CHIMAERA
Desde os dezessete anos João não come carne vermelha. Após os vinte e cinco deixou de comer peixe e derivados do leite. Aos trinta fundou um grupo radical em prol do direito dos animais. Animais Primeiro, ou algo parecido, era o nome da organização. No inicio da carreira eles se contentavam em "combater" açougues e restaurante rodízio. Mas depois voltaram seus olhos para alvos mais pretensiosos como pecuaristas e laboratórios. Com ações que se restringiam a passeatas e participações em fóruns de discussão na internet, o grupo nunca teve muito avanço prático e, principalmente, nunca teve a atenção da mídia. Mas isso iria mudar hoje. João planeja executar a mais ousada ação do grupo até o momento. Ele e mais três amigos planejam invadir um laboratório de pesquisa e libertar todos os animais cativos.
A idéia é bem simples. Arromba-se a porta, na calada da noite, invade o laboratório, liberta os animais e pronto. Fim da história. João gostaria da ajuda de todos os integrantes do Animais Primeiro, no entanto, nenhum dos 25 membros apoiou a idéia. Não simpatizavam tanto assim com a causa a ponto de arriscar ganhar uma ficha criminal.
Duas da madrugada. O quarteto estava vestido todo de preto, pois estavam inspirados em filmes de espionagem. Eles saíram de casa no carro, um fusca amarelo, do pai de Frederico, um dos amigos de João. E tiveram cuidado de não levarem suas carteiras de identidade. Para evitar perde-las no meio da ação. O que causaria um erro catastrófico.
O laboratório da empresa Genext não possuía seguranças e o sistema de alarme era de procedência discutível. João e seus amigos não encontraram problemas em pular a grade de proteção e quebrar o cadeado da porta com um martelo.
O laboratório tinha uns dez metros quadrados e continha várias gaiolas com animais de pequeno porte. Macacos, coelhos, cobras, ratos, gatos, cachorros... Algum deles já bem debilitados devido a constantes testes químicos. O quarteto não marcou bobeira, assim que entrou no lugar foi logo abrindo as gaiolas. Depois de vinte minutos todos os bichos já tinham sido soltos. Por isso o grupo já queria ir embora, com a exceção de João. Algum barulho estranho vindo de uma porta no final do laboratório chamou sua atenção. – Peraê, pessoal. Acho que tem mais bicho inocente aqui. – João se aproximou da porta e tentou abri-la. Como previsto, ela se encontrava trancada, mas isso não foi problema. Depois de duas porradas bem dadas com o martelo a maçaneta se desfaz e a entrada é desobstruída.
Os três amigos de João estavam com tanta pressa que não o seguiram. Preferiram esperá-lo perto da porta de saída do laboratório, no outro lado da sala. – João! Vem logo! – Apressava Cassiane, uma dos amigos.
- Gente!! Chega aqui! Rápido! – Disse João, fazendo com que seus amigos corressem até a sala adjacente em que ele se encontrava. O quarteto estava impressionado. Perceberam que se envolveram em algo muito mais complexo do que simples pesquisas com animais. Havia um homem, que aparentava ter vinte anos, deitado em uma maca. Como o homem recebia soro e estava em um sono muito profundo, João deduziu que ele estava sendo sedado.
- Isso é caso da gente chamar a polícia. – Comenta Frederico.
- Você é maluco? Nós somos invasores. Lembra disso? – Responde Renato. O mais cabeça quente do quarteto.
- Não é por nada não, mas não podemos deixar ele aqui. – Falou João.
- O que sugeri? – Pergunta Cassiane.
O fusca do pai de Frederico era apertado. Mal o quarteto cabia lá dentro. Um quinto passageiro não facilitava muito as coisas. Com muita dificuldade, o grupo decidiu levar o misterioso rapaz com eles. Como o homem não acordava de modo algum, ele teve que ser carregado por Frederico e Renato. Que durante todo o percurso do laboratório até o carro reclamavam do quanto o garoto era pesado.
Dentro do fusca, Frederico ficava no banco do motorista, Cassiane ficava ao seu lado e o restante se ajeitava no banco de trás.
- Sim, vamos levar esse rapaz pra onde? – Perguntou Frederico.
- Bem, pra minha casa é que não vai. – Responde João.
- Pode deixar lá na minha. – Responde maliciosamente Cassiane.
- Porra. - Se irritou Frederico. – O negócio é sério. Estamos com uma vítima de seqüestro aqui e não podemos chamar a polícia. O que vamos...? – Antes que pudesse terminar a frase, o rapaz misterioso começa a dar sinais de que estava acordando. Todos então fazem silêncio e ficam na expectativa dele abrir os olhos. O que acaba acontecendo alguns minutos depois.
