VISION DIVINE

"Ninguém podia prever um terremoto naquela hora.", "Não foi culpa sua", "Para com isso". São as palavras que sempre diziam a Eliot quando ele começava a falar sobre seu estranho sentimento de culpa. Aconselhado por alguns amigos de longa data, Eliot tenta expurgar seus sentimentos negativos conversando com um psicólogo. Até o momento ele não sentiu muita diferença, mas pelo menos o psicólogo não respondia com as frases acima citadas. O que, pra Eliot, já significava alguma coisa.

- Você acredita nisso? – Pergunta Eliot, deitado em um divã.

- Isso não importa aqui. O importante é se você acredita.

- Claro que acredito! Não pode ser coincidência. Esse tipo de coisa sempre acontece comigo.

- Sei, sei. "Sempre" desde quando?

- Acho que... Acho que desde que eu me entendo por gente isso acontece comigo. O caso do terremoto foi só a gota d'água. Lembro-me até de certa vez, no colegial...


No Colegial:

Uma das maiores alegria de um garoto de onze anos é ir para a escola e descobrir que, devido a uma greve de ônibus ou a doença de algum professor, não haverá aula. Isso significava mais tempo livre para fazer as brincadeiras típicas da idade. Não que eles já não tivessem tempo livre suficiente para isso.

Nessa idade os garotos costumam sair em bando. Com mais três ou quatro amigos. Inseguros, eles ainda não têm a cabeça feita para se "garantir sozinho".

Eliot, como um bom rapaz de onze anos, estava saindo da escola com três dos seus melhores amigos feliz da vida por saber que o professor tinha pegado uma forte pneumonia (é, nessa idade costuma-se ser um pouco egoísta também). Com três dólares no bolso, que na cabecinha ingênua de Eliot representava uma fortuna, ele e seus amigos pretendiam passar uma tarde no fliperama. Fliperama este que não era muito perto da escola, mas, como o grupo pretendia economizar dinheiro pra gastar nos jogos, eles decidiram ir andando. Uma péssima idéia, aja vista que o percurso da escola ao fliperama passava por várias ruas não muito seguras para garotos tão jovens andarem sozinhos. Mas, nessa idade, é comum também não se ter muita noção do perigo.

Uma rua deserta, suja e estreita. Um beco. O quarteto de guris pensou duas vezes antes de entrar nela, mas o desejo de chegar logo ao bendito fliperama falou mais forte que o bom senso.

- Ei, vocês aí! – Quando os garotos já estavam na metade, uma voz aparece vindo do fundo da rua, fazendo com que os moleques sentissem um frio na espinha muito incomodo. Ao se virarem para ver quem estava falando, o medo da gurizada aumento, pois eles perceberam que estavam sozinhos com um cara de quase dois metros de altura e de cara bem fechada. – Fodeu – foi à única idéia que deu tempo de passar na cabeça de Eliot antes do homem assustador tirar uma faca de dentro do bolso.

Depois desse ponto Eliot não se lembra mais do que aconteceu. É como se tivesse apagado e seu corpo ficasse no "automático". Ele havia voltado pra casa uma hora depois, tinha pegado um ônibus. No entanto, ele não se recorda de como escapou do assaltante, nem de ter ido ao ponto de ônibus. Um mistério que Eliot nunca conseguiu desvendar e que era ainda mais estranho devido ao fato de seus amigos revelarem que sofreram do mesmo "apagão" também.


- Em momentos de stress é comum se apagar algumas lembranças que incomodam. – Dizia o psicólogo.

- Se isso tivesse acontecido só comigo até que eu concordaria. Mas com os quatro?!

- E quem garante que seus amigos não estivessem mentindo pra você? Talvez eles soubessem que o que aconteceu a seguir foi deveras perturbador e resolveram não te contar nada.

Quando Eliot ouviu aquelas palavras ele ficou bastante assustado, pois uma idéia bem sinistra passou na sua cabeça sobre o que poderia ter acontecido naquele beco. – Acho que garotos de onze anos não têm esse tipo de raciocínio.

- Talvez estivessem seguindo um conselho dos pais.

- Hmmm. Sei não.

- Esses "apagões" acontecem muito? Talvez seja o caso de falar com um neurologista e...

- Não, não. Na verdade só lembro-me de ter um "apagão" naquela ocasião.

- Sei, sei. Mas você não disse que "esse tipo de coisa sempre acontece comigo".

- Ei! Não estava me referindo à perda de memória. Estava falando de coisas estranhas. O terremoto foi só a última delas.

- Eliot, vamos convir que um terremoto no país em que vivemos não é assim algo que possamos classificar como estranho.

