Capítulo 02

-Edward? Enquanto esteve fora, recebemos a correspondência. Aqui está a sua.

A. J., colega de quarto de Edward, um dos sete agentes destacados para proteger Ray Cass e sua família, jogou um maço de cartas sobre a cama.

Com creme de barbear ainda no rosto, Edward percorreu a pequena distância entre o banheiro e a cama para pegar as cartas. Removendo o elástico que as prendia, passou os olhos pela variedade de remetentes. Rosalie pegaria as contas e as pagaria.

Como não encontrou o que procurava, picou tudo em pedacinhos, os quais despachou pelo vaso sanitário, voltando a se barbear. Quando em missão, não deixavam no aposento nada que pudesse identificá-lo.

A. J. apareceu na porta.

-Vou tomar um café. Quer alguma coisa?

-Não, obrigado. Vou dormir.

-Certo.

A porta se fechou, deixando Edward sozinho no quarto de hotel em Oklahoma City. Ele e A.J. sempre se instalavam juntos quando estavam em serviço.

Naquela semana, trabalhavam como garçons no restaurante da família do Mel, revezando-se em turnos de quatro horas.

O restaurante, a um quilômetro e pouco do hotel, ia de vento em popa, pois cada turista que partia ou chegava à cidade dava uma passada ali. Em contrapartida, qualquer um podia ser um membro da quadrilha lá da Costa Leste encarregado de matar Ray Cass, um ex-espião do serviço secreto que se expusera ao testemunhar contra líderes criminosos e fora obrigado a mudar de identidade. Agora, ele e a família precisavam de proteção enquanto se estabeleciam em Oklahoma City, iniciando vida nova como proprietários de um restaurante.

Trajando apenas uma cueca samba-canção, Edward apagou as luzes e deitou-se na cama, o braço sob a nuca, olhando para o teto.

Nada de Rosalie. Nem uma única palavra. Olhou o telefone sobre o criado mudo e voltou a fitar o teto. Nada de telefonemas, a menos que fosse emergência.

A seu ver, cinco semanas sem falar com a esposa era uma emergência, mas a chefia consideraria negligência. Os telefones podiam estar grampeados. Trabalhavam num caso arriscado, no qual uma atitude irresponsável poderia custar muito caro.

Em caso de emergência da parte de Edward, ela contataria o chefe dele em Billings, o qual transmitiria a mensagem ao escritório mais próximo da área da missão. Ante o silêncio, Edward presumia que nada mudara no que se referia à esposa.

Apenas tinha a péssima impressão de que o casamento estava acabado.

Seus pais tinham conseguido viver juntos por quase quarenta anos; ele e Rosalie, porém, mal haviam conseguido ir além do primeiro –já estavam desgastados.

Se a história tivesse sido diferente, nem estaria participando daquela missão. Na verdade, se o casamento tivesse sido diferente, semelhante aos sonhos que nutrira antes de conhecer Rosalie Swan, teria desistido do trabalho de agente para se dedicar inteiramente à fazenda ao lado dela.

Haviam se conhecido no verão anterior, pouco mais de um ano atrás. Entre uma e outra missão de proteção de testemunhas, que não raro duravam meses e praticamente impossibilitavam relacionamentos longos com mulheres, precisava espairecer. Avistara a ruiva longilínea no instante em que entrara naquele bar típico em Jackson.

Ela o notara também. Como que compelidos por uma força misteriosa, gravitaram ao redor um do outro. No final da noite, já estava apaixonado, e sabia que tinha de fazer alguma coisa. Aquilo que para ambos começara como férias terminara em casamento.

Foram tão felizes no começo, tão cheios de planos e sonhos. Ele queria filhos e acreditava que ela compartilhasse o desejo.

Céus, como um homem podia se enganar tanto com uma mulher?

Com um suspiro atormentado, Edwarde se virou de barriga para baixo e enterrou o rosto no travesseiro, sentindo junto à mão a frieza metálica da Magnum 357 ali escondida.

Rosalie. A mulher mais linda que já vira. Os primeiros dois meses de casamento tinham sido um paraíso. Então, sem que soubesse a causa, sentira a mudança. Ela mudara. Toda a promessa de futuro glorioso desaparecera.

