SPACE METAL

Todo bairro ou cidade do interior tem um "maluco beleza". Seja um mendigo que só fala besteira ou uma pessoa que se perdeu na religião e passou a dar sermões sem nexo. A pequena cidade litorânea de Anajé também tem o seu. No caso é um velhinho franzino que faz muito sucesso com as crianças da região contando histórias de heróis, mitologia e aventuras.

O velhinho era bem conhecido na cidade, por isso os pais não se importavam de ver seus filhos conversando com ele. O julgavam como um maluquinho inofensivo. O velhinho vivia no segundo andar de uma casa velha que ficava bem próxima à praça da cidade. O ponto de encontro mais movimentado de Anajé, apesar de não ter muita coisa de interessante por lá, a não ser os bares.

A casa do velhinho, cujo nome praticamente ninguém sabia, mais parecia uma biblioteca. Tinha mais livros do que qualquer outra coisa. Os livros eram velhos. Mas era de se impressionar do que eles tratavam. Religião, filosofia, física quântica. Apesar de aparentar não ser mentalmente saudável, pela coleção literária exposta, o velhinho parecia ser bem erudito. Ao menos era o que a maioria das pessoas pensavam, principalmente ao ouvirem ele falar. O nível de escolaridade de Anajé é muito baixo, por isso era comum encontrar alguns anajenses acreditando que a loucura do velhinho era causada por ele ler em excesso.

Anajé é uma cidade litorânea. O turismo não é lá muito desenvolvido, mesmo assim em épocas festivas como o Carnaval, São João e Ano Novo a população da cidade chega a dobrar com a chegada dos turistas. Nesse Carnaval, entre esses turistas está Marcos. Um jovem psicólogo que junto da esposa e de seus dois pequenos filhos gêmeos veio passar alguns dias na cidade. Marcos e sua família não eram muito ligados em festa, então trataram logo de se afastar da capital. Alugaram uma casa de um amigo de Marcos do tempo da faculdade, Reginaldo, que ficava próxima a praia de Anajé. O psicólogo tinha disponível uma semana de férias. Planejava aproveitar seus dias ao máximo, mas seu amigo vai acabar atrapalhando seus planos.

Marcos soube da história do velhinho no terceiro dia que chegou à cidade, quando seu amigo Reginaldolhe pediu um favor que envolvia guardar um segredo. Na ocasião os dois estavam sozinhos, em um dos bares da cidade, tomando cerveja.

- Marcos? Sabe aquele velhinho boa praça que é quase uma atração turística da cidade? - Perguntou Reginaldo ao psicólogo.

- Sim. O que é que tem?

- Quero que fique só entre nós. Ele é meu pai. – Essa revelação fez com que Marcos quase se engasgasse com a cerveja que estava engolindo.

- Reginaldo, eu...

- Sabe, já que você tem essa experiência com loucos e coisa e tal você poderia dar uma olhada nele hoje? Sei lá. Ver o que ele tem.

Marcos pensou bastante antes de dar uma resposta. – Reginaldo, as coisas não são assim. Um tratamento geralmente leva tempo, se gasta dinheiro com remédios e, às vezes, precisa-se até de internação. Se bem que acho que não é o caso, já que ele é bem calmo, mas...

- Por favor, só dê uma olhada nele pra mim! É a única coisa que peço.

- Eu não faço milagre. – Marcos às vezes amaldiçoava os filmes de Hollywood. Eles passavam uma ilusão do psicólogo milagroso. Que com duas ou três sessões resolvia todo tipo de problema. – Mas por que você não o leva para a capital?

- Pô, cara. Não quero que o pessoal daqui fique sabendo que ele é meu pai.

Marcos saiu daquele bar com muita raiva. Primeiro se decepcionou com seu amigo que era capaz de renegar o próprio pai. Segundo teve raiva de se mesmo por não saber dizer "não" a um pedido. Essa não foi a primeira vez em que alguém o faz fazer algo que não desejava. E pra piorar nas suas férias. Marcos até cogitou em descumprir sua promessa e deixar isso pra lá, mas era ético demais pra isso.

