Capítulo3- Magnetismo
Mesmo você não me vendo...
Estarei te olhando!
Mesmo não te tocando...
Estarei te sentindo!
Por onde você estiver passando...
Estarei te seguindo!
Em seus olhos eu me vejo...
Encanto-me com teu sorriso!
No teu corpo está o meu desejo...
Em tua alma,
Os meus sentidos!
Não era difícil de notar os olhares atravessados que um lançava ao outro, obliquamente, mas acima de tudo de um modo que tentava ser discreto. Ele tentava ler a poesia nela, naquela expressão impassível e naqueles cabelos de cor flamejante. Ela tentava compreendê-lo, tentava enxergar o lado agradável do rapaz por detrás daquela poeira de malandragem e orgulho. Eram dois observadores, cada um com seu respectivo objetivo dentro da mesma missão: decifrar os mistérios um do outro.
Encontraram distraidamente um ponto comum, onde os olhares se cruzaram, se chocaram, e imediatamente se afastaram. Ele sorria após o contato...ela corava sem saber se por embaraço. Ele tentou resgatar aquele acidente, enquanto que ela, ainda em faze de recuperação, manteve os olhos fixos no pergaminho diante de si, talvez focando as letras, mas ainda assim fixando mentalmente aquele momento elétrico. Seu coração pululava, assim como o dele.
-Muito bem classe, dispensados. - disse a voz esganiçada do professor de feitiços, que terminava de apagar a lousa com um sacolejar de varinha. Todos bateram em retirada apressadamente, aspirando liberdade...exceto ele, que caminhou lançando olhares para trás e ela, que se arrastou pelos cantinhos o evitando.
Pelos corredores de pedra os alunos já podiam visualizar, através das incontáveis janelas, a confusa indecisão climática: num intermédio entre o fim do Verão e o início do Outono, o céu acabou entrando numa espécie de crise existencial e, num protesto, optou por resmungar a manhã inteira. Foi debaixo de muitos roncos, ventania e sacolejar de árvores que as turmas de Lufa-Lufa e Grifinória se dirigiram para os jardins, a fim de participarem de mais uma aula de Trato das Criaturas Mágicas.
-Nossa, tudo bem que a aula do Flitwick foi um pé no saco, mas precisa ficar com essa cara de imbecil, Jimmy?-gargalhou Sirius enquanto desfazia o nó de sua gravata, explicando-se - Odeio usar essa coisa!Daqui a pouco os alunos aqui em Hogwarts vão começar a morrer de enforcamento!
Remus deu uma simpática risadinha em resposta ao comentário, lutando contra o vento que tentava arrastar algumas páginas soltas de seu livro sobre Feras Mágicas:
-É você que não está acostumado a se vestir como gente!
-Bah...-agora Sirius atirava a gravata sobre o ombro, levando os dedos afilados até os botões de sua camiseta.
-Strip-Tease, Padfoot?-perguntou Wormtail, entrando na conversa enquanto os demais já paravam ao redor do cercado do professor Ketleburn.
Agora James e um Sirius que continuava se livrando de seu uniforme começaram a desfilar feito pavões diante das garotas sentadas no gramado, procurando um lugar vazio. Muitos lhe foram oferecidos, o que causou uma disputa acirrada entre as meninas (algumas chegavam a empurrar sua vizinha para arranjar um pedacinho de grama, enquanto outras se esticavam destemidamente, monopolizando o terreno em meio a berros). Lily enfiou-se entre duas de suas amigas, tentando mostrar para o maroto que não havia a menor possibilidade de aproximação. Ele por fim deu de ombros e ajeitou-se ao lado de Remus e Sirius.
Mais uma aula à distancia. Ela procurou prestar a máxima atenção na maior parte do tempo, enquanto ele esforçou-se para aturar o monólogo do mestre, vez por outra soltando uma piadinha sussurrada para Sirius. As nuvens sobre as cabeças do grupo foram se encontrando raivosamente enquanto o professor, distraído, discursava à cerca de um Pegasus recém capturado num arquipélago bruxo em Atenas...um raio riscou o céu; a intensidade da ventania aumentou; uma gota pingou sobre o nariz comprido de Pettigrew:
-Receio que teremos de encerrar esta aula graças à chuva. -avisou Ketleburn relutantemente, erguendo seu rosto para analisar o céu -Quero todos na biblioteca pesquisando sobre o Pegasus, portanto...
CABRUMMMMM – ele foi bruscamente interrompido pelos movimentos coléricos das nuvens.
