HERÓI? (PARTE 1)
"O medo de errar precisa ser grande o suficiente para você se cuidar, mas pequeno o bastante para a coragem prevalecer, e você tentar".
Bruno dos Anjos (Herói da Noite)
POV EDWARD
Quando eu era criança não era considerado um anjinho de candura, aquele ser meigo e gentil. Absolutamente não! Eu tinha alma de criança arteira e sagaz. Em minhas traquinagens, sempre arrastava Emmett, provocando um duplo alvoroço em nossa casa. Fomos inúmeras vezes flagrados por Esme e Carlisle, tentando escalar uma das várias árvores frondosas que ladeiam nossa residência em Forks.
Enquanto trajado de Super-Homem, sentia-me o verdadeiro Homem de Aço, invulnerável a tudo no Universo. Queria ser capaz de voar com a super capa vermelho-sangue da fantasia que ganhei em um dos meus aniversários, assim como, utilizar os distintos poderes pertencentes ao meu super-herói: a visão de raio-x; visão telescópica; visão de fogo, super sopro e sopro de gelo. No entanto, de maneira ingênua, havia dois detalhes importantes ignorados por mim: o fato de ser apenas uma criança e um ser humano comum!
Então, na adolescência, compreendi que super-heróis com seus super poderes, existiam somente em revistas em quadrinhos. Eram meramente frutos da imaginação e criatividade humanas, certificando-me assim, que tendo plena consciência da nossa dimensão terrena, limitada e finita, temos necessidades destas figuras para sobreviver, nem que seja no campo da ficção, porque nos dão a esperança de um mundo – sempre – melhor.
Quando adulto, assistindo uma aula de História da Humanidade, como matéria optativa na Universidade, fiquei hipnotizado quando o tema abordado e explorado foi a Guerra dos Cem Anos, que durou na realidade 116 anos, provocando milhões de mortes e a destruição de quase toda a França setentrional.
A personagem mais chamativa do conflito foi sem dúvida, Joana d'Arc; divinamente designada, segundo relatos antigos, a libertar a cidade de Orléans do jugo inglês, indo ao socorro de Carlos VII para coroá-lo rei da França.
Mas como uma pessoa comum, pobre e analfabeta como ela, conseguiu contribuir de forma decisiva para mudar o rumo de uma guerra sangrenta entre a França e a Inglaterra? Tal indagação foi respondida pelo próprio professor, na época. A atitude heroica da humilde camponesa foi movida pela fé inquebrantável.
E é por meio da mesma fé, que serviu de estopim para a tomada de decisão da corajosa Joana d'Arc, que encontro-me ajoelhado em meu quarto silencioso, fazendo uma prece, à minha maneira, na tentativa de que Deus possa me dar sabedoria suficiente para encarar a batalha final, porque eu não vou permanecer alheio ao que acontece à minha volta, como desejam meu pai e meu irmão, talvez receosos pela propensão de eu mesmo agir equivocadamente.
Sob meu ponto de vista, o fato de Emm e Carlisle tentarem amenizar a situação afirmando que eu devo dar algum crédito à polícia inglesa, visto que esta conseguiu interceptar o ônibus, não surtiu nenhum efeito positivo. Pelo contrário. Estou mais nervoso, apreensivo e com medo das possíveis consequências.
Uma pessoa, cuja faculdade mental, já não se encontra em perfeita ordem, é capaz de tudo: ferir, matar ou simplesmente não fazer nada. Porém, tratando-se de Tanya Denali, pode se esperar tudo.
E talvez, a única esperança de que isso acabe da forma menos traumatizante possível, seja eu me oferecer como 'moeda de troca'.
Se uma mulher simples, heroína de carne e osso como Joana d'Arc, conseguiu um feito glorioso, mesmo tendo um fim trágico, então também posso cogitar algum êxito na tentativa de salvar a vida da única mulher que amei em 23 anos de existência. Para isso, precisarei me reportar imediatamente aos responsáveis pela operação tática.
Pressentindo que o tempo encurtava, levantei-me do chão, fitando por um momento a cama de solteiro que outrora, testemunhou inúmeras vezes a consumação do nosso amor.
_Edward? – a voz abafada de Alice ecoou através da porta fechada, despertando-me das minhas lembranças.
