DARK AMBIENT pt 1

Shutter Island é uma ilha bem pequena. Remota. 30% do seu território é preenchido por uma cidade ribeirinha, o restante é floresta. Área de preservação. Com praias aprazíveis, a maior fonte de renda da população local é o turismo. A pesca vem em segundo plano. Com apenas 432 habitantes. Nas épocas de festas (férias de verão principalmente) a cidade fica com mais turistas do que nativos.

Edgar e sua esposa, Helena, são apenas mais dois turistas da ilha. Estão comemorando 10 anos de casamento. O que era pra ser uma segunda lua de mel acabou se tornando um pesadelo quando, misteriosamente, Helena desapareceu da pousada onde estava hospedada com o seu marido. Sem deixar vestígios.

- O senhor tem problemas no casamento? - Na delegacia. As perguntas do xerife da cidade estavam começando a irritar Edgar. - Claro que tenho. - Pensou o rapaz. - Qual casal não tem? - Ele tinha a impressão que o policial estava insinuando que sua mulher havia abandonado-o deliberadamente. - Nunca houve sequestro aqui antes. Como você bem sabe a ilha é pequena. A única saída daqui é pelo cais. Não tem como ela ser tirada daqui sem nós a vermos. Vou espalhar fotos dela pela cidade. Enquanto isso sugiro que volte a pousada. O deixaremos a par de tudo o que acontecer na investigação.

A pousada em que Edgar e Helena estavam hospedados ficava próxima a praia. Ela era dividida em duas partes, a primeira, na frente, era onde ficavam os chalés, nos fundos ficavam os apartamentos. A pousada continha duas piscinas grandes, quadra de esportes e logo na entrada um restaurante especializado na culinária local. A grande maioria dos móveis eram feitos de forma meio rústica em madeira, afim de dar um ar ainda mais tropical ao lugar.

- Isso não é verdade. Já aconteceram sequestros aqui antes. Há muitos anos atrás. - A dona da pousada, uma idosa de uns 60 anos, foi falar com Edgar com o intuito de consolá-lo. No meio da conversa ele contou sobre sua experiência negativa na delegacia fazendo com que a senhora relata-se coisas intrigantes. - Se não me falha a memória foi uma moça que havia sido sequestrada também. Como nunca encontraram a garota o povo inventou muitas lendas. Eu não acredito nessas superstições, mas várias histórias de assombração surgiram na época. A mais interessante delas foi a de um velho maluco que dizia ter visto a moça sendo levada por sombras e...- Levou algum tempo para a dona da pousada perceber que só estava piorando a situação. Ela ficou meio sem jeito com isso. - Oh... É... Sinto muito.

Somente tarde da noite que o xerife foi dar sinal de vida, ligando pro celular de Edgar, pedindo para o rapaz comparecer em um endereço dado por ele. Com um carro alugado, um Chevrolet Corolla prateado, Edgar foi até o bendito endereço. Um local afastado das outras casas da ilha. No alto de um vale. Local bem isolado. Um casarão com paredes feitas com troncos de árvore. Demorou vinte minutos para Edgar acertar o caminho. Por boa parte da rota não havia nada mais a ser visto do que mato. A casa ficava próxima ao território florestal da ilha.

Edgar tocou a campainha. Quando o dono da casa atendeu a porta Edgar tomou um susto. Já conhecia aquele rosto. Não esperava por ver ele ali. - O que está fazendo aqui?

- É... Eu acho que moro aqui.

- Desde quando.

- Desde sempre, ué. Helena nunca falou isso com você?

Dickson é um velho conhecido de Edgar. Um pouco acima do peso e de cabelo bem ralo. Ele foi o primeiro marido de Helena. Edgar não gostou de descobrir que Dickson morava na ilha. O fato de sua esposa nunca ter falado sobre isso antes só piorava as coisas. Principalmente porque a idéia de passar as férias em Shutter Island foi dela.

- Cara, eu soube o que aconteceu com Helena. Sinceramente, chame o F.B.I. A polícia da ilha é uma porcaria. O xerife daqui já estava me acusando de ser o sequestrador. Só porque eu sou o ex dela.

- Ele esteve aqui hoje, né?

- Sim. Sim. Saiu há bem pouco tempo. Um pouco antes de você chegar na verdade. - Sem nem se importar em disfarçar, Edgar ligou para o celular do xerife pra perguntar o porque dele ter o chamado para lá e, principalmente, porque não o avisou de que o endereço era de um conhecido seu. Pra sua infelicidade ninguém atendeu sua ligação. - Como eu disse. A polícia daqui é horrível. O xerife só atende seu celular quando bem entende.