Sete horas da noite, Marcos inventou uma desculpa qualquer a sua esposa e a seus dois filhos e tratou logo de ir até a bendita casa do velhinho dar um diagnostico rápido sobre seu caso. O psicólogo não planejava demorar muito. Queria que a "consulta" durasse no máximo uma hora.

Não foi difícil fazer com que o velho o deixasse entrar na casa. O idoso era boa praça. Parecia havido a agradar todo mundo o tempo todo. - Isso poderia ser sinal de baixa auto-estima. - Pensava Marcos. A casa do velho era bastante empoeirada. Parecia que não via uma faxina há muito tempo.

- Não quero incomodá-lo, senhor – Dizia Marcos. – É que seu filho pediu pra eu ter uma conversa com você.

-Mais que milagre! Ele se lembrou que tem pai. – Marcos começou a sentir um pouco de pena, mas tentou não alimentar muito esse sentimento. Queria ficar emocionalmente bem distante desse problema de família.

- Você sabe o que sou, certo?

- Sim.

- Então? Quer conversar sobre alguma coisa? Alguma coisa que o preocupa talvez?

A conversa entre Marcos e aquele idoso franzino demorou uns trinta minutos. O psicólogo ficava tentando entrar na vida intima de seu "paciente", mas o velhinho sempre se desviava das perguntas mais relevantes. Ao decorrer da conversa, Marcos até chegou a cogitar que ele não sofria de nenhuma doença mental de fato, mas que havia escolhido levar a vida que leva como forma de fugir da sua realidade. Marcos não sabia como era a história de vida daquele velho, mas presumia que ela deveria ser bem sofrida. Só podia, pra ele se esquivar tanto assim.

- Estou com sede. – Disse o velhinho. – Aceita um suco? – Marcos gostaria de dizer "não", mas como tinha problema em dar essa resposta ele acabou aceitando o convite. – Droga. – Pensava Marcos. – Não quero me demorar muito aqui.

Enquanto o velhinho ia para a cozinha preparar o suco, Marcos ficou prestando atenção naquela ampla sala. Olhando atentamente para todos os detalhes.

Aquela sala era comprida, mas parecia um corredor. As paredes pareciam que eram originalmente pintadas de branco, mas estavam tão encardidas que agora tinham ganhado um tom amarronzado. Não havia televisão, telefone, tapetes... A única coisa que tinha era dois sofás velhos, um de dois lugares e outro de três virados um ao lado do outro, e quatro amplas estantes repletas de livros.

Após dois minutos olhando atentamente para as paredes, Marcos percebeu que uma parte dela não era de fato uma parede, mas sim um pano comprido pintado com o mesmo tom de marrom da parede. Marcos ficou curioso e, deixando de lado o seu bom senso, acabou por decidir checar o que aquela cortina escondia. Maldita a hora que ele resolveu fazer isso. Aquele pano escondia uma sala que o psicólogo desejaria nunca ter visto em sua vida.

A sala secreta mais parecia uma garagem. No entanto ela não guardava nenhum carro, moto ou qualquer outro veiculo convencional. Até porque não tinha saída pra rua. Dentro daquele espaço havia um amontoado de ferro velho que se assemelhava a um foguete. O trambolho estava em uma posição inclinada apontando para o teto. Ele era sustentado por uma base de madeira, que fazia com que a nave não caísse.

Marcos aproximou-se e percebeu que havia um buraco na parte intermediaria daquela nave. O buraco não era muito grande, mas dava pra caber uma pessoa lá dentro. Isso é, se a pessoa em questão não se preocupasse com conforto. Dentro daquele buraco apertado a pessoa teria que disputar espaço com uma pequena cadeira de madeira e um painel de controle improvisado feito com marchas de carro e um volante grande que parecia ter saído de um caminhão.