- Que nada. Foi estranho sim. Ele foi muito conveniente.


O Terremoto:

Agora um homem maduro, pai de família e de uma carreira profissional promissora, vinte e dois anos haviam se passado desde aquele dia no colegial e parece que Eliot não aprendeu nada sobre a cidade perigosa em que vive nesse meio tempo.

Imagine um homem vestido de terno e gravata entrando em um carro de luxo. Carro esse que está em um estacionamento de supermercado escuro e deserto. Quem apostou que esse cenário é perfeito para um assalto apostou certo. O meliante, armado de uma pistola, força Eliot a entrar no carro e pede a ele tudo que o homem possuía. Dinheiro, cartão, as compras que fez... Enfim, tudo que pudesse carregar.

Pra desespero de Eliot, ele havia saído de casa desprevenido. Estava com apenas trinta dólares no bolso. Achando um absurdo que um homem com aquele carro pudesse sair de casa apenas com aquela quantidade de dinheiro, o meliante colocou a arma na testa de Eliot e ameaçou disparar. Foi aí que o estranho aconteceu. O carro começou a tremer. Isso porque o chão que estava sob ele estava tremendo também. Logo em seguida pedaços do teto do estacionamento começaram a cair. O assaltante ficou nervoso, por causa disso já ia apertando o gatilho da arma. Mas antes que conseguisse mover um músculo, um pedaço enorme do teto do estacionamento caiu bem em cima do carro. O pedaço era tão pesado que conseguiu atravessar a carroceria Pra sorte de Eliot e azar do assaltante, esse pedaço do teto havia caído bem no lugar aonde estava sentado o azarado. Provocando uma morte não muito bonita devo acrescentar.

Tão rápido quanto começou o terremoto teve fim. Nervoso e assustado, Eliot sai do bagaço que antes era seu carro e vai andando de volta ao supermercado. Lá ele encontra um monte de gente assustada e outro tanto de gente jogada no chão. Alguns feridos e outros em situação muito pior.


- Coincidências acontecem. Você só deu sorte. Uma sorte muito bizarra devo admitir. No entanto todos nós estamos sujeitos a isso. Você não devia se culpar por uma coisa dessas. – Diz o psicólogo.

- Mas essas coincidências bizarras sempre acontecem comigo! É como se eu de certo modo...

- Quer um conselho?

- Diga.

- Quando sair daqui vá para a primeira igreja que encontrar e agradeça a Deus pela sorte que tem, ok?

- Ta bom. – Diz Eliot, achando a última frase do psicólogo muito da esquisita.

Tidoom! O cronometro que ficava em cima da mesa da sala começou a apitar. Isso significava que os cinqüenta minutos da sessão haviam terminado. – Você quer marcar hora pra semana que vem? – Pergunta o psicólogo.

- Não mesmo. Meu plano de saúde só cobre três consultas.

- Ta bom. Boa sorte então.

Após sair do consultório, Eliot vai até um ponto de ônibus. Após dez anos usando carro havia desacostumado a esse tipo de transporte. No entanto, como o seguro ainda não havia trocado seu carro, o jeito que ele tinha era se acostumar com a idéia.

Dez minutos haviam se passado e Eliot ainda estava sentado no ponto esperando o bendito transporte que não vinha. Ele tinha até esquecido o quanto era chato esperar um ônibus que custava a passar. O pior ainda era as pessoas que estavam com ele no ponto. Três idosos que ficavam puxando assunto em um momento em que Eliot não estava muito a fim de conversa.

Vinte minutos depois e Eliot já estava muito impaciente. Pra piorar os velhos também não paravam de falar. Enquanto a conversa prosseguia, Eliot percebeu que no outro lado da rua havia uma pequena igreja católica. Lembrando-se do último conselho de seu psicólogo, Eliot atravessou a rua e foi até o lugar. Ele nunca foi muito de se preocupar com religião, mas "mal também não iria fazer" pensava.

A igreja estava vazia àquela hora. Meio dia e meia de uma terça feira não deveria ser um horário muito disputado para as rezas. Isso deixou Eliot mais tranqüilo, não queria ter muita "platéia" o vendo rezar.

Com muito tempo sem ir a uma igreja, Eliot ficou alguns segundos refletindo se deveria sentar nos bancos ou se ajoelhar nos apoios de joelho acolchoados. Por fim ele decidiu apenas de sentar.

- É... – Começou Eliot. – É... – Sem muita coragem pra continuar sua oração, aja vista que se sentia meio envergonhado com aquilo. Eliot se levantou da cadeira dizendo apenas um "valeu". No seu raciocínio aquilo bastava para atender ao último conselho do psicólogo.