- Você tem uma idéia de onde ele possa ter ido?

- Bom. Não com certeza. Mas o que achei interessante é que quando ele saiu daqui ele não pegou o caminho de volta. Ele seguiu a estrada. Por esse caminho não há muita coisa a ser vista. Só algumas casas e cabanas abandonadas. Não o vi voltando. Como aqui é bem tranquilo eu provavelmente iria ouvir o som da viatura fazer o caminho de volta.

Quando voltou pro Corolla Edgar demorou uns cinco minutos decidindo se deveria voltar para a cidade ou seguir a estrada em busca do xerife e de respostas. Por fim ele acabou escolhendo a segunda opção. Como Dickson havia dito, ao seguir a estrada Edgar só via algumas cabanas e casas bem velhas que pareciam não ser habitadas. Enquanto dirigia Edgar sintonizava na única estação de rádio da ilha na esperança de ter alguma notícia, mesmo que ruim, de sua esposa.

SHHHZZZZSHHZZZ! - O rádio saiu do ar e começou a fazer um som de interferência bem mais agudo que o convencional. Fazendo com que Edgar o desliga-se.

- Socorro. - Edgar freou bruscamente o carro quando teve a impressão de ter ouvido uma voz bem baixinha. - Socorro. - Ao ouvir pela segunda vez o pedido de ajuda Edgar saiu do carro e foi procurar pela origem do chamado. Estava tudo muito escuro fora do carro. Não havia nada além do luar e os faróis do Corolla iluminando a área. Por sorte havia uma lanterna guardada no porta-treco do veiculo. Todos os carros alugados na ilha vinham com uma lanterna. Era algo cultural da região. Como o local tinha muitas regiões remotas, a lanterna servia para no caso do carro dar algum problema no meio do caminho o motorista poder checar o motor.

- Socorro. - O chamado vinha de dentro de uma cabana abandonada. A porta estava entre-aberta, fazendo com que a situação se tornasse ainda mais sinistra. Com o coração quase saltando da boca, Edgar entrou na cabana. Lá ele viu a pessoa que pedia ajuda. Era o xerife. Ele estava jogado no chão. Muito ensanguentado. Segurava uma ferida enorme na barriga na tentativa de estancar a ferida. Parecia que ele havia sido atacado por algum tipo de animal feroz. Edgar tentou usar o seu celular para chamar uma ambulância, porém o aparelho não estava funcionando. Emitia uma interferência muito similar a do rádio.

- Me tira daqui! Ele vai voltar pra me pegar! - O xerife falava com muita dificuldade. - "Ele" quem? Quem fez isso com o senhor? - O xerife não respondeu a pergunta, não precisava. Com uma cara de pânico ele apontou freneticamente para as costas de Edgar. Fazendo com que ele olhasse para trás. Um vulto espiava os dois por de trás da porta. BLAM! BLAM! Apesar de fraco, o xerife conseguiu disparar dois tiros no vulto. Para a surpresa da dupla o homem misterioso não foi abatido. Só deu alguns passos pra trás, retomando imediatamente sua lenta caminhada na direção deles.

Com sua lanterna, Edgar iluminou o vulto afim de ver o rosto do homem que o ameaçava. Não havia rosto algum pra ser visto. O "homem" não tinha corpo. Era apenas sombra. - Yeeee! - A luz da lanterna de Edgar pareceu ferir a criatura. Ela soltou um gincho inumano e deu vários passos para trás. Aproveitando-se do momento de fraqueza da sombra assassina, o xerife disparou mais um tiro. Ao contrário dos disparos anteriores esse foi efetivo. Combinado com a iluminação da lanterna, o disparo foi capaz de eliminar a entidade. Fazendo com que ela desaparecesse em um raio de luz.

- Que porra foi essa?

- Não sei. Eu estava apenas checando a área. Achei que essas casas abandonadas serviriam como um ótimo cativeiro. Então decidi checar todas elas. Foi aí que eu vi eles.

- "Eles"! - Edgar percebeu que o xerife estava tentando dizer mais coisas. No entanto estava fraco demais para falar. Ele abria a boca, mas nenhum som saia de dentro dela. O xerife estava ficando com uma palidez muito preocupante. Como o celular ainda não funcionava (a estranha interferência permanecia), Edgar decidiu leva-lo pra dentro do Corolla e procurar ajuda na cidade. Infelizmente o xerife não resistiu a viagem.