Algumas garotas de Lufa-lufa soltaram gritinhos apavorados e numa fração de segundos todos estavam de pé. As nuvens cinzentas descarregaram-se sem aviso, o que não pôde ser evitado por nenhum deles. Agora, debaixo de uma crescente chuva, grifinórios e lufa-lufas corriam de volta ao castelo, uns usando cadernos como proteção, outros utilizando o capuz de suas vestes.
Lily se viu num impasse: pingos grossos de água já surravam seus cabelos e rosto ao mesmo tempo em que mais da metade de seu bloco de pergaminhos ia sendo levado pelo vento forte. Atrapalhada, ela girou nos calcanhares para voltar, desta vez indo contra o vento. Foi catando agoniada tudo o que podia recuperar, o que mostrou ser uma tarefa mais difícil do que ela esperava:
-Merda!Merda!- a garota salvava uma folha em troca de mais cinco que se dispersavam de seus braços, arrastadas pelo sopro insensível do vento. Seu material escolar ia tornando-se inútil: folhas pousavam em lamaçais, pergaminhos encharcados iam se desintegrando enquanto que livros tornavam-se moles debaixo de seus braços. Com cabelos ruivos já colados à testa, praguejando, a garota se deu por vencida.
CABRUMMMM
O que iniciara como um inocente chuvisco agora evoluía impiedosamente, tornando-se, em questão de minutos, uma tempestade. Lily começava a perceber que a circunstância lhe pregara uma armadilha traiçoeira: quando corria ela tinha de lutar contra o vento, engolindo gotas e perdendo a qualidade de seu material. Quando se voltava para resgatar alguma coisa que era levada no meio do caminho, acabava por atrasar seu retorno ao castelo e, neste ciclo sem fim, acabou entrando em total desamparo.
-Como é que se faz pra conjurar um guarda-chuva mesmo, meu Deus? -gritou ela para o céu cinzento depois de ter derrapado numa recém formada poça e de ter caído sobre o próprio material, se estatelado no chão lamacento e dando um ponto final à sua jornada.
Mandando pro diabo todos os seus pertences, a ruiva se pôs sentada e se deixou ensopar. Seus joelhos agora latejavam, seus cabelos escorriam sobre suas costas, ombros e olhos enquanto todo o uniforme tornava-se um trapo encharcado e lastimável.
-Evans!
Lily ergueu derrotados olhos verdes para fitar, por entre as gotas de chuva, um James Potter extremamente impressionado:
-Porque ficou sozinha aqui? Venha comigo. - ele ofereceu, estendendo-lhe uma mão. A garota assumiu instantaneamente uma expressão desconfiada, mas ainda assim aceitou o apoio para se erguer da lama.
-Tá querendo a minha simpatia ou mais um troféu pra sua coleção, James?- ironizou.
-Só estou querendo te tirar da chuva. -retrucou ele agora agarrando a mão direita da garota, mesmo estando escorregadia - Vamos.
Sem dar tempo para mais algum protesto, James a puxou com força em direção às estufas, que eram no momento o esconderijo mais próximo. Ambos iam sendo castigados durante todo o trajeto, que agora percorriam correndo: o terreno agora mais se parecia com um pântano. Eles iam entrando em atrito com o vento e contra grossas gotas de chuva que se chocavam contra eles vindas da direção oposta, dificultando o caminho. James e Lily chegaram estremecendo e tropeçando na primeira estufa que encontraram, onde se enfurnaram agilmente trancando todo o escarcéu molhado do lado de fora.
Ofegante, Lily finalmente teve tempo de mirar seu inoportuno salvador. Seus cabelos negros, agora ensopados, estavam ainda mais arrepiados. Pelo rosto de traços harmoniosos escorriam gotas de chuva que também faziam seu uniforme grudar-se ao corpo- ao mesmo tempo esbelto e musculoso graças ao Quadribol. Ele agora retirava os óculos para secar suas lentes, permitindo que Lily notasse, com uma gostosa surpresa, que seus olhos castanhos possuíam um tom esverdeado.
- São bonitos...- ela murmurou, mais para si mesma.
-Hmmm? – ele ainda fingia compenetração nos óculos.
-Ah, er... essas plantas. O jardim dessa estufa. Bonito.- disfarçou a ruiva.
James virou o pescoço para olhar ao redor, refletindo sobre o estranho comentário. Afinal de contas ambos estavam cercados somente por Mandrágoras. Recolocou os óculos agora secos, tentando focar sua visão. Isso mesmo, eram mesmo Mandrágoras. Ele ia franzir as sobrancelhas para ela mas a garota já havia desviado o rosto:
- Meu material já era. –observou, ainda forçando um falso interesse nas medonhas plantinhas.
-Sinto muito.
