Capítulo 06

Em sua sala particular no terceiro andar do prédio da Moreau Textiles em Nice, um edifício pertencente à família havia várias gerações, Philippe interfonou à secretária.

-Jéssica? Ouvi dizer que George voltou. Você o viu entrar?

-Não, monsieur. Ele já estava aqui quando cheguei. Quer que lhe dê algum recado?

-Não será necessário. Obrigado, Jèssica.

Mike olhou para o relógio. Cinco para o meio-dia. Embora nenhum dos empregados precisasse estar trabalhando antes das oito e meia, George era notório por chegar às vezes até as seis da manhã. Usava o tempo extra para organizar os papéis. De outra forma, as demandas de sua agenda não o permitiriam.

Agora que voltava de suas férias prolongadas, sem dúvida queria colocar tudo em dia. Mas Mike, que chegara às sete, esperava que George se apresentasse a ele antes de qualquer coisa, pelo menos para falar sobre sua viagem e se pôr a par dos acontecimentos na empresa durante sua ausência.

O fato de o secretário não ter feito nada disso e já estarem nomeio do dia confirmava as suspeitas de Mike. George o evitava de propósito. E não mandara um postal, nem telefonara, durante todo o mês.

Chamou o ramal do funcionário:

-Seja bem vindo, George.

-Mike. Não sabia que já tinha chegado.

Mentiroso! Philippe engoliu o repúdio e controlou a raiva.

-Que tal os fiordes noruegueses?

-Magníficos.

A brevidade de George o irritou ainda mais; segundos depois, sentia o estômago queimar.

-Me encontre em nossa mesa de sempre no salão de jantar do Hotel de la Grande Corniche em dez minutos. Precisamos discutir alguns assuntos.

Após um instante de leve hesitação, ouviu.

-Poderíamos almoçar lá amanhã? Preciso limpar minha escrivaninha antes de sair do escritório hoje.

-Creio que não possa esperar. Já que prefere ficar no prédio, peço a Annette para nos trazer alguma coisa e poderemos nos reunir em minha sala. Espero vê-lo aqui em cinco minutos.

Antes que George pudesse recusar mais uma vez, Mike desligou, deu instruções a uma das datilógrafas e levantou-se da mesa.

Ficou de pé junto à janela que dava para a Promenade des Anglais, onde o azul quente do Mediterrâneo e as velas brancas dos iates encantavam os olhos. Não podia acreditar que fosse setembro. Seu tormento fora tão grande que não notara que o verão já viera e passara.

A paisagem privilegiada, tida como uma das mais belas do mundo, ridicularizava seu tormento interior. Dividido pela culpa e pelo desejo, próximo à necessidade, sabia que não podia continuar com aquilo por muito mais tempo. Os sentimentos contraditórios, igualmente intensos e implacáveis, estavam arruinando sua saúde física. Quanto a seu bem-estar emocional, esse simplesmente não existia mais.

Uma batida familiar à porta o alertou, e ele se voltou a tempo de ver o secretário particular entrar na sala. George estava vestido impecavelmente, como sempre, com um terno de trabalho de corte conservador.

George trabalhava para Mike havia vinte anos. Embora já contasse sessenta e seis, tinha o tipo de rosto e corpo que nunca parecia envelhecer. Mesmo o cabelo mantinha o mesmo tom loiro escuro, que disfarçava o grisalho. Mike pediu-lhe que se sentasse.

Educados, trocaram umas poucas amenidades. George respondeu pacientemente às perguntas de Mike sobre sua viagem, mas a camaradagem entre eles não existia mais. Sem disposição para continuar a farsa, Philippe decidiu ir direto ao ponto.

Sentado na beirada da escrivaninha, inclinou-se na direção de George e encarou-o.

-Deu o número de minha casa a Bella, não foi?

-Sim.

A resposta sucinta, dada sem hesitação, informou a Mike que o homem já estava pronto e à espera daquilo.

Mike sentiu os pulmões se retraírem, tornando a respiração difícil.

-Nesses anos todos em que trabalhamos juntos, nunca soube que você tinha cometido algum ato desleal. Você é um amigo da família. Por que a traição agora?

George retirou os óculos de tartaruga e esfregou a cartilagem do nariz.

-Por que Lauren não merece ser tratada assim.

Mike piscou, surpreso. Céus! Como fora cego.

