THUNDERSTRUCK

Venâncio é um caminhoneiro experiente. Quarenta e seis anos de vida, vinte de profissão. Devido ao seu trabalho exigir passar longos períodos sentado, ele se tornou um homem sedentário e um pouco acima do peso. Nesse momento ele está dirigindo em uma alto-estrada. Sua carga é de eletrodomésticos. Por ser uma carga muito visada por bandidos de estrada Venâncio ficava um pouco apreensivo. Por precaução ele levava consigo uma escopeta que guardava em baixo do banco do carona.

Era tarde da noite. De repente dois carros ficaram dirigindo quase que em paralelo ao caminhão de Venâncio. Isso deixou o caminhoneiro alerta.

O mal pressentimento de Venâncio se tornou valido quando ele viu um rapaz que estava em um dos carros sacar uma arma. Como ele temia eram bandidos de estrada. Sem pensar duas vezes o caminhoneiro pegou sua escopeta do banco do carona e atirou. BLAM!! Não acertou nada. É muito difícil dirigir e atirar em um alvo móvel ao mesmo tempo. BLAM!! BLAM!! BLAM!! Bandidos dos dois carros começaram a atirar na direção de Venâncio. Nenhum deles conseguiu atingi-lo. Apesar de uma das balas acertar o rádio do caminhão. Venâncio ficou impossibilitado de chamar ajuda.

BLAM!! BLAM!! Durante as tentativas de acertar os bandidos, Venâncio acaba perdendo o controle da direção em uma curva. O caminhão acabou saindo da pista e descendo uma ribanceira. Só parando quando se chocou contra uma árvore bem grossa. Por sorte, e por estar usando o cinto, Venâncio não sofreu nenhum ferimento grave. Assim que se recuperou saiu do veículo e ficou montando guarda ao lado da porta do caminhão. Se algum bandido viesse pegar sua carga iria ser recebido com chumbo grosso.

Venâncio estava bem atento. Ele viu um vulto tentar se esconder atrás de uma árvore. BLAM! O caminhoneiro acertou o tiro em cheio. Um dos ladrões tinha encontrado seu fim. BLAM! BLAM! BLAM! BLAM! BLAM! Em resposta a morte do companheiro os outros bandidos começaram a mandar uma chuva de balas em direção a Venâncio, que não teve outra alternativa além de se esconder atrás de seu caminhão.

Tendo cuidado para não ser atingido, Venâncio pôs seu rosto pra fora da proteção do caminhão e conseguiu contar cinco vultos. Haviam pelo menos cinco bandidos na área. BLAM! BLAM! Venâncio deu mais alguns tiros na tentativa de acertar alguém. Os dois acertaram apenas árvores e mato.

Como Venâncio achava que não poderia lidar com tantos bandidos ele tomou a difícil decisão de largar seu caminhão com sua preciosa carga pra trás e fugir dali. Seu instinto de sobrevivência falou mais alto do que sua vontade de ganhar dinheiro. BLAM! BLAM! Após dar mais dois tiros pra lhe dar cobertura, Venâncio saiu correndo dali em direção ao matagal. Ele contava com a escuridão da noite para se tornar invisível aos bandidos.

Não passava uma alma viva na estrada para ajudar o caminhoneiro. Venâncio andou pelo menos uns cinco quilômetros até achar algo que pudesse ajudá-lo. Uma casa no meio do matagal. Um casarão pra ser mais preciso. Um bem isolado. Venâncio torcia para que os moradores pudessem dar alguma ajuda a ele. Antes de se aproximar da casa o caminhoneiro teve a idéia de esconder sua arma no meio do mato. Não queria assustar os moradores da casa portando uma espingarda.

Decepção. Quando Venâncio se aproximou da casa ele percebeu que ela estava vazia. Não havia ninguém para ajudá-lo, nenhum cômodo e, pra piorar, nenhum telefone.

Pânico. Ao olhar pela janela Venâncio percebeu um vulto carregando a espingarda que ele havia escondido na mata. Os bandidos além de segui-lo agora carregavam sua arma. Venâncio estava indefeso na casa. Não tinha outra alternativa além de se esconder em um dos cômodos da casa e rezar para que os ladrões não o vissem. - Por que eles não pegam a maldita carga e me deixam em paz? - Se perguntou Venâncio.

A casa tinha uma iluminação péssima e era muito grande, tornando a tarefa de se esconder nela até que fácil. O lugar era meio assustador, mas o medo que Venâncio tinha dos bandidos era muito maior do que o medo de qualquer fantasma. Até porque ele não acreditava na existência deles.

POW! De onde Venâncio se escondia, um quarto bem no fundo da casa, dava pra ouvir o barulho de alguém chutando a porta. Os bandidos estavam entrando na casa. CLAPT! CLAPT! CLAPT! O som do caminhar dos ladrões no chão de madeira não era muito alto, mas como o lugar estava em um enorme silêncio eles estavam bem audíveis.

