o mais que você quiser, loiro…
- Isso inclui fazer amor comigo todos os dias?
Ikki gargalhou com vontade, daquele jeito que eu adoro.
- Definitivamente inclui fazer amor contigo todos os dias… - respondeu, acariciando meu rosto.
- Falando sério agora, gato. O apartamento é seu. – ergui minha voz quando ele começou a protestar. – Ok, é nosso. E você não precisa pedir autorização pra viver nele. Eu te amo e te quero comigo, com massagem ou sem massagem… Deu pra entender?
Ikki se inclinou e selou seus lábios com os meus, assentindo.
Quando nos separamos, eu sorri bobamente, olhando-o como se estivesse vendo a coisa mais perfeita do mundo.
- O que foi? – meu namorado perguntou.
- Me dei conta de uma coisa…
- De quê?
- A partir de agora, tudo será diferente. Sua vida está começando, Ikki. E eu fico muito feliz em te ajudar a escrever sua nova história.
- Nossa. É a nossa nova história, amor. – ele me corrigiu.
A entrada de Ícaro no quarto nos chamou a atenção.
- Oi, gente! Como você está Hyoga?
- Muito bem. E o Vincent? – perguntei.
- Ele está bem. O Vincent quer muito vir aqui te ver, Hyoga, mas não tem certeza se você gostaria de receber sua visita...
- E por que ele pensa assim? – Ikki entrou na conversa.
Eu expliquei ao meu namorado o que Vincent nos havia feito. Enquanto falava, percebi que minha raiva já não era tanta como eu pensava. Muito pelo contrário, eu sei que faria o mesmo por Ikki. Se eu descobrisse antes a respeito do pai dele, eu teria contado com toda a certeza. Eu sei que Vince colocou Isao acima de mim, e já não me importo tanto com isso, pois faço o mesmo em relação ao Ikki.
- Leve-me ao quarto dele, ruivo. – eu pedi ao Ícaro.
- Você tem certeza? – Ikki apertou a minha mão.
- Gato, ele é humano, todos nós cometemos erros... Vincent fez uma escolha há anos atrás, e paga por ela até hoje. Imagine-se no lugar dele, você agüentaria passar quatorze anos vivendo como ele viveu? Amando alguém, sabendo que era correspondido e sem poder fazer nada a respeito? Honestamente, não consigo sentir raiva nem do Isao, quando penso em tudo o que eles sofreram.
- Está bem, loiro. Mas você não pode se levantar, Vincent terá de vir aqui.
- Ok. - assenti, sabendo que não importava o quanto eu esperneasse, Ikki não me deixaria levantar daquela cama.
Ícaro se foi e voltou logo depois, trazendo um cambaleante e sem graça Vincent a tiracolo. Palavras não foram necessárias, pois assim que meus olhos se cruzaram com os de meu amigo, soubemos que ficaria tudo bem.
- Vamos deixá-los a sós. – Ikki se dirigiu a Ícaro, e os dois deixaram o quarto logo em seguida.
- Eu terminei tudo com o Isao. – Vincent afirmou, de cabeça baixa.
- Por que o fez?
- Nunca ficaremos juntos, Hyoga. Eu estou cansado de esperar...
- Ele esteve aqui?
- Não. Terminei através de uma mensagem pelo celular.
- Tem certeza de que é o que você quer?
- Você pode me perdoar? – ele ergueu a cabeça e pude ver seus olhos cheios de lágrimas.
- Sim. Ainda dói, Vince, mas eu entendo que teria feito o mesmo no seu lugar. Talvez não utilizasse os mesmos métodos, mas também não esconderia nada do homem que amo.
- Você tinha razão, Hyoga. O Ikki é muito diferente do pai, não herdou a covardia do Isao.
- O seu momento de ser feliz chegará, meu amigo, esteja certo disso. – segurei a mão de Vincent e sorrimos um pro outro, certos de que aquela nuvem negra que pairava em nossas cabeças, finalmente estava se dissipando.
Sei que nossa relação ficaria estremecida por algum tempo, mas logo voltaríamos a ser os grandes amigos de sempre. Afinal de contas, eu deixei de ser uma pessoa solitária, mas não me esqueço da época em que eu, Vince e Ícaro, contávamos apenas um com o outro nessa vida.
oOo
Várias semanas depois, eu já estava completamente restabelecido. Claro que obtive uma ajuda mais do que especial, pois durante o tempo em que me recuperava, Ikki me tratou como um verdadeiro bibelô. Nunca fui daqueles doentes dengosos, mas confesso que aproveitei bastante o fato de ser alimentado, banhado, carregado e cuidado por meu namorado.
Hoje foi meu primeiro dia de volta ao trabalho, e realmente senti falta de estar deitado em minha cama enquanto Ikki me fazia cafuné. Mantive tal pensamento em mente por todo o dia, ou melhor, pensei em muito mais que isto. Depois que fui agredido, não transamos mais. Acho que meu namorado tem medo de que eu ainda não esteja completamente recuperado, ou algo assim. Nessas horas, eu realmente lamento o fato dele ter tanto cuidado comigo.