-Não sabia que seus sentimentos por minha esposa eram tão profundos.

-Eu a amo desde a primeira noite em que me convidaram para jantar em sua casa. Mas, então, como agora, percebi que é para você que ela vive. – O reconhecimento calmo continha o peso da amargura.

Atônito, Mike fitou o homem que pensara conhecer tão bem. George nunca se casara. Que soubesse, o secretário nunca se interessara por mulheres. Presumira que o homem levava um tipo de vida diferente. A confissão explicava por que ele arriscara o emprego e a amizade.

Mike se levantou.

-Não tenho alternativa senão deixá-lo partir.

George assentiu.

-Sabia que nosso relacionamento seria prejudicado quando dei o número à srta. Swan. Mas faria tudo de novo se soubesse que isso evitaria que Lauren viesse a sofrer.

Mike se enrijeceu.

-Ao perder a fé em mim, conseguiu apenas causar muita dor. Bella não merecia descobrir a verdade de maneira tão cruel.

-Você decepcionou a si mesmo, Mike. Deixou que ela pensasse que você era livre. O que fez foi inconseqüente.

Mike grunhiu internamente, mas não tentou silenciar George, que apenas estava lhe dizendo o que já sabia, o que o castigara centenas de vezes desde que encontrara Bella pela primeira vez.

-Gosto de mademoiselle Swan. Ela não é só bonita, jovem e saudável, mas também uma vítima inocente, com futuro e anos férteis pela frente. Ela merece mais que as poucas horas que você pode lhe dispensar. –Tomou fôlego. – Bella é a mãe de seus filhos, prisioneira num corpo doente sem culpa alguma. Não tem nenhum futuro; apenas terá um coração despedaçado quando souber o que andou fazendo em suas viagens de negócios a Nova York. Não vai demorar até Simone e Charles ouvirem os comentários sobre o pai. Você é um idiota, Mike.

Embora Mmike tenha se resignado, concordava com George. Até podia pensar em alguns argumentos, algumas atenuantes que o secretário não mencionara ainda. Com tristeza profunda, observou o homem que lhe servira tão abnegadamente se erguer da cadeira e caminhar até a porta.

-George, antes que saia, fique tranqüilo, pois seu futuro está assegurado. Vou passar mais ações para você. Serei generoso. Acho que já sabe que será praticamente impossível substituí-lo.

George parou.

-Espero que sim. Até agora sua vida foi um sonho. Chegou a hora de sofrer as conseqüências de seus atos.

–Então, deve agrada-lo saber que tenho uma úlcera grave.

O homem se voltou, franziu visivelmente o cenho apesar da distância que os separava.

-Agradar-me? Acha que me agrada ouvir tal notícia? –questionou, com emotividade singular. –Como posso apreciar saber que o homem que admirei e amei como a um filho destruiu a si e à família? –Balançou a cabeça. –Nossa sociedade é decadente. Esperava que fosse melhor que isso. –Com um suspiro, deixou a sala.

Ida varreu a poeira na varanda da frente, esperando ansiosamente a volta de Bella e Edward de Rexburg. O jantar já estava pronto havia uma hora, e dissera a Jesse para fazer a refeição sem eles.

Assim como com Rosalie, que fora tão fácil de gostar nos primeiros dias do casamento, Bella também se instalara no coração da caseira. Ela não podia deixar de se preocupar com a saúde daquela jovem, em especial devido à gravidez de alto risco e à falta de notícias de Rosalie.

O desmaio na noite anterior tirara toda a alegria dela e de Jesse. Embora Edward tivesse cuidado do assunto, sabia que ele se abalara quando Bella desfalecera. Perder a consciência daquela forma podia significar que ela desenvolvera complicações de algum tipo. A preocupação com a morte da irmã, de todas as coisas, fora o mais grave. Arrepiava-se só em pensar.

-Ida?

Assim que ouviu a voz alterada de Jesse. Largou a vassoura e correu para dentro da casa.

-Jesse? O que foi?

-Pegue a extensão do telefone no estúdio! –gritou ele, da cozinha. –É a madrasta de Rosalie. Rápido!

Sem perder tempo, Ida passou pela sala de estar, indo para o recanto, onde pegou a extensão da linha telefônica.

-Pronto! –anunciou ao fone.

