ANCIENT

Muitos anos antes dos novos avanços da ciência, muitos anos antes do nascimento das grandes civilizações da antiguidade, muitos anos antes do descobrimento da escrita, matemática e filosofia... Nesse tempo os seres humanos viviam nas florestas e sobreviviam a base de caça e pesca, pois ainda não tinham aprendido a cultivar seus alimentos. No mundo inteiro, somando-se todos, eles não passavam de 100 milhões. Suas armas eram feitas de pau e pedra lascada, sendo a mais avançada delas um tipo de lança rústica que era tão desengonçada que não servia pra ser arremessada. A novidade tecnológica do momento era o domínio do fogo.

Apesar de a época ser muito remota, os humanos desse tempo, fisicamente falando, não eram tão diferentes dos humanos da atualidade. Se um deles fosse parar no nosso tempo, e andasse pela rua usando roupas modernas, ninguém ia notar muito sua presença. O máximo que aconteceria era alguém achar que ele é uma pessoa muito mal encarada.

É nesse cenário que encontramos o personagem principal de nossa história. Em um lugar que séculos depois será conhecido como África, um jovem caçador de 19 anos se junta aos melhores caçadores de sua tribo para arranjar o almoço do grupo. Nessa época os humanos não tinham aprimorado o dom da fala e da comunicação, por causa disso ninguém tinha nome.

O grupo de caçadores é formado por dez guerreiros, oito deles não são muito importantes para essa história, por isso não dê muita atenção a eles. Se preocupe só com o líder, o mais alto e forte de todos, e o garoto de 19 anos, o mais novo do bando e o personagem principal da história.

- Rhu Rhu Rhu. – Com gestos desengonçados e grunhidos ininteligíveis para nós, o líder do grupo aponta para o alto de uma colina que estava bem próxima do grupo. Todos olham para cima e percebem a aproximação de um tigre. Não era uma das presas mais fáceis de abater, mas devido o período de seca e de caça escassa, o bando não podia deixar passar.

O grupo, em sincronia, vai fazendo um cerco em volta do bicho. A intenção era fazer com que o tigre ficasse encurralado e não tivesse chance de fugir. No entanto, antes que pudessem prosseguir com o plano, um som estrondoso e metálico se fez presente, espantando o tigre e desviando a atenção dos caçadores.

Mais curiosos do que prudentes, os caçadores subiram a colina atraídos pelo som e, ao enxergarem o que estava do outro lado, ficaram aterrorizados com uma visão que suas mentes primitivas não estavam preparadas para ver. Pra ser mais claro, até mesmo um homem contemporâneo não estaria totalmente apto a presenciar aquilo.

Do outro lado da colina, em uma planície que se situava logo adiante, uma pirâmide metálica extremamente grande se fazia presente. Pra piorar, uma criatura estranha parecia examinar a pirâmide. A criatura era exótica demais para pertencer à fauna local. Tinha um aspecto humanóide, possuía pelo menos uns trinta andares de altura e seu rosto feroz era bem ameaçador. Alguém do nosso tempo diria que a criatura parecia um robô gigante ou um alienígena, no entanto, o grupo de caçadores não tinha nem noção do que eram essas coisas.

O monstro acabou por perceber a presença dos humanos que, pela sua perspectiva, mais pareciam insetos. Após dar um salto colossal, até mesmo levando em consideração a proporção de seu tamanho, o monstro vai parar bem em cima do grupo de caçadores, no topo da colina. Logo que seus enormes pés tocam o chão dois homens são esmagados e morrem. Os outros guerreiros inutilmente tentam ferir o gigante com suas lanças rústicas, mas é claro que o ataque não surtiu nenhum efeito.

Foi nesse momento que o líder do bando dá azar. O monstro olha os humanos com curiosidade e a esmo pega um deles para analisar, é aí que o líder sobrou. O musculoso caçador ainda tenta se debater e ferir a mão do gigante com sua lança, mas todo seu esforço se mostra inútil. O monstro, com sua mão direita, leva o líder até a altura de seus olhos, dá uma boa olhada nele e, depois de alguns poucos segundos, como uma criança que perde o interesse por um brinquedo, joga o humano no chão sem o menor cuidado. Caindo de uma altura de trinta andares, o líder do grupo encontra seu fim.