Deixando o lance do sexo de lado, nossa vida está tranqüila. Claro que existem alguns percalços, pois nem tudo é perfeito... Mas a gente sempre dá um jeito. Ikki ainda não voltou a falar com seus pais, nem acredito que o faça. Também não conseguiu um emprego, ainda. Isto o incomoda bastante, mas ele se esforça para disfarçar e não deixar que afete nossa relação. Ainda assim, eu sempre o pego cabisbaixo e preocupado pelos cantos.
Entrei em casa e fiquei feliz ao ver Shun na sala, conversando com Ikki. Meu cunhado nos visita com bastante freqüência, pra dizer a verdade.
- Olá!
- Oi, amor! – Ikki sorriu pra mim, e mesmo assim eu pude perceber que havia algo errado.
- Oi, cunhado! – Shun, doce como sempre, levantou-se e me abraçou.
Passamos bons momentos juntos. Conversamos, rimos, jantamos… Depois que Ícaro se juntou a nós, a noite se tornou ainda mais agradável.
- Eu tenho uma grande novidade pra vocês! – o ruivo comentou, todo empolgado.
- Fala. – eu o incentivei.
- A partir de hoje, eu já não faço parte do casting do clube Millenium.
- Como assim? – Ikki ficou curioso.
- Não sou mais michê. Não é o máximo?
Fiquei tão feliz com a notícia que pulei em cima dele.
- Como foi isso? – Shun se manifestou.
- Bom, eu tenho economizado uma grana, sabe? Paguei cinco mil pro Cleófas como indenização e ele me liberou…
- E o que você vai fazer agora? – eu questionei.
- Sei lá! Acho que o primeiro passo é procurar um emprego, certo?
- Certíssimo! – ri, bagunçando os cabelos ruivos dele.
Eu fico feliz ao ver Ícaro se ajeitando, se tem uma coisa que quero nesta vida, é ver todos os meus amigos bem e felizes. Ícaro já está encaminhado, mas Vincent ainda tem uma longa jornada pela frente.
Já não sei se terminar tudo com Isao foi uma boa decisão para Vince. Ele não come direito, mal consegue dormir, e ainda insiste que está bem, quando é visível que está mentindo. O pior é que não há nada que possamos fazer, pois ele está sofrendo por amor, e a única cura para esse mal é tão teimosa quanto uma mula empacada. Depois de receber a mensagem de Vincent, Isao nunca mais apareceu, nem mesmo para tentar fazê-lo mudar de idéia.
Tentando deixar minhas preocupações de lado, voltei minha atenção para o brinde que Shun propunha, em homenagem a Ícaro. Ergui minha taça de vinho e desejei felicidades ao ruivo, na esperança de que em breve eu comemorarei a felicidade de Vince também.
Mais tarde, depois que nossas visitas foram embora, eu fui tomar um bom banho, enquanto Ikki lavava a louça suja. Caprichei, usei um sabonete esfoliante, para deixar minha pele bem macia, hidratei meu corpo, os lábios, me perfumei… Hoje meu namorado não escapava! Com isso em mente, enrolei a toalha em minha cintura e fui até a cozinha.
Encontrei Ikki terminando de secar a pia, com nosso cachorro deitado ao seu lado. Aproximei-me devagar e o abracei por trás, ronronando e depositando beijinhos em seu ombro. Zorro, que já nos conhecia e sabia o que aconteceria naquela cozinha, foi cabisbaixo para seu cantinho.
- Hmmm… Alguém está mal intencionado hoje… - meu namorado riu, quando se virou e me viu somente com a toalha.
- Pelo contrário, gato! Tenho as melhores intenções possíveis…
- Tem certeza de que está bem? – Ikki acariciou meu rosto, visivelmente preocupado.
- Eu preciso te sentir, Ikki! – afastei-me dele e me sentei sobre a mesa da cozinha. – Vem!
Ikki se aproximou calmamente, olhando-me nos olhos e abrindo os botões de sua camisa um a um. Ele acariciou suavemente minha cintura, enquanto me puxava para um beijo delicado. Mas eu não estava a fim de delicadezas por hoje…
- Eu não vou quebrar, gato! Sou todo seu, faça de mim o que quiser!
Minhas palavras apartaram qualquer dúvida que Ikki poderia ter. Ele agarrou meus cabelos fortemente e me beijou de forma alucinante, enquanto eu me esforçava para acompanhar a exploração de sua língua em minha boca.
Arrancando minha toalha, ele parou apenas um momento para observar meu corpo completamente nu.
- Você está a cada dia mais lindo, loiro! – disse, beijando meu pescoço com avidez.
