Desafiando Deus

Capitulo 18 – 'Perdoar'

"Não teve tempo de vê-la antes de ir embora. Quando levantou a cabeça, já havia desaparecido. Ficou para trás apenas seu doce e alcoólico cheiro de vinho... E sangue..."

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Acordou sentindo muito frio. A corrente de ar gelado entrava pelas portas abertas da sacada, balançava a cortina e estremecia o corpo da púbere. As últimas folhas amarronzadas e mortas caiam forrando o chão. Pode escutar ao longe o jardineiro reclamar algo sobre isso e ser cortado pela governanta. Sentou na cama devagar e constatou que estava perto da hora do almoço. Depois de lavar o rosto e trocar as roupas desceu até a sala de estar onde encontrou a amiga tirando o pó de alguns objetos.

– boa tarde, Kagome!

– boa tarde...

– semana que vem começa o inverno... É melhor se agasalhar...

– não gosto que me digam o que fazer... – se retirou em direção da cozinha, deixando para trás uma transtornada jovem.

– boa tarde senhora Kagome!

– só se for pra você... – murmurou.

– quer tomar café agora ou vai esperar até que o almoço fique pronto? Não vai demorar muito... – a senhora destampou uma das panelas e mexeu o conteúdo com uma colher.

– eu espero... Pode me dar um suco..?

– claro... – a governanta serviu rapidamente a púbere e foi cuidar de seus outros afazeres.

Pela porta dos fundos entrou o rapaz moreno. Vestindo seu costumeiro uniforme sentou-se próximo a garota.

– não há mais uma flor sequer...

– estamos quase no inverno Miroku... Aqui não é um país tropical...

– por que a senhorita está de mau humor?

– não estou de mau humor... Apenas mais séria do que de costume...

– ah... – ele se levantou – bem senhorita Kagome... Vou ver se Sango precisa de ajuda, já que só vou voltar a trabalhar daqui a uns dois meses...

– por que dois meses?

– se não tem flores nem folhas... Pra que ter jardineiro, não é verdade?

– é...

O rapaz saiu. Kagome apoiou a testa na mesa e suspirou.

– por que tudo tem que ser assim?

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– vai nevar amanhã... – comentou a moça de cabelos castanhos.

– quer dizer que vamos 'ter' amanhã? – perguntou o rapaz, sem esperanças.

– se tivermos... Vai nevar...

– não consegue mais ver?

– está tudo distorcido... Vários caminhos que levam a vários caminhos... Que desembocam em uma única porta...

– qual porta?

– você sabe muito bem...

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A jovem artista olhou para o grande bloco de argila a sua frente e suspirou triste. Ligou a maquina que mantinha a terra sempre molhada (N/A: explico essa maquina no fim do cap.). Lavou as mãos, o rosto e foi para seu quarto. O corpo pesava. Sentia um incomodo no peito, como se estivesse sendo pressionado. Verificou todo o cômodo. Nada. Ninguém.

– eu... O magoei de verdade... – limpou com pressa a lagrima que tentou escorrer por seu rosto pálido e correu até o banheiro.

– ainda é dia, Kagome! Você vai ver... – ligou o chuveiro e começou a encher a banheira – De noite ele vai voltar... Com aquela mesma cara de bobo de sempre... Então vai ter que me ouvir... – suspirou mais uma vez e entrou na água quente – me ouvir pedir desculpas...

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O rapaz moreno permanecia estático enquanto as duas mulheres se olhavam fixamente. Estavam ali há alguns minutos. Que pareciam eternos para o pobre garoto.

– e então? – perguntou desanimado.

A mais velha levantou e foi até a varanda. Olhar o céu. O vento balançou um pouco seus longos cabelos negros mas não conseguiu mover o justo vestido vermelho que, agora, tinha manchas e rasgos.

A púbere de cabelos castanhos bocejou. Estava cansada.

– e então? – insistiu na pergunta.

– acho que a cabeça dele vai explodir... – comentou a mais nova.

A outra mulher sai da varanda com uma expressão irritada.

– o que quer dizer com explodir? – inquiriu novamente o rapaz.

– quer dizer que ela não quer assumir que não consegue... – provocou.

– quero dizer que ele está confuso de mais para saber o que vai acontecer... – lançou um olhar bravo para a mulher que agora sorria sutilmente.

– vejo que não foi uma aluna tão aplicada assim...

– como assim?