Caminhei lentamente até a porta, ainda inebriado pela emoção, abrindo-a, encarando duas orbes esverdeadas idênticas às minhas, completamente sem brilho, fincadas em um rosto completamente devastado pela complexa situação.
_Oi, Aly – cumprimentei-a em um tom pesaroso, abraçando-a por algum tempo, desajeitadamente, devido às suas muletas recém adquiridas. _Chegou agora? Jasper trouxe você? – fitamo-nos perdidos em nossa própria dor, ao mesmo tempo em que ela acenava a cabeça afirmativamente, com seus olhos marejados.
_Co-como... como essa tragédia aconteceu, Edward? – gaguejou, com sua voz embargada.
_Ninguém sabe – dei de ombros, engolindo em seco ao tentar travar a emoção iminente. _Acho que podemos nos comparar a um cego em um tiroteio. Completamente perdidos no escuro, sem saber quem é bandido e quem é mocinho. Se bem que nesse caso, a única certeza que tenho é que a mocinha chama-se Isabella, mas o bandido ou bandida... – respirei fundo - pode ser ou não a Tanya – murmurei para mim mesmo, tentando acreditar em meu íntimo que poderia ser outra pessoa.
_Só pode ser ela, Edward. Não cogito nenhuma outra possibilidade. Cristo! O nosso pior pesadelo está se confirmando. Implorei para Jasper me trazer até aqui, assim que vimos o ocorrido pelo noticiário esportivo. Droga! Droga! Droga! Maldita seja! – abracei-a novamente, dessa vez mais apertado, na intenção de juntarmos nossos cacos. Suas muletas foram ao chão ao retribuir o meu abraço, chamando a atenção dos demais ocupantes do apartamento.
_O que houve? Alice, querida, você está bem? – escutei passos vindo em nossa direção e a voz preocupada de Jasper ecoou pelo corredor, forçando-nos a abandonar, por um momento, a nossa própria dor naquele abraço reconfortante de duas almas dilaceradas.
_Na-não, Jasper. Estou péssima. Não está enxergando? – falou, de forma dura com meu amigo, que apenas suspirou profundamente fechando seus olhos. A tensão da situação estava afetando a todos, até mesmo Jasper, o mais sereno do grupo.
_Querida, desculpe. Expressei-me mal. É óbvio que não está bem emocionalmente, aliás, nenhum de nós está bem, somente fiquei preocupado ao ouvir um barulho nessa direção – falou, a dois passos de distância de nós dois. Eu permanecia amparando o corpo de Alice enquanto a mesma estendia os braços na direção do namorado.
_Desculpe-me, Jazz. Não deveria ter falado assim com você. Justamente você que é a minha fortaleza em todos os momentos da minha vida. Por favor, me abrace. Eu... eu preciso disso – rapidamente ele a enlaçou pela cintura carinhosamente, beijando sua fronte, ao mesmo tempo em que ela se debulhava em lágrimas novamente.
Vendo aquela cena tão singela e íntima, foi inevitável lembrar da minha Bella. Como gostaria de tê-la em meus braços, totalmente segura. Senti inveja do casal à minha frente. Afinal, tinham um ao outro.
"Será que eu terei a minha garota de volta, sã e salva?", pensei, de forma vacilante.
"Claro que sim! Pare de ser pessimista!", repreendi-me mentalmente.
_Filha, não adianta entrar em desespero. Isso só estimulará o pânico – meu pai se aproximou do corredor, falando ternamente com Alice. _Venha para a sala. Você não pode ficar muito tempo em pé, senão seu tornozelo levará mais tempo que o necessário para se recuperar.
_Eu não me importo com a droga do meu tornozelo. Eu... eu só quero a minha amiga de volta – choramingou agarrada a Jasper enquanto o mesmo a pegava no colo, levando-a até a sala, sendo erguido por mim.
_Todos nós queremos, Aly – murmurei baixinho e cabisbaixo, enquanto agachava para pegar as muletas da minha irmã, e então, meu irmão se dirigiu a mim.
_Mano... – olhou-me seriamente. _Bella retornará para nós, mas infelizmente nesse momento, estamos de mãos atadas. Até a polícia está, mas temos que confiar em seus homens, afinal os caras têm treinamento de guerra hoje em dia. Eu também estou pilhado. Não esqueça que Rosalie também está dentro daquele ônibus – encarei-o por um momento antes de me pronunciar.
