DR. SIN

O hospital Santa Cristina atende diariamente dezenas de casos de emergência. Em sua grande maioria vítimas de acidente automobilísticos, facada e tiro. Grande parte dos pacientes vão pra lá por causa de bebida alcoólica. Ou porque brigaram em um bar ou porque achavam que podiam dirigir mesmo com várias garrafas no juízo. Anette é enfermeira no Santa Cristina já faz uns seis anos. Durante esse tempo ela acabou desenvolvendo uma fobia. De tanto atender pacientes que ficaram gravemente feridos em baladas noturnas ela acabou tendo pavor de festas ou qualquer evento que tenha muita aglomeração de gente.

Em uma noite corriqueira de trabalho, Anette foi apresentada a mais dois acidentados. Ela ainda não sabia, mas aquilo iria mudar completamente sua vida.- Quem trouxe essa dupla pra cá disse que eles brigaram um com o outro até ficarem nesse estado. - Disse Mateus, um dos médicos do Santa Cristina, que apontava para dois sujeitos que estavam deitados em macas ao seu lado. Todos estavam muito feridos e desacordados. Um deles era um homem negro, forte e todo vestido de preto. O outro era pálido e esquelético, mas muito alto. Anette olhava para os dois já com uma expressão de desapontamento. Devido aos seus anos de prática ela já deduzia que isso tinha relação com os bares ou a casas de show da região.

- O negão aqui teve duas costelas quebradas, algumas lesões cranianas e levou três facadas. Vai pra cirurgia. - Disse Mateus.

- Credo! Ainda tá vivo?

- Esse outro aqui tem várias escoriações e... - Pausa de quase um minuto, enquanto checava os sinais vitais do magrelo - "Êta" porra esse aqui já era!

Anette levou o paciente que ainda estava vivo, o "negão", para a sala de cirurgia enquanto um residente se encarregava de levar o falecido até a ala do necrotério. Vinícius era um estudante muito esforçado. Tinha vários planos para sua carreira. Mas a vida é uma caixinha de surpresas. Essa viagem que agora Vinícius está fazendo com o morto até o necrotério, um procedimento banal que já virou rotina para ele, será a última.

- Ué? Não tinha uma perfuração aqui? - A equipe médica encarregava de fazer a cirurgia do paciente negro, que agora estava vestido com um camisolão hospitalar, era composta por Mateus mais dois médicos, um anestesista e duas enfermeiras, Anette e uma amiga sua. A cirurgia estava prosseguindo de modo normal, até um dos médicos fazer uma estranha afirmação.

- Como assim? - Perguntou Anette.

- Podia jurar que a vítima tinha três perfurações.

- Sim, está certo. A vítima levou três facadas. - Respondeu o anestesista.

- Então porque só estou vendo duas?

Mateus começou a tatear o tronco do paciente a procura da terceira perfuração. Não a encontrou e, pra piorar, teve a estranha impressão de ter visto um dos cortes do paciente se fechando sozinho.

- Algum problema, Mateus? - Perguntou Anette ao notar a cara estranha que o médico fez.

O médico demorou de responder. Antes de falar qualquer coisa ele tinha que ter certeza do que estava presenciando. Mateus ficou encarando a ferida aberta do paciente até o efeito voltar a aparecer. A ferida estava se fechando. Como se o corpo do paciente fosse capaz de se recuperar sozinho.

- Mateus, estou falando com você!

- Psiu! Agora não, Anette! Hei, todo mundo, parem um pouco o que estão fazendo e olhem para o paciente.

- Mas, Mateus, o paciente está em estado grave. Não pode esperar e... - Dessa vez Mateus nem se deu ao trabalho de abrir a boca para interromper Anette. Apenas fez um sinal de basta com a palma da mão direita e, logo em seguida, apontou para uma das feridas do sujeito. Ficou quase meio minuto com o dedo indicador apontado para o machucado até um dos seus colegas perceber o que ele queria mostrar.

- Caralho! O homem está se curando sozinho!

Levou quase cinco minutos para os médicos "processarem" o que estavam presenciando. Depois de passado o susto, o grupo resolveu registrar o ocorrido filmando o progresso espantoso do paciente. Pra sorte de todos um dos residentes tinha um irmão que fazia jornalismo. Graças a isso foi fácil arranjar uma câmera digital profissional com tripé e tudo. Enquanto o paciente era filmado, Mateus pessoalmente tirou uma amostra de sangue do desconhecido e levou para o laboratório para analisar. Os primeiros testes deram resultados estranhamente normais. Não tinha nada de excepcional entre a amostra de sangue desse paciente se comparado a de tantos outros.

- O sujeito ainda está se recuperando sozinho? - Perguntou Mateus a outro médico que a pouco estava na sala de cirurgia com ele cuidando do paciente que se regenerava sozinho.

- As perfurações sumiram e as costelas quebradas estão se ajeitando. Só falta agora ele também conseguir se curar do traumatismos craniano. Rapaz, isso não é coisa de Deus não.