Pra região, até que o centro de saúde da ilha era bem avançado. Levado direto para o necrotério, o corpo do xerife foi analisado pelo legista local. Ele achava as feridas muito estranhas. Ele só havia visto corpos naquele estado antes em vítimas de urso. Um animal que não existia na fauna local. O maior predador da região eram cães do mato. Animais que raramente atacavam pessoas e que eram incapazes de infligir tais ferimentos.

Edgar ficou no corredor do hospital respondendo as perguntas da polícia. Ele contou toda a história que o levou àquela situação. Falou do sequestro de sua esposa, da chamada do xerife no meio da noite... Só omitiu o detalhe da sombra assassina. Não queria dar um atestado de maluco. Edgar foi logo liberado. Como não podia fazer nada, ele não teve outra opção a não ser voltar para a pousada e esperar por notícias. Lá ele se encontrou novamente com a dona da pousada. Depois de lembrar dela ter mencionado algo estranho relacionado a sombras, ele decidiu tocar no assunto com ela. - Se eu fosse o senhor não me aprofundava muito na bobagem supersticiosa dessa gente daqui. - Disse a dona da pousada. - Isso tem a ver com o folclore da ilha. Dizem que o povo indígena daqui cultua um deus pagão. Belphegor se não me engano. Isso é só uma história pra assustar crianças. Esqueça esse negócio. Não devia nem ter comentado isso. Ouça o que digo, não vale a pena perder tempo com essas bobagens. Se preocupe apenas com o mundo real, senhor.

- Não vi nenhum povo indígena aqui.

- Isso é porque eles não se misturam muito com o pessoal da cidade. A maioria deles vive bem pra dentro da floresta. Da mesma maneira de séculos atrás. São um povo bem atrasado e bruto.

- Bruta é minha pi... - O dialogo entre a dona da pousada e Edgar é interrompido por um velho bem franzino e encurvado. Por ter uma pele bem morena e cabelos bem lisos, Edgar deduziu que ele era um dos índios mencionados pela senhora. O fato dele ter se ofendido com as declarações dela deixou isso ainda mais evidente. - Está acontecendo o mesmo que anos atrás, alguém liberou o mal nesta ilha.

- Puta merda! Cala boca, maluco!

- Você é o namorado da moça sequestrada, certo? Escute o que eu digo. Isso já aconteceu antes. Algum filho da mãe está usando o conhecimento de meu povo para fazer o mal.

- "Conhecimento"? Por acaso um bando de selvagens tem algum conhecimento? - O velho parecia que ia bater na dona da pousada, mas foi detido por Edgar que tentava acalmar os ânimos dos dois. O velho estava muito ofendido para permanecer ali, encarando aquela mulher, por isso decidiu por sair. Edgar ainda estava intrigado com a história da sombra assassina, por isso seguiu o velhinho em busca de mais informações. Na rua, já bem afastados da pousada, os dois voltaram a conversar.

- Foi o senhor que testemunhou o sequestro da moça de anos atrás certo? Você disse que sombras a levaram, né?

O idoso demorou pra responder. Aquela pergunta não era fácil. - Sim.

- Por que isso aconteceu com ela?

- Belphegor não faz mal a ninguém por vontade própria. Ele é o que o meu povo chama de espírito escravo. Só faz o que lhe mandam fazer. Apesar de ser causado por entidades sobrenaturais, o responsável pelo sequestro da moça de anos atrás e de sua esposa é alguém de carne e osso como eu e você.

Edgar nunca se importou com religião ou qualquer tipo de ideologia. Nunca foi ateu ou anti-religião, no entanto aquela história de sombras de espíritos vingativos eram muito difíceis de engolir. O dia foi passando e ele chegou até a esquecer esse assunto. Ficou ocupado pressionando a polícia local em busca de resultados na investigação do desaparecimento de sua esposa. Para o seu desespero a investigação não prosseguia em nada. E, devido a amizade que ele tinha com alguns policiais, ele sabia que após dois dias muito raramente um caso era solucionado. Em uma cidade pouco desenvolvida como a de Shutter Island o prazo deveria ser ainda menor.

Na noite do terceiro dia após o desaparecimento de Helena, Edgar ligou para amigos e familiares dele e de sua esposa. Se ocupou na terrível tarefa de contar sobre a tragédia que abatera o casal. A parte mais sofrida foi a conversa com sua sogra. A velha já não gostava muito dele. Por isso foi fácil para ela culpá-lo pelo ocorrido.

