TUATHA DE DANANN

Há muitos milênios atrás, em um tempo tão remoto que virou lenda, o domínio do mundo não pertencia só ao homem, mas também há vários outros tipos de seres. Seres místicos que eram conhecidos como Tuatha de Danann, "povos da deusa Danu", em uma tradução literal da linguagem antiga.

Ao contrário do que se tem hoje, as florestas cobriam grande parte da Terra. As cidades dos homens, se é que podiam ser chamadas de cidades, tinham o tamanho de pequenas vilas esparsas. Os reinos humanos mais poderosos não ultrapassavam sete mil habitantes. As comunidades viviam da agricultura, da pecuária e do comércio, sendo que essa última atividade era exercida na maior parte do tempo por escambo. As poucas moedas que circulavam na época só tinham valor dentro dos seus respectivos reinos, sendo assim o comércio entre regiões era bem complicado.

Dentre as várias raças conscientes que dividiam o mundo, os humanos eram os que menos tinham domínio sobre as artes místicas. Conjuração de feitiços, poções, encantamentos... Magia em geral, só era exercida por alguns poucos. No entanto, na área da metalurgia eles estavam entre os melhores, só sendo superados pelos Gobllins. Pouquíssimos seres tinham o conhecimento de fundição do aço. Por causa disso, belicamente falando, os humanos tinham uma vantagem enorme em relação aos seus vizinhos.

Não demorou muito para que um rei humano, Therion do reino de Bocknagar, notasse sua superioridade militar em relação aos seus vizinhos. Movido por um sentimento de ganância típico dos da sua espécie, o rei Therion ordenou a criação de uma legião de seus melhores soldados e com eles conseguiu subjugar os elfos da floresta. Seres altos, de pele azulada e, como todos os elfos, de orelhas pontudas. Em comparação aos seres humanos eram fisicamente muito fracos. Um elfo da floresta adulto, por exemplo, tinha a força equivalente ao de um adolescente de 14 anos. Os elfos da floresta, como o próprio nome diz, viviam no mato. Não se abrigavam em casas ou cavernas, viviam ao ar livre. Possuíam um controle excepcional sobre os elementos da natureza e sobre a fauna local. Habilidades impressionantes, mas que não significavam nada perante o aço do homem. Foram facilmente subjugados e dizimados. Os poucos que sobreviveram foram obrigados a revelarem seus maiores segredos e tesouros.

As notícias naquele tempo eram demoradas e imprecisas. A notícia da queda do reino dos elfos da floresta só chegou aos ouvidos de Lándevir quase três meses depois do ocorrido. Lándevir era o rei dos elfos cinzentos. Como o próprio nome diz, esses elfos tinham a pele em um tom acinzentado, que lembrava cor de fumaça. Possuíam estatura mediana, mas eram fisicamente mais fortes que os humanos. Eles viviam em pequenas cidades situadas no alto das montanhas. Mais belicosos que seus primos que viviam nas florestas, os elfos cinzentos eram muito bons na arte da guerra. Além de serem grandes estrategistas, dominavam como ninguém a arte da magia negra. Eram os melhores na conjuração de maldições, seres inferiores e todo tipo de diabrura.

Temendo ser dominado pelos humanos, Lándevir montou um exercito e invadiu o reino de Oxymor. Reino esse que não tinha nada a ver com as conquistas do rei Therion, mas como também era um reino humano acabou sendo atacado. Como eu disse antes, as notícias além de demoradas eram imprecisas. Lándevir ficou sabendo da formação de um exercito conquistador humano, não ficou sabendo ao certo de que reino era, mas também não ligava muito pra isso, atacou o primeiro reino dos homens que viu pela frente. Esse foi seu maior erro.

Humilhado e revoltado devido ao ataque sem propósito que sofrera, o rei de Oxymor pediu ajuda aos outros reinos humanos para vingar sua derrota. Sempre que um rei humano deseja reunir-se com os outros reinos de homens ele acendia um farol que ficava no ponto mais alto de seu reino. Todos os reinos humanos tinham um farol desses. Eram conhecidos como faróis de Altan. Farol naquela época não se assemelhava em nada com os de hoje em dia, aja vista que eletricidade ainda não existia. Os faróis eram estruturas colossais que consistiam basicamente em uma fogueira posta em uma torre extremamente alta.

Avisados de que um dos seus pedia ajuda, os reis humanos se reuniram no castelo do mais importante rei entre eles. O rei de Gwendal. Ao todo eles eram nove, sendo que o rei Therion estava entre eles. Todos ouviram apreensivos o relato do rei de Oxymor. Ninguém parecia entender bem o porquê do ataque, aja vista que os humanos viviam em trégua há séculos com as outras criaturas. Só mesmo Therion fazia idéia de qual eram os motivos de Lándevir, no entanto, ele não dividiu suas suspeitas com os outros reis, pois isso poderia estragar sua imagem perante eles.