- Oi. Tudo bem? – Diz Cassiane – Como é seu nome?
O rapaz não respondeu. – Acho que ele está em choque. – Diz João.
- Meu Deus!! Olha só pras unhas dele!! – Renato foi o primeiro a notar que as unhas do rapaz estavam crescendo a olho nu. A ponto de se tornarem verdadeiras garras. Renato foi também o primeiro a notar que os caninos do garoto eram anormalmente grandes. SCRASH!!! AAAAAHHHH!!! Sons de briga e gritos vindos de dentro daquele fusca chamaram a atenção das pessoas que moravam na região. No dia seguinte aquela rua irá se transformar em uma cena de crime.
Marcus Oliveira vive em plenitude o sonho burguês. Casado há vinte anos, pai de dois filhos e dono de uma das casas mais caras do mundo. Ele é presidente da Genext. Uma empresa especializada em manipulação do DNA. A mais importante do ramo. Ela após uma longa disputa judiciária conseguiu patentear o genoma humano. Graças a isso, qualquer outra empresa que decida pesquisar os genes humanos tem que pagar direitos autorais a Genext. Com um patrimônio que excede o PIB de muitos países, a empresa monopoliza quase todas as grandes pesquisas em sua área.
Marcus Oliveira vive a vida de um rei, mas isso não foi sempre assim. Nos anos 1970 ele não passava de um estudante de medicina mediano. Tinha notas boas. O suficiente pra conseguir passar, nem que seja "raspando", nas matérias. Nada de excepcional. Ninguém daquela época poderia prever o grandioso futuro que esperava por ele. Nem mesmo o próprio Marcus.
Foi em uma noite qualquer, em um bar de beira de estrada, que a vida de Marcus começou a sair do "normal" para o "extraordinário". Naquele dia ele estava bebendo todas para esquecer as baixas notas que estava tendo no período. Notas essas que ameaçavam sua bolsa de estudos. Quando já estava bêbado como um gambá um homem foi falar com ele.
O rapaz era um tipo bem comum. Apresentou-se como Mephistófeles. Provavelmente se estivesse sóbrio Marcus acharia que o rapaz estava querendo tirar onda com sua cara, pois esse nome era bizarro demais. No entanto, Marcus estava tão bêbado que qualquer nome lhe pareceria completamente normal. Os dois conversaram bastante. Pena que Marcus no dia seguinte, devido ao álcool, não conseguia se lembrar dela. Ele se recordava do rapaz estranho e do fato de terem conversado, mas não do teor da conversa. Aquele dia só ficou marcante porque a partir dali sua carreira profissional cresceu exponencialmente. Marcus não sabia explicar como, mas sabia que aquele forasteiro lhe trouxe uma sorte sobrenatural.
Marcus Oliveira tomou um susto ao ser informado que um dos seus laboratórios havia sido invadido. O laboratório B.1, pra ser mais exato. Assim que soube da notícia pegou seu carro e foi correndo para lá. Como o cientista temia, meses de pesquisa haviam sido perdidos. Os animais haviam sido soltos, os computadores quebrados e, o pior, a sala secreta havia sido violada.
Peritos, policiais e alguns cientistas (que trabalhavam pra Marcus) estavam no local andando de um lado pro outro. Marcus estava lá, não fazendo nada mais do que se lamentar pelos estragos.
- Senhor Marcus? – Disse um investigador ao se aproximar do cientista. – O senhor pode me responder algumas perguntas?
- Sim, claro.
- Qual era a função desse laboratório? O que ele pesquisava?
- Desculpe, mas isso é segredo de patente. Não posso...
- Senhor, nós localizamos as pessoas que invadiram o laboratório e...
- Mesmo?! Eles estão presos, suponho.
- Não. Foram brutamente mortos pelo, o que parece, um bicho feroz. Como o senhor bem sabe não há predadores na região. Nós achamos que algo do laboratório fez isso e precisamos estar a par de tudo. Qual era a pesquisa daqui?
- Sinto muito, não posso responder.
- A resposta de Marcus irritou profundamente o investigador que saiu dali jurando voltar com um mandato. Marcus estava nervoso, não pelas ameaças do homem da lei, mas sim porque era capaz de presumir o que tinha acontecido. Os baderneiros desavisados devem ter libertado a quimera. O monstro pôs fim à vida deles. Marcus pouco se lixava pela perda da vida dos jovens. O que o preocupava mesmo foi o sumiço da quimera. Se alguém conseguisse capturar o espécime e descobrir qual era sua origem, a Genext estaria em maus lençóis.
