MADE OF HATE

Século X, no território que hoje em dia é conhecido como Inglaterra.

O exercito local estava munido com espadas, lanças e cruzes desenhadas em seus uniformes rústicos. Sendo essa última "arma", a fé, considerada por todos como a mais importante delas. Os 1400 homens estavam em campo aberto, esperando a chegada do invasor exercito inimigo. Exercito esse que veio do mar, de uma terra longínqua e gelada. Um povo tão frio quanto seu local de origem. Um povo que jurou lealdade a um Deus pagão, Odin.

A espinha dos bretões gelou quando a corneta do batedor ecoou pela planície. Os vikings chegaram. Eles eram poucos, 300, no entanto sua determinação era impressionante. Correndo a pé rumo ao inimigo, com espadas e escudos a frente e com gritos a plenos pulmões. Tamanha demonstração de coragem fez o exercito cristão esitar.

Apesar de guerreiros impressionantes, o número de soldados pesou na batalha. O número de vikings começou a cair, agora eram 96 pagãos contra 936 cristãos. Dentre os bárbaros sobreviventes e ainda dispostos a lutar estava o soldado raso Björn. Considerado de baixa estatura entre seu povo, apesar de ter 1.70m, Björn nunca foi muito valorizado como guerreiro, mas isso iria mudar naquele dia.

O sangue escorria pelo seu rosto e tornava sua visão meio turva, no entanto Björn ainda era capaz de ver seus irmãos sendo mortos como gado. Tonto e enfraquecido devido aos vários golpes de espada sofridos, o soldado raso mal agüentava empunhar sua arma. Um ataque traiçoeiro pelas costas fez com que tombasse de vez. Caído, mortalmente ferido, era só questão de tempo para que seu corpo falhasse e para que seu espírito pudesse reencontrar com seus irmãos no Valhalla, mas antes que isso ocorresse, Björn teve tempo de fazer suas últimas preces a Odin. Preces cheias de ódio que pediam por vingança, glória e sangue. Ele foi atendido.

Deitado de barriga pra cima, Björn estava contemplando os céus esperando sua hora chegar, quando sentiu que alguma coisa havia sido colocada em sua mão direita. Ao olhar para ela percebeu que havia um cogumelo em sua mão. Um cogumelo comum na terra de Björn, mas estranho pra aquela região. Achando se tratar de um sinal de seu deus, o viking socou o cogumelo na boca com voracidade.

Um bretão que estava passando perto de Björn, ao notar que o bárbaro ainda não havia morrido, decidiu abreviar a vida do viking tentando enfiar sua espada na barriga do rapaz. No entanto, antes que a lâmina conseguisse encostar-se à pele do guerreiro caído, ela foi impedida pela mão do antes moribundo soldado, que a segurou com força descomunal. CRASH! POW! A espada do bretão não agüentou a pressão da mão de Björn e se partiu. Assim que se pões de pé, o agora revigorado bárbaro matou seu adversário com um soco potente o suficiente para partir o rosto.

Movido por uma fúria incontrolável, Björn partiu em disparada na direção dos bretões e, com as mãos nuas, começou a matar vários. Os outros vikings, ao verem aquilo, se posicionaram atrás de Björn o transformando no novo líder do grupo. No entanto, assim que um dos vikings se aproximou de Björn foi abatido também. – Mas somos aliados! – Falou um dos bárbaros a Björn.

Parecendo um bicho enfurecido, Björn não diferenciava mais bretões de vikings, inimigos de aliados. Abatia qualquer um que se aproximasse demais. Matando um número considerável de soldados de ambas as partes. Assustados, os dois exércitos uniram forças para enfrentar o adversário em comum, mas foi em vão. 1000 homens armados não foram páreos para o soldado raso. Björn transformou a planície em um enorme cemitério a céu aberto. Os soldados que sobreviveram, aqueles que tiveram bom senso de fugir dali, contaram sua história nomeando-o de Berserker. Que significa violento, enlouquecido, incontrolável.


Hoje.