Edgar só veio se lembrar das sombras no fim daquela semana, quando elas foram atrás dele. Era mais de meia noite, Edgar estava na pousada, tinha acabado de voltar da delegacia. Uma cena que já estava virando rotina. Apesar de ser bem tarde ele não conseguia dormir. Desde que sua esposa sumiu ele raramente dorme. Só mesmo o mínimo para aguentar ficar em pé. Assistia a TV só na esperança de ver alguma notícia. Não tinha mais saco pra assistir nada.

As luzes do chalé em que Edgar estava hospedado foram apagadas. Edgar não tinha como saber, mas isso não foi por acaso, foi proposital. Alguém cortou a energia da pousada. Outra coisa que não era do conhecimento do marido aflito era que a única coisa que o mantinha vivo era as noites em claro. Como deixava as luzes do chalé acesas a noite toda Edgar acabava sem querer fazendo uma proteção contra as criaturas sinistras que mataram o xerife dias atrás.

Estava tudo um breu total. Edgar teve que ir tateando a parede até chegar ao banheiro e pegar uma lanterna. Só por causa disso que ele conseguiu encontrar o telefone. Edgar pretendia ligar para a recepção da pousada, mas a ligação não completava. Um chiado familiar fazia interferência na linha. Suas lembranças da morte do xerife revelaram o que estava acontecendo. Os monstros voltaram.

Nervoso, Edgar saiu de seu chalé e foi correndo até a entrada da pousada. Sua lanterna era apontada para várias direções. Qualquer barulhinho chamava a atenção do rapaz. Pra aumentar a tensão da situação Edgar descobriu que não era só a pousada que estava sem luz, mas sim a rua também. Provavelmente a ilha inteira esta passando por um apagão.

- AAAAAHHHHH! - O grito veio de um dos chalés. Um bem pequeno que ficava quase colado ao seu. Altruísta. Edgar invadiu o lugar aproveitando que a porta estava entreaberta. Perto da entrada, um louro com pinta de surfista apontava para o fundo de seu chalé. Tinha uma sombra aguardando próxima ao quarto. - YEEEEEEE! - Edgar iluminou a criatura com sua lanterna e fez sinal para o louro sair dali. Como ele não tinha nenhuma arma para dar um fim a criatura, sua única opção era fugir enquanto ela se debatia em agonia por causa da luz da lanterna. - DESGRAÇADO! - Por causa do pânico, quando o louro saiu do chalé ele sem perceber acabou trancando a porta. A única saída agora era pela janela que estava no quarto. Infelizmente a criatura estava bem na frente da entrada do quarto e, pra piorar, a janela estava fechada. Edgar tinha que rezar pra ela não estar trancada também.

A sombra caminhava bem devagar, mas seus ataques eram muito rápidos. Edgar mal teve tempo de perceber as garras da criatura. Quando se deu conta do golpe já era tarde demais. A criatura tinha o ferido. Um profundo ferimento na mão esquerda de Edgar. Por sorte a mão atingida não era a que segurava a lanterna. Já que a sombra estava praticamente encostada a ele, Edgar conseguiu machucá-la em um arriscado golpe. Ao mesmo tempo que iluminava o monstro com a lanterna, ele o atingiu usando um abajur como arma. O ataque de Edgar não foi forte o suficiente para matar a criatura, mas serviu para afastá-la da entrada do quarto. Edgar correu até a janela do quarto e a abril, por sorte ela não estava trancada. Nervoso do jeito que estava, Edgar levou longos onze segundos para abrir a janela. Tempo que permitiu à criatura se aproximar novamente e feri-lo mais uma vez. Quando estava pulando a janela, o monstro conseguiu ferir o pé direito de Edgar.

Caos. Não demorou muito para as criaturas feitas de sombra começarem a fazer vítimas. O pânico se espalhou pela ilha. Várias pessoas corriam desesperadas pelas ruas. A pé ou de carro. Várias batidas e acidentes graves desnecessários. Alguns cidadãos portavam armas. O que acabava por piorar a situação. No escuro, muitos inocentes foram confundidos com criaturas e acabaram sendo baleados.

- O fim está próximo! Arrependam-se! - Nada como um momento de puro terror para reacender a fé perdida. A igreja da ilha nunca esteve tão cheia de gente. Inclusive os que não tinham religião foram procurar abrigo por lá. Curiosamente, as sombras não entravam na igreja. Os fiéis acreditavam que era prova do poder de Deus. Mas, na verdade, as criaturas evitavam a igreja por causa da iluminação proporcionada pelas velas. Como eram criaturas pagãs não sofriam nenhuma influência de aspectos culturais ligados ao cristianismo.