Algo acontecera no casamento, algo intangível, que a impedia de se dar completamente a ele.

Não se referia ao ato do amor em si, embora nos últimos seis meses até isso se revelasse insatisfatório. Apostaria a própria vida como ela se sentia tão incompleta quanto ele.

O que realmente o incomodava ia ao nível da alma. Talvez fosse esse o problema. Ela não queria partilhar mais nada com ele, nem pensamentos, nem sentimentos, nem trivialidades do dia a dia, e se fechava totalmente quando ele fazia perguntas demais. Recusava-se a conversar sobre ter um bebê, e mesmo assim dizia que não queria voltar a ser intérprete. Ele não conseguia descobrir o que ela queria.

Já não tinham mais aquele vínculo do começo...

Rosalie lembrava uma belíssima gema, perfeita a olho nu, mas, sob uma inspeção mais detalhada, carecia daquela substância interior essencial.

Talvez estivesse sendo injusto. Talvez a essência estivesse lá, mas ele não era mais capaz de traze-la à tona. Simplesmente não sabia como encontra-la, como libera-la novamente. Não sabia como recuperar o que tivera. Sentia-se totalmente desamparado.

Desde que o casamento começara a ruir, tinha dificuldade em pensar noutra coisa. Sem o conhecimento de Rosalie, fora a um conselheiro, que sugeriu que ela talvez estivesse escondendo algo terrível em seu passado, algo que agora a impossibilitava de amá-lo completamente.

Desesperado, contara a ela que procurara ajuda profissional, implorando-lhe que lutassem para salvar o casamento. Fora um grave erro.

Descartando a idéia, Rosalie erguera uma parede ainda mais alta entre eles. Em tom extremamente frio, informara-lhe que sua vida era um livro aberto: fora extremamente feliz na infância, com a irmã e os pais carinhosos. Não havia nenhum segredo obscuro.

Cheio de emoções conflitantes de dor, remorso e raiva, porque não podia alcança-la, ele aplacara os sentimentos mergulhando no trabalho, aceitando missões especiais, sendo voluntário para horas extras. Qualquer coisa para poupar a dor.

Daquele ponto em diante, tudo se desfizera. Era possível que, quando cumprisse aquela missão e voltasse à fazenda, Rosalie já houvesse partido para Nova York ou Paris, onde vivera a maior parte da vida.

Aparentemente, ela e a irmã caçula, Bella, haviam nascido na Europa, de pais funcionários do governo. Viveram em Bruxelas, depois em Paris. Após a morte da mãe, o pai se casara novamente com uma francesa, Esme, que as garotas adoravam.

Depois que o pai delas sofreu um ataque cardíaco fatal, Esme se empenhara em cuidar de Rosalie e da irmã, mas três anos depois, casou-se com Paul, um compatriota.

Segundo Rosalie, embora Esme tentasse manter um lar saudável, elas tinham certeza de que o padrasto não gostava delas, pois nunca fizera nenhum esforço para ser amigável, parecendo ressentir-se da dedicação que a esposa lhes prestava.

Dois anos depois, com a relação do casal já muito tensa, a madrasta tomou providências para que elas morassem e trabalhassem em Nova York, como tradutoras diplomáticas. Rosalie tinha vinte e dois anos então.

Talvez ela não houvesse suportado a separação. Sempre falara muito de Esme e tentara manter a correspondência. Mas a madrasta não escrevera mais, seguramente devido à antipatia de Paul pelas enteadas.

Rosalie contou que Esme nunca as convidara para uma visita, o que era totalmente estranho. Também confidenciara que não se atrevia a lhe telefonar, receosa de que o marido dela atendesse e descontasse a raiva na esposa.

Edward se deitou de costas, agitado demais para dormir. Pelo jeito, aqueles anos com Esme podiam ter sido tudo, menos idílicos.

E persistia o medo de que o conselheiro estivesse certo. Talvez o marido de Esme houvesse abusado, até sexualmente, das meninas. Isso explicaria muitas coisas. Imaginou como seria a irmã de Roalie. Seria reservada e infeliz? Não achava que descobriria, já que recusara todos os convites de Rosalie para ir visitá-los.