Björn Fogelberg ficou extremamente irritado quando o delegado, além de não conseguir pronunciar seu nome direito, fez chacota por achá-lo bastante estranho. Esse foi um dia ruim de uma semana péssima de um mês horrível de um ano pior ainda. Björn acabou de ser resgatado pela policia. O rico empresário havia sido seqüestrado e estava sendo mantido em cativeiro há um tempo considerável. O delegado irritava o traumatizado homem perguntando pela milésima vez como Björn conseguiu matar todos os seqüestradores e pela milésima vez Björn respondia que não se lembrava de nada.

De volta a casa, a recepção dada por sua esposa foi menos calorosa do que o esperado por alguém que volta após passar por uma situação como aquela. Apesar de ser baixinho, barrigudo e meio calvo, a esposa de Björn era muito bonita e tinha quase a metade de sua idade. Nesses casos o cari$ma contava muito.

O mês havia se passado quase que normalmente. Ou seja, Björn ia pro trabalho cedo, voltava no final da tarde, assistia a TV e falava o mínimo possível com sua esposa. Que a esse momento já achava que o cari$ma de seu marido não valia a pena.

Eis que certo dia Björn fica com a "pulga atrás da orelha". O empresário estava checando um vazamento na pia da cozinha quando levanta a cabeça abruptamente. POW! O homem havia esquecido a porta do armário aberto e acertou com violência sua cabeça contra ele. – MERDA! – Gritou enfurecido Björn. Ao longe, o empresário notou um choro espantado que era da sua esposa. Ela parecia uma criança que havia se assustado com um grito. Isso Björn achou bastante esquisito. Tentou conversar com ela, mas a moça se distanciou.

No dia seguinte, Björn achou estranho o fato de sua esposa não se encontrar em casa quando ele acordou. Preocupado, o empresário ligou para alguns conhecidos perguntando se sabiam alguma notícia dela. As respostas abruptas e enraivecidas que recebeu fez com que aquela situação ficasse ainda mais esquisita. Pra piorar, quando o empresário resolveu sair de casa, dois policiais estavam o esperando na porta. Com um mandato na mão e com uma acusação de agressão. Acusação essa que Björn achou absurda.

Björn Fogelberg foi obrigado a conversar mais uma vez com aquele irritante delegado, no entanto desta vez o delegado fazia perguntas em um tom bem mais agressivo. – Por que você espancou sua mulher? – Perguntou o delegado. Sinceramente Björn respondeu que não estava entendendo. O delegado achou que era deboche. Pior pro empresário. Que acabou sendo mandado para uma cela amarrotada de gente.


A casa de Anthony Dibua fica na periferia. O lugar é violento. Combina com sua personalidade. Anthony é jovem, 27 anos, moreno e magro. Ele estava irritado, pois perdeu muitos amigos em uma caçada frustrada. Tudo culpa de um sentimento de compaixão que um deles sentiu pela caça. Esses dez anos de luta fez com que Anthony aprendesse uma lição. Nunca ter remorso. Nunca voltar atrás.

O caçador se ocupa checando suas armas. Ele tinha um verdadeiro arsenal escondido em sua casa. De fazer inveja a qualquer traficante da região. Após guardar algumas de suas armas em um compartimento secreto de seu Sedan preto, Anthony sai em disparada rumo a seu alvo. Uma foto 3x4 do alvo estava colada no vidro de seu carro. A foto era de Björn Fogelberg. Anthony estava decidido em terminar o que seus amigos começaram.


Três horas da manhã, o delegado estava injuriado. Ligaram pra ele comparecer a delegacia de madrugada. Ninguém quis dizer o motivo por telefone o que o deixou ainda mais irritado. – Se for besteira cabeças vão rolar. – Ficava "ruminando" o delegado em pensamento. Suas raiva fútil só se desfez quando ele ficou a par do que houve. Uma fuga. Mas não uma fuga qualquer, que era até rotina. Mas uma fuga pra lá de bizarra. O detento Björn Fogelberg havia escapado após arrombar a parede de sua cela. Ninguém soube dizer como. Ninguém viu como ele fez isso. Os detentos que compartilhavam a cela com Björn, que poderiam servir de testemunha, ou fugiram ou morreram ou estão feridos demais para responder o que for que seja.