Mancando um pouco, Edgar foi andando o mais rápido que conseguia em meio ao tumulto. Via muitos nativos e turistas sendo mortos pelas criaturas sombras. Enquanto andava Edgar procurava um lugar iluminado para se abrigar. O que era uma tarefa bem difícil naquela situação. A igreja acabou sendo seu único ponto seguro.

- A culpa é dos selvagens! - Dentro da igreja Edgar foi capaz de ver a dona da pousada na frente da multidão incitando o ódio nos presentes. O velhinho que contara a Edgar a história de Belphegor dias atrás era o único indígena dentro da igreja. Isso acabou transformando ele na maior vitima das acusações. Alguns já começaram até a linchar o pobre velhinho. O medo irracional deles fez com que nem considerassem o fato de estarem espancando um homem bem idoso e indefeso. Foi com muito custo que Edgar e alguns outros conseguiram afastar o velhinho da multidão de furiosos. Mesmo assim foi tarde demais. Ele já havia sido muito ferido.

Antes de morrer, o velho índio teve fôlego apenas para uma última frase. - Meu povo. Assim como anos atrás eles são a única chance de salvação da ilha. Procure pelo meu povo. Eles vão te ajudar a salvar você, a ilha e a sua família.


DARK AMBIENT pt 2

Os cortes na mão e no pé de Edgar foram cuidados pelo médico legista da ilha. Ele também estava na igreja e pôde testemunhar a triste morte do velho índio. - Tome. Meu carro, é um Ford Ka vermelho. Ele está estacionado aqui perto. - O legista entregou a chave de seu carro a Edgar. - Siga a estrada leste que leva a região florestal. Quando a estrada de asfalto terminar você encontrará uma de barro. É só continuar andando, mas por lá você não vai conseguir ir de carro. - Edgar não tinha muita convicção sobre a história contada pelo velho índio, mas o apoio do legista o incentivou a seguir o conselho do moribundo. Ao passar pela multidão, apenas tendo uma lanterna como "arma", Edgar foi até a rua procurar por um Ford Ka. Não demorou mais do que seis minutos para achá-lo. O problema era que as ruas estavam infestadas de criaturas sombras.

Vruuuummmmm! Já dentro do carro, Edgar dirigiu a quase 120 km por hora. Durante o trajeto atropelou pelo menos cinco sombras. Como elas eram iluminadas pelos faróis do carro antes de serem atingidas, todas morreram.

A estrada de asfalto terminava de maneira bem rústica. No seu final o caminho ficava com tantos buracos que nenhum veículo podia continuar. O fim da estrada de asfalto era o início da de barro. Essa última era estreita e ao seu redor o mato era tão alto que por pouco não a cobria. Edgar seguiu esse caminho a pé, com muito medo de ser surpreendido por uma criatura sombra. Pra sua sorte nenhuma delas apareceu durante o trajeto na floresta. Parecia que aqueles monstros estavam atacando apenas a cidade.

Edgar tem o preconceito tipico de pessoas urbanas em relação ao povo indígena da ilha. Ele esperava encontrar pessoas de tanguinha armadas com lanças e vivendo em ocas de palha. Na realidade os índios de lá não tinham nada a ver com aquela imagem. Viviam em casas bem simples de madeira e tinham eletricidade (a tribo tinha um gerador elétrico que funciona a base de energia solar. Como não tinham ligação alguma com a fonte de energia da cidade, não foram afetados pelo apagão). A maioria usava roupas comuns, mas bem pobres. Outros porém andavam nus mesmo. Coisa que era visto com naturalidade entre eles. Edgar esperava ser recebido com armas ou coisas do tipo. Outro preconceito dele. Os índios não se mostraram hostis. Apesar de muitos o olharem de maneira estranha. Era bem raro um branco aparecer por lá. A primeira vista os índios não deram muita importância pra Edgar, só ficaram mais nervosos quando ele falou a "palavra mágica" Belphegor.

- Você não devia usar esse nome aqui. É perigoso. Atrai tudo o que não presta. - Disse um índio.

- A cidade está sendo atacada. O velho índio que mora por lá disse que o responsável era esse tal de Belphegor. Por favor. Minha esposa desapareceu e...

