DREAM THEATER

Quando uma pessoa está desempregada ela se sujeita a participar de várias coisas que não gostaria de fazer parte. Aceita bicos que mais ninguém quer, faz coisas que acha moralmente questionáveis e, as vezes, aceita trabalhos perigosos ou não muito saudáveis. Ninguém fala isso na propaganda desse trabalho, mas tendo em vista que todos que se prontificaram a faze-lo estão em situação de quase desespero, é de se esperar que tal emprego faça parte dos grupos de trabalho acima citados. Pense bem. Que outro motivo levaria alguém a aceitar o emprego de cobaia? Um trabalho que pode te deixar doente ou pior. Com algo terminal.

James Labrie entra numa fila indiana. A fila segue até um auditório onde haverá uma palestra, mas, tendo em vista o ânimo das pessoas, até parecia que o destino da fila era um velório. Mau as pessoas sentam em seus lugares e o palestrante já começa a falar. Se apresentando logo, sem muito arrodeio. O nome do palestrante era Chris Collins, um homem magro e alto, trajando um uniforme militar. A voz do soldado era bem monótona, o que deixava o tom da palestra bem tedioso. Algo até engraçado já que o tema era sobre distúrbios do sono.

- Todos aqui presentes foram selecionados por terem problemas de insonia. Vocês farão parte de uma pesquisa de um novo medicamento cuja meta é fazer com que o paciente consiga descansar com poucas horas de sono. Se a pesquisa obter sucesso ninguém mais vai precisar passar pelo inconveniente de passar um dia de trabalho sonolento porque não conseguiu dormir na noite anterior.

Antes de serem selecionados para essa palestra todos os candidatos passaram por vários questionários no qual eram arguidos sobre vários aspectos de suas vidas. Ninguém sabia sobre o que era a pesquisa, a não ser James que tem um parente que trabalha nesse laboratório (mas é claro que ninguém sabe disso, se não ele seria desclassificado). James nunca teve problema para dormir, mas, advertido pelo seu primo, respondeu que sofre com várias noites passadas em claro. Se não respondesse isso não seria qualificado para a pesquisa. Não poderia se tornar uma cobaia. E, o principal, não iria ganhar a bolsa de 800 dólares. Os psicólogos que ficaram encarregados de entrevistar os candidatos estavam preparados para reconhecer falsidade na linguagem corporal das pessoas. No entanto, a capacidade de iludir de James era melhor do que a capacidade dos psicólogos de perceber mentiras.

Assim como todas as outras cobaias, James foi levado até um quarto de hospital. Um quarto branco, isolado e sem janelas. Um daqueles quartos projetados para analisar o sono dos pacientes. Já vestindo o seu pijama, James teve vários eletrodos ligados à sua cabeça. Enquanto deitava na cama James se perguntava se conseguiria dormir com tantos fios na cabeça. Por fim, a enfermeira, uma bem bonita por sinal, entregou uma pílula a ele. James tomou a pílula a seco, sem nem se preocupar em beber aguá pra ajudar o remédio a descer. Poucos minutos depois a enfermeira boazuda saiu do quarto deixando-o sozinho. Seus olhos começaram a pesar e em poucos minutos James já tinha caído em um pesado sono.


Quando James abriu seus olhos ele não se encontrava mais na cama do hospital, mas sim na do quarto de sua casa. Um pequeno apartamento na periferia da cidade. O apartamento era mau arrumado e bem humilde, no entanto agora ele estava bem mais colorido do que o habitual. James se aproximou da janela e percebeu que não apenas o seu apartamento, mas a rua estava bem mais colorida do que o normal. Os prédios e as casas estavam parecendo saídas de um desenho animado. A rua, que costumava ser bem movimentada, não tinha mais nenhum carro transitando e haviam pouquíssimos pedestres. Pra deixar a cena ainda mais surreal, na estrada da rua havia um trilho, semelhante ao de um trem, na qual uma câmera cinematográfica sem cameraman andava de um lado para o outro. Olhando para cima James pôde ver um céu preto com alguns holofotes. Como se ele estivesse dentro de um cenário artificial, tipo um estúdio de cinema.

Prestando atenção em si mesmo, James percebeu que o lugar a sua volta não era a única coisa que parecia artificial. Sua pele estava parecendo ser feita de borracha. Pra piorar um cheiro sutil de alguma coisa queimando impregnava sua narina e sua boca estava seca.