Praticamente o Santa Cristina inteiro estava em polvorosa com o caso do paciente misterioso. Palavras como "milagre" e "isso é coisa do diabo" era o que mais se ouvia. Não demorou muito para que jornalistas de programas sensacionalistas e policiais se intrometessem transformando o hospital em um circo. O povo estava tão assustado, maravilhado e eufórico que acabaram por se esquecer que o paciente misterioso não havia chegado ali sozinho. O outro sujeito enviado com ele, que agora estava no necrotério, tinha propriedades igualmente ou ainda mais espantosas. Era isso que o médico legista e Vinícius estavam acabando de constatar.

- Os caninos do paciente são super-desenvolvidos. - Disse o legista enquanto gravava tudo com um aparelho de fita cassete bem velho. Com mais de trinta anos de profissão, Valdemar gostava de trabalhar a moda antiga. Com sessenta anos de idade, ele além de tudo era manco. Devido a um acidente de carro no tempo de faculdade.

- Um vampiro?

- Não viaja, garoto. Já vi esse tipo de má-formação umas quatro vezes. São bem raras, mas não têm nada de sobrenatural nisso.

- Sem sinal de fratura, hematomas ou perfuração com objeto cortante. - Disse Valdemar. - Estranhamente ele parece ter morrido de causa natural, não decorrente de uma briga de rua. Acho que Mateus deve estar é fumando doido e acabou levantando o histórico errado desse paciente.

- O que a gente faz agora?

- Engaveta esse aí. Se ninguém reclamar o defunto a gente vai ter que colocá-lo como indigente.

Seguindo as ordens de seu superior, Vinícius pegou a maca do defunto e a empurrou até o fim da sala. A maca era projetada para que a parte superior fosse facilmente destacável da inferior, onde ficava as rodas e o apoio. Assim o trabalho de transportar o cadáver para dentro de uma das gavetas não deveria durar mais do que três minutos. No entanto, Vinícius comete um erro na hora de destravar a maca e acaba ferindo o dedo polegar da mão esquerda. Um corte superficial que não recebeu muita da sua atenção. Até porque algo mais urgente estava acontecendo. O presunto estava se recusando a entrar na gaveta. O pobre residente nem teve tempo de gritar por ajuda. Seu grito foi abafado por mãos fortes que taparam-lhe a boca. Antes que pudesse entender o que estava acontecendo, Vinícius sente uma forte mordida no seu pescoço.

Anette estava começando a ficar nervosa. A aglomeração causada pelo entra e saí da polícia, de jornalistas e de curiosos estava fazendo com que sua fobia atacasse. Mesmo assim ela tentou segurar a onda. Muitos pacientes que não tinham nada a ver com essa bagunça ainda precisavam de sua ajuda. Ela estava indignada. Insensíveis ao estado dos outros pacientes, várias pessoas enchiam os corredores só para se encontrar com o novo "santo" do momento. Os jornalistas faziam a festa entrevistando os indivíduos mais bizarros que vieram em busca de seus quinze minutos de fama. Naquele fuzuê podia-se encontrar um pouco de tudo. Desde profetas do apocalipse e crentes estéricos usando paletós que visivelmente não eram do seu número até adolescentes e idosos que não tinham o que fazer.

- Que porra é essa? Tira todo mundo daqui! - Ordenou o diretor do hospital. Senhor Jorge que, junto de um pequeno grupo de médicos e enfermeiras, tentava impedir que a multidão invadisse o quarto do suposto santo.

Enquanto todos estavam prestando atenção para a confusão, uma figura que aparentava estar passando muito mal praticamente se arrastava em direção a multidão. De cabeça baixa, com os pés mal saindo do chão, não demorou muito para chamar a atenção de uma das enfermeiras. Até porque tal figura era alguém bem conhecido no Santa Cristina. Era o residente Vinícius.

- Viny? Tu tá bem cara? AAAAHHHH! - Mal a enfermeira encostou sua mão no ombro de Vinícius e ela foi logo atacada. Uma mordida sangrenta na jugular. O grito que se seguiu ao ataque deixou todos em alerta e bastante assustados. O local que já estava bastante claustrofóbico se tornou insuportável quando a multidão começou a correr em pânico. O empurra-empurra e a correria acabou fazendo com que pessoas se machucassem. Algumas inclusive acabaram sendo pisoteadas havendo até um óbito. No meio de toda aquela confusão, mais assustada do que nunca, Anette não conseguiu fazer mais nada além de se agachar próxima a parede esperando que esse pesadelo acabasse.

BLAM! BLAM! BLAM! Um dos policiais que estava presente no local disparou três vezes contra Vinícius, mas para o seu espanto o único efeito que conseguiu foi fazer com que ele desse alguns passos para trás. Antes que pudesse atirar de novo, o policial é atacado e acaba recebendo uma mordida no pescoço. Nesse mesmo instante, a enfermeira que fora atacada por Vinícius que todos já julgavam como morta se levanta do chão. Ensanguentada e com movimentos letárgicos que nem o próprio Vinícius.