- Ok, ok. Tudo bem. Sei quem pode te ajudar. - O índio prestativo levou Edgar a uma casa que ficava bem afastada do centro da tribo. Uma casa pequena que só tinha um cômodo. Era mais uma cabana. O lado de dentro da casa era bem exótico. Cheio de ervas de vários tipos e corpos secos de pequenos animais. Lembrava um pouco uma loja de produtos exotéricos. A moradora da casa era uma velha que mais parecia uma bruxa. Cabelo comprido, mas ralo, muito magra e um pouco encurvada. Ela era uma índia "tradicional". Não usava uma peça de roupa. O que tornava a simples tarefa de olhar para ela não muito agradável. - Nzuri salama unaitwa nani bwe? - O índio prestativo e a velha bruxa começaram a conversar no seu idioma nativo. Edgar não entendeu nada. No fim da conversa o jovem índio fez um resumo pra Edgar do que estavam conversando. - Desculpe, a velha Akhkharu não fala uma palavra em inglês. Ela disse que o primeiro passo para solucionar seu problema é descobrindo quem é a pessoa que está controlando Belphegor. Ela falou também que pode descobrir isso perguntando para outro espírito escravo. Porém isso vai ter um preço. - Edgar ficou assustado quando ouviu a palavra "preço". Assistiu filmes de terror o suficiente pra saber que a velha não estava se referindo ao seu dinheiro. - Que preço?

- Imladris bwe? - O jovem índio traduziu a pergunta de Edgar para a bruxa. Depois traduziu a resposta da bruxa para Edgar. O garoto estava praticamente fazendo um trabalho de interprete ali. - Akhkharu disse que você deve no ano que vem, nessa mesma data, fazer um khalima.

- Um o quê?

- Perdão. Acho que você não é da ilha. Um khalima é um tipo de ritual de agradecimento. Como Akhkharu vai pedir ajuda a Alkhon. É só fazer um tipo de bolinho de carne, tipico da culinária daqui, e dar pra umas sete pessoas comerem. De preferência desconhecidos e necessitados. É pra passar sua graça adiante. Não é nada demais, não se preocupe com isso agora não. Depois de você resolver seu problema venha falar com Akhkharu para ela te ensinar a preparar um khalima.

- Beleza. - Edgar ficou aliviado. Mil coisas absurdas passaram por sua cabeça.

Akhkharu pegou um pratinho de aço e colocou no chão. Jogou três ossos de galinha no prato várias vezes. Após a quinta jogada ela começou a falar. O interprete simultaneamente ia traduzindo o que ela dizia. A velha estava falando um endereço. Depois descrição física de alguém. Edgar ficou de olhos arregalados quando percebeu que o endereço descrito e a descrição física da pessoa eram o do ex-marido de sua esposa. - Seu filho da...

Edgar estava transtornado. Saiu do território da tribo como um foguete. Fazendo o caminho de volta, ele voltou ao Ford Ka e dirigiu feito um alucinado na direção da casa de Dickson. Um percurso que normalmente demoraria trinta minutos ele fez em doze. Não considerou nada nem ninguém. Atropelou três sombras, dois gatos e quase passou por cima de um coroa que estava perdido nas ruas escuras de Shutter Island.

- Dickson seu filho da puta! Cadê você! - Edgar já chegou dando um pontapé na porta da casa. Todas as luzes do lugar estavam acesas. Dickson estava sentado no sofá da sala assistindo tevê. Deu um pulo de susto quando percebeu que estavam invadindo sua casa. - Ed? O que foi? - Não houve resposta para a pergunta de Dickson. Só um soco bem dado em seu rosto. - O que é isso, cara?

- Onde está Helena? Onde você a levou?

- O que é isso, cara? Pegou a doideira do xerife?

POW! POW! POW! Depois de dar mais alguns socos Edgar continuou a falar. - Eu não caio mais nessa! Não sei como, mas você está controlando esses monstros!

- Monstros?

- Não finja! Sua casa é a única com luz na cidade!

- Minha casa tem energia solar. Não tem nada de estranho nisso. - Edgar ia continuar o ataque, mas a tevê saiu do ar e começou a emitir um chiado muito familiar. - Eles estão chegando!

- Eles quem?

- Faça-os parar! - Uma multidão de sombras apareceu. Elas estavam paradas na frente da casa. Pareciam que estavam aguardando qualquer momento de fraqueza para invadirem o lugar. Quando Dickson olhou para aqueles monstros ficou paralisado de medo em estado de choque. Edgar notou que aquilo não podia ser fingimento. Ele realmente estava falando a verdade.

- Escute! - Disse Edgar a Dickson enquanto dava alguns tapas para faze-lo "pegar no tranco". - Essas criaturas não gostam de luz. Não vão entrar na casa enquanto tudo estiver aceso. Entende? - Dickson não respondeu. - Você tem alguma arma? - Dickson continuava a não dizer uma palavra. Porém apontou para uma gaveta que ficava em um criado no canto da sala. Edgar foi checar e encontrou uma pistola com algumas balas. Isso tinha que servir.