- Aproveita agora, pois daqui a alguns anos, eu estarei todo enrugado… - brinquei.
- E aposto que ainda será o loiro mais gostoso do mundo!
Ikki forçou-me a deitar sobre a mesa, enquanto beijava todo o meu torso nu. Uma mordida mais forte no peito me arrancou um gemido mais alto, o que fez com que ele risse.
Meu namorado chupou e mordeu meu corpo inteiro, reconhecendo cada traço meu, acostumando-se novamente com meu sabor, depois de tantas semanas. Pergunto-me se Ikki tem noção do quanto seu toque e seus beijos me enlouquecem, de como eu me perco em seus braços. Eu gemo e sussurro palavras de amor, a fim de que ele tome conhecimento de como me sinto.
Ouço o telefone tocar, mas não me incomodo. Neste momento eu estou em um universo paralelo, junto com meu amor, que abocanha meu membro com desejo. Ele me prepara para recebê-lo, enquanto me leva a beira da loucura com as carícias de sua boca, língua e dedos.
Eu o chamo e ele olha nos meus olhos. Provavelmente viu minha urgência, pois imediatamente se ergueu e retirou suas roupas, evidenciando seu membro ereto e desejoso de meu corpo.
Ikki faz menção de se afastar para pegar um preservativo. Porém, eu o seguro contra mim, impedindo que leve o calor de seu corpo para longe. Meu namorado olha em meus olhos novamente e parece entender. Fizemos exames de HIV no hospital e, além da felicidade de saber que estamos limpos, há também o prazer de poder senti-lo por completo agora.
- Não quero nada entre nós dois… - eu sussurro e meu desejo está tão evidente que minhas palavras mal saem de minha boca.
- Eu te amo. – Ikki me beija, enquanto se empurra contra minha entrada.
- Eu também, pra sempre… - sussurro em seu ouvido.
- Pra sempre, amor… - Quando diz isso, Ikki já está completamente dentro de mim e, parado, espera que eu esteja pronto para senti-lo se movendo em meu corpo.
É diferente. Sempre é. Quando estamos juntos assim, eu sinto tanto carinho e tanto amor a nossa volta, que seria capaz de tocar. Eu o amo, e cada vez que ele investe contra mim, fazendo com eu o sinta tão profundamente, esqueço qualquer coisa que exista a nossa volta. Não importa a hora, onde estamos ou que dia é hoje. Não importa quem eu fui, ou quem quero ser. A única coisa importante neste momento é que nos tornamos um, estamos completos afinal.
Ikki sabe como me agradar. Em alguns momentos me estoca com força e velocidade, em outros me invade lenta e profundamente, acertando minha próstata continuamente em todas às vezes. Eu o incentivo, gemo e digo palavras incoerentes, demonstrando a ele todo o meu desejo e loucura.
Sei que não vou durar muito mais e sei que ele também não, pois o sinto pulsar dentro de mim. Gemo seu nome algumas vezes, antes de derramar minha semente entre nossos corpos. Logo depois de mais algumas estocadas, Ikki também chega a seu ápice, com um gemido gutural que me arrepia da cabeça aos pés.
Ele ainda não se retira de mim, permanece com seu membro em meu corpo enquanto me beija de forma apaixonada. Eu, completamente lânguido, penso no quão maravilhoso é sentir o peso de seu corpo suado sobre o meu, enquanto sua semente permanece em mim, marcando-me como dele.
- Deus! Não imaginava que estava com tanta saudade do teu corpo. – Ikki comenta sorrindo, enquanto se retira de mim e lambe todo o meu peito.
Logo depois, ele vai até o banheiro e volta com uma toalhinha molhada para nos limpar.
O telefone volta a tocar, e desta vez eu sei que devo atender.
- Eu atendo! – digo com a voz completamente mole.
Compadecido de minha moleza, Ikki me ergue da mesa e me leva em seu colo até o sofá.
- Alô. – atendo sorrindo.
- Despeça-se muito bem de seu namorado, na próxima vez em que sair pra trabalhar, seu puto… Qualquer dia desses, você não volta mais pra casa… - a voz estava disfarçada por um pano ou algo assim, mas eu sabia muito bem quem falava ao telefone. Este tipo de ligação tornou-se normal nas últimas semanas.
- Isobel, isto já está ficando cansativo, sabe? Por que não para de ameaçar e me mata de uma vez? Que saco!
Eu desliguei na cara dela, olhando para Ikki e sua expressão assustadora logo depois.
- Gato, vem cá! – ele se aproximou e deitou em meu colo nu. – Nós sabemos que ela é louca, mas não será capaz de cumprir suas ameaças… Você não tem que ficar assim.
- Quando ela vai nos deixar em paz?
- Não sei, Ikki. Mas eu realmente não me importo com essas ligações idiotas.
- Não são só as ligações… - ele comentou.
- E o que mais?
- Ninguém na Grécia vai me dar emprego, Hyoga.