James não sabia muito o que fazer naquela versão bizarra de sua casa. - O que está acontecendo? - Se perguntava na tentativa de raciocinar uma explicação sensata para o que via. - Puta que pariu! Isso só pode ser efeito daquele remédio esquisito. - Na tentativa de se livrar do que ele acreditava ser o efeito de alguma droga psicotrópica, James se dirigiu até o banheiro e lavou o rosto. Nada mudou. Tudo a sua volta permanecia com o aspecto irreal.

Enquanto lavava o rosto James se olhava no espelho. Em uma primeira vista parecia normal, mas após manter o olhar fixo no espelho por alguns segundos, James teve a impressão de que seu reflexo tinha sutis e bizarras mudanças. No reflexo, seus olhos pareciam ser mais avermelhados e detalhes como seus dentes e sua sobrancelha tinham pequenas mudanças. Seus dentes pareciam mais pontiagudos e a posição de sua sobrancelha fazia parecer que seu rosto ganhava um aspecto mais raivoso. Quanto mais James aproximava seu rosto do espelho mais visíveis eram as distorções. Assustado, James saiu do banheiro antes que a vontade de gritar que sentia fosse forte demais para controlar.

Quando James saiu do banheiro e foi pra sala ele encontrou uma pessoa conhecida sentada no sofá que com toda certeza não estava ali antes. Parecia que essa pessoa havia se materializado do nada, como num passe de mágica. Essa pessoa estava sentada na frente da única televisão da casa. Um aparelho antigo de apenas 14 polegadas. - Venha ver o que está passando na TV, filho. - O cinquentão meio calvo que estava ali presente era nada mais nada menos que o pai de James. No entanto sua fisionomia estava meio esquisita. Quando James o encarava pelo canto de olho, tinha a ligeira impressão que o rosto do seu velho sofria da mesma distorção que a do seu no espelho. Apesar de desconfiado, James acabou se sentando.

A TV, que transmitia em preto e branco, mostrava um quarto de hospital. Dois médicos estavam presentes na sala. Um olhava para o monitor de um estranho aparelho hospitalar e o outro examinava o doente. Após alguns instantes James percebeu que o paciente desacordado em cima da cama era igual a ele.

- Nunca vi esse padrão cerebral antes na minha vida. - Dizia o médico que checava os monitores. - Não se parece em nada com o de um homem em coma.

- O que vamos fazer então? Se isso vazar o Sperantus não vai ter nenhuma credibilidade. Vamos perder anos de pesquisa e dinheiro. - Falou o médico que examinava o James da televisão.

- Essa informação não pode sair daqui.

- E o que faremos com ele? E se ele nunca mais acordar.

- Aqui é um laboratório militar esqueceu? Todo mundo aqui é especialista em guardar segredos.

James se ajoelhou na frente da TV ficando com o rosto praticamente colado a tela. - HEI! EU ESTOU AQUI! EU ESTOU ACORDADO! - Gritava enquanto socava a TV. Sem dar aviso algum o aparelho subitamente desliga. James fica apertando todos os botões, mas nada acontece. Pra piorar, quando James olha pra trás, percebe que seu pai havia sumido. Tão inexplicavelmente como quando apareceu. - Isso não pode estar acontecendo comigo! Tenho que dar um jeito de sair daqui! - James não podia ter certeza se isso iria dar certo, mas ele tinha uma ponta de fé de que se voltasse para o seu quarto no hospital ele talvez voltasse ao mundo real. Era impossível saber com certeza o que estava acontecendo, mas algumas teorias passavam pela cabeça de James. Algumas bizarras demais. - Será que eu estou morto?

James foi até a porta do seu apartamento que dava ao corredor do andar. Ainda raciocinando como se estivesse no mundo real, James planejava sair do prédio, ir à rua e pegar um ônibus para ir até o hospital em que estava internado. Eis que ao pegar na maçaneta pra abrir a porta algo estranho acontece. Do mesmo jeito repentino que seu pai apareceu dessa vez sua mãe se materializa ao lado da porta. - Filho desnaturado! Se sair por essa porta pode esquecer que já teve uma mãe um dia! - A mãe de James estava com o cabelo desgrenhado e com um cinto na mão. Exatamente como no dia em que James decidiu ir morar com o pai. Evitando ter que encarar aquela difícil memória, James saiu sem olhar mais pra trás.