Venâncio não tinha paciência para esperar que os bandidos o encontrassem. Decidiu procurar por uma saída dos fundos. Ele teve o cuidado de tirar seus sapatos para fazer o minimo de barulho possível. Sem querer acabou deixando uma pista pra trás.

A única saída dos fundos que a casa tinha eram as janelas dos quartos. Com uma dificuldade tipica de quem estava bem fora de forma, Venâncio pulou uma dessas janelas e se embrenhou no mato novamente. Quando os bandidos terminaram de checar todos os cômodos da casa Venâncio já tinha saído dali. Porém um dos ladrões conseguiu achar os sapatos do caminhoneiro. A caçada ainda não tinha acabado.

De volta ao meio da pista, Venâncio deu mais sorte agora. Pois conseguiu pegar carona com um Fiat verde que passava por lá. Ele não deu muita escolha pro motorista, porque ficou bem na frente do carro. - Está maluco?! Quer morrer?! - Ignorando a reclamação do motorista, Venâncio explicou sua situação e foi logo convidado a sentar-se no banco de carona. Andando a mais de 100 km/h Venâncio esperava se ver livre dos bandidos. Estava enganado. Menos de meia hora depois de conseguir pegar carona Venâncio reconheceu o carro dos bandidos na pista. - Meu Deus são eles?!

O motorista do Fiat verde não dava trégua, corria a toda velocidade. Mesmo assim um dos carros dos bandidos, um Palio Weekend, conseguiu ficar na frente dele. O motorista conhecia direção defensiva. Pro azar dos ladrões que estavam naquele Palio, o Fiat verde deu uma batida no fundo deles fazendo com que perdessem o controle do carro e saíssem da pista. O Palio acabou capotando várias vezes. Quem estava lá dentro ou morreu na hora ou estava ferido demais pra representar perigo.

Agora só restava um carro dos bandidos, um Ford Ka azul. Ele perseguiu o fiat por vários quilômetros. Só sumindo de vista quando o Fiat conseguiu entrar em uma cidade. - Cara, vá logo em uma delegacia pedir ajuda. - O motorista do Fiat deixou Venâncio na porta da delegacia e foi embora.

Na delegacia, enquanto esperava pra ser atendido, Venâncio analisava a sua situação. - O que aqueles miseráveis querem comigo? Por que eles não ficaram com a carga? Será que é algo pessoal contra mim? Mas o que poderia ser? - Só depois de quase três horas Venâncio pôde ser atendido (a fila de espera estava longa). Após fazer seu B.O. ele pediu ao policial que o atendeu para usar o telefone da delegacia. Ele ligou para um amigo.

O amigo de Venâncio, outro caminhoneiro, chegou na delegacia duas horas depois quando já estava amanhecendo o dia. Venâncio estava tão nervoso que mal falou com o colega. Só conseguiu conversar direito quando já estavam dentro do caminhão, já no meio do caminho.

- Diga aí, cara. O que foi que aconteceu?

- Fui perseguido. Bandidos da estrada. Puta merda! Esses miseráveis quase conseguiram me pegar.

- Roubaram sua carga, né. Que prejuízo!!

- Pior que não. Não sei porque, mas esses cornos queriam era a minha cabeça.

- "Não sei porque", sei... - Venâncio não entendeu o motivo do resmungo do seu amigo. Também não se importou muito com isso.

O caminhão parou no meio da estrada. Só havia mato não importa por onde se olhasse. - Parou aqui porque? - Perguntou Venâncio. - Preciso me aliviar. É coisa rápida. - O amigo caminhoneiro de Venâncio, levando as chaves consigo, desceu do caminhão e foi até o matagal. Lá ele sumiu de vista.

Quinze minutos depois. - Que diabos de demora é essa!! - Venâncio já estava impaciente com a demora do amigo.

Vruuummm!! Um som de carro estacionando. Venâncio olha pelo retrovisor e vê um Ford Ka azul parando atrás do caminhão. O carro era o mesmo dos bandidos que o perseguiram na noite passada. Assustado, Venâncio desceu do carro e foi correndo procurar pelo seu amigo no meio do mato. Demorou uns quinze minutos para achá-lo.

- Cara, eles estão aqui!! Não sei como me encontraram, mas eles estão aqui!! - Apesar do pânico de Venâncio, seu amigo continuou frio. Parecia que nada demais estava acontecendo. A frieza do seu amigo fez com que Venâncio deduzisse algo quase impensável antes. - Você está com eles, né? - Seu "amigo" não respondeu. Venâncio tomou isso como um "sim".