Os demais caçadores ao presenciar essa cena fogem aterrorizados, com exceção de um, o rapaz de 19 anos. O garoto fica imóvel, olhando para o cadáver de seu líder e para o gigante que estava a sua frente. A colossal criatura até chega a perceber a permanência do rapaz ali, mas não se importou muito com isso. O ignorou e foi caminhando em direção a pirâmide metálica. Seus passos eram tão pesados que faziam a terra tremer.

O gigante agora estava mexendo na pirâmide metálica. O rapaz continuava na colina, paralisado, olhando o que o monstro fazia. Os dois estavam a uma boa distância um do outro, mais ou menos dois quilômetros.

Aproveitando que a criatura estava distraída analisando a pirâmide, o humano decidiu se aproximar, movido por uma curiosidade que, pelo menos naquele momento, parecia superar seu instinto de sobrevivência.

Foi preciso dez minutos para que o humano conseguisse descer a colina e chegar próximo à pirâmide. Próximo o suficiente para poder tocá-la. O pequenino humano ficava olhando para o gigante, escondendo-se na lateral da pirâmide. Ele pensava que havia conseguido se manter despercebido, mas isso não era verdade. O monstro estava ciente de sua presença, no entanto, não dava muita importância pra isso.

PIIII !!! VRUUMMM!!! Uma abertura começa a se formar na pirâmide. Provavelmente ela estava respondendo a algum comando dado pelo gigante. Uma porta colossal agora se fazia presente. Grande o suficiente para que o monstro pudesse entrar através dela. E ele assim o fez. O humano, que estava ali assistindo a tudo, entra alguns minutos depois.

Do ponto de vista do rapaz a porta era descomunal, de um tamanho absurdo. Do ponto de vista do gigante ela era pequena, aja vista que ele teve necessidade de abaixar um pouco a cabeça para poder entrar.

O interior da pirâmide tinha vários pontos luminosos, no entanto era muito escuro. O grande trono bizarro que ficava no meio dela mal podia ser enxergado pelo pequeno humano que ali se aventurava.

A criatura estava sentada no trono e de olhos fechados. Se ela fosse um ser humano, qualquer um diria que ela estava tirando um cochilo. Enquanto isso, o jovem caçador, que também estava dentro da pirâmide, ficava abismado olhando todas aquelas "lusinhas" foscas espalhadas pelo lugar. Ele parecia hipnotizado, como uma mosca atraída pela luz de uma lâmpada. Estava tão distraído que não percebeu quando a abertura que estava logo atrás dele se fechou. Quando ele voltou a si já era tarde demais. Estava trancado dentro da pirâmide. O humano berrou, esperneou, esmurrou a parede... Fez de tudo um pouco. Enquanto isso o tempo ia passando. Os minutos se transformavam em horas e as horas em dias. Sem forças para fazer mais nada, o jovem caçador se deita encostado na parede e fica ali até não ter mais forças nem pra continuar vivo.

Os dias se transformam em semanas e as semanas se transformam em meses. O corpo do rapaz fica imóvel e não apodrece, pois nenhuma mosca, urubu ou verme aparece para maculá-lo. Os meses se transformam em anos e os anos se transformam em décadas. O povo da tribo do jovem caçador acaba tomando conhecimento da pirâmide metálica e decide firmar território em volta dela. As décadas se transformam em séculos. O que antes era uma pequena tribo, agora é uma civilização um tanto quanto avançada. Agora eles dominavam as técnicas de se trabalhar com o barro, da colheita e da metalurgia.

Na tentativa de encobrir o maior tesouro do seu povo, a pirâmide futurística, um imperador ordena que ela fosse coberta por uma camada de tijolos. A obra era ambiciosa e levou várias décadas, só sendo concluída muito tempo após a morte do imperador. Os séculos se transformam em milênios. A civilização que outrora era uma das mais avançadas do mundo acaba se transformando em um país pobre que, por muito tempo, acabou sendo colônia de um país belicamente mais poderoso. A história dos gigantes e da pirâmide metálica acabou virando lenda. Só o que restou dessa história foi a camada de tijolos usada pelo imperador para encobrir seu tesouro. Mas o tesouro ainda permanece lá. Escondido. Despercebido.