James demorou um pouco para reconhecer o seu andar do prédio quando cruzou a porta, pois agora ele estava bem mais esquisito que o normal. O chão estava coberto por mato e cipós cobriam as paredes. Deixando essa cena ainda mais exótica, James pôde reconhecer alguns dos seus vizinhos naquele corredor. No entanto eles estavam tão imóveis que lembravam até estátuas de cera. James se aproximou de um dos seus vizinhos-estátua e o tocou. Tentando checar se ele era real ou se poderia ser "acordado". Nada aconteceu.

- Para de cutucar eles, guri. Ainda estão acordados. - James se assusta ao ouvir alguém falando e se vira pra trás de supetão. O sujeito em questão era um jovem de vinte e poucos anos. James achou seu rosto familiar, mas não conseguia se lembrar de onde já tinha o visto antes.

- Quem é você?

- Me chamo John Petrucci. A gente se viu na palestra, não lembra, não? Sou uma das cobaias do Sperantus também. Nós estamos presos no lugar onde as pessoas vão quando estão sonhando. Bem, pelo menos é isso que a TV lá do meu apartamento disse antes de desligar.

- Hei! Isso aconteceu com a TV do meu apartamento também!

- É? Sua TV disse o quê?

- Pelo que eu entendi no mundo real a gente está em coma. Como vamos fazer pra acordar, então?

- Quem sabe alguma TV de um desses apartamentos possa nos dizer alguma coisa. - Enquanto John falava um dos vizinhos-estátua de James começou a se mexer. - Veja. Esse aí tá começando a pegar no sono.

James e John decidiram se separar. Escolheram um apartamento aleatório e entraram nele. Pra sorte dos dois todos estavam de porta destrancada. Se bem que sorte talvez não seja bem a palavra certa. Já que não dava pra eles saberem se as portas nos sonhos costumam ficar destrancadas ou não.

Não foi difícil para James encontrar uma televisão logo que entrou no seu apartamento escolhido. Era uma TV de plasma de 29 polegadas que ficava no meio de uma espaçosa estante de vidro. Ele já ia ligar o aparelho quando vê uma menina de 12 anos sentada no canto da sala apontando para a estante. - Mata aquela aranha pra mim, tio. - Disse a garota.

Ao olhar para o local da estante apontado pela menina, James viu um negócio esquisito que mais parecia uma nojenta aguá viva verde que se arrastava como uma lesma. - Essa é a aranha mais esquisita que eu vi. - Pensou James. O exótico "inseto", inicialmente, não possuía mais do que quatro centímetros. Mas foi só James tirar seu sapato pra esmagar o bicho que a nojenta criatura cresceu para quase uns trinta centímetros e pulou na direção do rapaz. Revelando uma enorme boca cheia de dentes pontiagudos. Por reflexo, James deu-lhe um golpe com o sapato. Fazendo a criatura voar longe.

Sem que James nota-se sua aproximação, outra criatura semelhante a aquela conseguiu morder a sua mão. - AAAAHHH! - Gritou James assustado. Pra se livrar desse outro bicho que agora estava preso a sua mão direita. James deu um soco na parede. Esmagando a criatura e deixando sua mão cheia de gosma.

- Que coisa é essa? - Perguntou James a menininha. No entanto, quando ele se virou para olhar pra ela percebeu que ela já tinha desaparecido.

Após se certificar que mais nenhum bicho nojento estava zanzando na sala, James se aproximou da TV de plasma e a ligou. Mais uma vez uma cena em preto e branco era passada na tela. Só que dessa vez a cena mostrava o seu antigo chefe, Mike Portnoy, conversando com uma garota bem jovem em um dos escritórios da empresa. Do jeito que os dois falavam parecia que estava rolando um clima.

- Meus parabéns. - Disse o chefe.- A vaga de sub-gerente é sua. - Ao terminar de dizer isso a jovem deu um sorriso e se despediu, indo em bora. Assim que ela saiu o coroa ligou o interfone. - Pode chamar James agora. - James ficou surpreso ao se ver novamente na TV. O James da TV entrou no escritório apertou a mão de Mike e se sentou na frente dele. - James, sinto muito, mas devido aos cortes que a empresa anda sofrendo... - A cena acabou. A TV de plasma subitamente desligou e não voltou a funcionar mais. Por mais que James tentasse religá-la.