– não está ouvindo? Tão perto...

– não me diga que-? – o moreno levantou rapidamente.

– não pode ser... – segurou firme a mão do rapaz.

A mulher riu baixo. Caminhou até a varanda e desapareceu. O casal as entreolhou assustado. Tudo saiu fora do lugar...

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A púbere segurava o papel fotográfico delicadamente. Observou a foto e começou a reparar o quão irreal ela era. Talvez virasse um quadro algum dia. Talvez a reproduzisse quando terminasse a escultura. – "se eu ainda estiver viva..." – uma lagrima escorreu e secou antes de cair no chão. O dia estava se esgotando e as palavras que ele lhe dissera faziam mais sentido. Colocou a foto sobre o criado mudo e deitou na cama agarrando-se em uma das almofadas. O ar estava ficando escasso, o corpo parecia latejar. Contorceu-se de dor. Puxou o cobertor pra cima do corpo que agora tremia. – "o que está acontecendo? Eu... ai..." – a voz estava fraca de mais para pedir ajuda. A única solução foi chorar. Mas as lagrimas faziam seu rosto arder.

Você... Vai morrer amanhã...

E as palavras dele faziam seu coração sangrar.

– "tudo que ele diz... sai como... uma maldição... eu... não... quero morrer... ainda..."

Fechou os olhos devagar e se cobriu melhor. Ainda não eram cinco horas mas já fazia bastante frio. Ou talvez fosse a febre altíssima. Deixou o corpo relaxar. Não tinha mais forças pra absolutamente nada. Usava suas ultimas energias apenas para respirar. E a dor no peito não cessava.

O vento jogou seus próprios cabelos em seu rosto, mas aquilo não a incomodava mais. Sentiu um aroma suave. Meio alcoólico, meio férreo. Uma mistura impecável de sangue e vinho tinto. O estalido dos metais se chocando. Algo pesado caindo no chão. Por mais que tentasse ver o que se passava em seu quarto, os olhos não abriam. Porém ela sabia muito bem do que se tratava. A manta foi tirada e em seu lugar algo muito mais frio. Porém reconfortante. Por mais gélida que fosse a pele dele, senti-lo ali foi como se tivesse recebido uma injeção de animo. A puxou de costas para seu peito e a abraçou.

– eu disse... Que estaria contigo até o ultimo segundo... – murmurou contra a pele delicada da nuca dela.

– "não... não quero... morrer... não..."

– mas não será agora... Minha princesa... – a virou de frente para ele e aproximou seus rostos. A menina forçava para deixar os olhos entreabertos.

– perdoe-me minha princesa... Eu sempre faço você sentir dor... – segurou seu rosto entre as mãos e a beijou delicadamente e se surpreendeu ao sentir novamente a vitalidade nela.

A garota abriu os olhos devagar e encontrou os dele. Toda aquela proximidade.

– eu ia mesmo..?

Ele desviou o olhar, já respondendo a menina. Por mais que Kagome tentasse, não conseguia dizer tudo que queria, devido aos olhos frios dele. Mas não era a mesma frieza de sempre. Estavam mortos. Sem brilho. Sem vida. Tristes.

– ontem à noite... – ela começou – eu provei o quanto sou idiota... Não acredito que algo tão besta tenha se transformado em uma discussão como aquela... – ele permanecia em silencio. Apenas a observando com o canto dos olhos – você... Me perdoa?

Ele se virou completamente para ela e sorriu a puxando para mais perto – quem deve pedir perdão sou eu... Prometi que nunca mais ia machucá-la... E quase a matei de novo...

Kagome escondeu o rosto no peito desnudo dele. Por um segundo se perguntou o que ele fazia sem camisa, mas isso realmente não importava. Ele estava arrependido. Ela estava arrependida. E toda magoa foi indo embora conforme os minutos iam passando. Até que já sem magoa, sem arrependimentos, e sem dor, seus lábios se encontraram mais uma vez.

– "isso está ficando freqüente de mais... mas quem se importa!?"

A garota o puxou para mais perto, até que seus corpos pareciam ter se fundido.

– o que está acontecendo..? – o demônio perguntou com a voz fraca.

– eu também não sei...

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O jovem casal se entreolhou. O quarto estava totalmente escuro, apenas a luz alaranjada do sol poente entrava pela sacada entre aberta. Do lado de fora os ruídos dos seres noturnos faziam-se ouvir. De cães uivando a corujas e grilos. Era o som da natureza se despedindo dos últimos raios de sol. O rapaz puxou a jovem para seu colo e a abraçou.