Seis da manhã, Björn Fogelberg acorda no meio do mato. Em um terreno abandonado que ficava no meio da cidade. O empresário não se lembrava como havia chegado lá, mas isso não era sua principal preocupação agora. Ele queria rever sua esposa e pôr essa história esquisita a limpo. Mas pra isso ele tinha que saber primeiro onde ela estava. Uma informação que não foi difícil de obter. Bastou perguntar para as pessoas certas.

Hospital Santa Luzia.

Björn não conseguiu nem passar pela porta da frente do hospital. Três policiais o abordaram com armas em punho (dois com escopetas e um com uma pistola). Os três estavam com medo, como se o empresário fosse algum tipo de terrorista ou serial killer super perigoso. – Mãos pra cima!! – Ameaçava os policiais. Björn obedeceu, mesmo assim foi golpeado com o fundo de uma escopeta. O empresário caiu no chão sentindo uma dor enorme na testa. Isso o irritou bastante.


Quanto mais pistas Anthony Dibua conseguia mais animado ele ficava. Primeiro ele foi até a casa de Björn. Conversando com os vizinhos ele descobriu que o homem havia sido preso. Na delegacia ele soube da história da fuga bizarra. Seu próximo passo foi seguir os possíveis locais em que Björn se esconderia. Casa de amigos, da família, locais de trabalho... Não achou nem sinal do alvo. Parecia que até os entes mais próximos de Björn o haviam abandonado. Por fim, uma idéia passou pela mente do caçador. - E se o assassino resolveu terminar seu trabalho inacabado? - Pensou Anthony. Movido por essa idéia, o caçador pesquisou a família da esposa do alvo e descobriu onde ela havia sido internada. Em meia hora ele chegou ao Santa Luzia e acabou encontrando um pandemônio lá.

Carros da polícia haviam cercado o hospital, pacientes eram removidos de forma abrupta. Alguma coisa estava causando tumulto ali. Anthony só podia deduzir que isso era coisa de seu alvo. Sorrateiramente, Anthony estaciona seu Sedan em um local afastado e retira do porta mala uma mochila. Nessa mochila ele enfia tantas armas quanto eram possíveis e em seguida se dirigiu rumo ao Santa Luzia. O caçador tomou cuidado para não ser visto pelos policiais. Tratou de entrar por uma porta dos fundos e dali foi andando no sentido contrário ao dos pacientes, médicos e enfermeiros em fuga.

No terceiro andar Anthony finalmente encontra o seu alvo, o berserker Björn Fogelberg. E como Dibua temia seu alvo estava em estado de fúria. Quebrando tudo e matando quem se aproximava demais, sua força superava e muito a de um humano comum. Seus socos quebravam paredes e objetos pesados como se fossem nada.

Aproveitando que o berserker não o havia notado, Anthony remove um atirador de granadas da mochila e aponta para o inimigo. BLAM! Ele atira. BOOOM! A granada ao se chocar com o corpo do monstro explode levando boa parte do terceiro andar com ela. Algumas pessoas que estavam próximas do local se feriram gravemente com a investida, no entanto Anthony não se preocupava com isso. Sua preocupação era matar o berserker. Custe o que custar.

Anthony se sentia feliz, pois acreditava que seus amigos haviam sido vingados. Ledo engano. Assim que a poeira assentou, o berserker se tornou visível. Ele estava de pé, suas roupas foram reduzidas a trapos e seu corpo ficou todo ensangüentado, mas ele ainda estava bem vivo.

Um homem calvo, baixinho, gordo e ferido não é uma visão das mais ameaçadoras. Isso numa situação normal, mas aquela era bem diferente. O "gordinho" em questão é um berserker. Uma máquina de matar incontrolável e enfurecida.

O berserker olhou bem nos olhos de Anthony e foi com tudo em cima do caçador. O caçador, por sua vez, trocou o lança granadas por uma pistola magnum. Mais um tiro com o lança granadas provavelmente levaria essa batalha ao fim, no entanto, naquela distância Anthony acabaria sofrendo com a explosão e com certeza morreria. BLAM! O tiro acertou Björn em cheio no meio de sua testa. O monstro caiu no chão e revirou os olhos, Anthony então deduziu que ele havia morrido, mas para garantir, resolveu descarregar a magnum na cabeça da criatura.