_A diferença, Emmett – falei sarcasticamente – é que a Rose não corre o mesmo perigo de vida que a Bella. Esqueceu para quem as ameaças de Tanya eram direcionadas? É a cabeça da minha namorada que está a prêmio, não a da sua – apontei o dedo em sua direção. Minha voz soou de forma áspera. Eu estava puto com tudo o que estava acontecendo. E odiei tal comentário.
_Não vou discutir com você, Edward – falou com sua voz grave, estreitando seus olhos em minha direção.
_Sem discussões, por favor – Carlisle intercedeu, polidamente. _Edward, já percebi a sua inquietação a respeito do assunto, e justamente para evitar possíveis desentendimentos vindos da sua parte, acho melhor procurarmos Aro. Provavelmente, ele nos dará respostas mais confiáveis que uma repórter. Quer dizer, isso se conseguirmos achá-lo – arqueou uma sobrancelha.
_Eu tenho de achá-lo, pai. É questão de vida ou morte, literalmente. E eu já tomei a minha decisão – deixei a última frase suspensa no ar.
_Decisão? Do que Está falando? – foi a vez de Alice interpelar.
Fitei momentaneamente cada rosto confuso à minha frente antes de revelar o que tinha em mente.
_Vou até o local em que o ônibus está. Pretendo fazer Tanya me escutar – aguardei alguém se manifestar.
_O QUÊ?! – minha irmã gritou. _Você pirou? Que ideia absurda é essa? Ah, mas não vai mesmo! – sua voz imperativa só me irritou mais ainda.
_E quem vai me impedir? Você? – perguntei debochadamente, cruzando meus braços na altura do peito.
_Você duvida? Eu estou munida com duas muletas. Posso muito bem achar outra função para elas – desafiou-me em um tom de ameaça, que eu poderia até achar graça, se não fosse a gravidade da situação.
_Ei, calma amor – a voz amável do meu amigo de nada adiantou para acalmá-la, pois continuou inquieta se remexendo no sofá.
_Alice, contenha-se! – Carlisle a repreendeu.
_Era só o que faltava mesmo. Você querer bancar o Super-Homem a essa altura do campeonato – Emmett se intrometeu, meneando sua cabeça, e lançando um riso irônico.
_QUAL. É. A. PORRA. DO. SEU. PROBLEMA? – sibilei pausadamente, para não estourar de vez o meu temperamento.
_Parem imediatamente com tamanha rispidez! E não estou pedindo. Estou mandando – a voz de Carlisle se elevou tornando-se mais incisiva, enquanto eu e Emmett apenas nos encarávamos. _Não é o momento para divergências, e sim de união. Esqueceram que não somos somente uma família, mas também um time? – meu olhava atentamente para nós dois. _Emmett, não ponha mais lenha na fogueira. Não provoque seu irmão. A situação já é tensa por si só. E Edward... – virou na minha direção – você não irá se ajudar e nem nos ajudar, se continuar descontrolado e agressivo. Serei obrigado a te medicar com tranquilizante. É isso que deseja? – perguntou com um semblante sério.
_Não – respondi, monossilabicamente, desviando meu olhar para a imagem na TV.
_Nunca fomos de discutir desse modo. É tudo culpa daquela vadia. Eu quero que ela vá arder no inferno, onde é seu devido lugar – Alice falou, chateada.
_Carlisle está certo. Devemos nos unir e pensar em algo que possa ser relevante para a polícia ter acesso a Tanya – Jasper se pronunciou, e prontamente concordamos com sua observação. Aproveitei para expressar minhas desculpas.
_Eu... peço desculpas a todos pelo meu mau comportamento, mas meus nervos estão à flor da pele – olhei diretamente para Emmett. _Desculpe, Emm. Você sempre foi meu parceiro.
_Está tudo bem, mano. Eu também não soube me expressar – sorriu torto, mostrando suas covinhas, e encurtou sua passada para me dar uma abraço de urso.
_É assim que um time vencedor joga – minha irmã falou, mais aliviada.