-Minha mulher vai falar – ouviu Jesse explicar à francesa. –Vá em frente.

-Talvez seja melhor que Edward e Bella saibam de vocês. –começou Giselle, em excelente inglês, com um charmoso sotaque francês. –Ela os amava muito.

Amava?

Ida se sentou na cadeira de Edawrd, temendo que as pernas não a suportassem.

-Lamento informar que a minha querida Rosalie, que sofria de um tumor cerebral inoperável e que lutou tão bravamente pela vida, expirou esta manhã. Faleceu no hospital, poucos minutos antes das dez.

-Não! –gritou Ida, horrorizada, e ouviu a mesma reação do marido. Seus pensamentos se voltaram para Bella. Ainda se lembrava do sofrido Mônica se foi.

-Eu mesma mal acredito – comentou a francesa, com voz trêmula. – A causa imediata da morte foi a ruptura de um aneurisma, a parede da artéria que alimentava o tumor. Pelo menos há conforto em saber que ela morreu quase imediatamente e sem dor.

Ida não conseguia falar, mal respirava de tão chocada. A julgar pelo silêncio de Jesse, ele estava no mesmo estado.

Finalmente tinham uma explicação. Mas isso iria matar Edward. E quanto a Bella...

-Eu teria telefonado antes, mas, pouco antes de perder a consciência, ela disse que não queria que Edward ou Bella viesse a Paris. Pediu-me para que acompanhasse o corpo até Montana, para ser enterrado.

Agarrando-se ao aparelho, Ida murmurou:

-Sim. Será melhor para Bella se você vier. –A pobre criatura não tinha condições de ir a lugar algum.

-Rosalie estava preocupada com a pressão alta de Bella. Então, fiz todos os preparativos para viajar aos Estados Unidos o mais rápido possível. Dessa forma, Edward e Bella poderiam ver Rosalie uma última vez e se despedir.

Ida sentiu as lágrimas rolarem sobre seu rosto.

-O vôo de Salt Lake chegará ao aeroporto de Idaho Falls às duas da tarde. Talvez, de seu lado, possam contatar a funerária local para trazer o corpo do aeroporto e, de lá, possamos viajar juntos.

-Naturalmente – concordou Jesse. Ida mal podia reconhecer a voz transtornada. –Estamos gratos por estar a seu lado na hora final. – Então, tossiu, abalado demais para continuar.

-É verdade – comentou Ida, esforçando-se para se controlar. – Rosalie a amava. Sempre falava de você.

-Minhas duas meninas são muito preciosas. – A voz da mulher se alterou de emoção.

Ida desejou poder reconfortá-la.

-Bella vai precisar de você – incentivou Jesse, limpando a garganta.

-Preciso dela também. –Após uma breve pausa, continuou: - E todos nós vamos ajudar o marido de Rosalie.

Exatamente o que Ida estava pensando. Sentiu-se zonza quando a verdade se tornou realidade em sua mente.

-Obrigado por nos informar. – Jesse se controlou novamente. – Vamos encontrar um modo de dar a notícia a Edward e Bella.

-Que Deus... os ajude. –A voz de Esme falhou, e Ida concluiu que a madrasta perdera toda a compostura. Quem a condenaria?

-Nós a encontraremos no avião – confirmou Jesse.

Ida ouviu os outros dois telefones se desligarem. Quando recolocou o aparelho no gancho, sentiu os braços de Jesse a seu redor. Não falaram nada enquanto Jesse escondia o rosto em seu pescoço e chorava como uma criança.

-Oh, Jesse...

Voltou-se para ele e se abraçaram suas lágrimas molhando a camisa de flanela.

Nenhum dos dois percebeu nenhum ruído até que Edward perguntou com voz grave:

-O que aconteceu?

Jesse encarou Ida, lamentoso, antes de procurar sua mão. Juntos, voltaram-se para Edward e Bella, que estavam parados à soleira do estúdio.

Bella foi a primeira a romper o silêncio assustador.

-Más notícias. Mi...minha irmã está morta, não está? –Parecia uma sentença, e não uma pergunta.

Edward envolveu-lhe o ombro com o braço e a trouxe para junto de si. Então encarou Jesse.

-Diga o que tem a dizer – pediu, resignado.

-Acho que seria melhor que os dois se sentassem – murmurou o capataz.