Por outro lado, a resposta podia ser mais simples. Talvez a realidade de viver na fazenda após tantos anos na cidade houvesse constituído um choque cultural para Rosalie. Jamais se queixara, mas talvez detestasse o isolamento, a falta de distrações.

Ela nem se importara em responder à carta que ele enviara havia um mês, implorando que se comunicasse antes que seu relacionamento se deteriorasse ao ponto da não recuperação.

Droga, parecia que nenhuma resposta era a resposta!

Ida Wood encostou a vassoura no balcão e pegou o telefone da cozinha.

-Fazenda Sutherland.

-Oi, Ida. É Rosalie. Meu marido ainda não voltou para casa, voltou?

A caseira lutou para controlar o nervosismo.

-Não. Não há notícias dele.

-Foi o que imaginei. Só queria avisar que vou chegar mais tarde, lá pelas cinco. Meu médico em Rexburg disse que estou com gripe asiática. Parece que já teve que hospitalizar vários pacientes. Me disse para ficar de cama. Talvez fique de molho por duas ou três semanas. Para ser franca, me agrada a idéia de ficar de cama.

Ida piscou, surpresa. Nunca vira a esposa de Edward doente antes.

-Sinto que esteja se sentindo tão mal, Rosalie. O que devo providenciar?

-Bastante refrigerante e bolachas. Ah, e também canja de galinha e picolés. É só isso que tenho vontade de comer.

-Providenciarei agora mesmo, mas estava pensando em Edward. Ele precisa ser avisado.

Não importava o quanto o casamento estivesse ruim, a caseira sabia que o patrão ficaria zangado se não fosse informado dos fatos.

-Se eu piorar nos próximos dias pode ligar ao escritório em Billings para entrar em contato com ele.

Ida ficou ainda mais alarmada ante a atitude calma da jovem patroa.

-Rosalie?

-Sim, Ida.

-Será que você pode dirigir estando tão doente?

-Vou bem devagarinho. Se precisar descansar, paro num posto de gasolina.

-Oh, querida. Não estou gostando disso. Edward também não vai gostar. Jesse iria busca-la com prazer.

-Não será necessário, mas obrigada, de qualquer forma. Estarei em casa antes que pisque. Até mais, Ida.

A caseira recolocou o aparelho no gancho, hesitou por um segundo e então foi ao escritório de Edward procurar o número do telefone de seu supervisor.

A esposa de Edward era um enigma. Ida a conhecera logo que o casal votara da lua-de-mel, e simpatizara imediatamente com ela. Aliás, todos ficaram animados. Então, num belo dia, acordou e encontrou uma mulher diferente vivendo na fazenda. A nova Rosalie agia de maneira reservada, fechada. Às vezes era até desagradável. Todos lhe deram espaço. Ida pensava nas mudanças e não conseguia entende-las. Não espantava Edward se oferecer para mais e mais missões secretas.

Mas algo naquele telefonema não parecia certo. A esposa de Edward admitir qualquer vulnerabilidade era totalmente fora do padrão – o que podia significar que Rosalie estava muito mais doente do que deixava transparecer. Ida estava assustada.

Depois de deixar o trabalho, Edward sempre tomava um banho, tirando o disfarce de ajudante de garçom. Ao colocar a camisa sobre a cadeira, notou um envelope branco com seu nome sobre o travesseiro.

A vaga esperança de que Rosalie houvesse decidido escrever morreu quando percebeu que não havia selo nem franquia dos correios. Era uma mensagem do escritório.

Abriu e retirou um bilhete. "Edward, o escritório recebeu uma comunicação de Billings, de que sua esposa está doente, com a gripe asiática, embora não hospitalizada, de acordo com sua caseira, que achou que você devia saber."

Edward sentiu um aperto no estomago. A mensagem vinha e Ida e não de Edward. Mesmo doente, ela não o queria, nem precisava dele, embora não o declarasse. Nem era preciso.

Quanto a Ida, trabalhava para ele havia dez anos e nunca o preocuparia com notícias dessa natureza, a não ser que a considerasse urgente.