- "Valeu"? Você chama isso de reza? – Eliot, que já estava saindo da igreja, virou pra trás e percebeu que um padre estava sentado na primeira fileira. Envergonhado, ele tentou sair antes que o padre começasse um sermão, mas não conseguiu. – Hei, hei. Moço, espera um minuto.

- Olha padre, eu realmente estou muito atrasado e...

- Calma, filho. Vou só dar um recado.

- Recado?

- É. Ele avisou que, apesar de não ver muita gratidão de sua parte, vai continuar cuidando de você.

- Hmmm. Sei, sei. Obrigado, padre. Até logo. – Eliot saiu da igreja achando que aquela incursão religiosa havia sido um erro da sua parte. Pra piorar o rapaz achava que seu ônibus já havia passado, sendo assim a espera no ônibus iria ser bem mais longa.

- O que aconteceu aqui? – Eliot fez essa pergunta a um transeunte qualquer que passava por ali. A dúvida se referia a uma multidão de gente que havia se reunido em frente do bendito ponto de ônibus.

- Foi um motorista bêbado. Atropelou três velhinhos no ponto de ônibus.

- O QUÊ?!

- Hmm?! Eram conhecidos seus?!

Eliot saiu transtornado dali porque aquela revelação significava uma coisa. Sua bizarra sorte ainda estava o acompanhando. O sentimento de culpa que, há poucos minutos, já estava começando a lhe parecer irracional agora fazia todo o sentido para ele. As vítimas do terremoto no supermercado, os velhinhos do ponto de ônibus... Parecia que sempre alguém pagava caro pela sorte que possuía.

Após muito andar, Eliot chega até uma ponte e se apóia no corrimão dela. Qualquer um que passasse ali e o visse olhando fixamente para a rua de baixo provavelmente iria achar que ele estava prestes a cometer uma besteira.

- Por favor! Como se já não desse trabalho suficiente cuidar de você. Agora tu quer aprontar essa?! – Eliot se virou para trás e notou que o padre que havia conversado com ele momentos atrás estava ali. Eliot não entendia direito qual era a intenção do coroa, mas não gostava do fato dele ter o seguido.

- Na boa, padre. Não quero ser mal educado, mas você não tem nada a ver com isso.

- Na verdade tenho sim.

Com um toque de seu dedo indicador na testa de Eliot, o padre consegue levar a mente daquele homem para um lugar bem distante dali.


De volta ao colegial:

Eliot não estava entendendo nada do que aconteceu na ponte. Ele estava conversando com um padre e no minuto seguinte o mundo a sua volta parecia que havia desaparecido. Após ser tocado pelo coroa; a ponte, o padre, os carros, a rua... Tudo havia sumido. Eliot não se encontrava mais lá, mas sim em um beco sombrio que ele achava assustadoramente familiar. Aquilo era esquisito. Era como se ele houvesse sido teleportado ou coisa parecida.

A rua estava deserta, mas não ficaria assim por muito tempo. Entrando no beco, há mais ou menos uns trinta passos de Eliot, quatro garotos franzinos aparecem. Ao se aproximarem mais, Eliot toma um susto, pois percebe que um dos meninos é assustadoramente parecido com ele.

Como se não estivesse ali, os garotos passam por Eliot o ignorando completamente. Era como se estivesse invisível.

- Ei, vocês aí! – Uma voz vinha do fundo da rua, chamando a atenção dos garotos e de Eliot. O dono dela era um homem de quase dois metros de altura e de cara fechada. Como se isso já não fosse perturbador o bastante, o homem assustador retira uma faca de dentro do bolso. – Passa a grana, porra. Passa a grana. – O homem também ignorava a presença de Eliot. Estava se dirigindo apenas às crianças. Parecia nervoso e seu corpo tremia, devia estar drogado.

- Toma, moço, toma! – Tremendo mais do que vara verde, o menino de assustadora semelhança com Eliot, entrega todo o dinheiro que tinha no bolso. Ou seja, três dólares. Quantia pequena demais para satisfazer o bandido.

- O quê?! Está tirando onda com minha cara?! – Como forma de punição, o bandido enfia sua faca na barriga do menino (não antes de pegar o dinheiro), logo em seguida ele sai correndo e some tão rápido quanto apareceu. Os outros coleguinhas do garoto ficaram desesperados sem saber direito o que fazer. Eliot, por outro lado, pegou seu celular e tentou ligar para a emergência, no entanto estava sem sinal.

ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ!!!!