-Não quero me sentar! – gritou Bella. – Por favor! – implorou.

Ida percebeu que Edward empalidecia.

-Pelo amor de Deus – implorou ele – não continuem com esse suspense.

Jesse procurou apoio em Ida. Respirando fundo, informou:

-Bella, querida... soube a verdade antes de todos nós.

Bella soltou um gemido, e cambaleou contra Edward, cujos olhos pareciam buracos negros num rosto pálido.

-Está me dizendo que Rosalie está morta? –gritou ele.

Ida assentiu, sentindo o coração se partir ao ver a expressão dele.

-Ela se foi num hospital em paris, pouco antes das dez, esta manhã, hora local –começou Ida, reproduzindo os detalhes que Esme fornecera.

Rapidamente, antes que Edward perdesse toda a compostura, Jesse acrescentou:

-Esme vai acompanhar o corpo até aqui para o enterro. Devemos entrar em contato com a funerária local e esperar seu avião em Idaho Falls, amanhã, às duas da tarde.

O peito arfando, Edward soltou Bella, que se sentou na namoradeira e se aninhou, liberando tais sons de dor que Ida achou que ela não suportaria.

Como um sobrevivente de terremoto, Edward pareceu cambalear.

-Tome conta de Bella. Preciso sair um pouco. –Saiu da sala a passos largos.

Ida pousou a mão no braço de Jesse, sabendo que o marido queria ir atrás de Edward. Com voz suave, aconselhou:

-Ele precisa de um tempo só, Jesse. Mais tarde poderá reconforta-lo. É Bella que precisa de nossa ajuda agora.

Horas depois, os arroubos violentos de choro diminuíram. Percebendo que fora deixada só no estúdio, Bella se sentou na namoradeira e afastou o cabelo dos olhos. Chorara tanto que estavam meio fechados de tão inchados.

Com as pernas trêmulas, ficou de pé e foi até a escrivaninha de Edward. A foto favorita de Rosalie estava num porta-retrato junto ao telefone. A reprodução mostrava a irmã sentada sobre uma cerca branca de madeira, vestida como vaqueira, as botas de caubói destacando-lhe as longas pernas. O cabelo avermelhado descia pelos ombros de forma descuidada e encantadora. Ela sorria e em seu olhar havia amor pelo homem atrás da câmera. Obviamente, ele tirara essa foto antes que ela soubesse de seu tumor.

Bella tentou imaginar como teria sido para a irmã saber da própria sentença de morte. O horror a fez desabar mais uma vez.

Como se lhe queimasse os dedos, recolocou o porta-retrato sobre a escrivaninha e, desesperada, sentou-se no chão, enterrando o rosto nas mãos.

Mentalmente, reviu o comportamento bizarro de Rosalie no último ano, começando por sua insistência em limitar suas conversas pelo telefone.

Por causa da lealdade incondicional à irmã, nunca quisera admitir que se magoara com tais regras. Rosalie nunca a convidara para visitar a fazenda, nem aventara a possibilidade de levar o marido a Nova York para conhece-la.

Embora agora tivesse uma explicação parcial das atitudes horríveis de Rosalie, não se sentia aliviada.

Rosalie se fora. Nunca veria seu bebê. Nunca teria um filho seu. A criança de Bella jamais conheceria a tia maravilhosa. Não haveria mais conversas ou risadas. Nada a partilhar. Nada de companheirismo.

Numa súbita percepção, lembrou que a irmã suportara esse mesmo tormento agonizante, sabendo que seus dias estavam contados, esperando pela morte, que poria fim à ligação que tinham desde o nascimento.

Como um astronauta caminhando no espaço, desprovido do sistema vital, flutuando para sempre no vácuo, Bella se sentia totalmente desligada de sua vida. Rosalie fora o centro de seu universo. Agora, ela se fora, e mais nada importava.

-Bella? É quase meia-noite. Não vai ao menos ir ao quarto descansar? –sugeriu Ida com gentileza.

-Não. –Bella balançou a cabeça. –Aquele era o quarto de Rosalie. Não poderia entrar lá novamente. –Mal reconhecia a própria voz.

-Certo. Então, vamos apronta-lo para Esme, e você se muda para o quarto de hóspedes. Precisa descansar.

-Nunca serei capaz de descansar. Minha irmã está morta. Rosalie está morta.