_Bem, eu não julgo a sua ideia, filho. Mas em uma situação agravante como a de hoje, em que há muita gente envolvida, deve-se prezar pelo bom senso. Você acha que a sua presença acalmaria os ânimos da Tanya? Será que ela concordaria em ouvi-lo ou sua presença só instigaria o ódio? – perguntou, com o cenho franzido.
_Pai, não faça pergunta difícil porque sinceramente não sei responder – bufei, frustrado.
_Ótimo! Eu esperava que respondesse isso – bateu de leve em meus ombros. _Acho que as autoridades competentes são eficientes o bastante para cuidarem desse caso, filho. Mesmo assim, vamos procurar Aro para tentar obter alguma informação relevante, uma vez que, os noticiários parecem bem repetitivos – deu de ombros, apontando na direção da TV de plasma, porém o canal sintonizado não era mais o esportivo, e sim, um jornal local da rede BBC, em que uma repórter falava ao vivo da estrada em que o ônibus permanecia parado. Por estar mais próximo da televisão, meu irmão pegou o controle remoto, aumentando o volume.
"... o que sabemos, a princípio, é que não se trata de um atentado terrorista, como foi especulado alguns minutos atrás, segundo informação transmitida por uma fonte da Scotland Yard a todos os veículos de comunicação. A informação foi divulgada a fim de tranquilizar moradores e turistas da capital inglesa e redondezas, visto que, sete anos atrás ataques suicidas coordenados deixaram 52 mortos em Londres.
Com base em dados de inteligência, a Polícia Metropolitana, informou que o ataque foi orquestrado apenas por uma pessoa, mas não maiores detalhes.
A situação é inusitada e no mínimo estranha, pois como uma única pessoa conseguiu sequestrar um veículo com mais de 20 pessoas em um lugar com o maior dispositivo de segurança desde a Segunda Guerra Mundial, contendo mais de 40 mil militares, policiais e agentes privados, com apoio dos serviços de inteligência? E qual o propósito do sequestro?
Bem, voltamos em instantes com a cobertura ao vivo da via expressa M6.
Sou Moira Mc Ginns falando diretamente para o canal BBC".
_Wow! Fiz bem em trocar de canal. Essa parece mais atualizada. Enfim, temos a confirmação de que a ação foi comandada por uma única pessoa. O que nos leva a crer... – Emmett se manifestou, sendo interrompido por Alice.
_Que a vadia é realmente a mentora – Alice disse entre dentre, quase rosnando.
_Bem, pelo menos o pânico não será generalizado. A polícia fez um bom trabalho em desmentir os rumores de uma possível ação extremista – Jasper opinou.
_Eu só gostaria de saber o mesmo que a repórter. Como é que uma única pessoa conseguiu ser tão ousada diante de um esquema de segurança tão reforçado? – perguntei, pensativo.
_Isso é o de menos agora, Edward. O que importa é o tempo que a Scotland Yard precisa ganhar para tentar convencer Tanya a se entregar sem causar danos a nenhuma vítima. Precisamos pôr em prática o que tínhamos em mente – Carlisle falou, referindo-se a achar o chefe da nossa delegação.
_Então, vamos – apressei-me em ir ao quarto para trocar de roupa, mas ouvia perfeitamente a conversa na sala.
_Emmett, Alice e Jasper, qualquer novidade nos avisem por mensagem – escutei meu pai falar.
Mal saí do quarto quando o som da campainha adentrou o ambiente. Dei algumas passadas até ver a figura de cinco homens na porta do meu dormitório, e graças a Deus, um deles era Aro.
_Olá, Carlisle. Como vai? Poderia falar com Edward? – ao ouvir meu nome, encurtei rapidamente as passadas ficando à vista dele.
_Olá, Aro. Tudo bem. Entre – meu pai deu passagem.
_Ah, olá Edward – cumprimentou-me, polidamente. _Olá a todos – reportou-se aos demais sendo cumprimentado pelos meus irmãos e Jasper.
_Como vai, Aro?
_Bem. Desculpe o incômodo, mas a minha presença aqui é devido à uma certa urgência – olhou-me enigmaticamente.
_Talvez a mesma urgência que a minha – falei.