- É isto que está te incomodando? – acariciei os cabelos dele.
- Além da minha mãe, o pai da Esmeralda também deixou claro a todos os seus conhecidos que eu era 'persona non grata'1. Ninguém na Grécia vai comprar briga por mim, loiro.
- Seu pai pode ajudar? – Ikki me olhou como se eu estivesse louco.
- Não quero a ajuda dele.
- Ok, qual a outra solução?
- Eu não sei se a outra solução te agradaria…
- Teste-me. – cruzei meus braços, esperando para ouvir sua proposta.
Ikki se ergueu para olhar diretamente em meus olhos.
- Você tem seu trabalho, seus amigos, sua casa… Mas seria capaz de abandonar a Grécia comigo?
Era uma das perguntas mais idiotas que já tinha ouvido. A resposta era mais do que clara.
- Quando partimos, gato?
- Não vai nem perguntar pra onde vamos? – Ikki riu.
- Não é importante… Com você eu vou pra qualquer lugar!
Ele beijou minha boca com paixão.
- Gosta da Espanha? – ele perguntou.
- Uau! Que barato! – fiquei todo empolgado, pois sempre achei um país maravilhoso.
Eu vi nos olhos dele o alívio por saber que eu estava feliz com a escolha.
- Tem um amigo meu da faculdade, que pode me dar uma força por lá.
- Você vai continuar trabalhando como advogado, Ikki?
- Sim, por quê? – ele me olhou com curiosidade.
- Você detesta, gato!
- Não tenho muita escolha… - ele voltou a se deitar no meu colo e eu acariciei seus cabelos novamente.
- Ok. – assenti, mas não desisti completamente deste assunto.
oOo
Mais alguns dias se passaram e nossos planos de ir para a Espanha estavam cada vez mais concretos. Ikki conversou com o tal de Shura, seu amigo espanhol, e já havia arrumado até uma casa para a gente alugar.
Eu estava realmente empolgado, avisei aos meus amigos, pedi demissão ao meu chefe… Enfim, fazendo todos os preparativos. Nossa despedida, como não poderia ser diferente, seria com uma festa. Mas não uma festa qualquer, era a comemoração do aniversário de vinte e oito anos do Ikki.
Organizei uma festa surpresa, junto com Shun. Tudo bem que apenas Vincent e Ícaro eram os convidados, mas o importante era a intenção… No grande dia, estava tudo planejado. Shun levou seu irmão para passear, enquanto eu, Vincent e Ícaro enfeitávamos o apartamento. Não quis comprar o bolo, eu mesmo o fiz com a ajuda de um livrinho de receitas. Era uma data especial pra mim, o primeiro de muitos aniversários que passaríamos juntos.
O interfone tocou e Vincent atendeu pra mim.
- Hyoga, tem uma encomenda pra você lá embaixo. Pode mandar subir?
- Pode! – gritei.
Minutos depois, a campainha tocou.
Estranhei o silêncio depois que meus amigos abriram a porta. Caminhei até a sala sorrindo, curioso para saber o que era.
- Não vem aqui, Hyoga! – Ícaro praticamente gritou, tentando esconder algo atrás da porta.
- O que foi? – sorri. – O que vocês estão escondendo?
Vendo que de nada adiantaria tentar esconder as coisas de mim, eles abriram a porta novamente e o que vi fez meu sorriso morrer e o corpo gelar. Meus amigos tinham em mãos uma imensa coroa de flores, com meu nome no centro, junto aos dizeres: "Divirta-se no inferno, puto!".
Aquela mulher estava completamente fora de controle, deveria ser internada. Eu realmente não esperava que ela fosse cumprir suas ameaças, mas isto já está indo longe demais… Não deixei que meus amigos jogassem fora o arranjo, precisava mostrar aquilo para o Ikki. Mas o faria depois da festa, não fazia sentido estragar a noite maravilhosa que preparei pra gente.
Pouco tempo depois, Ikki chegou e ficou completamente surpreendido pela festa de aniversário. Foi uma noite incrível, divertimo-nos muito ao lado de nossos amigos, uma despedida e tanto. Shun dormiu em nosso quarto de hóspedes, já que a festa avançou pela madrugada.
Foi somente no dia seguinte, assim que acordamos, que tive a coragem de mostrar a coroa de flores para Ikki. A reação dele não me surpreendeu nem um pouco.
- Nós vamos à polícia agora mesmo, loiro!
- Gato, espera um pouco…
- Esperar? Esta mulher está completamente louca, Hyoga! Nós temos que fazer alguma coisa! – disse ele, revoltado.
- E nós faremos! Vamos embora deste país.
- Você me impediu de dar a merecida punição à minha mãe antes, mas não o fará agora, Hyoga!