- Que maluquice é essa?! O que foi que fiz pra...? - Não houve resposta, o outrora amigo de Venâncio tentou atacá-lo. Mas Venâncio era mais forte e conseguiu nocauteá-lo.

Ao longe, Venâncio conseguiu ver três homens se aproximando dele. Eram os bandidos da auto-estrada. Sem poder enfrentá-los, Venâncio teve a idéia de roubar o celular do seu amigo abatido e, enquanto corria desesperado, ligar para a polícia.

A ligação foi um tormento. O atendente ficava fazendo perguntas meio estupidas como "qual é a placa do carro dos bandidos", "como eles se pareciam". Perguntas de praxe, mas que naquela situação eram impossíveis de serem respondidas. BLAM! BLAM! Enquanto falava ao telefone Venâncio tentava não ser atingido pelas balas. Só por causa disso que o atendente levou aquela ligação a sério. Por causa do som dos tiros.

- Senhor. - Disse o atendente. - Tente ficar o mais próximo possível da auto-estrada. Estamos mandando duas viaturas para o local. - Venâncio achou o pedido do atendente absurdo. Sem a escuridão da noite para protege-lo ficar próximo a estrada o tornaria um alvo muito fácil para os bandidos. Ele não teve outra saída a não ser fazer justamente o contrário, se embrenhar mais na mata. Seu plano parecia que estava dando certo, pois os três bandidos tinham sumido de vista.

...Welcome, welcome to the jungle...

Demorou um pouco pra Venâncio entender que aquela música era o toque do celular que ele havia acabado de roubar. Ele atendeu a ligação todo animado esperando que fosse a polícia. Pra sua frustração não era não.

- Você tá lascado, cara. Nós vamos te pegar!! - Venâncio não conseguiu reconhecer a voz da pessoa que ligou, mas sabia que era um dos bandidos. - Porque estão fazendo isso comigo? O que foi que eu fiz?! - A ligação foi desligada no outro lado da linha. Os perseguidores de Venâncio queriam assustá-lo ainda mais. Estavam conseguindo. - Merda! E essa polícia que não chega!!

Venâncio passou três dias fugindo. Se embrenhando cada vez mais na mata. Não dormia e comia quando tinha sorte (as vezes encontrava uma árvore frutífera no caminho). Os pensamentos que mais passavam pela sua cabeça eram "porque isso está acontecendo comigo" e "o que foi que eu fiz". O caminhoneiro não tinha como saber, mas a polícia já tinha chegado no local e estavam agora procurando por ele. Os bandidos já foram todos capturados, incluindo o "amigo". Só no terceiro dia é que Venâncio avistou um policial. Ficou sem entender quando ele lhe deu voz de prisão. - Que maluquice é essa?! Eu sou a vítima aqui!!

Na delegacia mais próxima: Venâncio, seu ex-amigo e os três bandidos estavam atrás das grades, sob custódia. Venâncio mais parecia um zumbi e não conseguia entender quase nada do que estava acontecendo. Seu longo período sem sono já estava afetando seu raciocínio.

- Você aí, tá liberado. - O delegado foi até a carceragem e liberou Venâncio. Enquanto levava-o para fora da delegacia ia conversando com ele.

- Você soube o que aconteceu em Itajira? - Perguntou o delegado. Itajira era o nome de uma cidade pequena que Venâncio fez entrega alguns dias atrás.

- Não. O quê?!

- Um cara que usava um caminhão muito parecido com o seu matou duas pessoas por lá. Pra sua sorte conseguimos encontrar o meliante. Sua barra está limpa agora.

- Aff. Meu "amigo" era de Itajira... Então quer dizer que fui caçado por esses trogloditas porque pensavam que eu era esse tal assassino?

- Isso mesmo. Infelizmente é muito comum o povo daqui fazer justiça com as próprias mãos. Por isso que cagadas desse tipo acontecem.

O delegado era muito gente fina. Acabou alugando um quarto de hotel para Venâncio dormir. Cansado do jeito que estava, dormiu quase dezessete horas seguidas. Ao acordar, depois de comer um pratarrão enorme de ensopado com carne seca, Venâncio foi até a rodoviária pegar um ônibus para a capital. Ia voltar para casa. Depois ele resolveria o que fazer com o caminhão e a carga perdida. O seguro cobriria o prejuízo.

De volta a prisão, o outrora amigo de Venâncio ficava remoendo seu ódio. Tinha raiva do homem que assassinou o seu filho. Não importa o que os outros diziam. Ele estava na hora e local exatos onde seu filho fora morto. Não viu o rosto do assassino com clareza, mas tinha certeza que era Venâncio. Afinal, pensava ele, era muita coincidência Venâncio ter conseguido ficar com o direito de transportar a carga caríssima que era endereçada ao seu filho.