_Pois bem, meu rapaz. Vejo que estamos em sintonia – deu um leve sorriso. _Talvez você seja a peça chave para que o jogo de uma única pessoa termine relativamente bem. E por isso, estou aqui com estes senhores – virou-se para os mesmos, fazendo as devidas apresentações. _Há dois policiais da Scotland Yard e dois agentes do FBI – os dois trajavam ternos impecáveis, muito semelhantes às duas figuras emblemáticas dos 'Homens de Preto'. Apenas os cumprimentei acenando a cabeça. _Eles vieram até aqui para que você possa acompanhá-los até a embaixada dos Estados Unidos.
_Tudo bem, Aro. Vocês chegaram em boa hora mesmo, pois eu e meu pai estávamos prestes a sair à sua procura, a fim de obter alguma informação concreta, visto que você é o chefe da nossa delegação e deve estar ciente do que se passa com cada atleta norte americano.
_Exato, Edward. Sou responsável por vocês, mas neste exato momento, sou meramente um porta voz. Você estará sob a guarda do FBI, à partir de agora, pois além de cidadão norte americano, é considerado uma vítima em potencial, assim como os demais passageiros aprisionados no ônibus. E como o FBI é a unidade primária do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, a principal prioridade investigativa do órgão nesse momento, é combater crime violento de relevo.
_Entendi perfeitamente. Estou à disposição das autoridades para ajudar no for possível. Eu só desejo que isso acabe, de preferência sem grandes traumas – finalizei a frase num sussurro.
_Então nos acompanhe, rapaz – a voz grave de um dos agentes foi suficiente para que minhas pernas obedecessem ao comando.
(...)
A embaixada dos Estados Unidos, instalada em uma área sofisticada, chamada Mayfair, região central da cidade, estava assegurada na parte externa por cerca de dez policiais fortemente armados, e ao menos três viaturas da Scotland Yard estavam estacionadas no quarteirão que abriga a representação diplomática. Não era um contingente muito significativo, por motivo óbvio, afinal o alvo não era a embaixada, mas talvez, por medida de segurança, prevenção nunca é demais. E toda a imponência dos policiais britânicos chamava atenção de alguns curiosos que passavam pelo local, talvez impressionados pela postura arrogante de alguns, um estigma advindo dos tempos em que a Polícia Metropolitana de Londres era considerada a melhor do mundo.
Conforme o veículo descaracterizado do FBI se aproximava do estacionamento privativo, senti uma expectativa desconhecida se apossar de mim. Torci meus dedos, que estavam entrelaçados e apoiados em cima das minhas pernas, sinalizando nervosismo, o que não passou despercebido aos olhos de Carlisle, sentado à minha direita enquanto Aro permanecia à minha esquerda.
_Edward, tudo vai dar certo – meu pai falou baixinho de forma otimista, mas seu pensamento não fez eco ao meu. Eu ainda estava com meu pensamento vacilante a respeito do desfecho da situação. Então, somente suspirei profundamente fechando meus olhos, e ao abri-los, vi que já adentrava o estacionamento subterrâneo, percebendo através do retrovisor central, o carro da polícia britânica, que nos escoltava, ficar para trás na parte externa.
Assim que o carro parou, a ansiedade aumentou. Afinal, eu estava vivendo algo inusitado e desconfortante.
Qual seria o tom da conversa? Será que concordariam com a minha intenção de ser 'moeda de troca'? Daqui a poucos minutos eu teria a minha resposta.
Saímos do veículo seguindo direto para o elevador. Assim que adentramos, vi um dos agentes apertar o botão do último andar.
Quando o elevador chegou ao sexto andar um dos agentes virou-se, dizendo:
_Vamos falar diretamente com o diretor. Portanto senhores, sigam-nos – ordenou com toda sua altivez de agente especial.
Apenas acenamos a cabeça afirmativamente e assim que os dois "homens de preto" nos deram as costas, eu e meu pai nos entreolhamos dando de ombros enquanto Aro apenas deu um risinho.
_Edward, o criminoso não é você – disse, com um meio sorriso.
O lugar em si era muito parecido com escritórios luxuosos de advocacia. Com certeza deveria ser diferente dos demais andares. Provavelmente era onde o embaixador ficava. Será que ele estaria presente na tal conversa do diretor comigo?
A tipologia do andar possibilitou separar o extenso corredor em dois lados distintos, onde no core central estava fincado um imenso balcão de recepção, contendo dois microvasos de uma planta exótica, alocados em cada extremidade do mesmo. Além disso, havia um computador, um telefone e uma recepcionista, aparentemente atarefada, que assim que nos avistou sorriu gentilmente.