- Velho filha da puta! Me demitiu só pra pegar uma mulher! - Após ver a cena, James sai do apartamento na intenção de voltar pro corredor do prédio. Porém, para a sua surpresa, não havia mais corredor ali. As paredes, as portas... Tudo havia sumido. Agora James se encontrava numa floresta de mata densa. Sem saber como voltar e nem como sair.

Assim como os outros cenários desse estranho mundo, a floresta era colorida demais. O céu dava a impressão que era noturno, mas não dava pra dizer com certeza, pois ele era de um estranho tom de azul escuro. As plantas, folhas e árvores tinham uma cor bem mais vivida do que deveriam ter se fossem reais. Pra piorar James acabou notando que sua roupa havia mudado. Agora ele estava vestido de soldado.

- Hei, você! Está indo pra onde sozinho? Tá maluco? Não sabe o quanto essas matas são perigosas? - James achou estranho ver aquele soldado ali. Ele era o mesmo que tinha palestrado para James e as outras cobaias horas atrás. Chris Collins. No entanto não dava pra saber se Chris também era uma cobaia e agora estava preso no sonho ou se aquele Chris que James estava vendo não passava de uma versão do mundo dos sonhos. O soldado estava com seu uniforme militar e carregava uma metralhadora. Pelo jeito que agia até parecia que estava no meio de uma guerra. - Me acompanhe. O grupo não está muito afastado. - Como não tinha outra opção melhor, James resolveu seguir Chris. Que acabou levando-o à um acampamento militar não muito longe dali.

O acampamento era formado por umas sete barracas. Todas bem simples. O grupo que se abrigava ali não era muito numeroso. Tinha uns vinte soldados no máximo. Alguns montavam guarda, outros se distraiam jogando cartas e também havia aqueles que estavam preparando comida com pequenos fogões portáteis, feitos especialmente para situações de sobrevivência. James não sabia dizer o porque, mas achava aquela cena estranhamente familiar.

- O resgate só chega ao amanhecer. - Disse Chris a James. - Até lá temos que fazer de tudo para sobreviver.

- Sobreviver ao quê? - Perguntou James já temendo de antemão a resposta que poderia vir.

- Não é hora para brincadeiras, soldado!

AAAAAHHHHH! TRATRATRATRATRA! Gritos e tiros de metralhadora interromperam a conversa de Chris e James. - ELES ESTÃO AQUI! - Gritou um soldado ao longe. James não fazia a menor ideia do que os militares estavam enfrentando, mas estava com tanto medo que acabou seguindo a correria sem olhar pra trás. No meio do pânico James acabou por se distanciar dos outros soldados e acabou se embrenhando mais na mata densa. Ainda conseguia ouvir tiros e gritos ao longe, o que acabou por se tornar um incentivo para correr ainda mais.

James só parou de fugir quando teve a péssima ideia de descer correndo por um terreno íngreme. Isso provocou uma queda, daquelas bem feias. Ele saiu rolando e foi parar só no fim da "ladeira". James não sabia como isso era possível. Mas aquele acidente no mundo dos sonhos estava doendo muito. - Mas isso não era pra ser faz de conta? - Pensou ele. - Será que se eu me ferir mortalmente aqui, no mundo real eu...

POW! POW! POW! POW! James não teve mais tempo para continuar com suas conjecturas. Um forte som de porrada chamou sua atenção. Parecia que alguma coisa muito grande se chocava contra o solo de maneira ritmada. Como os passos de um gigante. Apesar de ficar curioso pra saber o que era aquilo, seu medo era maior. James voltou a correr, só que dessa vez de maneira mais pensada. Evitando lugares de campo aberto e se embrenhando o máximo possível na mata fechada.

ROAAAAAARRRR! O rosnado da criatura ativou sua memória. Finalmente James entendeu o porque de achar aquele acampamento militar no meio da selva tão familiar. Ele o tinha visto em um filme.

Escondendo-se atrás de arbustos, James foi capaz de ver o monstro passar sem ser notado. O bicho tinha uns trinta andares de altura. Era bípede, tinha dentes enormes e suas mãos eram pequenas demais para o seu tamanho. Quando o gigante foi embora James só se preocupou com uma indagação. - Como faço para sair do Parque Jurássico?

- Psiu! Psiu! Hei! Aqui! - James teve a impressão de ouvir alguém chamando. Ficou olhando assustado para todas as direções sem ver ninguém. Eis que o sujeito chega sorrateiramente cutucando suas costas, fazendo James quase enfartar de susto. - John? - John Petrucci, o homem que James conheceu no sonhar estava ali diante dele. Também trajando um uniforme militar.