- Ikki, olha pra mim! – ele parou diante de mim, havia muita fúria em seu olhar. – Eu sei que ela está completamente louca, e confesso que isto realmente me assustou… Mas ainda é sua mãe, gato. É a sua família… Você quer realmente colocar sua mãe na cadeia? Como você acha que o seu irmão ficará nessa história toda, hein?
Eu me aproximei e o abracei, recostando minha cabeça em seu ombro. Um pouco mais tranqüilo, Ikki me envolveu em seus braços.
- É exatamente isso o que ela quer, gato. Assustar-nos… - eu disse, apertando-me ainda mais contra ele.
- Desta vez ela conseguiu… - Ikki assentiu, beijando o topo de minha cabeça.
- Nós vamos embora, e este tormento finalmente vai acabar… - essa era a minha grande esperança, ir pra bem longe daquela louca.
- Assim espero, Hyoga… Assim espero…
Não sei dizer quanto tempo ficamos abraçados ali, nos acalmando. Isobel estava realmente conseguindo seu intento: estava nos abalando psicologicamente.
Uma semana mais tarde, eu estava já estava uma pilha de nervos. Os telefonemas ameaçadores aumentaram, e agora eu os recebia no celular também. Os presentinhos também continuaram chegando, coisas como uma caixa de bombons cheia de larvas, um buquê de cravos-de-defunto e um lindo cartão de pêsames, endereçado a Ikki.
Até mesmo a sensação de ter alguém me seguindo eu sentia e, por via das dúvidas, Ikki passou a me acompanhar tanto na ida quanto na volta do trabalho, onde eu estava cumprindo aviso prévio. A Pet Shop não fica muito longe de nossa casa, e como não possuímos mais um carro, sempre vamos caminhando.
No sábado pela manhã, Ikki estava me levando até o trabalho. Estávamos de mãos dadas, caminhando tranquilamente. Quando íamos atravessar a rua em frente à Pet Shop, fomos fechados por um sedã preto. A surpresa não foi o fato de Isobel Amamiya sair do carro, mas sim a arma que ela tinha em mãos.
- Afaste-se dele imediatamente, Ikki Amamiya! – disse no mesmo tom em que uma mãe manda o filho lavar as mãos antes de almoçar.
- Abaixe a arma, Isobel. – Ikki não se intimidou, apesar de apertar minha mão com mais força.
- Não! Esta história acaba aqui! Você está destruindo a reputação da nossa família! Todos já estão comentando que você abandonou a Esmeralda por um homem!
- Eu não importo com a reputação da família! Agora abaixe esta arma! – Ikki voltou a gritar.
- Eu te avisei, seu puto! Agora você vai pagar por destruir minha família!
- Hyoga, Não!
Eu estava tão atônito e tudo aconteceu tão rápido, que nem mesmo o barulho do disparo foi capaz de me retirar daquela espécie de transe. Somente ao ver o corpo de Ikki caído ao chão, foi que consegui me mover. Ele havia entrado na minha frente, levando o tiro no meu lugar.
Era muito sangue, eu estava tão apavorado que já nem processava o que ocorria a nossa volta. Eu o estava perdendo, e isso doía de uma forma inexplicável.
- Ikki! Fala comigo, gato!
Ele tentava balbuciar alguma coisa, mas o sangue em sua boca não deixava qualquer palavra sair. Virei seu corpo de lado, para que Ikki não sufocasse com seu próprio sangue.
O tumulto na rua foi aumentando, eu sabia que havia pessoas à nossa volta, sei que implorei a alguém que chamasse uma ambulância, mas parecia que eu não era capaz de processar nada, estava desesperado demais para raciocinar.
Ao longe, ouvi Isobel gritando descontrolada, clamando aos quatro ventos que havia matado o próprio filho e perguntando-se o que as amigas diriam. Eu senti tanta raiva dela, que seria capaz de pegar a arma e descarregar naquela mulher vil e fútil, mas nem isso era capaz de fazer. Nesse momento era mais importante permanecer ao lado do meu amor, segurando sua mão e rezando para que tudo ficasse bem.
Ikki olhava em meus olhos, e sei que se pudesse dizer alguma coisa, ele declararia novamente seu amor por mim, como fazia todos os dias. Não posso acreditar que tudo se dissiparia assim, por um delírio de uma louca. Nossa vida juntos estava apenas começando, não podia se acabar assim. Ikki fechou os olhos, e ouvi gritos. Demorei a perceber que eles vinham de mim…
- Ikki! Abre os olhos! Fica comigo, por favor! Não me deixa, gato! Ikki! Não!
Ouvi outro disparo, mas não me virei para ver de onde vinha. Se eu tivesse sorte, Isobel teria decidido terminar o serviço, assim eu não seria obrigado a viver uma vida incompleta, sem Ikki.
Ouço mais gritos, e desta vez eles não são meus, mas das mulheres presentes, aterrorizadas por presenciar uma senhora tão bem vestida atirar na própria cabeça. Olhei de relance e vi Isobel caída, no centro de uma enorme poça de sangue. Não posso dizer que não me senti aliviado com isso, pelo menos a bruxa teve o castigo que merecia.