Incentivados por Therion, os reis de Leahy, Sinéad e Lúnasa defenderam a idéia de retaliação. O rei de Gwendal não gostava muito dessa idéia, pois temia que essa atitude enfurecesse os outros povos de Danu. Já os demais reis, a principio, não tinham uma opinião formada sobre o assunto. O dialogo foi demorado, levou um dia, mas a decisão de retaliação foi acertada por todos. Isso se devia, em grande parte, ao fato dos defensores de um acordo pacifico não terem uma convicção muito forte de sua posição. Sendo assim um exercito formado pela união das tropas dos nove reinos dos homens foi criado. O exercito, pra época, era muito numeroso, por causa disso eles não encontraram dificuldade em derrotar os elfos cinzentos. Aquilo foi um massacre, não uma batalha.

O maior temor de Lándevir se concretizou. Seu povo foi massacrado e dominado. Os tesouros, segredos e artes místicas que antes pertenciam aos elfos cinzentos agora eram domínio dos homens. Movido pelo ódio, Lándevir decidiu pedir ajuda aos outros povos da deusa Danu, no entanto eles não eram tão organizados quanto os humanos e por causa disso fazer com que se reunissem, algo que nunca havia acontecido antes, se tornou uma tarefa bem penosa que durou vários meses.

O rei Lándevir mandou mensageiros para todos os povos. A intenção era explicar a todos a ameaça que os humanos representavam. Fazendo-se necessário a dizimação deles. O rei Lándevir estava propondo uma aliança, nunca vista antes, para deter o progresso dos homens. Uma coisa que não era nada simples, pois muitos povos da deusa Danu eram rivais entre si e rejeitaram a idéia. Alguns inclusive com atos brutais deixaram bem claro que não iriam se reunir de jeito nenhum. Por exemplo, os anões das montanhas, rivais a longa data dos elfos cinzentos, se sentiram ofendidos com a proposta e mataram o mensageiro enviado para seu reino por Lándevir. O rei cinzento ficou sabendo da resposta negativa do rei dos anões da montanha ao receber um saco contendo a cabeça do mensageiro.

Quatro meses depois dos mensageiros serem enviados, alguns dos povos da deusa Danu se reuniram. A maioria deles havia recusado participar da reunião, sendo assim bem menos da metade deles estavam presentes. A reunião foi feita na floresta conhecida como Floresta Negra, um território neutro que, por superstição, é evitado pelos humanos. Havia representantes dos trolls, dos kobolds, dos Halflings, dos alto-elfos, dos monstruosos bugbear e representantes do que sobrou dos elfos da floresta e cinzentos. Ao contrario da demorada reunião dos humanos, essa reunião não demorou nem três horas. A decisão favorável ao ataque foi unânime e a Floresta Negra acabou servindo também pra ser a base do exercito formado pela união dessas espécies.

Não são só os generais e reis que têm o poder de mudar o rumo de uma guerra. Até mesmo a menor das criaturas pode mudar o rumo do mundo. Esse é o caso do fazendeiro Fenafir. Um homem humilde, já idoso, do reino de Lúnasa que até o momento nunca fez nada de importante na vida. Isso é, até agora.

Fenafir pra sustentar a família, além da plantação, costumava caçar na Floresta Negra. Habito que seus amigos mais próximos sempre desaconselhavam por achar perigoso demais. No entanto Fenafir nunca deu ouvido a eles, pois as melhores caças vinham da floresta. Muito isso se devia ao fato de não irem muitos humanos por ali. Era uma tarde de verão qualquer quando Fenafir notou uma movimentação estranha de seres místicos por aquelas bandas. Era comum aparecer um Kobold ou outro na Floresta Negra, mas as outras espécies andando por ali era algo extremamente raro. Curioso, Fenafir decidiu sorrateiramente investigar o que estava acontecendo. Foi aí que ficou ciente do ataque que estava sendo arquitetado naquelas matas. Por ser um homem leal ao seu rei, Fenafir foi correndo contar tudo o que descobriu. Teve alguma dificuldade em ganhar a confiança da nobreza de Lúnasa, mas no final acabaram por acreditar no que contava. O rei então decidiu acender o farol de Altan. Os reinos humanos iriam se reunir uma vez mais.

Os trolls, os kobolds, os Halflings, os alto-elfos, os bugbear os elfos da floresta e os elfos cinzentos que estavam na Floresta Negra foram pegos de surpresa. Nenhum deles estava preparado para o ataque. Era uma noite escura e a maioria deles estava dormindo. Alguns cantavam canções de suas culturas, outros comiam e os poucos que estavam de guarda foram os primeiros a serem abatidos, evitando qualquer chance de alarme.