Foi com isso em mente que Marcus tratou logo de arrumar uma maneira para recapturar a quimera fujona. O cientista saiu do laboratório B.1 e se dirigiu até um restaurante chinês que ficava no centro da cidade. Antes de chegar ao restaurante, durante o trajeto, Marcus ligou para uma pessoa e pediu para se encontrar com ele lá.
Marcus chega ao restaurante, senta-se em uma mesa próxima a janela e pede o menu ao garçom. – Estou esperando alguém. – Disse Marcus ao garçom, para que ele não trouxesse a refeição ainda. A espera foi longa, só meia hora depois o contato de Marcus aparece. Um oriental de meia idade que tenta disfarçar sua calvície com um penteado de cabelo um tanto que brega.
- Nossa! Que demora! – Disse Marcus ao convidado.
- Estava ocupado escondendo as evidências do B.1. Você definitivamente devia ter sido mais cuidadoso. Se tivesse colocado um sistema de segurança mais eficiente, como eu lhe adverti, nada disso teria acontecido.
- Agora já foi. Esqueça isso. Nosso problema é outro. A quimera fugiu.
- É. Eu soube disso também. Foi por isso que me chamou, certo?
- Sim. Quero que você use seus contatos na máfia pra por um fim na criatura.
- Quer mesmo jogar fora tanto tempo e dinheiro gastos nela?
- Não importa, tem muito mais de onde esse aí veio. O mais importante é impedir que alguém descubra sua existência. Fui claro?
- Ok. Ok.
Apesar de aparentar ter 24 anos, o experimento X-21 não raciocina como um adulto normal. Na verdade ele tem a mente de um animal. Instintos falam mais alto do que tudo. Nascido fora de um útero, ele foi feito em laboratório usando traços de diferentes animais. Por isso ele é mais bicho do que gente. De ser humano mesmo ele só tem a aparência física. Sua ferocidade, garras, dentes e sentidos aguçados são oriundos dos predadores das selvas africanas. Seu dom de se regenerar foi extraído de esponjas do mar.
X-21 só está fazendo o que seus instintos lhe mandam fazer. Caçar, devorar e se esconder na escuridão. Nesse momento ele se refugia em um esgoto. Lugar frio, úmido e escuro. Ele dormiu ali e pretende só acordar a noite pra caçar. Habito que herdou dos tigres.
Eram quase duas da tarde, X-21 iria dormir por mais tempo. Mas a entrada de um homem no que agora era seu território desperta a criatura. O monstro logo que percebe o intruso fica em posição de ataque. No entanto, quando o homem se aproximou mais, o aroma exalado por ele entra na narina de X-21 e ele acaba relaxando. Como um cachorro que reconhece a presença de seu dono.
O homem chega perto de X-21, acaricia sua cabeça e dá um pedaço de pano para o bicho cheirar. – Vai! – Grita o homem. Em seguida, X-21 sai correndo em disparada em busca de sua caça. Que é a fonte do aroma presente no pano entregue pelo homem estranho.
Seis da tarde. Marcus está sozinho em casa. Sua esposa está no trabalho e seus filhos foram visitar a avó. O cientista estava em seu amplo quarto, sentado em sua cama assistindo TV. Como não tinha nada o que fazer, Marcus resolveu assistir as propagandas feitas pelo pessoal de Marketing da Genext.
- Há quinze anos nossa maior razão é você. - Dizia a televisão, enquanto mostrava várias cenas dos laboratórios da Genext. - Somos pioneiros na melhoria de qualidade de vida de vários pacientes com doenças genéticas. - Agora a TV mostrava vários pacientes sorridentes em leitos de hospitais. - Genext. O melhor no que faz. - O comercial finaliza mostrando a logomarca da empresa.
Marcus desliga sua TV e "entorta" a cara. O cientista não gostou muito do que viu. Depois ele vai até a janela de seu quarto para ver a paisagem, enquanto isso fica pensando na vida.
A paisagem mostrada pela janela do quarto de Marcus era a melhor da região. O local era alto, de lá dava para ver a praia, a rua, coqueiros. O cenário era bem paradisíaco, o que valorizava e muito a casa.
- Hmmm!? - Marcus dá um daqueles pulinhos de susto. O cientista vê na esquina da rua um homem olhando fixamente para ele. Marcus não sabia dizer daonde, mas aquele rosto lhe era muito familiar. E, por algum motivo que Marcus não saberia explicar, causava pânico a ele. Era quase como se ele estivesse vendo um demônio. Eis que a memória daquele dia de bebedeira de anos atrás volta com tudo. Marcus agora se lembra quem é aquele rapaz e, o pior, o que ele queria. Ele era Mephistófeles. Ele veio cobrar o preço da boa vida que Marcus teve durante todos esses anos.
