Desafiando Deus
Capitulo 32 – 'Ninguém'
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"– sabe o que acontece quando acaba um conto de fadas?
– o que? – perguntou desinteressada.
– vem o felizes para sempre...
– bobo... – fechou os olhos e o abraçou mais forte."
– já vai dormir?
A garota ergueu os olhos e se deparou com o par de orbes dourados e cintilantes do demônio. – estou cansada... Você torturou de mais a minha cabeça hoje... Nem acredito no que eu fiz... Você não sente dor não? – ergueu o corpo apoiando os cotovelos no colchão macio.
Ele sorriu. Deixou a mão deslizar pelas melenas negras até tombar no leito. – não sei se você é absurdamente corajosa ou exageradamente louca...
Esperava ser repreendido, mas ela riu divertida. Segurou o rosto dele entre as mãos e lhe deu um estalado beijo na testa. – ah eu sou louca... Completamente louca... "por você..."
O rapaz analisou o sorriso que brotou nos lábios dela. Algo estranhamente luminoso havia passado por sua mente humana. Mordeu-se por dentro por não ter forças para entrar em sua cabeça. Sabia que ela odiava quando fazia isso. Não gastaria energia para ser odiado.
Ela deitou novamente. Ajeitou o cobertor sobre eles. Ainda sentia o corpo dele frio. Mas agora, quando deixa perder um pouco de tempo prestando atenção, podia ouvir o coração dele batendo. Mas era um som sofrido, como se órgão fizesse força extra para cumprir sua função. Ele deveria estar exausto. Por um momento as cenas na escadaria voltaram a sua mente. – "eu estava tão desesperada que nem me dei conta de tudo que eu fiz..." – Aquilo a fez se sentir bem. O havia ajudado tanto.
Estava tão distraída que o toque suave das garras dele em seu braço a assustou. – desculpe – ele murmurou baixinho. Os olhos fixos em um ponto do teto.
– não precisa se desculpar... Não faz seu feitio... – ela deslizou a mão por seu peito e a repousou sobre o ferimento no abdômen dele. – devo dizer que está... Gentil de mais hoje...
Ele permaneceu com o olhar perdido. – posso te dar um sem numero de razões para isso... Mas a mais importante é que estou completamente dependente de você... Se ainda não percebeu...
Kagome soltou-se dele e sentou na cama com cuidado. Algo que ela não havia se dado conta. Algo que espetou como um espinho o coração. Um demônio imortal reduzido a um cãozinho atropelado. Ele pouco se movia e aparentemente todos aqueles poderes fantásticos o haviam abandonado. E agora? Ela não podia protegê-lo de nada. Não podia fazer nada alem de olhar. Nada! A face dela tremeu.
Ele sorriu como se não tivesse importância alguma. – sabia... Enquanto os cortes não fecharem... Até uma humana como você pode me matar com as mãos nuas...
Aquilo foi a ultima gota d'água. A morena se curvou apoiando o rosto na barriga dura dele. Caiu no choro. Ele estava tão frágil assim?
– hei... Não chore... – sentiu a mão dele sobre a sua.
– "não vai adiantar nada mesmo..." – ela levantou e limpou o rosto. O surpreendeu com um olhar determinado – eu sei que não sou muito útil... E que você deve estar preocupado em ficar em minhas, mas... – segurou firme a mão dele, que antes estava sobre a sua – eu irei me esforçar ao máximo! Você vai ficar bom! É só me dizer o que precisa...
Algum sentimento perturbou a visão do demônio por alguns segundos. Definitivamente ela estava se jogando de cabeça no abismo que era a alma dele. – apenas fique do meu lado... – a voz saiu fraca e suave. – está frio...
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Kagome voltou do seu ateliê tarde. Havia passado todo dia lá e saído apenas para comer. Carregava com certo carinho uma estátua de gesso. Era um cavalo apoiado apenas nas patas traseiras. A crina congelada imitava o balanço do vento. Pretendia colocá-lo sobre a penteadeira. Observou que o corredor já estava reconstituído. Mas o sorriso morreu em seus lábios quando tocou a maçaneta do quarto. Algo estava muito errado. De quem era aquela voz?
– criança maldita... – a mulher estava montada sobre o rapaz. Apoiava todo seu peso no joelho, esmagando seu abdômen e fazendo o sangue espirrar toda vez que se movia. – o que fez foi imperdoável... – os olhos dela eram púrpuros. Combinavam lindamente com os olhos rubis dele. O sangue começou a vazar sem controle pela boca, tingindo o mármore branco de sua pele. – se a Rainha não teve coragem de matá-lo... – agarrou-o pela franja prateada, enquanto erguia as longas garras negras da outra mão. Ele estava completamente inerte. – eu mesma farei i-
A fala foi interrompida pela perda momentânea de consciência. A estátua se partiu ao meio na nuca, sujando os cabelos ruivos de sangue e pequenos fragmentos de gesso branco. Em seguida foi a dor do corpo atirado ao chão. A mulher tentou se levantar e recebeu um chute na canela fazendo com que tombasse ainda tonta no chão. A morena havia se colocado entre ela e a cama. Entre ela e seu objetivo.
– humana repugnante... Você é a maior culpada... – ergueu os olhos roxos de encontro aos da púbere. Era como ver o próprio diabo. – me devolva Auriel! – o grito foi agudo e desesperado – VOCE O MATOU!
Kagome a olhou com pena. Ela o amava? O amava mais do que ela? – eu não o matei...