Os homens haviam encurralado todos eles, pois conseguiram se posicionar de uma maneira a circular toda a base inimiga. Numerosos e implacáveis, os homens não deram chance de defesa ao inimigo. Pouquíssimos sobreviveram. E os que sobreviveram estavam preferindo ter caído em batalha como seus irmãos, pois um destino de prisioneiro ou escravo os aguardava. Só alguns poucos conseguiram fugir aproveitando-se do calor da batalha. O rei dos alto-elfos, rei Balor, estava entre eles.

Os alto-elfos tinham o tamanho e força física equivalentes ao de um ser humano, no entanto eram muito mais ágeis. Por terem a pele e cabelos bem brancos e seus olhos serem de um amarelo vivo, muitos humanos os confundiam com assombrações ou espíritos da floresta. Eram habilidosos na criação de armas místicas feitas de prata.

A notícia da derrota do exercito que se reunia na Floresta Negra se espalhou rápido. Os outros povos que haviam se recusado a se reunir por pedido de Lúnasa agora se arrependiam de sua decisão. Se estivessem se reunido antes com certeza teriam rechaçado o avanço dos homens. Decidido a compensar os seus erros, o rei dos Goblins ofereceu sua ajuda ao rei Balor. O rei foi muito grato, no entanto não entendia como um povo de estatura tão pequena e frágil poderia ser útil naquela situação.

Os Goblins eram seres de estatura muito pequena, era muito raro aparecer um goblin adulto com mais de setenta centímetros de altura. Geralmente viviam em baixo da terra, pois não gostavam muito da luz do sol.

- Bethmoran estará aos seus serviços. – Disse o rei dos Goblins a Balor. Os goblins eram insuperáveis na arte da metalurgia e Bethmoran era o nome do ferreiro mais habilidoso. Munido com uma quantidade absurda de ferro e de conhecimento de várias artes místicas, Bethmoran criou para Balor um exercito de 4.900 soldados que não sentiam fome nem remorso e eram indestrutíveis. O exercito criado por Bethmoran era mecânico, tinha o dom de se concertar caso fossem danificados e eram mais fortes do que qualquer criatura que vivia naquela época. O exercito dourado, era assim que foram nomeados. Uma coroa mágica também foi criada. Quem a usa-se tinha pleno domínio desse exercito. Tal coroa foi entregue a Balor para que ele pudesse comandar a derrota dos homens.

Logo que o exercito dourado entrou no território do reino humano de Leahy ele foi recepcionado com uma chuva de flechas. Um ataque inútil, pois as flechas não chegaram nem a arranhar o corpo metálico do exercito mecânico. Praticamente sem precisar utilizar estratégia alguma, a não ser a de avançar sempre, os 4.900 soldados de metal deram fim a todos os habitantes do reino. Crianças, mulheres e idosos não foram perdoados. O rei também não. Os 3.678 habitantes do reino agora eram 0. Apesar de bem afiadas, as espadas dos homens não conseguiam perfurar o corpo daquelas monstruosidades. A maioria quebrava ao se chocar com aqueles colossos. Não dando chance nenhuma de defesa aos homens.

Ao ver o resultado da batalha, o coração do rei Balor foi dominado por um sentimento de culpa e remorso. Decidido que não iria mais presenciar batalhas desleais como essa, o rei dos alto-elfos mandou uma mensagem para todos os reinos humanos restantes. Ele desejava negociar a paz. Ato esse que foi visto com desconfiança por alguns humanos e como um sinal de fraqueza pelos outros povos da deusa Danu.

Como de costume a reunião ocorreu no reino de Gwendal. Todos os representantes, dos agora oito, reinos dos homens estavam presentes. Vários alto-elfos e alguns Goblins acompanhavam o rei Balor. O dialogo foi conturbado, pois os dois lados trocavam acusações. As negociações foram demoradas. Só no quarto dia de debate é que ambas as partes entraram em um consenso. Além da libertação de todos os prisioneiros de guerra, ficaram de acordo que a partir daquele dia os humanos ficariam em suas cidades e não perturbariam os outros seres místicos. Os seres místicos por sua vez, ficariam nas florestas e não se intrometeriam mais em questões humanas. Para selar o acordo, o rei Balor dividiu sua coroa em três partes. Duas ficaram com o povo da deusa Danu e uma foi entregue aos humanos.

Todos gostaram do resultado da negociação, com exceção de um dos alto-elfos. O filho do rei Balor, o príncipe Nuada. Em momento algum Nuada confiou na palavra do homem. Jurando para si mesmo que se preciso fosse usaria o exercito dourado contra a humanidade, com ou sem a aprovação do seu pai.

Esperando não ver aquele exercito maldito nunca mais, o rei Balor mandou, em consenso com o rei dos Goblins, que ele fosse enterrado na região mais remota do território Goblin. Cuidadoso, o rei dos alto-elfos tomou cuidado para que ninguém descobrisse onde o exercito fora enterrado. Um detalhe que irritou profundamente Nuada, acusando inclusive o pai de não ter confiança nem na sua família. Uma coisa que não era de todo modo errado, pois Balor sabia muito bem o tipo de filho que tinha.