Capítulo 10
-Ah, monsieur Newton. Que grande prazer revê-lo em Nova York. –O antigo patrão de Bella estava junto à porta, saudando Mike.
Cumprimentaram-se com um aperto de mão.
-Monsieur Gide.
-Entre e sente-se.
Gide deu a volta à escrivaninha e se sentou de frente para Mike.
-Presumo que esteja precisando de nossos serviços de tradução e interpretação. Desde que esteve aqui da última vez, perdemos mademoiselle Swan, mas acrescentamos dois novos profissionais à nossa equipe, ambos de credenciais impecáveis. Vai achar seu trabalho excelente.
Mike sentiu o coração falsear.
Bella partira?
Mais cedo naquele mesmo dia, quando conversara com o porteiro do prédio pela segunda vez, o estudante colegial lhe contara que ela ainda estava de férias.
Ele mentira? Bella pedia a ele que mentisse a Mike para que não pudesse ir atrás dela?
Esforçando-se para não demonstrar nenhuma reação, declarou:
-Não tenho dúvida. A reputação de sua firma o precede. Vou precisar de alguém em tempo integral nos próximos três dias, começando às nove da manhã. É possível?
-Naturalmente. Marc Chappuis está disponível. Quer que o chame aqui?
-Daqui a pouco. Mas, primeiro, gostaria de saber o que aconteceu a mademoiselle Swan. Ela fez um trabalho excelente para mim. Devo admitir que estou muito decepcionado por ela não estar mais com você.
-Todos dizem a mesma coisa. Ela era muito requisitada. Infelizmente, devido a uma doença, teve de desistir.
Doença?
Mike se remexeu na cadeira, os pensamentos voltados para aquela tarde de pesadelo no salão de jantar do hotel quando ela lhe dissera adeus. Agora que pensava sobre aquilo, ela lhe parecera muito pálida e frágil.
Mon dieu. Quando ela descobriu que ele era casado, que a iludira, teria o choque afetado sua saúde?
Engoliu em seco com gravidade.
-Que tipo de doença a fez desistir da carreira que tanto amava?
-Não tenho a liberdade de divulgar esse tipo de informação, mas posso dizer-lhe que ela precisou desistir por ordens médicas. Como disse, não é a primeira pessoa a lamentar sua ausência.
Philippe poderia ter pressionado o homem para contar-lhe o que queria saber. Mas monsieur Gide já suspeitava de que a pergunta de Philippe não se devia a interesse profissional somente.
Precisava ser discreto.
Fingindo uma calma que não sentia, comentou:
-Nunca é bom perder um funcionário de valor. Sei, porque recentemente perdi meu secretário particular, George, um homem que foi um pai para mim nos últimos vinte anos.
-Ah, isso é grave. Minhas condolências, monsieur.
-Obrigado. Não obstante, é necessário continuar. Aliás, gostaria de conhecer esse monsieur Chappuis. Estou negociando alguns acordos de exportação muito delicados que requerem um certo nível de refinamento.
-Marc tem um currículo sólido em empresas. Não vai decepcioná-lo.
-Ótimo. É conveniente; vou entrevista-lo agora.
-Naturalmente. Só um momento.
Enquanto Mike aguardava, a mente viajava. Assim que saísse dali, contrataria os serviços de um detetive particular, que descobriria se o porteiro estava dizendo a verdade.
Melhor ainda, se pudesse localizar a irmã gêmea deBella, saberia tudo o que queria.
O nome dela era Bella. Pelo que se lembrava, ela se casara com um fazendeiro de Montana, que também fazia algum trabalho policial. Nunca a conhecera. Se pudesse se lembrar do sobrenome. Começava com C. algo com Castille*. Não, não era isso. Cul...
-Monsieur Newton?
Philippe se voltou para a porta, e se levantou, ansioso para terminar logo ali e assim poder contratar um detetive para descobrir o paradeiro de Bella. Dinheiro não era o problema.
Bella ouviu a caminhonete na entrada e largou o folheto que o dr. Harvey lhe dera sobre a importância de amamentar.