O foguete havia sido criado com pedaços de vários carros. O que dava um visual meio Steampunk ao trambolho. Marcos achou aquilo interessante. – Ele é um artista, então. – Pensou o psicólogo. Eis que ele acaba notando um forte cheiro de gasolina. Não demorou muito pra notar que aquele troço tinha motor. Isso preocupou Marcos. Ele temeu que, se alguém tentasse ligar aquela coisa, uma tragédia acontecesse. Como uma explosão ou algo do tipo.

- Não era pra você ter visto isso! – Protestou o velho ao entrar na sala secreta, interrompendo assim a investigação de Marcos.

- Pra que serve isso? – Perguntou o psicólogo, já temendo a resposta.

- Pra voar é claro. Que outra serventia uma nave teria? Vou voltar pra casa.

- Casa? Mas essa já não é sua casa?

- Hehe. Não meu jovem. Minha casa de verdade.

- Pense em um mundo muito mais avançado que esse. Onde as pessoas são eternamente jovens e não precisam mais temer a morte. Um lugar cujo a moral é muito mais evoluída. Onde não há crimes, violências ou injustiças. Eu vim desse lugar. Um paraíso. Mas, infelizmente, acabei sendo forçado a vir pra cá por causa de erros cometidos no passado. Essa foi minha cruel sentença. Vir pra esse inferno!

- Você odeia mesmo essa cidade, né?

- Não me entenda mal. Mas, comparado ao meu planeta, aqui é um pesadelo! Porém, por pior que aqui seja, acabei amando e constituindo família nesse mundo. Não sou capaz de voltar para o meu verdadeiro lar deixando meu filho nesse lixo que vocês chamam de Terra. Isso é a única coisa que me prende aqui.

Marcos não acreditava em Deus, mas caso acreditasse iria agradecer aos céus pelo velhinho não ter ligado aquela geringonça. No entanto, o psicólogo não podia mais deixar que a sorte guiasse o destino daquele pobre coitado. Apesar de não gostar da ideia que teve, Marcos não conseguiu encontrar outra opção que não fosse enganar o já perturbado velhinho. - Vou ligar pro seu filho. Sou amigo de Reginaldo. Tenho certeza que ele virá com o meu pedido. - Os olhos do velhinho chegaram a brilhar. Isso quase cortou o coração de Marcos.

Em menos de meia hora a ambulância havia chegado. Marcos de fato havia ligado pro seu amigo, só que pra ter o seu consentimento sobre o que ia fazer. Com a resposta positiva de Reginaldo, Marcos ligou pro sanatório. Dois homens fortes vestidos de branco, funcionários do sanatório, entraram na casa do velhinho esperando encontrar resistência, no entanto o velhinho não criou empecilhos para ser levado dali. Bastou um deles para leva-lo até a ambulância. O outro foi ter uma conversa com Marcos. - Foi o senhor que chamou a gente, né?

- Foi.

- Porra. Mas você disse que o paciente era perigoso. Esse aí não faz mal nem a uma mosca.

- É mesmo? Vem ver uma coisa aqui então, espertinho. - Marcos tirou a cortina que escondia a sala secreta e mostrou ao funcionário do sanatório a estranha máquina criada pelo velhinho "inofensivo". O enfermeiro não conseguiu fazer outra coisa a não ser ficar boquiaberto com os olhos esbugalhados. Por fim soltou um: - "Caralhoooo, véio"!

Deixando o surpreso enfermeiro pra trás, Marcos foi até a ambulância conferir se o velhinho estava sendo bem tratado. Isso foi um erro. Sozinho na sala secreta, o enfermeiro foi achar de ser curioso. Subiu na nave e começou a mexer nela como se fosse uma criança se divertindo em um brinquedinho de parque de diversões. Enquanto o enfermeiro só ficava girando o volante e mexendo na alavanca nada demais aconteceu. O problema só apareceu quando ele apertou aleatoriamente os botões do painel. Um deles dava ignição no motor e ligava a nave. O pobre enfermeiro não teve nem tempo de pensar no que estava acontecendo. A forte explosão que veio em seguida não deixou.