Não foi preciso nos identificar, visto que, estávamos acompanhados pelos investigadores federais.
O corredor em que estávamos era iluminado por luzes âmbar, dando um ar de requinte ao lugar. E só então me toquei que já havia passado a hora do crepúsculo na cidade, normalmente iniciado às 17 horas, e ao olhar meu relógio de pulso, o ponteiro já indicava ser 18h45! Meu Deus! Eu estava há duas horas e quarenta cinco minutos sem ter notícias reais da Bella, se eu levasse em consideração o início da partida da semi final até o momento. Será que Tanya tocou em um fio de cabelo da minha garota? Será que Bella está bem? Essas informações a imprensa não poderia fornecer. Quem sabe o diretor do FBI possa sanar em parte a minha angústia?
Assim que uma porta dupla em cor de madeira, localizada no fim do corredor foi aberta, visualizei uma imensa sala com mobílias em madeira, um belíssimo lustre iluminando o recinto, uma enorme estante embutida na parede esquerda repleta de livros, um sofá grande de couro próximo à parede oposta, um imenso tapete persa incrustado no meio da sala, duas poltronas de couro giratórias que estavam de frente para uma longa mesa de madeira, e atrás desta figurava, em pé, um senhor de meia idade, com seus cabelos grisalhos e jeito bonachão. Mas como muitas vezes as aparências enganam, preferi aguardar pelo pronunciamento do próprio até chegar à uma conclusão final.
_Boa noite, senhores. Meu nome é John Miller. Sou diretor do Departamento Federal de Investigação. Sejam bem vindos à sala do embaixador, que gentilmente nos cedeu o lugar para que os senhores se sentissem um pouco mais à vontade.
Cumprimentamo-nos rapidamente, fazendo as devidas apresentações até o mesmo voltar a falar.
_Bem, como todos devem saber, hoje o dia está caótico. Trata-se de um dia atípico. A repercussão do incidente já ultrapassou as fronteiras do país, o que forçou a polícia a emitir uma nota, comunicando que não se trata de uma ação extremista, como vinham especulando. O embaixador está em constante contato com o Primeiro Ministro e com o nosso Presidente. O show deveria ser focado somente nos Jogos Olímpicos, mas alguém resolveu 'roubar' a cena – colocou suas mãos nos bolsos, lançando um meio sorriso, que pareceu algo natural para ele, menos para mim. Qual era a graça da situação? Continuei com a expressão impassível no rosto, porém internamente, eu estava em erupção. _Já fui informado que a sua namorada, a atleta Isabella Swan, recebia ameaças recorrentes da senhorita Denali, estou certo senhor Cullen?
_Correto – disse.
_Pois bem, meu rapaz. Vou explicar-lhe como está a situação no momento para que compreenda aonde desejo chegar.
_Perfeitamente – disse, com o semblante sério, mas internamente, ansioso por notícias verídicas.
_Por favor, sentem-se todos – indicou os assentos para que, tão logo, iniciássemos a conversa. Porém, os dois agentes que me acompanharam até aqui permaneceram em pé.
_Obrigado – disse, de maneira cortês. Meu pai e Aro também agradeceram, cada qual optando por um tipo de assento.
_Vou direto ao assunto – falou, com seus braços apoiados na mesa e dedos entrelaçados, olhando fixamente para mim. _Senhores... – desviou seu olhar para Aro e Carlisle e depois voltou a se fixar em mim - ...o chefe da operação entrou em contato diretamente comigo há meia hora para explicitar a situação, por isso designei dois agentes para seguirem até a Vila Olímpica para falarem com o chefe da delegação e consequentemente com você. A criminosa, por meio de um rádio transmissor, fornecido pela própria polícia foi enfática ao afirmar que só se pronunciaria a respeito do assunto em sua presença, senhor Cullen – levei um tempo processando a informação, até que a curiosidade sobre algo que ele reportou me atingiu em cheio.
_Mas... como a polícia forneceu um rádio transmissor à Tanya e perdeu a oportunidade de dominá-la? – perguntei, num misto de incredulidade e irritação.