– como ousa se dirigir a mim!? – ela finalmente recobrou todos os sentidos e se levantou. – irei te devorar... E depois arrancar a cabeça daquela criança sinistra!
Kagome lançou um rápido olhar para o rapaz na cama. Sua cabeça estava tombada e afundada no travesseiro sujo de sangue. Os grandes orbes vermelhos e opacos dispersos. Estava quase inconsciente. – "criança? Está falando dele?" – a garota se pos confusa, mas tinha uma certeza, aquele monstro não tocaria no seu amado demônio de novo.
A ruiva ameaçou se aproximar e recebeu a metade da estátua, que ainda estava nas mãos da morena, com violência, direto em seu olho direito. O sangramento começou instantaneamente. Ela grunhiu como um animal e desapareceu porta a fora.
O seu corpo pesou finalmente e a garota sentou na beirada da cama. Um calafrio percorreu sua espinha. E se tivesse demorado mais? – "o que... foi que eu fiz?" – demorou um tempo até entender o que realmente se passara.
Da onde saíra tanta coragem a ponto de se por diante de um monstro?
Ouviu a tosse abafada dele contra o travesseiro. Estava se engasgando com o próprio sangue. Kagome correu em seu socorro, levantando mais sua cabeça com a ajuda de uma almofada. Ele ficou em silencio enquanto ela limpou todo o sangue. Outra vez.
Jogou um pouco de água com a ajuda de uma garrafa sobre o ferimento no abdômen. Constatou que os pontos estavam no lugar e o sangramento estancado. Apenas a carne que parecia não ter cicatrizado em nada. Pingou algumas gotas de iodo sobre o corte. Ele se remexeu.
– isso arde... – comentou com a voz rouca.
– é pra não infeccionar, bobo... – ela caiu rapidamente em si. – "se sente arder, também sente doer! Então ele agüentou toda essa dor?" – refez o curativo ligeira. – por que não demonstra nenhuma dor? – perguntou calmamente.
– berrar não vai fazer a dor passar... Mas pode fazer você não colocar essa porcaria, que arde loucamente, em mim...
Ela passou as mãos pelo próprio rosto enquanto ele ria. – "até que faz sentido..."
– estou com aquela cara horrível de novo, não estou? – desviou do olhar súbito dela.
Deixou seus olhos amendoados deslizarem pelo corpo dele. Estava praticamente sentado. Os longos fios prateados presos em uma trança que ela mesma havia feito. As ataduras prendiam com força o braço esquerdo no lugar. O tórax desnudo ainda tinha alguns hematomas. Mas sua pele continuava impecável. Lisa e alva. Os olhos pareciam estar do tamanho normal, mas mantinham a cor de sangue.
– se está se referindo aos seus olhos e presas, saiba que não está tão horrível assim... Acho que já me acostumei... Por isso encarei aquela louca agora a pouco... Vocês têm os mesmo olhos fortes...
Vermelho, amarelo, de volta ao vermelho, chegou ao escarlate e apaziguou. Brilhavam como sangue fresco. Um humano jamais notaria a fração de segundos que a mudança de cores aconteceu. Mas ele percebeu muito bem a visão nublar, o quarto tremer. E a sensação de ter o peito esmagado continuava tão forte. Mas o rosto dela era tão lindo...
– chegue mais perto... Princesa...
Ela caminhou até o seu lado. O demônio segurou seu pulso com uma força excessiva puxando-a para seu colo. A garota apenas obedeceu. Sentou-se com cuidado. Mão dele acariciou seu rosto quente. Seus lábios. A fez fechar os olhos massageando sua nuca. Deslizou os dedos entre os fios negros algumas vezes para só então fechar o punho com firmeza. A violência do puxão fez a morena gritar assustada.
– me solta... – a respiração acelerou. Os olhos dele estavam quase negros, mas ela não podia ver. Seus olhos arregalados viam apenas o teto. – está... Doendo...
– você merece uma boa surra... – ele pareceu ter recuperado por completo a voz seca e metálica. Um perfume alcoólico.
Continua...
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Faça o impossível. Desde que o faça por mim. De todo o seu amor. Mas o dê só pra mim. Dê-me seu coração, pois eu gostaria de comer algo quente.
Próximo capítulo:: 'Não chore'... Está sujando os lençóis de vermelho. Mas querida, o sangue que sai dos meus ferimentos é o seu...
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São 3:05 da madrugada e faz um calor infernal... Eu tenho consciência de que aqui no Sudeste não é tão quente quanto mais lá pra cima, mas poxa! A essa hora deveria estar mais fresquinho... T.T (~ como eu odeio o verão ~)
Okay... Ignore o comentário completamente inútil... É que eu não tenho nada pra falar hoje... =X Agradeço com muito carinho as reviews! (reverência) Juro que não demorarei com o próximo capítulo! (tenho consciência de que há uma certa agitação a respeito do que está acontecendo, mas tenham calma...) E é só... Aguardo a opinião de vocês...
Ah eu publiquei um One-Shot que eu tinha escrito há pouco... Quem tiver com um tempinho livre e quiser fazer esse projeto de escritora feliz, da uma passadinha em "Celibato"...
Mais um comentário inútil: Cortei o antebraço em uma chapa de ferro há dois dias e ta doendo até agora... Sabe quando você está no lugar errado, na hora errada? Ainda bem que as minhas vacinas estão em dia... -.-