- Agora morreu! – Pensou Anthony. Infelizmente mais uma vez o caçador deduziu erradamente. Antes que pudesse ter tempo para se virar e sair dali, o berserker agarra o seu pé e com uma força descomunal o arremessa para longe. O caçador vai parar a uns dez metros de distância batendo seu corpo com violência contra aparelhos médicos. BJörn estava novamente de pé e mais uma vez andava na direção de Anthony.

TRATRATRATRATRATRATRA!!!! Anthony tira uma metralhadora da mochila e a descarrega contra Björn. Que nem mesmo pisca. Sem muita opção, Anthony decide fugir correndo a toda velocidade pelas escadas. O berserker era bem mais forte do que ele pensava. E, pro seu azar, o monstro continuava em seu encalço.

Anthony corria muito. Já estava chegando à saída do hospital, mas infelizmente o monstro conseguiu alcançá-lo antes e o agarra pelo pescoço. A intenção da criatura era esmigalhar a traqueia do homem como se fosse um graveto, mas antes que fizesse isso Anthony retira uma granada da sua mochila e a aciona em um ataque suicida desesperado. BOOOM!!! A dinamite explode. O homem e o monstro são arremessados em direções opostas. Um morto, outro desacordado.


Isso já estava se transformando em rotina. Björn Fogelberg acorda desorientado sem se lembrar de absolutamente nada que aconteceu nas últimas horas. A última coisa de que lembra é de ter sido abordado por três policiais. Mais nada. Não sabia dizer como foi parar naquela situação. Nu, todo ensangüentado, em um hospital que parecia que havia passado por um bombardeio. O lugar estava vazio e escuro. Os vários corpos jogados no chão davam a impressão de que aquilo era um cenário de filme de terror.

Ao perceber que aquilo era o hospital Santa Luzia, o local onde sua esposa havia sido internada, Björn ficou preocupado com o estado de sua mulher. – Será que ela está bem? - Se perguntava o empresário, que já esperava pelo pior.

Björn saiu freneticamente procurando em todos os leitos. A maioria estava vazio. Os poucos que ainda estavam ocupados só abrigavam defuntos. Desesperado, o empresário pensou em desistir e fugir para o mais longe possível daquela loucura. Eis que, depois de muito tentar, Björn finalmente encontra sua esposa. Deitada em um dos leitos. Desacordada. Viva. Mas em um estado de saúde lastimável. Ela estava com o rosto todo inchado. Parecia que havia sido espancada. Antes que Björn se aproximasse mais, a mulher desperta. Quando a moça encara o homem, ela o vê como se fosse um demônio ou algo pior. Ela estava com medo estampado no rosto.

Björn ficou chocado ao ver a expressão da mulher, tentou se aproximar dela, mas isso só fez com que o pânico da moça ficasse visivelmente maior. Percebendo que estava fazendo mais mal do que bem, Björn tratou de se retirar logo dali.

Assim que cruzou a porta do hospital, Björn deu de cara com vários carros de polícia que esperavam do lado de fora. A mente do empresário ainda estava focada no rosto de terror que sua mulher fez. Tanto é que ele nem se importou com as várias armas apontadas pra ele. Björn só queria sair dali. E continuou andando pra frente. – Parado! – Ordenou um dos policiais. Mas Björn não ouviu, ou não se importou, e continuou andando. BLAM! Um policial atira. Acerta o peito do homem. Fora do estado de frenesi, Björn não passava de um homem de meia idade comum. Abatido. Ele cai no chão e dá seu último suspiro.

Quando Björn acordou, ele temeu ter causado outra tragédia, no entanto ele não estava mais no hospital Santa Luzia. Pra falar a verdade ele não estava nem mais no país. Alias, nem mesmo nessa Terra. Björn se encontrava em uma terra paradisíaca. Cheia de montanhas, pasto verde, ar puro. Casas simples de madeira davam um tom ainda mais bucólico ao cenário. Björn tinha voltado ao lugar reservado pra ele por seus antepassados. Tinha enfim encontrado o paraíso. O Valhalla.