E um silêncio constrangido foi solidificando o ar. Lily começou a torcer o próprio cabelo não somente para ocupar-se mas também a fim de fazer a água pesada escorrer, sentindo estar sendo observada por aqueles olhos que ela havia recém descoberto serem bastante atraentes. Muitos de seus fios ruivos não cabiam entre os dedos, por isso permaneceram desleixados ao redor dos ombros onde o uniforme grudava-se. Ela decidiu livrar-se de sua pesada capa de Hogwarts, assim como do moletom e da gravata.
As gotas que deslizavam pelas suas bochechas coradas iam se alojar, ao final do trajeto, em seus lábios úmidos. Seus seios salientes destacavam-se por detrás da blusinha branca, e James logo teve que disfarçar sua atenção, focando-se em produzir uma chama azulada e quente com um feitiço:
-Hum, venha se aquecer comigo Evans!- sugeriu tentando olhar somente para a varinha em mãos, de cuja pontinha saía e tremeluzia um pequeno fogaréu.
- Você também precisa se secar, deixa que eu me cuido sozinha.- e nisso ela própria começou a murmurar feitiços para conjurar chamas.
Mas apesar de seus esforços para se distrair, e com o silêncio se reinstalando, tanto o rapaz quanto a moça não conseguiam visualizar mais nada além das silhuetas molhadas um do outro.
-E agora? -indagou Lily de repente, cessando seu feitiço por sentir-se subitamente muito quente, apesar de ainda tremer.
-Acho que vamos ter de esperar a chuva passar. - disse James indo recostar a testa num dos vidros da estufa a fim de observar atentamente aquela bendita tempestade (e quem sabe pressioná-la a terminar).
"Deuses, ele está olhando pra mim. Ele está olhando fixamente pra mim!"-mastigava ela em pensamentos, notando o próprio reflexo difuso e perturbado na janela onde o rapaz se apoiava. Ele de repente se virou, tentando sorrir daquele jeito confiante e altivo, mas sem conseguir mascarar muito bem o estranho nervosismo que aquela situação lhe causava. As paredes de vidro do lugar, afinal de contas, pareciam sufocar ambos. Os joelhos da garota amoleceram e foi quase num sussurro que ela alertou:
-Você está se aproximando, Potter.
-Eu sei.
-Não...-ela engasgou-se, ensaiando um movimento com as mãos para contê-lo, uma vez que não ousava (ou não conseguia) se mover.- Não.
-"Não" o que?- perguntou ele de modo zombeteiro. Ele já podia tocá-la se quisesse.
-Não te agradeci.- emendou ela num lampejo criativo- Obrigada por me ajudar a...bem, não foi lá um excelente resgate, já que perdi metade das minhas anotações, to mais encharcada do que um pato e provavelmente vou acabar doente...- e ela se engasgou nas palavras, bastante ciente de que aqueles olhos devoravam cada pedacinho seu –... mas valeu a intenção. – emendou.
-Você fica uma gracinha quando fala desse jeito. –observou ele, ajeitando uma mecha ruiva gotejante que encobria um dos olhos esmeraldas da garota, que com isso se afastou num pulo, sentindo-se descaradamente violada:
-Como ousa, Potter? –e Lily uniu mãos e força para empurrá-lo pelo menos trinta centímetros para trás. Com o caminho livre ela decidiu marchar para a saída.
-Lils, está chovendo feio lá fora...-lembrou James demonstrando inquietação.
-E eu não sei? -rugiu ela esquecendo-se até mesmo de recolher todas as peças de roupa que largara sobre um dos balcões de madeira, onde as aulas normalmente aconteciam. - O problema é que eu prefiro enfrentar tudo aquilo lá fora ao em vez de ficar aqui dentro com você Potter, infelizmente! -exclamou ela com fervor, sentindo o ar faltar novamente. - A culpa é sua, por favor, me deixe ir...eu não posso, não quero, se você...- estava embaraçada. Tentou se conter, ordenar o cérebro a pegar no tranco e as palavras a se frearem, o que resultou numa nova etapa: choro.
James assistia aquele show de irregularidade emocional na maior estupefação, enquanto que Lily xingava-se por dentro, amaldiçoava cada lágrima que decidia abandonar seus olhos e, esfumaçando, lançou-se para fora e para um novo banho.
Mas um aperto em seu braço conteve sua fuga. Lily virou-se penosamente.
-Me deixe em paz. -murmurou, agora comendo alguns fios que se estiravam ensopados sobre seus lábios. Mas James, que a mantinha apertada entre seus dedos, aparentava subitamente tanto desespero quando ela:
-Se acalme, não vou mais tocar em você.