Edward estava em casa.
Olhou para o relógio. Eram quase nove da noite. Ele não chegava tão cedo a casa havia séculos. Sentiu o coração bater tão forte que estava com medo de que ele pudesse ouvi-lo.
Mais de seis semanas haviam se passado desde a partida de Esme. Bella tentara manter uma conversa descomprometida, como fizera na noite anterior a sua alta no hospital, mas estar com ele ao vivo a deixava menos confiante de que ele a perdoara.
Durante outubro e novembro, raramente viu o cunhado. Ele estava cuidando de um caso de proteção de testemunhas e, no resto do tempo, entregava mandados judiciais.
Ocasionalmente, trocavam algumas palavras, em horas estranhas, quando ela o via voltando de alguma de suas tarefas ou saindo para mais uma. Não haviam feito a refeição juntos nem doze vezes naquele mesmo período. Bella estava quase a ponto de implorar-lhe que ficasse em casa.
Ida não gostava da maneira como ele estava reagindo. Bella ouvira a caseira discutir com o marido, que a lembrou de que aquele era o modo de Edward lidar com sua dor. Assegurou a Ida que tudo passaria.
Bella não tinha tanta certeza.
Ultimamente, notara uma leve mudança em Edward. Quando se encontravam inesperadamente no corredor, ou quando ele entrava na sala, ele não a olhava mais como se desejasse que ela estivesse em outro mundo. Ao invés disso, parecia olhar passando por ela.
O dr. Meyers definira os estágios da dor. Ele dissera que os homens freqüentemente tinham mais dificuldade do que as mulheres em superar sua dor porque eram treinados desde o berço para não chorar.
Se isso fosse verdade, então Bella tinha pena de Edward. Ele mantinha a tristeza reprimida. Ela, por outro lado, chorara tanto que superara a dor no hospital. Desde então, sucumbira a várias sessões de choro, mas estavam se tornando menos freqüentes. Estava aprendendo a exercer mais controle sobre as emoções, em parte porque temia que seus excessos pudessem afetar o bebê.
Quando se sentia triste, imediatamente se atirava a um novo projeto. Andava esperançosa quanto a ajudar Edward com a contabilidade, mas não tivera oportunidade, ou coragem, de se aproximar, ainda. Hesitava por temer que o pedido o fizesse se lembrar de Rosalie, ou que a iniciativa parecesse uma tentativa de substituir-lhe a esposa. Então, Ida, quando fora à cidade comprar algumas roupas para a maternidade, trouxera tam'bem lã e começara a lhe ensinar tricô. Até então, haviam concluído um par de sapatinhos de aparência um tanto duvidosa e agora se concentravam num suéter de bebê.
Catorze de fevereiro era a data provável do nascimento. Um bebê no dia dos namorados. Com o auxílio de Ida, desenhara um padrão para as mangas e gola do pequeno suéter, incorporando um par de coraçõezinhos em rosa e vermelho contra o fundo branco.
Naturalmente, o bebê não poderia usá-lo logo, mas, desde que sentira seus movimentos na barriga, tornara-se realidade. Vivia pensando em todas as roupinhas adoráveis que queria comprar, mas naturalmente não sabia se deveriam ser para menino ou menina.
-Bella?
Ela piscou, pois não havia notado a entrada de Edward no estúdio. Estava acomodada na namoradeira à frente da lareira, lendo, planejando, sonhando. Adorava aquela sala. A sala dele.
-Edward! Voltou mais cedo. Ida vai ficar contente. Ela preparou costeleta de porco para o jantar.
-Jantei na cidade. – Ele parecia exausto.
Bella observou-o tirar as luvas e larga-las sobre a escrivaninha, ao mesmo tempo que despia o blusão de couro. Seu cabelo estava úmido.
-Acha que vai nevar de novo?
-Talvez. –O olhar dele percorria o ambiente incansavelmente, até que pousou sobre o panfleto a seu lado. –O que está lendo?
De repente, ela ruborizou intensamente.
-Algumas informações sobre o bebê que o médico me deu.