"Se quiser ir para casa," continuava o bilhete, "nos avise que faremos os arranjos necessários e mandaremos um substituto. Por favor, informe-nos de suas intenções."

Edward estava chocado com a própria hesitação em correr para junto de Rosalie. Na verdade, tudo aquilo era uma prova de que ele se tornara um estranho para ela.

Deixou o bilhete sobre a cama e foi tomar banho. Uma parte sua queria voltar a Montana naquele mesmo instante, como qualquer marido zeloso. Mas uma outra hesitava, pressentindo a fira recepção que o aguardava. Que inferno, a quem estava enganando? Não haveria recepção alguma.

Edward não brigava, nem levantava a voz. Nada alterava seu batimento cardíaco.

Barbeou-se, vestiu um roupão e chamou o serviço de quarto. Enquanto aguardava o jantar, escreveu uma breve mensagem. "Ida, por favor mantenha-me informado do estado de Rosalie. Se ela piorar, me avise e voltarei para casa imediatamente. Edward."

Quando um dos agentes alocados no hotel chegou com a bandeja do jantar, Edward lhe passou a mensagem, a ser levada ao escritório.

Novamente sozinho, levou a bandeja à mesa. Estava com fome quando deixara o serviço, mas agora, fitando o sanduíche e as batatas fritas, sentia-se nauseado.

O que fizera? Que marido era ele, afinal?

-Alô?

-Rosalie? Ainda bem que a peguei antes de sair para o aeroporto. –Não importava o quanto a irmã explicasse sobre suas rotinas diárias, Bella continuava assaltada por dúvidas que não lhe haviam ocorrido no dia anterior.

-Bella! Está telefonando da fazenda?

-Não. Ainda não. Estou em West Yellowstone, num posto de gasolina chamado Larsen's. devo ter perdido o retorno. Várias pessoas já me reconheceram e acenaram. Não me atrevi a perguntar o caminho a ninguém. Me explique mais uma vez.

Edward eu explicações detalhadas.

-Certo. Vou achar.

-Teve problemas para dirigir a caminhonete?

-Não. Não sei por que estava preocupada em dirigir um automóvel de tração nas quatro rodas.

-Ótimo. E o enjôo?

-O que é isso? Um inquérito? –resmungou Bella. –Acho que o remédio ajudou até eu embarcar no vôo para Idaho Falls. Que viagem... Devolvi o almoço.

-E como está agora?

-Mal, mas vou conseguir.

-Verifique a pressão arterial uma vez por semana na clínica em West Yellowstone. Fica perto do museu.

-Rosalie, podemos mudar de assunto? As fotos que você me mandou não fazem jus a este lugar. É lindo isto aqui!

-Hummm...

-É tão calmo. Já tinha me esquecido que lugares assim existiam. Tem sorte de morar num lugar como este, com alguém como Edward.

-E eu não sei?

-Falou com meu chefe, monsieur Gide? Ele ficou zangado?

-Claro que não. Acho que o homem é apaixonado por você, pois pareceu arrasado quando eu disse que estava esperando um filho. Depois expliquei a gravidade da situação, ele foi um amor. Nem vai exigir o aviso prévio de duas semanas de seu contrato. E vai lhe dar um abono de um mês de salário, na esperança de voltar a ter seus serviços.

Bella fechou os olhos, agradecida, não apenas pela generosidade de monsieur Gide, mas também pela diplomacia da irmã em lidar com ele.

-Obrigada, Rosalie. Estou devendo essa.

-Apenas faça a sua parte até eu voltar.

-Temo que minha voz me denuncie.

-Bobagem. Trabalhamos um ano inteiro para o mesmo homem e ele nunca suspeitou de nada.

-Mas, o Edward...

-Quantas vezes preciso lhe dizer? Não vai precisar enfrenta-lo. De qualquer forma, nas duas vezes em que conversou com ele, foi rápido demais para que formasse qualquer opinião. Relaxe, Bella. Pense em como vai ser engraçado quando todos me virem passar pela porta e descobrirem que somos duas.

-Por que tudo isso? –indagou Bella, percebendo que a irmã estava fingindo.

Rosalie ignorou a pergunta e mudou de assunto.