BOOOOMM! A explosão levou aquela casa pros ares. O primeiro e o segundo andar foram reduzidos a destroços e cinzas. Por "sorte" Marcos, o velhinho e o outro enfermeiro não foram feridos, pois a ambulância estava estacionada do outro lado da rua. - Meu Deus! - Exclamava Marcos que, devido ao seu nervosismo, tinha até se esquecido do seu ateísmo. Na parte de trás da ambulância, o pobre velhinho só conseguia se lamentar. - Nunca mais vou voltar pra casa.

As férias da família de Marcos se encerraram com aquela explosão. Assim que o psicólogo deu seu depoimento na delegacia ele e sua família decidiram sair de Anajé e voltar pra capital. Eles e a cidade não tinham mais o clima festivo de outrora. Todos estavam preocupados e assustados. Nunca aquela cidade sonolenta havia presenciado um evento tão violento como aquela explosão. Os anajenses não comentavam sobre outro assunto. - Sabia que não era boa ideia deixar aquele lunático tão perto de nossas crianças.

O pobre velhinho podia se considerar com sorte apesar de tudo. Se não fosse pelo fato dele ser considerado um maluco ele seria condenado por homicídio e por pelo menos mais umas três acusações. O que iria lhe render uns vinte e cinco anos de prisão. Se bem que como ele já tinha quase noventa anos isso não iria fazer muita diferença. O São Eliézer era o sanatório mais famoso do estado. Primeiro por causa de seu grande histórico de recuperações e segundo por abrigar alguns dos mais perigosos lunáticos. O pobre velhinho foi encaminhado pra lá. Um recorde, pois ele acabou se tornando o interno de idade mais avançada.

O São Eliézer ficava em um lugar bem isolado. Numa região de montanhas com muita área verde ao redor. Se não fosse pela natureza do lugar, até que dava pra considerá-lo bem paradisíaco. Esse hospício continha três prédios. Um prédio era da área administrativa, um era reservado para os internos mais comportados e outro para os mais perigosos. O velhinho estava entre os mais comportados. Até porque ele era quieto demais. Algo que não era visto com muito otimismo pelos médicos do hospício, pois achavam que ele estava entrando em um quadro de depressão. Numa tentativa de animar um pouco o velhinho, os médicos ficavam telefonando incessantemente para Reginaldo vir visitá-lo. Venceram o turrão pelo cansaço. - Nossa! Como alguém pode ser tão frio com o próprio pai?

A felicidade que o velhinho sentia ao ver o próprio filho não era reciproca. Reginaldo foi o mais frio e insensível possível em sua visita agravando ainda mais o estado já complicado do coroa. - Nossa! Esse aí é seu filho? - Perguntou um rapaz magro que, de longe, assistiu a turbulenta conversa entre Reginaldo e seu pai. - Se eu falasse assim com meu pai eu não iria conseguir sentar por uns três meses.

- Hehe. Vai ver foi isso que faltou na criação desse menino.

- Então? O que fez você ser trazido pra cá?

- Eu só queria voltar pra casa. Mas deu tudo errado. Ninguém me entendeu.

- Acho que posso entender seu dilema. Veja o meu caso. Eu só estava exorcizando um pobre rapaz que estava possuído quando a polícia apareceu. Eles também não conseguiram entender minha situação (ver Horror Punk). - O velhinho ficou encarando o rapaz por alguns segundos. Tentando decidir se acreditava no que ele dizia ou se o considerava um fanfarrão. Por fim acabou não ligando pra isso. Simplesmente estendeu sua mão e se apresentou. - Prazer, meu nome é Antônio.

- O prazer é todo meu. Pode me chamar de Martin. Escuta aqui Antônio. Quer ouvir minha ideia pra gente fugir daqui?