-Eu sei, querida, eu sei. Chore bastante. Desafogue tudo.

Quando sentiu os braços de Ida a envolverem, Bella desabou novamente, soluçando.

-Gos...gostaria que eu estivesse morta.

-Eu sei –murmurou a velha senhora, compadecida.

-Por que isso tinha de acontecer?

-Tenho de acreditar que foi desejo do Senhor.

-Não há Deus algum, Ida. Se houvesse, Rosalie ainda estaria viva. Ela me foi tirada. Não posso acreditar. Não posso acreditar que jamais a verei.

-Você a verá mais uma vez. Mas não nesta vida.

Bella se sentiu enraivecida. Afastou-se de Ida.

-Não vale a pena viver sem ela.

Aos poucos, Edward tomou consciência do barulho suave da água batendo contra o casco, o leve movimento oscilatório. Por um momento, não sabia como ou por que estava ali no barco. Estendeu-se entre os assentos com as roupas que usara no dia anterior, expostos ao frio e à umidade. A neve já cobria o pico das montanhas, e já era época de roupas mais pesadas. Mal havia notado.

Virou-se sobre as costas e abriu os olhos avermelhados. Com a visão borrada, distinguia uma luminosidade lilás no céu do lado leste. A aurora se aproximava.

Então, lembrou-se.

Rosalie estava morta.

Mais uma vez foi tomado pela dor. Como uma arma de batalha, abria o caminho por seu corpo, envolvendo seu coração e alma até que ele imaginasse como ainda podia respirar.

Na noite anterior, pegara o barco e fora para o lago, onde poderia extravasar a dor sozinho. Ancorara numa baía longe de habitações humanas, blasfemou contra Deus, e contra Bella, que ainda estava viva, e contra Rosalie, que mantivera tudo em segredo. Ela negara a ambos um tempo precioso, que podiam ter passado juntos, dez meses preciosos que podiam ter partilhado antes do fim.

Por que ela o afastara? Por que não se voltara para ele, seu próprio marido. Significava que lhe faltava alguma coisa?

Para essa pergunta, nunca haveria resposta. Agonizara sobre o assunto até que uma garrafa de uísque estivesse quase toda consumida. Em algum momento, entregara-se.

Foi quando o som de motor invadiu seus pensamentos atormentados, quebrando o silêncio, informando que não estava mais sozinho. Embora estivessem na segunda semana de setembro e a estação turística já houvesse se encerrado havia muito tempo, alguns dos pescadores locais saíram para a pesca matutina.

As ondas provocadas pela passagem dos pescadores fizeram o barco de seis metros e meio de Edward balançar. A ressaca o deixara com uma dor de cabeça alucinante, bem como tonto e lerdo.

Praguejou e tentou se equilibrar com esforço. Assim que enterrasse Rosalie, se afastaria das atividades de agente para ir aos lagos Coffin. Só um demente se atreveria a perturba-lo lá em cima, onde o ar era tão rarefeito que até dificultava a respiração. Era isso o que queria: se machucar a ponto de não sentir mais nada.

Lembrou-se então de que tinha responsabilidades que não podiam ser adiadas. Tinha de ir ao encontro do avião de Esme e tratar dos arranjos do funeral. Entretanto, no fundo da alma, tinha medo de voltar para casa.

Por que Rosalie tinha de ter uma irmã gêmea? Era a maneira do Senhor puni-lo por algo que fizera de errado? Por alguma falha? Se fosse assim, não poderia ter escolhido melhor forma.

Toda vez que olhava para Bella, lembrava-se da esposa. Amara Rosalie até as profundezas da alma. Viveram como namorados, até aquele dia em que ela fora a West Yellowstone.

Quando ela finalmente voltara, uma pessoa estranha habitava aquele corpo e aquele rosto. A transformação mudara completamente sua vida.

Quando um homem enterrava a esposa, tinha o direito de rezar por alívio, por perdão. Mas, em nome de Deus, como esquecer Rosalie quando o reflexo dela continuava em sua casa, comendo de sua comida, dormindo em sua cama? Sua cama...

Atormentado além de sua resistência, puxou a âncora com movimentos bruscos e desajeitados. Foi até a popa do barco e deu a partida no motor.