Sinto alguém me segurar pelos ombros e tentar me afastar de Ikki, mas não quero deixá-lo. Eu não posso abandoná-lo, não agora!
- Hyoga, vem! Deixa os paramédicos agirem! – sei que é a voz de Ícaro, mas acredito ser uma ilusão. Em meio a tanto desespero, não me recordo que ele trabalha bem próximo dali.
- Não, eu não vou deixar o Ikki! Não posso!
Ícaro me segura com mais força, e parece que ele recebe a ajuda de outras pessoas, pela forma como sou afastado rapidamente de Ikki. Depois, sinto uma picada de agulha no braço e, rapidamente, tudo se torna a mais profunda escuridão.
oOo
Pov Ikki
- Hyoga! – gritei assustado, antes mesmo de abrir os olhos.
Meu maior medo havia se concretizado, e a única coisa que me importava agora era saber como meu loiro estava.
Sei que deveria ter sido muito mais implacável com Isobel, e me arrependo disto no momento. Mas se aquela mulher ainda não está pagando pelo que fez, garanto que muito em breve o fará.
- Ikki! Você está bem?
A pergunta de Shun faz com que eu finalmente encare meu estado. Estou em uma cama de hospital, com soro ligado no braço e uma dor horrorosa no peito. Olho meu irmão e seus olhos inchados me comovem.
- Eu estou bem, Shun. Não se preocupe. – procuro tranqüilizá-lo. – Cadê o Hyoga?
- Tiveram que sedá-lo novamente. Ele teve outra crise nervosa quando você foi para a cirurgia. Você está fora de perigo, irmão, os médicos retiraram a bala. Eles disseram que você teve muita sorte, pois o disparo não atingiu seu coração por questão de poucos centímetros…
- O Hyoga está bem? – se eu estava fora de perigo, por que Shun estava chorando?
- Ele está bem, só está dormindo um pouco. Assim que ele acordar nós o trazemos aqui.
- Por que está chorando, Shun?
- Ikki, a mamãe se matou.
Fiquei chocado com a notícia aterradora, mas não posso dizer que já não esperava tal loucura vinda de Isobel.
- Ela achou que tinha matado você, e atirou em si mesma. – Shun continuou explicando, diante do meu silêncio.
- Já cuidaram dos preparativos para o enterro? – foi a única coisa que consegui perguntar, não sei se pelo choque ou pela raiva que sentia de minha mãe no momento.
- O papai está cuidando de tudo. Ele não quis abafar o caso, irmão. Disse que já está na hora desta família mostrar sua verdadeira face para o mundo.
- Talvez seja tarde demais… - declarei tristemente, pensando em tudo a que meu pai renunciou.
- Nunca é tarde demais, Ikki. Eu vou chamar o Hyoga, está bem?
Shun saiu do quarto e minutos depois Hyoga estava diante de mim, aos prantos.
- Achei que tinha perdido você. – ele disse, enquanto alisava meu peito.
- Você não vai se livrar de mim tão fácil, amor.
- Promete? – meu loiro insistiu, enxugando as lágrimas.
- Prometo!
oOo
Até mesmo o tempo parece adequado para o momento. As escuras nuvens no céu, a fria garoa que cai em Atenas… Não sei dizer o porquê do céu estar chorando, talvez pela vida que Isobel levou, talvez pelas felicidades que destruiu, ou até mesmo pela forma como morreu… Isso já não importa, na verdade. O que importa é o ar pesado e tenebroso do cemitério, ressaltado pelo péssimo tempo.
Não ajudei a carregar o caixão até seu jazigo, tenho a desculpa das orientações médicas e da tipóia no ombro, mas não sei se o faria mesmo se estivesse são. Há tantas coisas a serem resolvidas dentro de mim, antes de perdoar tudo o que me fizeram…
Hyoga permanece ao meu lado o tempo todo. Segurando um guarda chuva, enquanto tenta me passar algum conforto com sua mão em minhas costas, ele não diz absolutamente nada. Meu loiro sabe que eu não conseguiria encontrar as palavras certas para explicar como me sinto. Sabe também que, se em algum momento eu me abrir a respeito, será com ele que o farei.
É uma situação tão irônica. Isobel, que passou a vida inteira buscando nome e poder, coisa pela qual foi capaz de morrer, agora é enterrada apenas na presença de seu marido e seus filhos. Nenhum dos amigos, que ela sempre julgou tão importantes, foi capaz de presenciar o enterro dela, assumindo assim um vínculo com uma mulher tão mal vista no momento.
A tampa de mármore é colocada sobre o jazigo, encerrando assim uma era de manipulação e infelicidade.
- O seu irmão precisa de você. – Hyoga sussurra, indicando um choroso Shun com a cabeça.