– e então? – perguntou desprendendo os longos cabelos da jovem.

– é tudo inédito pra mim... – ela se aconchegou melhor – nunca imaginei que algo assim pudesse acontecer...

– acha que 'ele' já sabe?

– huh... Eu tive... Um excelente aluno... Porém, ele foi tirado de mim...

– então foi por isso que ficou aqui? – a questionou mais uma vez.

– sim... Mas e você?

– apenas defendendo... O que eu amo...

Ela se sentou. – então é por isso? Estranho que não tenha recebido nenhuma punição...

– quer punição maior que essa? Ter quem mais amo ao alcance de minhas mãos... Mas teu coração está longe de mais para que possa tê-lo?

A menina abaixou a cabeça e murmurou – o meu coração... Sempre esteve em suas mãos... Só você não percebeu...

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Separou uma mexa de cabelo da morena e a enrolou em seu dedo. Ela apenas sorria. Um sorriso feliz e descompromissado. Sem mais preocupações ou receios. Mas ainda faltavam muitas peças no grande quebra-cabeça daquele casarão.

– você me disse que não podia sair durante o dia – ela comentou – o que faz aqui a essa hora?

– nunca disse que não podia – ele sentou na cama – apenas que 'ele' – repetiu o costumeiro gesto de apontar para cima sempre que se referia a Deus – não gostava...

– não vai ser castigado?

– princesa... Não acha que já sou castigado o suficiente?

– claro...

– não gosto quando sua boca responde o contrario do que está pensando...

– não gosto quando lê minha mente...

– também não gosto de você assim tão longe... – ele a ergueu, colocando-a sentada a sua frente.

– pois eu não gosto de você assim tão perto... – lhe deu leve empurrão no peito. Ato que não o afastou mais que alguns milímetros.

– acho que disse que não gosto que fale o oposto do que pensa, não é?

– ta ficando esquecido, já? – mostrou a língua como uma criança travessa.

– ah! É assim sua pirralha? – a empurrou de volta pra cama, mas a garota o puxou junto. Ele prendeu os punhos dela com uma das mãos enquanto segurou seu rosto com a outra. A garota se debateu ao ver o sorriso maldoso em seu rosto.

– o que vai fazer seu sádico!?

Ele riu e a soltou – és criança de mais para isso...

– oras seu... – ela o empurrou fazendo-o cair na cama e inverteu as posições, tendo agora um pouco de controle sobre ele. – um dia eu te mostro se tem alguma criança aqui...

O demônio esbarrou propositalmente nos braços da jovem fazendo-a cair de encontro ao seu corpo – infelizmente minha princesa... Esse dia não vai chegar...

Ela levantou o rosto com dificuldade. – sou tão feia assim? – perguntou ofendida.

– a questão não é a beleza... Já que tu tens tanta... – ele a abraçou com força – é que isso aqui não é um conto de fadas, onde o monstro vai virar um príncipe...

Ela retribuiu o abraço – eu nunca gostei de garotos certinhos mesmo...

– o que quer dizer com isso? – o rapaz sentou na cama trazendo a garota consigo. Ela sorriu e ajeitou o cabelo.

– ué? Mas não é o senhor que pode saber de todas as coisas?

– sentimentos são delicados de mais para serem tocados, princesa... Eles devem ser externados na hora certa...

– a hora certa é agora..? – perguntou receosa.

– apenas teu coração pode responder...

Ela fechou os olhos devagar e respirou fundo. Quando os abriu se admirou ao ver o quão brilhante os olhos dourados do demônio estavam. Sorriu ao escutar as batidas de seu próprio coração.

Continua...

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Reviewer: Ai, estou sem comentários com esse capítulo!! Muito lindooo... .

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Writer: Capítulo bonitinho - me pergunto qual vai ser a besteira que a Kagome vai falar dessa vez " Talvez ninguém tenha percebido, mas esse cap foi loooongoo...

Se alguém tava se achando perdido até aqui... Daqui pra frente vai ter certeza... BeijoOoS

Meu destino não é de ninguém. E eu não deixo os meus passos no chão.
Próximo capítulo:: 'O lado escuro do paraíso'. Um lugar onde se queima. Por amor, por tédio ou por prazer? Quem se importa...