- Não vai durar muito tempo. - Disse Dickson.

- "Não vai durar" o quê?

- A luz elétrica. O gerador de energia solar só segura a onda por quatro horas.

- Tudo bem. O sol vai nascer daqui a duas.

- A casa já está usando a energia solar a três horas. Faça as contas, gênio. - Edgar engoliu em seco com aquela resposta. Porém ele já tinha uma idéia para contornar a situação. - Tudo bem. Vamos permanecer nessa sala, mas vamos apagar todas as outras luzes da casa pra economizar energia. Com sorte dá pra aguentar até o dia nascer.

Dickson seguiu a idéia de Edgar. Apagou todas as lampadas da casa, deixando acesa apenas as duas da sala. A situação estava tensa. Dava pra ouvir os passos das sombras nos cômodos não iluminados da casa. Elas já tinham conseguido entrar. As que se aproximavam demais da sala eram afugentadas pela lanterna de Edgar que matou umas cinco sombras usando a arma de Dickson. BLAM!BLAM!BLAM! Havia muitas sombras ali, não dava pra matar todas com as balas disponíveis. Sendo assim Edgar decidiu parar de atirar pra economizar a munição.

O sol não havia nascido ainda, mas a noite já não estava tão escura quanto antes. Sinal de que não iria demorar muito para o astro rei aparecer. - Fé em Deus, Edgar! Vamos conseguir! - Edgar não conseguia compartilhar do otimismo de Dickson. As luzes da sala começaram a falhar, uma das lampadas já havia até apagado. Daqui a poucos minutos eles irão ficar no escuro. Tinham que fazer alguma coisa.

- Você tem uma lanterna como essa? - Edgar apontou para a lanterna que segurava na mão esquerda.

- Não.

- Tudo bem. Fique o mais próximo possível de mim. Vamos ter que sair daqui.

- Hmmm?

- Fique bem perto de mim enquanto afasto as criaturas com essa lanterna. Meu carro está bem na frente da casa. - Dickson pôs sua mão direita no ombro de Edgar enquanto ele saia correndo de dentro da casa. O Ford Ka estava há apenas trinta passos da porta da casa. No entanto centenas de criaturas sombrias estavam esperando do lado de fora. A luz da lanterna de Edgar afastava as criaturas dele. BLAM! BLAM! As que conseguiam chegar perto demais eram abatidas a bala. A munição terminou um pouco antes da dupla conseguir chegar no Ford Ka. Os dois entraram pela porta do motorista. Era perigoso demais fazer a volta para entrar do outro lado. Assim que a dupla entrou no carro Edgar acendeu os faróis do carro. Afastando quase todas as sombras. Infelizmente uma criatura conseguiu colocar a mão dentro do carro, no lado do carona, e fez um corte letal no pescoço de Dickson. Saiu um jato de sangue do pescoço do homem. O vidro e boa parte do lado do carona ficaram ensopados. Edgar, no entanto, não tinha tempo pra ficar em choque com a cena. Deu partida no carro e se mandou dali o mais rápido possível.

Quando já estava bem afastado da casa, Edgar parou o carro e olhou para o corpo imóvel de Dickson. Teve vontade de chorar, mas se conteve. - Maldita bruxa velha! Ela mentiu para mim!

- Não fale assim de Akhkharu, gosto muito dela.

- AAAAAHHHHHH! - Edgar entrou em desespero quando viu seu amigo falecido falando com ele. Dickson usava uma voz gutural rasgada que não combinava em nada com seu tom de voz normal. Seu rosto estava pálido e duas manchas negras cobriam seus olhos. - Por que esse desespero todo? Você andou me procurando a noite toda. - Edgar tentava abrir a porta do carro de tudo que era jeito, mas ela não saia do lugar. - Afff. Esses homens modernos... Se acham tão espertos, mas quando encontram algo um pouco fora do comum agem como se fossem crianças.

Quando viu que seu esforço era inútil Edgar parou de tentar abrir a porta e passou a usar outra abordagem para sair dali. Apontou a lanterna para a cara do Dickson-monstro. Na esperança dele ser tão vulnerável a luz quanto as criaturas sombras que ele enfrentou a noite inteira. - Aí já é falta de educação. - Dickson pegou a lanterna da mão de Edgar e a jogou fora pela janela. - Você não queria me ver? Parabéns! Você conseguiu. Isso não é uma tarefa fácil, se eu fosse você aproveitava.

- Belphegor?