Eu me afasto e vou até meu irmão. Depois de um longo abraço e algumas palavras de conforto, eu me encaminho novamente para o meu amor. A visão de meu pai conversando com ele me intriga, e aperto o passo para ajudá-lo, caso seja necessário.
- Está tudo bem, Hyoga? – pergunto, sem olhar para o rosto de meu pai.
- Está sim. – meu loiro sorri pra mim e, me estendendo a mão, pede silenciosamente que deixemos o cemitério.
Caminhávamos para fora daquele lugar, quando ouvi meu pai chamar. O estranho é que ele não chamava por mim, mas sim por Hyoga.
- Sim, senhor Amamiya. – Hyoga parou e se virou, olhando na direção de meu pai, que se aproximava rapidamente.
- Cuide bem do meu filho. – Isao disse, olhando diretamente nos olhos de meu loiro e ignorando minha presença por completo.
- Eu o farei. – Hyoga assentiu, estendendo sua mão direita para meu pai, que a apertou sem hesitar.
Depois disso, saímos dali e eu finalmente perguntei o que eles haviam conversado enquanto eu estava com Shun.
- Eu disse a ele que ainda está em tempo de correr atrás da felicidade… - Hyoga respondeu, olhando pela janela do ônibus.
- Vincent? – perguntei, já sabendo a resposta.
- Sim. Incomoda-te?
- Não. Apesar de que é bem estranho imaginar meu pai transando com um cara enorme como aquele… Ainda mais com uma Jacob's Ladder.
Hyoga gargalhou e aquele som gostoso me contagiou. Logo, estávamos os dois gargalhando dentro do ônibus, de forma totalmente desproporcional à piada. Felicidade demais, talvez? Provavelmente…
oOo
Duas semanas depois…
Mesmo depois de toda a ameaça acabar, eu ainda não conseguia emprego na Grécia. A influência do pai de Esmeralda ainda era muito grande, então eu e Hyoga permanecemos com o plano de ir para a Espanha.
A total entrega do loiro me comoveu, pois ele estava largando tudo para me seguir em algo que eu nem sabia se daria certo.
- Tem certeza de que quer vender este apartamento, Hyoga? – perguntei.
O loiro havia decidido que seria muito melhor se fôssemos pra outro país com uma boa grana na conta. Teríamos muito mais segurança para inventar outras coisas, se a minha idéia inicial não desse certo, segundo ele.
- Tenho certeza, gato. É a terceira vez que você me pergunta isso. Fique tranqüilo, Ikki. Os compradores são ótimos, e serão muito felizes aqui… - disse ele, misterioso.
Não tão misterioso assim, pois sei que foi meu pai quem comprou o apartamento. Não que ele precisasse, mas acho que deve haver algum valor sentimental ou algo assim… Talvez ele queira captar as boas vibrações do amor que está impregnado nas paredes e em cada canto deste lugar…
As malas e caixas espalhadas pela casa dão a impressão de que nunca conseguiremos realizar nossa mudança. Tudo está um caos, mas ainda assim, temos tempo para uma pequena surpresa, que preparei para Hyoga no quarto.
- Onde eu coloco isto, loiro? – mostrei um par de sapatos velhos meus, assim que entrei na sala.
- Dá aqui! Vou colocar na caixa de doação, de maneira nenhuma você leva isto pra Espanha! – ele riu. – Você já recolheu as caixas do quarto?
- Não.
- Então o que você ficou fazendo lá? Tem quase vinte minutos que eu estou te chamando…
- Nada demais… Você pode me dar uma ajuda lá no quarto? Meu ombro está doendo… - fiz um teatrinho, acariciando o ombro com cara de dor.
- O que você faria sem mim, hein? – ele brincou, caminhando para o nosso quarto.
- Absolutamente nada, amor. – concordei, seguindo atrás dele.
Apesar de ficar louco para ver a expressão no rosto de Hyoga ao ver a surpresa, eu precisava que ele entrasse primeiro no quarto. Fiquei com medo de parecer piegas, mas Shun me incentivou tanto que preparei a coisa mais romântica que consegui imaginar, para decorar o cômodo.
O ambiente estava à meia luz, uma suave música tocava ao fundo e era possível sentir o aroma de seu perfume favorito, que eu borrifei pelo quarto. Sobre a nossa cama, estavam espalhadas dezenas de pétalas de rosas vermelhas e, no centro, uma pequena caixinha preta.
Aproximei-me dele por trás e sussurrei em seu ouvido:
- Eu comprei um presente pra você.
Hyoga aproximou-se da cama e pegou a caixinha. Quando abriu, pôde ver duas lindas alianças de ouro, feitas de filigrana portuguesa2.
- O que é isto? – perguntou ele, chorando.
- Ouvi dizer que pra onde vamos, é permitido que eu me una a você legalmente… Então eu pensei… Por que não?
Hyoga nada disse, apenas continuava chorando.
