Desafiando Deus

Capitulo 14 – 'Você é meu anjo'

"– O que você é? Não devia perder as forças assim tão fácil! – lhe deu um tapa no rosto – atravessar o que? – perguntou sem esperança de resposta – por que eu..?"

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A jovem sentou no chão, encostando-se em uma das colunas de madeira que sustentavam a ponte. Escondeu o rosto entre os joelhos e se abraçou. Como se aquilo fosse espantar o frio e o cansaço. Estava preocupada com o que poderia estar acontecendo entre Miroku e o demônio. Queria poder entender o que se passava. O que ela não sabia?

– Miroku... Não demore...

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Ajeitou as melenas prateadas e olhou ao redor. Farejou o ar por alguns instantes antes de desaparecer.

Olhou a clareira, o abismo, a ponte. A garota sentada no meio da lama, com as roupas um pouco rasgadas e os cabelos bagunçados. Estava irreconhecível, mas não para ele.

– princesa... O que houve com você? – perguntou se aproximando da figura feminina.

Kagome levantou depressa e deu um passo para trás. Ficando sobre a segunda tabua que compunha a desajeitada passagem.

– afaste-se de mim! – gritou.

– fique calma!

– onde está Miroku? Não me diga que...

– ele está bem! Apenas não pode vir até aqui! Pediu-me para buscá-la! Venha cá! – se aproximou e estendeu a mão. A jovem recuou ainda mais.

– ele jamais pediria isso! Não quero falar com você! – segurou firme na corda limosa – me deixe em paz!!

– também não acreditei quando ele disse! Por que não volta pra casa, e fala diretamente com ele?

– acha que se eu soubesse como voltar e ainda estaria aqui!?

– eu te levo!

A púbere continuou andando. Mantendo os olhos fixos no demônio.

– acha que vou acreditar em alguém que me beija e no dia seguinte me deixa inconsciente? – ele apenas abaixou a cabeça – volte pro inferno seu diabo!

O rapaz fechou os punhos com força. Era incrível como aquela humana era capaz de despertar os mais esquecidos de seus sentimentos. A sensação de impotência diante de tão validos argumentos.

– já disse que não vou voltar com você! Prefiro morrer de fome do que continuar com essa loucura!

Mirou seus olhos dourados nos negros dela. Então se deu conta de que a garota estava no centro da ponte. Do outro lado, ambas as cordas de sustentação ameaçavam romperem-se. Fechou os olhos devagar. Não a deixe atravessar... Atravessar é perigoso... Ela precisa de ajuda... As palavras ressoaram em sua memória. Abriu os olhos e estendeu novamente a mão para a menina.

– venha pra cá...

– não! – deu mais um passo para trás. A velha ponte balançou.

– juro que não te farei mal! Por favor... Volte aqui!

– não acredito em você!

Passou a mão pelo longo cabelo, tirando o excesso de água. A tempestade foi apaziguando até uma fina garoa.

– escute aqui – ele começou calmo – essa ponte vai cair... E dessa altura com toda certeza você vai morrer... Você está temporariamente sem proteção alguma... – Kagome arregalou os olhos e se agarrou mais as cordas – agora venha bem devagar pra cá...

– já disse que prefiro morrer! Cansei dessa loucura toda!

– não diga isso...

– mas não é isso que quer?

– não!

– mentira!

– você não entende!?

Ambos paralisaram ao ouvir um estalo. A estrutura precária estremeceu fazendo a jovem perder o equilíbrio e cair sentada. Mais um estalo.

– venha depressa! – chamou.

– não... Consigo... – ao menor movimento que fazia a ponte rangia.

Kagome observou ele tirar o sobretudo e desabotoar depressa a camisa.

– o que... Vai fazer?

– ainda não sei direito...

– desde quando precisa tirar a roupa pra pensar!?

Ele suspirou. Como alguém que está literalmente por um fio podia se preocupar com algo tão idiota?

– ei... Pensando melhor... – a jovem olhou para a forte correnteza e se agarrou mais a corda – acho que eu não quero morrer, sabe... Por mais que a minha vida seja estranha... Não que eu esteja com medo... – arregalou ainda mais os olhos ao ouvir o terceiro estalo – eu to sim! Eu to com muito medo!!

– humanos...

Mais um estalo e o rapaz não ouviu mais nada. O grito agudo espantou alguns pássaros que estavam abrigados nas redondezas. Então um turbilhão de sentimentos esquecidos esmagaram seu peito. Impotência, angustia, desespero... Medo...

Como suspender a queda livre?

O corpo da jovem caia com velocidade sob o olhar confuso do demônio. Um silêncio sepulcral se formou.

Algumas gotículas frias tocavam a pele já úmida, porém Kagome não sentia nada. Havia desmaiado logo que 'perdeu o chão'.

– isso vai doer bastante... – correu e pulou de encontro às águas geladas.

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O Sândalo perfuma
O machado que o feriu
Adeus, adeus
Adeus meu grande amor
E tanto faz
De tudo o que ficou...

Não sei por quê
Acontece assim e é sem querer
O que não era pra ser...

Renato Russo - Mil Pedaços

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Num quarto no primeiro andar uma jovem de longos cabelos castanhos presos num rabo de cavalo, mantinha toda sua atenção voltada para o rapaz deitado na cama. Parecia um pouco preocupada embora o moreno apenas sorrisse. Um sorriso triste.

– parece que acabou...

– apenas recomeçou...

– por mais quanto tempo isso vai durar?

– infelizmente eu ainda não consigo saber...

Ele torceu o cenho – vai demorar tanto assim?

– desculpe, mas a culpa não é minha... – terminou de enfaixar o ferimento no abdômen do rapaz e sentou ao seu lado.

– pelo menos vou passar mais tempo com você... – ele deitou a cabeça no colo dela. A moça apenas sorriu. O olhar perdido no horizonte que podia ser visto pela janela aberta.

– queria uma taça de vinho... – ela comentou.

– queria que tudo isso acabasse...

– quando isso acabar vou voltar para casa...

– eu também... – ele fechou os olhos e se aconchegou melhor.

A púbere segurou firme a mão dele fazendo-o despertar de seu quase sono. O rapaz sentou depressa espantado com a expressão no rosto delicado dela. Ela levou a mão aos lábios cobrindo o sorriso e abafando o riso. Que se transformou em uma risada debochada. Segurou mais firme a mão do rapaz. Que apenas sorriu. As gargalhadas tétricas da jovem ecoaram pelo casarão.

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A lua nova deixava tudo ainda mais escuro. A mata permanecia silenciosa. O céu escuro, com poucas estrelas. Alguns cães selvagens uivavam ao longe. A chuva já havia cessado. Uma triste e fina nevoa cobria o chão. Um soluço baixo. Alguns fios prateados estavam sujos de sangue. A brisa balançava-os sutilmente. Enquanto ali, ajoelhado, abraçava com delicadeza o corpo da jovem morena.

Continua...

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Reviewer: Ai, me deu uma pontada na barriga agora! Esse finalzinho... Kagome morreu?? Sabe, esse final me lembrou de uma música: Hello (do Evanescence) Esperando o prox. capítulo!!! Bjin!! T.T

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Writer: O que dizer sobre esse capítulo? ... Meio triste... Pergunto-me se o fim está próximo... Será? o.o"

Existem muitas coisas além da imaginação humana. Quem decide o que é real e sonho é você.

Próximo capítulo:: 'Medo' de perder. Mas como podemos perder aquilo que nunca foi nosso?