_Veja bem, senhor Cullen. Nem tudo na área da segurança funciona de forma prática e muito menos como desejamos. Se fosse assim, não seria necessária a sua presença aqui correto? – lançou um sorriso enviesado que só me irritou, mas contive meu 'ânimo'.
_Sim, senhor – concordei a contra gosto.
_Então, deixe-me explicar... nenhum policial teve contato físico com a criminosa. O aparelho foi alocado no bolso de um moletom de uma das vítimas do ônibus, que abriu uma das janelas e expôs o casaco para um dos policiais, que se aproximou da pequena abertura. O contato com a pessoa e o procedimento, só foram possíveis de serem executados, porque um integrante da INTERPOL, especialista em Tecnologia da Informação, rastreou o celular da sua namorada. Ele acessou a conta de email da senhorita Isabella Swan à procura de alguma informação relevante e então, achou o número do telefone repassando imediatamente ao chefe da operação, que por sua vez, enviou uma mensagem de texto para o celular da sua namorada, na tentativa de obter alguma comunicação provisória. Toda a ação está sendo acompanhada por membros da INTERPOL e do FBI em um dos nossos escritórios que fica neste mesmo prédio.
Outra pergunta surgiu em minha mente.
_E por que não rastrearam o celular da Tanya para se comunicarem diretamente com ela? – perguntei, confuso.
_Simplesmente porque o celular dela foi encontrado destroçado com os fragmentos boiando dentro do vaso sanitário do pequeno apartamento que ela alugou a 20 km do Victory Park. Durante o interrogatório do seu comparsa, ele nos confirmou que assim que percebeu que estava sendo seguido e monitorado, dentro e fora do Parque Olímpico, enviou uma mensagem de alerta com a palavra "POLÍCIA". Na fuga, ela deve ter pensado em se livrar das provas contundentes.
Nossa! Era muita informação para o pouco tempo que estava sentado ali.
_ Agora fiquei confuso... porque se uma pessoa, nitidamente desestruturada emocionalmente, consegue ter discernimento dos seus atos, significa que ela não estaria realmente louca ou estaria? – encarei-o sem entender mais nada.
_Segundo a psiquiatra designada pelo Estado a cuidar do caso, momentaneamente, e especialista em quadros patológicos psicogênicos, a senhorita Denali sofre de um transtorno mental, que embora cause tensão, não interfere com o pensamento racional ou com a capacidade funcional da pessoa. De acordo com a visão psicanalítica a nossa compatriota, apresenta distúrbio neurótico, normalmente fruto de tentativas ineficazes de lidar com conflitos e traumas inconscientes. Resumindo: ela não consegue resolver de maneira satisfatória os conflitos internos e externos.
_Minha. Nossa! – foi somente isso que consegui expressar. Estava atônito com o que acabara de ouvir.
_Isso não é tudo. Porém, serei breve em minhas palavras, pois o tempo é curto e precioso.
_Prossiga, por favor – pedi, ansioso por ouvir o restante.
_Tanya Denali está armada e o seu alvo, Isabella Swan, está literalmente em seu poder.
Ouvir tal frase foi como levar um soco no estômago.
_Infelizmente seu cúmplice, chamado Demetri, e agora ex-segurança do Parque Olímpico, é um colecionador de armas e tem porte para isso. Então, como troca de benefícios, a senhorita Denali prestava-lhe favores sexuais, se é que me entende, enquanto o mesmo ensinavá-lhe táticas de guerras e como manusear uma arma de fogo, mais especificamente uma Glock 17, que é uma pistola curta e automática, com alto poder de transfixação permitindo que em um único disparo, dois oponentes sejam atingidos – senti meu sangue ser drenado do corpo ao fim da explicação. Para ele poderia ser algo normal descrever o poder de fogo de uma Glock. Para mim, significava a morte. Meu Deus! Que loucura! _Senhor Edward Cullen, está tudo bem? – ao ouvir meu nome, percebi o quão rígido estava meu corpo. Parecia que eu tinha levado choques.
_Hum...err... sinceramente, não estou me sentindo bem depois de ouvir isso – passei a mão na testa, limpando a pequena umidade formada no local, apesar do ambiente ser climatizado. _Mas pode continuar, por favor. Eu quero saber de tudo.
_Tudo bem, porém se desejar tomar uma água posso solicitar à recepcionista... – vi quando sua mão foi em direção ao telefone de mesa.