O contato de Marcus havia colocado a cabeça da quimera a prêmio. Vários bandidos da cidade começaram a caçar a criatura. É claro que eles não sabiam do que aquele rapaz era feito. Pensavam que era só um garoto qualquer que havia irritado seu contratante. BLAM!BLAM!BLAM!BLAM! Três bandidos avistaram o alvo e ficaram muito felizes, pois acharam que tinham ganhado a dinheirama. Fuzilaram o rapaz. Eles acharam estranho o fato de X-21 estar nu andando pelas ruas, mas pouco se importaram. O importante era o dinheiro. Pobres coitados, nem tiveram tempo de comemorar. Com um fator de cura impressionante, X-21 se curava das balas quase que imediatamente após elas perfurarem seu corpo. SLASH!! ROARRR!! Não foi problema nenhum para ele aniquilar os bandidos com suas garras e dentes.
Seguindo o cheiro do pano mostrado pelo homem estranho horas atrás, X-21 chega a uma casa próxima a praia e, sorrateiramente, entra nela através de uma janela da cozinha. Sem ser percebida, a criatura sobe as escadas e vai parar no último andar da casa, entrando em um quarto. No quarto, X-21 vê um homem distraído olhando a rua pela janela. O homem parecia assustado e não percebeu a entrada da criatura em seu quarto. O cheiro que X-21 procurava era dele. SLASH!! X-21 mata o homem distraído com tanta rapidez que provavelmente ele nem percebeu que havia sido golpeado. O ataque foi fatal, na jugular.
Marcus acordou morto!!
Quer dizer, o corpo de Marcus continuou imóvel no chão de seu quarto e seu destino, como qualquer cadáver comum, era o de apodrecer até virar pó. No entanto, a consciência de Marcus, que é eterna, despertou em um local não muito familiar para o cientista.
O céu era vermelho, o terreno a sua volta era montanhoso e o solo rochoso. Marcus em seu intimo sabia onde estava. Só que o cientista se recusava a acreditar.
- HEIII!! PSIU!! - Alguém naquela desolação estava chamando por Marcus. O cientista não viu ninguém, mas resolveu seguir a voz. A busca levou Marcus até o cume de uma montanha. A subida foi demorada, mas por alguma razão que desconhecia o cientista não sentia cansaço. Chegando ao cume, Marcus se depara com um homem vestido como se tivesse saído do século XIX.
- Você também caiu nas promessas de Mephistófeles, certo? – Diz o homem esquisito. – Aquela voz macia falando sobre progresso e ciência engana qualquer um.
- Desculpe, mas quem é você?
- Oh! Perdão, onde estão meus modos? Chamo-me Fausto. O primeiro tolo a cair nas mentiras daquele demônio!
- Fausto? Fausto Fausto? O cientista alemão que descobriu a cura de diversas doenças na idade média?
- É. – Respondeu Fausto, em tom de pesar. – Esse mesmo.
- Cara. Você não merecia estar aqui. Quer dizer, se "aqui" é onde penso que seja. Você foi muito importante e...
- Não se engane rapaz. Tudo o que fiz só serviu para atrapalhar a humanidade. Do contrário Mephistófeles nunca teria me ajudado. Sem querer ser desmancha prazeres, mas o mesmo acontecerá com suas obras.
- Impossível!! Minhas pesquisas ajudaram vários doentes no mundo todo!
Laboratório da Genext B.3. Muito mais seguro e escondido do que o B.1, ele guarda não só uma quimera mais nada mais nada menos do que 125. Mais de uma centena de seres geneticamente modificados cujos corpos sem alma são muito mais fortes, rápidos e resistentes do que de qualquer ser humano comum. Tais quimeras foram feitas para servir como base na pesquisa de várias doenças genéticas. No entanto, com a morte de Marcus, elas agora servirão a um propósito bem menos nobre.
Nesse instante, uma nuvem espessa preta paira sobre o laboratório. Sem ser detida, a fumaça entra pelas janelas e portas da instituição e se dirige até onde as quimeras são guardadas. Chegando lá, a fumaça se divide e cada parte entra na boca de uma quimera diferente. Os corpos antes inanimados e vazios agora estão vivos e cheios de consciências malignas de seres inferiores. As quimeras agora se tornaram a elite do exercito diabólico na luta final contra o paraíso.