-Telefono de Paris. Agora, vá para casa e descanse as pernas. Oh, antes que me esqueça. Tem um computador portátil debaixo da cama. É legal ficar brincando com isso.

-Mais do que com Edward? –alfinetou Sílvia.

-Isso, maninha, é informação secreta.

-Percebe que quase não fala dele? Por que, Rosalie?

-Por que não há nada para contar. Vou desligar.

-Rosalie! Não pode dizer isso e desligar. Rosalie... –O ruído da ligação interrompida soou.

Bella franziu o cenho e colocou o aparelho no gancho. Desde o dia anterior, a vivacidade da irmã parecia falsa. Mal falara do marido. A atitude da irmã a perturbava mais do que queria admitir. Não podia ignorar a suspeita de que Rosalie estava no limite, e que a tensão nada tinha a ver com os problemas "femininos", ou com a situação da madrasta, Esme.

Algo muito sério a estava atormentando. Talvez relacionado ao marido, ou, mais especificamente, à ausência dele. Três meses pareciam um tempo excessivo para se ficar separada do homem amado.

Agora que pensava na resposta da irmã quanto a ficar separada de Edward, parecera-lhe um pouco rude. Talvez Rosalie encontrasse dificuldade em aceitar o trabalho dele, afinal, mas não quisesse admitir.

Proteger testemunhas era um dos trabalhos mais difíceis do mundo e, independente do fato de Edward Cullen poder tomar conta de si mesmo, bem como de outras pessoas, envolvia perigos mortais.

Era provável que Rosalie estivesse sofrendo em silêncio. Edward saberia e seus sentimentos? Se importaria? Foi tomada por um sentimento negativo.

Embora odiasse a idéia, Bella achava possível que a irmã e o cunhado estivessem enfrentando problemas no casamento. Afinal, Rosalie desistira da carreira para se casar. De início, ela lhe confidenciara que mal podia esperar para ter um bebê, de modo que podia se considerar ironia o fato de a irmã engravidar primeiro.

Tratando de espantar a inquietação, Bella voltou a prender o cabelo com a fita de Rosalie e foi para o carro.

Sentia-se quente e pegajosa. Era julho, e, segundo a irmã, West Yellowstone vivia um dos verões mais quentes de toda a história. Nem mesmo dirigir pelas matas a fazia se sentir melhor. Estava ansiosa para chegar ao rancho e se deitar, antes que desmaiasse.

Enquanto dirigia pela estrada poeirenta, observou a paisagem de florestas escuras, onde a irmã provavelmente cavalgava. Ocorreu-lhe que, para uma mulher sem a companhia de um marido ou crianças, mesmo uma maravilha assim podia logo se tornar maçante.

Perdida em pensamentos, quase passou pela estrada do lago de novo e teve que frear forte para dar a volta.

A freada deslocou um jogo de óculos de sol e luvas, que bateram contra o pára-brisa e caíram em seu colo. Demorou para recoloca-los no lugar. Os óculos deviam ser de Rosalie, e o par de luvas de couro de dirigir provavelmente eram de Edward.

Num impulso, calçou um luva. A primeira evidência tangível do homem que só vira em fotografias. Ele tinha dedos longos, esguios e fortes, a exemplo de como devia ser o resto de seu corpo. Até aquele instante, ele não lhe parecera real. Ainda que houvessem se cumprimentado pelo telefone algumas vezes.

A "irmãzinha" de Rosalie não devia parecer real a ele, tampouco, ainda mais sem fotos que provassem sua existência. Ele seria mesmo tão compreensivo quando descobrisse o que ela e Rosalie haviam maquinado?

Desde o dia anterior, Bella vinha revisando sua opinião sobre várias coisas. Se havia tensão naquele casamento, e tinha certeza de que havia, calculava que Edward teria de ser um marido excepcional para achar graça numa farsa mantida por Rosalie durante um ano. Ele bem poderia se sentir traído ao saber que ela ocultara uma informação tão importante. Ainda mais se descobrisse durante a estada dela na fazenda encarnando a irmã. A irmã gêmea.

Em teoria, a idéia de Esme de que elas deviam viver separadas por algum tempo parecia correta. Mas ninguém parara para pensar nos resultados. Não se tratava de um jogo infantil. Eram mulheres adultas mentindo!