- Exato.

- Por quê?

- Por que eu fiz isso? Por que esse gordinho que estou vestindo agora pediu. Sou um espírito escravo lembra?

- Dickson não seria capaz de...

- Ele odiava essa ilha. Pediu pra que alguém acabasse com ela. As vezes acho que ele falou isso da boca pra fora. Tenho a impressão que ele fez o meu khalima de brincadeira. Problema dele. Ninguém mandou ele brincar com magia antiga.

- E Helena?

- Não tenho nada a ver com sua mulher. Não fui eu que dei um sumiço nela. Mas sei onde ela está. Se quiser que eu te leve até ela eu levo. Mas você vai precisar fazer um khalima pra mim também. Mas lembre-se, não sou bonzinho como meu irmão, Alkhon. Eu exijo muito mais do que bolinhos de carne. - Edgar estava tão desesperado em achar a esposa que nem se preocupou com o preço daquele pacto. "Sim" foi a sua resposta. Dickson-Belphegor tocou na testa de Edgar com o dedo indicador fazendo com que um clarão o engolisse. Quando Edgar voltou a abrir os olhos ele não estava mais ali, em Shutter Island. Estava no continente, em pé na frente de uma casa de veraneio branca muito familiar. Era a casa da sua sogra.

Toc! Toc! Edgar bateu na porta. Quase enfartou quando o atenderam. Era sua amada esposa que estava ali.

- Helena? Eu te procurei tanto! - Edgar abraçou sua esposa com muita vontade. - Como veio parar aqui? - Edgar estava emocionado demais para perceber que Helena não estava nada feliz com a situação. Pelo contrário. Dava um sorriso amarelo. Como se aquele momento fosse frustrante. - Por que você desapareceu daquele jeito? O que foi que aconteceu? - Helena não conseguia responder. Sua sogra, que estava assistindo a tudo na sala, falou por ela. - Ela estava fugindo de você, imbecil! Por que não a deixa em paz?

- O quê? Mas...?

- Ela descobriu, Edgar. Ela descobriu. - Edgar não precisou ouvir mais nada. Sabia do que a sua detestável sogra estava falando. Saiu da casa cabisbaixo. Pegou um ônibus e voltou pro seu apartamento. Tentou deixar seu casamento e a tragédia de Shutter Island pra trás e continuar sua vida normalmente. Mas era difícil. Sentia falta da sua esposa. Apesar de tudo ainda amava ela. Dois meses depois, em sonho, uma entidade sinistra já conhecida fez uma visita a ele. Edgar até já sabia o que a criatura queria.

- Então? Veio pegar minha alma ou o quê?

- O meu povo evita fazer pedidos a mim por que eles sabem que faço os seus desejos voltarem contra eles. Esse é o preço do meu pacto. Já estamos quites.

- Que bom pra mim, não é? - Disse Edgar. Com um tom de voz não muito animado.

- Escute. Gostei de você. A maioria das pessoas que fazem pedidos para mim querem uma solução mole para seus probleminhas fúteis. Por isso que gosto de arregaçar com elas. Mas você é diferente. Acho que merece uma colher de chá.

- Hmmm?

- Daqui há um mês Helena vai perder o pai. Não se assuste. Chegou a hora dele. Visite-a no hospital. Ela vai voltar atrás. - Quando Edgar acordou ele se sentiu mais disposto. Com a esperança renovada.


- Amor, vou sair com um amigo meu pra beber um pouco. Você se importa?

- Quem é?

- Rickman. Se lembra dele? A gente almoçou com a esposa dele, lembra?

- Ah sim. Tudo bem. Só tente não voltar muito tarde.

Cinco horas da tarde do dia anterior ao desaparecimento de Helena. Eles ainda eram um casal feliz passando uma segunda lua de mel na ilha paradisíaca.

BiBi! O som de uma buzina de carro deixa Edgar bem animado. - É ele, amor! Volto logo! - Depois de dar uma bitoquinha em sua esposa, Edgar sai correndo em direção ao estacionamento da pousada, que ficava bem perto do chalé em que estava hospedado. - Credo! Mas que animação é essa? - Pensou Helena, achando a atitude do seu marido até um pouco engraçada.

A janela do chalé estava fechada, mas através das frestas Helena foi capaz de ver Edgar se encontrando com o seu amigo, Rickman. Os dois não podiam saber que Helena estava olhando para eles. Só por acreditarem que ninguém os via que os dois deixaram suas máscaras caírem. Foi muito triste pra Helena quando ela descobriu que Rickman não era apenas um amigo do seu marido.