A confusão estava tão intensa que ninguém viu, ou se importou, quando o suposto "santo" despertou de seu estado de inconsciência. Visivelmente confuso, mas não assustado. O paciente misterioso saiu de seu quarto enrolado no cobertor de sua cama, pois estava vestido apenas com o camisolão do hospital. Que não protegia nada. Sem se importar com o pânico no hospital, o paciente misterioso procurou calmamente pelas roupas pretas que estava usando quando foi levado pra lá. Não demorou muito para encontrá-las. Hospitais costumam guardar os pertences dos pacientes no deposito. Como já passou por uma situação semelhante antes, o rapaz foi direto pra lá. No deposito encontrou umas quatro estantes com várias caixas de papelão. Abriu tantas quanto foram necessárias até encontrar a que guardava suas roupas. Agora já totalmente vestido. Com sua jaqueta de couro, camisa, calças compridas e botas pretas, o paciente misterioso voltou sua atenção ao pânico generalizado que atingia o hospital.

Como muita gente já tinha fugido porta a fora, o hospital estava bem mais vazio. No entanto ainda havia quem permanecesse por lá. Pois muitos pacientes estavam debilitados demais para saírem dali sozinhos e porque havia médicos, enfermeiros e funcionários éticos demais para abandonar os doentes a própria sorte. Todos eles se trancaram com os pacientes nos quartos, afim de protege-los. Anette também permaneceu no hospital, mas não pertencia a nenhum dos grupos acima citado. Ela continuava agachada próxima a uma parede, pois estava muito apavorada para sair dali. De onde estava ela foi capaz de assistir ao suposto santo todo vestido de negro massacrar várias pessoas conhecidas dela com as próprias mãos. Pra deixar a situação ainda mais assustadora e surreal. Todos os seus amigos que eram abatidos pelo assassino vestido de negro se transformavam instantaneamente em pó.

Tirando a apavorada Anette e o sujeito vestido de preto, não havia mais ninguém no corredor. O hospital estava uma bagunça só. Várias coisas jogadas no chão, cadeiras e objetos derrubados. Parecia que um furacão havia passado por lá.

Assim que o sujeito vestido de negro saiu de vista Mateus que assistia a tudo pela pequena janelinha da porta de um dos quartos foi correndo em direção de Anette tentando tirá-la de lá. - Menina, vamos sair daqui antes que ele volte! - Foi difícil fazer com que a moça se levantasse. Ela estava tão frágil que parecia ter regredido até um estado mental mais infantil. Primeiramente Mateus tentou levar Anette para um dos quartos e colocá-la junto com os outros que se escondiam por lá. Mas, como ela estava mentalmente muito abalada, ele preferiu arriscar acompanhá-la até a saída do hospital – Olha gente, vou ter que tirar ela daqui. - Disse Mateus aos seus colegas que estavam com ele escondido no quarto.

- Rapaz, mas o monstro tá aí a solta! - Disse um dos médicos se referindo ao paciente que a poucos minutos atrás o povo estava quase beatificando.

- Olha para o estado dela. Ela não vai aguentar ficar aqui. - Após dar o seu recado, Mateus se aventurou pelos corredores levando Anette apoiada em seu ombro. Ela estava tão abalada que nem conseguia andar direito.

Ao chegar na recepção, Mateus e Anette testemunharam uma cena bastante esquisita. Os dois pacientes que foram levados pro Santa Cristina por brigarem entre si estavam brigando novamente. O homem misterioso vestido de negro e, o que era mais estranho, o grandão pálido que havia sido levado ao necrotério. Os socos e pontapés trocados entre os dois eram tão fortes que quando pegavam na parede tiravam pedaços do tijolo. Aquela inusitada dupla estava brigando bem na frente da saída do hospital. Ou seja, Mateus e Anette só tinham duas opções. Ou se arriscavam a sair mesmo com os dois ali ou esperavam até que houvesse um ganhador dessa disputa.

Após ser derrubado com uma rasteira, o lutador pálido ficou caído no chão de barriga pra cima. O lutador negro se aproveitou da vantagem e ajoelhou-se sobre o peito do pálido imobilizando-o. Após isso, ainda imobilizando seu oponente, o homem de preto pegou uma cadeira que estava bem próxima a ele e quebrou uma das pernas, improvisando algo que se assemelhava muito a uma estaca de madeira. Após enfiar a estaca no peito do oponente a luta chega ao fim e, o que era mais impressionante, ao ser mortalmente ferido o homem pálido se transforma em pó quase que instantaneamente.

Anette e Mateus ficaram paralisados. Com medo de que agora o homem vestido de preto voltasse sua atenção para eles. No entanto, não foi isso que aconteceu. Após derrotar o homem pálido, o sujeito misterioso saiu calmamente pela porta da frente do hospital e, antes que percebessem como, ele já havia sumido de vista.

- O que era aquilo? - Perguntou Mateus. Como não obteve resposta, ele se virou para olhar pra Anette. Ficou preocupado ao perceber que ela estava com um estranho olhar vidrado. - Anette? Tudo bem? - A moça não respondia. Estava em estado de choque. - Hei, pessoal! Ajuda aqui! - Quando os colegas ouviram o pedido de ajuda desesperado de Mateus foram correndo a seu auxilio. Tentaram reanimar Anette de tudo que era jeito, mas ela permanecia imóvel. Sem reagir a nada.