-E o que é isso que está fazendo? Solte o meu braço. –ordenou, fazendo uma leve tentativa de se livrar.
-Vou ficar preocupado se você for lá pra fora.- ele tentou convencê-la por outro ângulo, a voz sensata e mansa.- Já está escurecendo...
-Lá fora é somente os terrenos da descola, e sou uma bruxa de dezessete anos. Acho que consigo me virar sozinha. – determinou a garota impondo sua voz o máximo que conseguiu e, uma última vez, puxando o próprio braço. Ele a soltou com um suspiro.
Mas quando um raio luminoso cortou o céu, fulgurando nas estufas; quando o som rouco de um trovão reboou por entre as nuvens, Lily sufocou um gritinho e pulou para longe da porta e para mais perto dele.
James foi passando, de mansinho, os braços ao redor dela, que se calou e o encarou num misto de questionamento e agradecimento. Ficaram colados, um sentindo o peito quente do outro subir e descer, respirando com visível dificuldade... e quando ele reclinou a cabeça ela ergueu a sua. Apesar de insegura e um tanto amedrontada, e ainda com uma pontinha de arrependimento por ter sido tão fraca, ela entregou-se ao desejo que subia queimando pela sua garganta. Ele movia-se com cautela para que ela não escapasse de repente...
Gelo e fogo se misturaram quando os lábios ávidos de um tocaram os trêmulos do outro. Os de James, macios e rápidos, pareceram conduzir o próprio estouro de adrenalina para os dela, ainda vacilantes. Lily sentira o coração martelar quase dolorosamente contra suas costelas. O mundo todo à volta de ambos desapareceu naquele instante; as Mandrágoras, as nuvens cinzentas, a água cortante, os raios, o som ecoante dos trovões, as árvores que se descabelavam, a relva que farfalhava...para James só existia Lily e para Lily só existia James. James a beijando.
Para ele foi como sentir uma imensa rolha se soltando de uma garrafa numa explosão que o inundou e o cobriu de felicidade e prazer. Ter Evans lhe correspondendo o beijo era um sonho que se repetira em sua cabeça milhares e milhares de vezes... mas ele não queria acordar dessa vez.
Por isso a agarrou com mais força, certificando-se de que ela não iria escapar. Mas Lily, ainda imóvel, os braços caídos, se viu apreciando cada vez mais as mãos que deslizavam pelas suas costas, a pele quente dele contra a sua, o seu peso atirado contra seu colo, aquela boca enlouquecedora, aquele hálito quente, aquela língua esperta achando um caminho por entre seus dentes...e foi hesitante, lentamente, que ela lançou os braços ao redor do pescoço de James.
O rapaz gemeu baixinho em agradecimento. Já sentia a própria roupa grudar-se ainda mais na pele molhada, assim como sentia os seios de Lily roçarem contra seu peito, que arfava para cima e para baixo tentando acompanhar suas emoções. Não estava mais tão enregelado: sentia umas poucas gotas escorrendo dos cabelos de ambos e se intrometendo entre sua boca e a de Lily.
De repente ela o interrompeu, puxando o pescoço para longe. Estavam tonta, os olhos zonzos e a voz trêmula quando tentou falar:
-Você...eu...nós...
-Namora comigo, Evans.- disparou o rapaz, adivinhando os temores da ruivinha. Ela arregalou os olhos, surpresa mas satisfeita com a pergunta:
-James...nós nunca nem saímos juntos...
- Ah, essa parte é culpa sua.- lembrou ele, o sorrisinho de canto de lábio voltando ao rosto maroto- Se dependesse de mim a essa altura nós já estaríamos-
- Cala essa boca, Potter!- gargalhou ela. Sabia muito bem que tinha excelentes motivos para não ter sucumbido com tanta facilidade às investidas iniciais do arrogante rapaz. O ar voltava com facilidade aos seus pulmões agora, mas ela não queria isso...- Cala essa boca e me beija de novo.
O sorriso de James se alargou e ele não se importou em obedecer a ordem, dessa vez menos afoito e mais carinhoso.
Um trovão resmungou alto, mas nenhum dos dois percebeu que era o último. Enquanto voltavam a buscar aquela conexão elétrica, enquanto ele a encaixava nos próprios braços e lábios e ela fechava os olhos pronta para mergulhar em fogo novamente, a chuva ao redor ia se abrandando...
Mas foi impossível perceber, assim como desnecessário. Lily e James estavam grudados novamente, como dois pólos opostos incapazes de ceder ao magnetismo que os unia; eram o negativo e o positivo...eram simplesmente assim; igualmente diferentes.
FIM