-Deixe-me ver.
-Eu... eu realmente não acho...
Em segundos, ele vencia a distância entre eles e pegava o papel. Vários segundos se passaram até que ele finalmente ergueu a cabeça.
-Vai amamentar?
Uma pergunta tão pessoal a deixou desnorteada. Não estava propriamente embaraçada. Não tinha certeza do que estava sentindo.
-Se puder.
Ele franziu o cenho.
-Há algum problema?
-Acho que não. Algumas mulheres têm dificuldade. Minha mãe não conseguiu amamentar a mim e Rosalie porque não tinha bastante leite. Mas não estou prevendo nenhum problema, já que não estou esperando gêmeos, graças a Deus – comentou, com um sorriso tímido. Inesperadamente, ele lhe devolveu o sorriso.
A mudança repentina lhe tirou o fôlego, fazendo-a se lembrar da primeira vez que vira o cunhado numa foto. Mas, assim perto do fogo, o homem em carne e osso estava muito mais atraente.
Enquanto ele acrescentava outra tora ao fogo, Bella baixou os pés e se levantou.
-Aonde vai? –perguntou ele. – Não saia por minha causa.
-Chegando a casa depois de um dia de trabalho, um homem tem direito à privacidade.
De fato, ele já se sentira assim, mas agora, não mais. Ultimamente, descobrira que sentia a falta da companhia de Bella cada vez mais.
-Aviso quando precisar ficar sozinho – informou, antes de indagar: - Soube alguma coisa de Esme? Paul já recebeu os papéis?
-Acredito que já tenha recebido, mas Esme diz que a justiça francesa é lenta. O advogado de Paul provavelmente não teve tempo de responder. Ela prometeu telefonar quando tivesse novidades.
Como se fosse combinado, o telefone tocou. Em poucos passos, Edward alcançou a mesa e ergueu o aparelho.
-Cullen falando.
Enquanto ele ouvia a pessoa do outro lado da linha, estreitou o olhar sobre Bella.
-Só um momento.
Passou-lhe o aparelho.
-É para você.
Ela pousou a mão sobre o fone.
-Quem é?
-O porteiro do seu prédio.
-Está brincando. É quase meia-noite lá. – Posicionou o telefone para falar.
-Oi, Sid.
-Oi. Você me disse para telefonar se alguma coisa importante acontecesse.
-Sim?
-Pensei que devia saber que um homem andou fazendo perguntas sobre você. Veio três vezes. Disse que era um amigo chegado, mas não deixou o nome. Uns dois dias atrás, outro cara me ligou, também fazendo perguntas sobre você. Mas não disse nada.
Não podia imaginar, a menos que... Não, não seria Mike. Se quisesse entrar em contato com ela, teria mandado uma carta há muito tempo. Toda a correspondência lhe fora enviada.
Mike. Deus do céu. Não pensava nele havia séculos!
Alguma coisa devia estar errada com ela, se podia esquecer tão facilmente o homem que a deixara grávida. O pai de seu bebê. Mas só pensar em Edward, em sua companhia, desviara completamente seus pensamentos do outro homem. Desde que chegara à fazenda, Edward era aquele que sempre estivera a seu lado, ajudando-a em cada etapa da gravidez problemática. Começara a pensar nele como o pai da criança.
Do fundo do coração, queria que ele fosse o pai.
O porteiro ainda estava falando, e Bella se forçou a prestar atenção a suas palavras. Intrigada com o homem estranho que ele mencionara, agarrou o telefone com mais força.
-Pode descrever o homem que viu?
Antes de ouvir a resposta do porteiro, Edward tirou-lhe o aparelho.
-O que está acontecendo? –sussurrou ele, encarando-a com firmeza.
-Não sei. –Repetiu-lhe o que o porteiro contara.
Beliveau, pensou Edward.
Edward colocou o aparelho no ouvido.