Com o motor em ponto morto, tomou uma aspirina da caixa de primeiros socorros e engoliu-a sem água. Ficou imaginando por que o tumor não levara Bella. Ela e Rosalie partilharam todo o resto, racionalizou, com uma raiva amarga que já escapava ao controle.

Num movimento brusco, engatou a alavanca, e o barco cortou as águas em velocidade máxima. Permaneceu no controle, pensando, egoísta, na mulher cuja gravidez era outra amarga lembrança dos filhos e filhas que nunca teria, agora que Rosalie se fora.

Ao contornar o ponto e entrar na baía onde ficava o atracadouro que ele e Jesse haviam construído anos ante, outro pensamento se formou, um que enviou um estremecimento de alarme por todo seu corpo.

Seria possível que Bella tivesse o mesmo tumor de Rosalie e não soubesse?

Talvez o desmaio fosse um sintoma da mesma enfermidade que se mostrara fatal a Rosalie. Uma vez que a esposa não quisera contar nada sobre a doença, ele não fazia idéia dos sintomas que a haviam levado a procurar um médico em primeiro lugar. Por essa razão, não sabia nem o nome do médico que primeiro a diagnosticara.

Como não havia médicos em West Yellowstone, tinha de admitir que ela procurara um especialista em outra cidade próxima. De outro modo, não teria tido tempo de voltar para a casa de Alice na noite do aniversário de dois meses de casamento.

Perturbou-se profundamente ao se reportar àquela noite. Dessa vez, porém, uma raiva adicional acompanhava a recordação, e isso contribuía demais para destruir cada boa lembrança que tinha dela.

Mais uma vez, seus pensamentos sombrios se ocupavam de Bella. O dr. Harvey não sabia a que atribuir a pressão alta. Não encontrara nenhuma proteína na urina que sugerisse toxemia e fora forçado a concluir que se tratava de hipertensão induzida por gravidez. Prescrevera alimentação sem sal e bastante repouso.

Era mais que possível que Bella fosse uma bomba ambulante, assim como Rosalie. Partes de conversas com a cunhada invadiram seus pensamentos, e cerrou os punhos, instintivamente.

Bella mencionara que ela e Rosalie tinham sofrido de apendicite na mesma época. Na verdade, de acordo com Bella, seus históricos médicos pareciam ser da mesma pessoa. Não só precisaram de obturação nos mesmos dentes molares na mesma época, como contraíram catapora na mesma noite, tiveram o mesmo tímpano rompido na praia no mesmo verão e tiveram a primeira menstruação aos treze anos no mesmo dia.

Unidas como eram geneticamente, era presumível que Bella sofreria o mesmo destino da irmã, e logo!

Edward fez uma careta e desligou o motor, formando uma grande onda. Quando chegou ao atracadouro, a dor de cabeça se transformara numa sensação latejante. Saiu do barco, amarrou-o, e então pegou a caminhonete. Tinha de encontrar Jesse.

Dez minutos depois, freou bruscamente ao lado da casa e pulou da cabine. Aliviado, via que Jesse já saía e caminhava apressado em sua direção. Quando o amigo se aproximou, abraçaram-se forte.

-Ida estava ficando preocupada com você – declarou Jesse, com voz rouca, e bateu em suas costas. – Ela tomou a iniciativa e telefonou para uma funerária em Idaho Falls. Vão estar lá, à chegada do avião. Está tudo bem com você?

Edward assentiu.

-Muito obrigado.

-Ouça, Edward, desconfio que esteve no lago e passou uma noite péssima. É melhor que ninguém o veja nesse estado. Vamos voltar ao chalé, e lá você se lava e se barbeia.

-Está lendo meus pensamentos, Jesse. No caminho, preciso discutir uma coisa com você. –Foram para o carro de Edward.

-O que foi? –perguntou Jesse, depois que passaram do portão e entravam na floresta.

-É sobre Bella.

Jesse ficou sério.

-Chorou a noite inteira e se recusa a comer ou beber. Não sei como ela vai se comportar no velório. Se continuar assim, vai perder o bebê. Estou preocupado.

-Eu também –concordou Max -, mas por um motivo inteiramente diferente.

Amores,mais um capitulo pra vcs

Chorei horrores quando li e quando estava adaptando

Foram três capítulos de uma vez e poucos comentários

Proximo capitulo só com 30 comentários no mínimo

Fácil, facil