- Como você veio parar aqui? - Perguntou James.

- Sei lá. Só fiz abrir uma porta e acabei caindo nessa floresta. Mas escute, descobri como esse mundo funciona.

- Fale logo, homem! Estou louco para sair daqui!

- James, aqui o tempo e o espaço não são que nem no mundo real. Coisas como encontrar um conhecido ou ir para um lugar estranho acontecem o tempo todo, toda a hora. Aqui a coincidência é a regra. Por exemplo, se estivéssemos em uma selva no mundo real andando ao acaso, quais seriam as chances de por acidente acabarmos nos esbarrando?

- Sim, beleza. E como saímos daqui?

- É... Sinto muito, mas não descobri ainda como podemos fazer isso. - A cara de desapontamento de James ao ouvir aquilo era evidente. - Mas escute, descobri como ir de um cenário a outro. Basta passar por uma porta.

- O quê? Como vamos encontrar uma porta no meio de uma floresta?

- Cara, pare de pensar como se estivesse no mundo real. Aqui basta procurar o que se quer por uns dez minutos que você acaba encontrando.

Um matagal próximo a dupla começa a se balançar. James achou aquilo curioso, por causa de seu receio acabou decidindo por se afastar um pouco. John, porém, não percebeu nada por isso continuou tranquilo. Isso acabou se tornando sua ruína. Uma criatura muito semelhante ao gigante que James acabará de ver (só que bem menor, do tamanho de um homem mais ou menos) soltou por de trás da moita e agarrou John. Com suas garras e dentes pós fim a vida do rapaz. Ao menos era isso que parecia. James então pela terceira vez começou a correr. Só que dessa vez com algumas daquelas criaturas atrás dele.

James fugiu, fugiu, fugiu. Eis que no meio de sua correria acabou por encontrar uma cabana no meio da mata. Quase ia passando por ela quando se lembrou das últimas palavras de John. - Uma porta! - Pensou James. Ainda com os monstros em seu encalço, James correu em direção a cabana. Abril a porta dela bem a tempo e se trancou lá dentro. Se livrando, ao menos por ora, daquelas ferozes criaturas.

A cabana era pequena. Toda feita de madeira e sem janelas. Era bem simples, tendo apenas o minimo pra alguém viver. Uma cama, um armário, um tapete vermelho em forma de circulo e uma pequena televisão antiga de quatorze polegadas que não estava ligada a nenhuma rede elétrica. Mas levando em consideração o mundo em que ela está é bem capaz dela ainda funcionar. James apertou o botão de ligar do aparelho. Como esperado ela ligou. Mostrando mais uma cena em preto e branco.

A TV mostrava o corpo de John Petrucci sendo ensacado e levado para um necrotério por dois médicos, os mesmos que estavam examinando o corpo de James na outra televisão. - Já é o quarto morto. O que vamos fazer? - James nem precisou ver o resto da cena pra entender o recado. A pergunta que fez momentos atrás foi finalmente respondida. Nervoso, James desejou voltar pro hospital com toda a sua força de vontade e abril a porta para sair da cabana. Não havia mais floresta do lado de fora. James agora se encontrava no lado de dentro de um hospital. Também não usava mais uma roupa militar, mas sim um jaleco de médico. As paredes e o piso eram tão alvos que as vezes davam a sensação de que se estava no paraíso. Sensação essa que desapareceu logo que James viu que as pessoas desse estranho hospital eram transparentes e não andavam, mas sim flutuavam de um lado para o outro, como fantasmas.

Apesar das diferenças bizarras, James foi capaz de reconhecer aquele hospital. Ele era uma representação do hospital na qual ele serviu de cobaia. Logo, o seu corpo podia estar em um dos quartos. Desesperado para voltar ao mundo real, James saiu procurando em todos os quartos de um em um, sem se importar com os vários fantasmas de médicos, pacientes e enfermeiras que passavam por ele. Não encontrou ninguém com substância ali, quanto mais ele mesmo. James amaldiçoou aquele mundo. Dava pra encontrar nele tudo o que você queria, menos o que mais precisava.

Como o tempo no sonhar não é convencional, James não podia saber se ficou sentado na recepção daquele hospital se lastimando por minutos, por horas ou por dias. Se ele quisesse poderia cruzar uma porta e ir para um outro cenário, mas não conseguia encontrar um bom motivo pra isso.