O problema era que, se quebrasse a promessa feita à irmã e revelasse sua verdadeira identidade para os caseiros Jesse e ida, Rosalie poderia nunca perdoa-la. Tudo o que podia fazer era esperar que o casal percebesse a diferença imediatamente, assim acabando com a brincadeira.'

Engatando a marcha, Bella observou a longa curva da estrada que a irmã mencionara. Logo avistou a sede da fazenda à esquerda, junto a uma rampa além da qual se erguia a cadeia de montanhas. Respirou fundo ante a beleza simples da casa, uma estrutura baixa construída inteiramente com toras de madeira, mas moderna no estilo, cercada de prados verdes.

Lembrou-se de que Rosalie dissera que a propriedade fazia divisa com terras de reserva federal, que podiam ser usufruídas por um período de noventa e nove anos.

Os cento e sessenta hectares da propriedade haviam sido incorporados pelo bisavô de Edward, que investira todas as economias amealhadas em anos de trabalho nas minas de Anaconda. Rosalie explicara que, no mercado atual, a fazenda, pequena em comparação a outras, valia uma pequena fortuna devido à localização privilegiada. Não que Edward sequer considerasse vende-la.

Bella avistou a placa identificando a fazenda Cullen e parou junto ao portão, que se abria para um caminho longo rumo à sede. Procurou o controle remoto na bolsa de Rosalie.

Não estava lá!

Após procurar várias vezes, chegou à conclusão de que, em algum instante das últimas doze horas, ele caíra da bolsa. Talvez no aeroporto em Salt Lake, ou na parada para descansar na auto-estrada ou... De qualquer forma, perdera-se.

Enquanto se agarrava ao volante tentando clarear as idéias, viu uma caminhonete se aproximar vindo da casa, com velocidade suficiente para levantar poeira. Parou junto ao portão.

Um homem de aparência forte, com bem mais de sessenta anos, de jeans e camisa xadrez de mangas compridas, pulou para fora do veículo e acenou para que ela saísse. Pela descrição de Rosalie, devia ser Jesse Wood, marido de Ida e capataz da fazenda.

Como se tivesse estampada na testa a palavra "fraude", Bella abriu a porta do carro e saltou, meio zonza por causa do estômago vazio e pelo iminente ataque de nervos.

O empregado se aproximou.

-Rosalie! Foi bom ter telefonado a Ida na última parada dizendo que perdeu o controle remoto.

Oh, Rosalie com certeza encontrara o controle remoto! Temia que aquele fosse apenas o primeiro de uma série de tropeços. E não teria mais a ajuda da irmã, que dali a pouco embarcaria para a Europa. Estava por sua própria conta agora.

-Doente como está, não precisa de mais complicações. Tome... Fique com o meu. Vou providenciar um novo quando for à cidade. –O capataz se colou às grades e passou-lhe o aparelho, sem saber que estava se dirigindo a uma completa estranha.

-Obrigada, Jesse. Ando tão distraída... –improvisou, incapaz de encara-lo.

Isso nunca funcionaria. Detestava engana-lo. Oh, Rosalie. Por que deixei que me convencesse a fazer isso?

-De nada. Não se aborreça, mas está mais pálida do que naquele dia em que foi cavalgar. –Ele também notara a palidez de Rosalie. –Se soubesse que ia ao médico, a teria levado. Corra para casa. Ida já preparou tudo para você.

-Desculpe o incômodo. –Bella estremeceu.

-Quer saber de uma coisa? –declarou ele, parecendo meio gozador. –Há muitas pessoas aqui que gostam de ser necessárias, e isso é verdade. Não se esqueça disso!

Apontou o dedo, e então pareceu embaraçado, como se tivesse falado demais.

Emocionada com aquelas palavras e o que implicavam sobre o comportamento de Rosalie, Bella o viu subir na caminhonete e dar a volta.

Rosalie. Rosalie. O que está acontecendo? A quem anda desprezando? Max?

Emocionalmente exausta por tantas perguntas sem resposta, sem mencionar a falsidade de Philippe e sua própria gravidez de risco, Sílvia mal pôde voltar ao carro e continuar com a farsa. Mas, se continuasse ali parada, apoiada contra o portão enquanto tentava montar as peças do quebra-cabeça, Jesse certamente voltaria.