De repente, sem ter nenhum motivo aparente pra isso, um apito absurdamente agudo aparece. Ele era tão forte que alcançou o limiar de dor dos meninos e de Eliot que puseram suas mãos na orelha, em uma tentativa vã de se proteger do barulho. O único que parecia não se incomodar com o barulho era o menino jogado no chão. No entanto, mole e sangrando do jeito que estava, não dava nem pra dizer com certeza se ele ainda estava vivo.

Crack! Crack! Crack! As janelas de vidro das casas começaram a quebrar. BRUMMM!! O chão começou a tremer. ZZZZZZZZZZ!! E o apito agudo continuava. Parecia que o mundo ia chegar ao fim.

Foi aí que as coisas ficaram mais estranhas ainda. Uma bola de luz (grande o suficiente para caber uma pessoa lá dentro) desceu do céu e ficou pairando em cima do corpo do menino ferido. O brilho da bola era intenso, o que dificultava sua visibilidade. No entanto, forçando um pouco sua vista, Eliot conseguiu perceber que havia alguma coisa dentro daquela bola luminosa. Era uma coisa com asas, - um anjo? – Pensou Eliot.

Se aproximando mais, com sua curiosidade maior do que seu medo, Eliot conseguiu ver com mais precisão o que era aquele ser que estava dentro daquela bola flutuante. Eliot, como a maioria dos seres humanos, nunca havia visto um anjo antes na vida. Por causa disso levou um choque. Ninguém poderia imaginar que um ser iluminado tivesse uma aparência física tão monstruosa. A maioria dos humanos enlouquece ou perdem a vista ao verem um anjo. No entanto, Eliot era diferente, ele conseguia ver o ser iluminado, e entendia muito bem o que ele queria. Eliot não sabia explicar como, mas aquele zumbido insuportável passava uma mensagem. Uma mensagem que ele conseguia entender com clareza.


- Que surpresa! Então o senhor decidiu voltar? – Disse o psicólogo ao notar que Eliot, uma semana depois, havia voltado para mais uma sessão.

- Paguei trinta dólares por essa consulta. Acho bom ela valer à pena! – Reclamou Eliot assim que se deitou no divã. Fazendo com que o psicólogo desse um pequeno sorriso.

- Então? Sobre o quê quer falar?

- Bom. Primeiro quero contar que essa semana eu descobri que tudo o que acontece na minha vida não é coincidência.

- Ainda com o sentimento de culpa?

- Pra falar a verdade não. Digamos que eu aceitei meu destino.

- Sei – Falou o psicólogo, fazendo uma cara de estranhamento. Provavelmente estava achando que seu paciente havia pirado de vez.

- Bem. Posso dizer que seu conselho da semana passada ajudou bastante.

- Conse...? Ahhh! Tá Certo! Lembrei, lembrei. Continua.

- O senhor se lembra daquela história que te contei do tempo que eu era do colegial?

- Sim.

- Pois bem, eu me lembrei do que aconteceu naquele dia.

- Mas isso é maravilhoso!! Então? Está pronto pra falar sobre isso?

- Acho que não. É esquisito demais. Bom. O importante é que a memória daquele dia me ajudou muito a entender o que se passa comigo.

- Que bom.

- Bom, bom, bommmm não é não. Sabe a sorte que tenho? Bom, acho que meu anjo da guarda é forte demais. E isso as vezes pode causar problemas.

- Dá pra ser mais claro?

A conversa durou mais algum tempo e, antes que o psicólogo percebesse, os cinqüenta minutos da consulta haviam terminado. Eliot se despediu antes de sair da sala e, ao ser perguntado se voltaria para mais uma sessão, não conseguiu responder nem que sim nem que não.

Ao sair do consultório, Eliot andou até o ponto de ônibus, mas, ao se lembrar do acidente da semana passada, achou mais "saudável" ir andando até sua casa. Uma caminhada que duraria umas duas horas, mas Eliot não se importava. Afinal, suas terças feiras costumam ser bem livres.

- Ei, barão! Passa a grana! – No meio do caminho, enquanto passava por uma rua deserta, Eliot é abordado por um marginal vestido com um capote grosso. Ele tinha sua mão direita enfiada no bolso do capote e apontava-a para a direção de Eliot. Como se estivesse escondendo uma arma ali.

- Cara, vai por mim. Está prestes a fazer a maior besteira da sua vida.

- O que é, mano?! Ta me tirando?

Bruuummmmm!!! ZZZZZZZZZZ!!! Crack! Crack! Crack! O chão começou a tremer, um zumbido agudo insuportável se fez presente e os vidros das janelas dos carros começaram a quebrar.

- Eu avisei.