- Como você conseguiu entrar consciente no meu mundo? - O estado contemplativo de James tinha tudo para durar ainda mais. No entanto algo ou alguém o interrompeu. O hospital parecia não existir mais. Todo aquele cenário foi gradualmente se transformando no corpo de um gigante. Antes mesmo que pudesse se dar conta disso, James estava agora em cima da palma da mão direita daquele colosso. A diferença de tamanho entre os dois era tão grande que James estava parecendo um grão de areia se comparado com o tamanho da entidade.

O gigante se vestia todo de preto, tinha um penteado de cabelo cheio e espetado e a pele bem pálida. Se o encontrasse no mundo real, James teria achado graça de ver um sósia do The Cure na sua frente. No entanto, no sonhar, James estava com mais medo do que nunca. O olhar enraivecido de uma criatura de uns setenta andares de altura não é a coisa mais agradável de se ver.

- Como ousa infringir as regras do meu reino sagrado?

- Não foi minha intenção, juro! Só quero voltar pra casa! - Disse James aterrorizado demais até mesmo pra ficar de olhos abertos. Só teve coragem pra voltar a abri-los quando sentiu alguém cutucando em suas costas. O outrora gigante agora tinha uma estatura mediana. Mais alto do que James só por alguns centímetros de diferença. - Ok. Mas você ainda não respondeu minha pergunta. Você e seus amigos trouxeram morte ao meu mundo. Nunca aconteceu isso aqui antes. Por que vocês simplesmente não acordam quando morrem como os outros sonhadores?

- Não sei de nada eu só quero... Escute. Eu e "meus amigos" somos só um bando de desempregados que se ofereceram para serem cobaias de um medicamento experimental. Não temos culpa de nada, nós... A culpa é desse remédio maldito!

- Ok. Você sabe quem é o responsável por esse remédio.

- Sim eu sei, é um laboratório que... - James não teve tempo de terminar a sentença. O corpo do rei do sonhar foi se esfarelando até virar apenas cinzas. Essas cinzas se condensaram e se transformaram em uma espessa fumaça negra. Tal fumaça se movimentava de um jeito que parecia ter vida própria. Sem dar nenhuma oportunidade a James de defesa ela entrou pela sua boca adentro.


Quando James voltou a si ele estava sentado na frente de uma mesa em uma sala quase vazia e claustrofóbica usando algemas. - Ótimo. - Pensou. - Que sonho esquisito é esse agora? - Sentado no lado oposto da mesa estava um homem vestido de terno e gravata com pinta de policial de filme americano.

- Ok, nós já temos todas as provas de que precisávamos. Agora só nos falta saber o motivo. - Disse o policial.

James ficou calado, sem saber o que responder. O policial então continuou. - A defesa pode alegar que o senhor estava com capacidade reduzida. Sobre o efeito de drogas não testadas. Sinceramente torço pra que eles consigam sua absolvição com isso, mas o que o senhor fez não ajuda em nada. - James escutava o que o policial dizia sem muito interesse. - Será que estou sonhando com um seriado policial agora?

O policial entregou a ele uma pasta de arquivo contendo várias fotos de pessoas assassinadas. - É. Definitivamente estou sonhando com o C.S.I.. - Pensou James. Que só começou a levar sua situação mais a sério quando reconheceu aquelas vítimas. Todas elas trabalhavam no laboratório do Sperantus.

James começou a suar frio. Uma sensação que era impossível de se ter quando se está sonhando. Ao prestar atenção as coisas ao seu redor ele percebeu também que nada era colorido demais ou exagerado. Tudo parecia assustadoramente real agora.

- Você matou quarenta pessoas. Precisamos saber o porquê. - A revelação do policial só fez com que o mal estar de James piorasse ainda mais. Agora sua visão começava a ficar turva. - Hei, você está bem? - Sem conseguir abrir a boca nem pra pedir ajuda, James só pôde ficar imóvel enquanto seus olhos reviraram e sua consciência ia embora. - Ajuda aqui! - Gritava o policial enquanto esmurrava a porta da sala. - O suspeito apagou! - Em poucos minutos uma equipe de médicos entrou para dar os primeiros socorros. Depois o desacordado James foi levado a um hospital. E lá permanece dormindo no leito de um hospital. Do lado de fora do quarto um médico tenta consolar os pais do paciente. - Sei que essa notícia é difícil. Mas infelizmente o filho de vocês está em coma.