- Você não gostou do modelo? Podemos trocar… - ele permaneceu calado. – Ok, deixe-me fazer isto da maneira correta.
Com um sorriso no rosto e o coração aos pulos no peito, ajoelhei-me diante dele.
- Eu não sou uma garota! – disse ele, reclamando de minha posição. Sorrindo, Hyoga também se ajoelhou diante de mim.
- Melhor assim? – sorri quando ele assentiu. Olhando em seus olhos, continuei a falar. – Hyoga, antes de te conhecer, eu era apenas uma carcaça… Um protótipo de homem. Eu não tinha uma vida e nem esperanças de ser feliz. Então você surgiu, um lindo russo sexy, que foi capaz de virar a minha vida de cabeça pra baixo. Não consigo me imaginar sem você, amor. Você é o meu anjo, meu guia, meu amor, meu homem… Você me completa! Eu te amo tanto que é difícil colocá-lo em palavras… Eu só sei que meu tempo de vida só será válido, se eu tiver você ao meu lado. Quero passar o resto da minha vida amando você… E quando formos dois velhos enrugados, quero poder segurar sua mão e agradecer pela vida linda que você me proporcionou... Você quer se casar comigo?
- É tudo o que mais quero, gato! – Hyoga, ainda chorando, me abraçou apertado.
Peguei a aliança e coloquei em seu dedo anelar da mão direita, para simbolizar nosso noivado.
- Minha vez. – disse ele, segurando minha mão. – Ikki, eu enfrentei tantos desafios na minha vida, que por muitas vezes acreditei que não conseguiria sobreviver… Porém, posso te dizer com toda a certeza que passaria por tudo novamente, se isso significasse encontrar o amor da minha vida… Eu amo tudo em você, cada gesto, cada olhar, seu sorriso lindo, esse seu jeito sério… Adoro como você sabe me pegar de jeito e ao mesmo tempo é o homem mais doce que já conheci… Eu quero passar o resto da minha vida ao seu lado, gato. Eu sei que nem sempre serão flores, teremos problemas pelo caminho. Mas cada segundo valerá a pena, se eu o tiver em meus braços… Rogo a Deus que nos permita viver muito, amor. Por que nem mesmo toda a eternidade seria suficiente, para te amar como você merece. Prometo te fazer o homem mais feliz deste mundo, Ikki! Você quer casar comigo?
- Sim. – foi tudo o que consegui responder, devido à emoção. Hyoga também colocou a aliança em meu dedo, com certa dificuldade por estar trêmulo.
Um longo e apaixonado beijo selou nosso compromisso. Um beijo cheio de promessas, esperanças e, acima de tudo, amor.
Como ele mesmo disse, nem sempre serão flores. Mas sei que o nosso amor sempre prevalecerá em todos os momentos. Há alguns meses atrás, eu jamais poderia imaginar que havia tanto amor a minha espera. Hoje, sei que não existe nada melhor do que a sensação de amar e ser amado com tanta intensidade.
Sem pestanejar, fecho meus olhos e me entrego a outro beijo apaixonado. Já não existem mais barreiras, externas ou internas, que me impeçam de viver este grande amor. Não sou mais o mesmo Ikki reticente, que entrou pela primeira vez no clube Millenium aquela noite. Hoje sou um Ikki sem medos ou pudores, não me escondo mais, sou o que sou. E agradeço ao eu loiro por isso.
Livre, finalmente, eu me abandono nos braços de Hyoga. Aqueles braços que me oferecem muito amor, cumplicidade e uma vida linda a minha espera.
FIM
1 – Frase em latim, que significa "Pessoa não bem-vinda".
2 – Filigrana: técnica de ourivesaria que consiste na combinação de delicados e finíssimos fios de ouro ou prata aplicados sobre placas do mesmo metal, desenhando motivos circulares, espiralados ou em SS.
Para a aliança dos dois, tomei como base esta do link abaixo (para ver, retire os espaços): http : / / dn. sapo. PT / inicio / portugal / interior . aspx?content_id=1472483&seccao=Norte
N/A: Nossa! É o primeiro final de fic que eu faço. Estou até emocionada, sério! Bom, espero que tenha correspondido às expectativas de todos vocês. Se não foi grande coisa, peço que me perdoem!
Deixo aqui o meu muito obrigado a todas as pessoas que leram 'O último ato', principalmente a todos que me incentivaram deixando reviews e que tornaram este trabalho ainda mais satisfatório.
Lua Prateada, Arcueid, liliuapolonio, medeia, keronekoi, Moni-d, Taciana, Ignea e Dani, vocês não podem imaginar o quão feliz eu fiquei com o carinho de vocês. Agradeço de coração cada elogio, incentivo, puxão de orelha e sugestão. Foi muito importante pra mim.
Bom, acho que é isso! Beijão a todos, e não se esqueçam que ainda tem o epílogo!
Mamba