_Não, senhor John. Não será preciso. Pode continuar – respirei profundamente, preparando-me para ouvir mais coisas desagradáveis.
_Segundo informações repassadas pela polícia, ela exige sua presença no local para uma possível rendição, no entanto, não acreditamos piamente em suas palavras.
_Mas não me custa nada tentar – falei prontamente, só me dando conta pouco depois que na verdade, custaria minha vida caso algo saísse errado. Mas não sou de me acovardar diante de qualquer perigo, e pela Bella, eu irei até o inferno, se for preciso. _Afinal, eu sempre fui o seu ponto fraco. Estou mais do que pronto para ficar frente à frente com ela, e quem sabe, tentar convencê-la a se entregar, sem ferir ninguém – falei, de modo firme e convicto.
_Senhor Cullen, compreendo o motivo de seu entusiasmo e coragem para bancar o super-herói, mas digo-lhe uma coisa sobre o que vi nesses trinta anos de serviço na área da inteligência: toda cautela é pouca. Em casos como esse, é essencial que se aja de forma pragmática, pois cada passo deve ser dado de forma consciente e programada.
Suspirei, resignado, ao ouvir sua explanação. Ele estava certo. Não poderia agir deveria seguir um plano. Mas qual plano? Será que a polícia tinha uma estratégia?
_Então, o que o senhor tem em mente? – perguntei, curioso.
_Esse era o ponto que eu queria chegar, contudo quem tem a propriedade da resposta são estes dois agentes que permanecem aqui na sala. Eles fazem parte da operação tática conjunta. Você será conduzido até o início da estrada M6, local em que o ônibus está. Lá, a equipe de prontidão, explicará qual o esquema armado. Por favor, senhor Cullen, tente cooperar com tudo que for abordado. O tempo agora é o nosso pior inimigo – finalizou em um tom sombrio.
Senti os pelos dos braços e da nuca se eriçarem ao pressentir o perigo iminente.
_O senhor está sob nossa inteira responsabilidade, então não permitiremos que corra nenhum risco de vida – explicou, como se tivesse acabado pressentir meus temores.
_Eu confio na polícia – falei, persuadido pelas palavras do diretor.
_Então, acho que finalizamos a nossa conversa. No entanto, lembre-se: toda cautela é pouca – olhou-me fixamente, por breves segundos, antes de sorrir de modo confiante.
(...)
A conversa que tive com o diretor do FBI, momentos antes, não saía da minha mente. Tanya exigia minha presença para então, negociar sua rendição. Será que ela não estaria blefando? Até o momento, ela nada tinha feito à Bella ou a qualquer outra pessoa, mas a mantinha sob a mira de uma Glock! O que Tanya pretendia fazer? Eu não tinha a resposta para isso.
Sentia que poderia ter um colapso nervoso a qualquer momento. Era muito estresse para um dia só!
Nunca imaginei que um dia poderia estar sentado no banco traseiro de uma viatura da polícia, aliás, viatura da Scotland Yard, estando ao meu lado dois agentes especiais do FBI e à minha frente, dois carrancudos da polícia britânica. Talvez o mau humor tenha sido motivado pelo fato de alguém de outra nacionalidade estar fazendo merda no país da Rainha.
O nosso Presidente tinha um 'belo' problema diplomático para resolver, mas não tão complicado como o meu.
Por um momento, fechei os olhos imaginando que tudo poderia ser apenas um pesadelo orquestrado pelo lado direito do nosso cérebro. Todavia, tive a certeza da realidade, ao abrir meus olhos quando percebi a velocidade do carro diminuir, e enxergar nitidamente o ônibus parado à margem do acostamento da estrada, e em seu entorno, um cordão policial iluminado por holofotes advindos das viaturas estacionadas na proximidade. Avistei um pouco mais afastados, veículos de emergência, carros de emissoras de TV e até mesmo uma unidade antibombas!
Foi inevitável pensar na frase de Alice:
"O nosso pior pesadelo está se confirmando"
"Que o homem tema a mulher quando (ela) ama, pois é capaz de todo sacrifício e qualquer outra coisa não tem mais valor.
Que o homem tema a mulher quando (ela) odeia, porque no fundo da alma o homem é apenas malvado, mas a mulher é ruim".
(Nietzsche)