Acionou o controle remoto e o portão se abriu, dando-lhe passagem. Diminuiu a marcha só o suficiente para acionar o controle mais uma vez.

O ruído mecânico a cercou, parecendo avisa-la de que cruzava a linha divisória. Não haveria mais volta.

Ela e a irmã haviam conversado longamente na noite anterior, mas não puderam remoer cada detalhe, cada contingência, como onde Rosalie normalmente parava o carro quando chegava a casa. Tinha a opção de estacionar atrás do carro do capataz e ao lado da casa, perto da garagem, ou no contorno de cascalho em frente à construção.

Tomando uma rápida decisão, optou pelo contorno. Jesse já saíra do carro e vinha em sua direção. Abriu a porta e saltou. Tomando a iniciativa, comentou:

-Desculpe, Jesse, mas acho que não tenho mais forças para dirigir, apenas traga as malas. –Era verdade. Os acontecimentos e as emoções nas últimas vinte e quatro horas a haviam deixado exausta. Tudo o que queria era se deitar.

-Edward devia estar aqui.

-Não! –gritou, alarmada, antes de perceber que a reação tinha sido exagerada. –É melhor ele ficar onde está. Não seria bom ficarmos gripados ao mesmo tempo.

Jesse balançou a cabeça, resmungando que ainda não gostava nada daquilo. Bella, por outro lado, estava ansiosa em mudar de assunto e ser deixada em paz.

Rosalie a instruíra sobre a distribuição da casa, que agora sabia de cor. Mas não precisou se preocupar, pois uma mulher da mesma idade de Jesse, conservada, saiu e passou o braço ao redor de seus ombros.

-Parece que vai desmaiar, Rosalie. Venha. Vamos para seu quarto.

Com força surpreendente, a caseira a levou pela entrada principal até o corredor que levava aos fundos da casa ampla. Bella logo sentiu a ternura e serenidade do lugar. Jesse as acompanhou até o espaçoso quarto principal, onde deixou a bagagem sobre o carpete azul aveludado. Podia ver o gosto da irmã na decoração; suas cores favoritas também eram azul e branco.

Não precisou se preocupar em abrir a gaveta certa para encontrar a lingerie. Ida antecipou suas necessidades. Uma camisola branca simples descansava ao pé da cama, que havia sido preparada, revelando lençóis azuis e um edredom da mesma cor do carpete.

-Vou guardar o carro –declarou Jesse, e deixou-as.

Ida ajudou Bella a se despir e passou-lhe a camisola.

-Ajeite-se enquanto vou preparar alguma coisa para você comer.

-Eu... eu não estou com fome, mas uma coca-cola seria refrescante.

-Jesse foi à cidade e trouxe tudo o que você pediu. Vou trazer uma.

-Obrigada, Ida. Se já não sabe você e Jesse são uns amores –declarou Bella, desejando de todo o coração que pudesse lhes dizer a verdade.

Como se houvesse percorrido o trajeto milhares de vezes antes, Bella correu ao banheiro do outro lado do quaro e fechou a porta, contra a qual se recostou, fraca sob a tensão de estar vivendo uma mentira.

Ida não percebeu nada. Rosalie ficaria contente se soubesse como a brincadeira estava dando certo. Quanto a ela, nunca se sentira menos festiva. Ida e Jesse obviamente eram dedicados a Mas e à irmã. Não mereciam aquilo, mesmo que Rosalie estivesse só brincando.

Bella estudou o ambiente. Exceto pelos artigos pessoais de Edward, esse poderia ser eu próprio banheiro, desde a marca do creme dental até a loção hidratante sem perfume.

A troca fora fácil demais. Tinha o pressentimento de que tudo ia explodir de uma hora para outra.

Então mais um capitulo pra vcs, aproveitei o fds pra adaptar pq provavelmente essa semana não vai dar pra fazer isso

Agradecimentos:

julia

cla cullen

Kahli hime

Ina Alice Cullen Winchester

Lariis star

Obrigada meninas pelos comentários

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