-Aqui fala o oficial Cullen. Trabalho no escritório federal de Billings, Montana. Você pode telefonar pedindo confirmação. A srta. Swan é minha cunhada, e está morando sob minha proteção. Agora, pode passar para mim o que ia dizer a ela – comunicou, com voz autoritária. – Fale-me sobre esse homem. O mínimo detalhe pode ser de importância vital.
-Não sei dizer sobre o homem que telefonou –respondeu o porteiro –mas o outro tinha um metro e oitenta, uns cinqüenta anos. Cabelo claro ficando grisalho nas têmporas, bem vestido, como se tivesse muito dinheiro, e falava com um forte sotaque europeu.
-Francês?
-Não sei.
Edwardfez uma careta.
-Que carro ele dirigia?
-Não reparei.
-O que disse a ele? Tente se lembrar das palavras exatas. É importante.
-Disse que ela estava de férias, e que se ele quisesse podia enviar um recado junto com a correspondência. E foi tudo.
-Mas ele não lhe ofereceu dinheiro?
-Não.
-O que disse para o homem no telefone?
-A mesma coisa.
-Qual é o seu nome inteiro?
-Sid Fink. Estou no colegial, mas substituí meu pai que andou doente nesse final de ano.
-Dê-me seu telefone e o horário em que se encontra. – Edward escreveu as informações. – Se ele fizer outra visita antes que eu entre novamente em contato com você, se faça de bobo. Se fizer qualquer outra coisa, ele vai desconfiar que você está de olho. Se outra pessoa ligar, não diga nada. Está entendendo?
-Certo. Parece que ela está em perigo.
-Pode muito bem estar – afirmou Edward, sério.
-Ela é muito bonita. Todos os caras do prédio têm um fraco por ela. Não acho que esse vai desistir.
-Apenas fique de olhos abertos e boca fechada – declarou Edward, rude. Não podia evitar, os comentários do rapaz o irritavam demais. –Vou manter contato. (N/A: isso, meu querido, se chama CIUME)
Bateu o telefone no gancho, fazendo Bella se assustar.
-Fica assim por enquanto. Vou a Nova York amanhã cedo.
-Por quê? O que está acontecendo?
-Tenho razoes para acreditar que Paul Beliveau andou espreitando o seu apartamento, tentando descobrir o paradeiro de Esme. E acho que ele não está trabalhando sozinho.
-meu Deus... –Ela levou a mão ao pescoço.
-Exatamente o que eu estou sentindo. Ele não vai deixar Esme escapar sem luta. O fato de ela estar querendo o divórcio provavelmente foi a gota d'água. Conheço bem esse tipo. Não é mais seguro para você manter aquele apartamento. Vou deixar seus móveis num depósito.
-Certo. Vo...você nunca confiou nele, não é?
-Não.
Ela andou pela sala.
-Esme não devia ficar sozinha.
-Ela tem um advogado influente e amigos nos lugares certos. Também disse que está providenciando uma mudança para Grasse.
Bella ficou atônita com a novidade.
-Quando ela lhe disse isso?
-No aeroporto. É um bom plano, e espero que ela coloque em prática o mais rápido possível. Quando ela telefonar, vamos manter esse último acontecimento em segredo, para o caso de não ser Beliveau. Não há necessidade de preocupa-la com isso agora.
Bella concordou.
No silêncio que se seguiu, quase podia ouvir o que ele estava pensando, e decidiu esclarecer:
-O único homem com quem saí em Nova York foi Mike, e isso já acabou há muito tempo.
Edward olhou para ela, estreitando o olhar.
-E quanto aos vários homens com quem trabalhou, como intérprete? Quantos deles quiseram sair com você num clima pessoal?
-Alguns.
-Especifique.
-Eu... eu não sei. –Ela desviou o olhar, incapaz de continuar encarando-o.
-Tantos assim – resmungou ele. – Que tal todos eles?
Ela ruborizou.
-Claro que não!
Uma tensão estranha se formou entre eles.
-Algum homem em particular lhe vem à mente, algum que foi insistente e que não aceitava ser preterido?
Ela balançou a cabeça.
-não. Monsieur Gide tem um negócio de respeito. Se um cliente tomasse essa linha, ele lhe recusaria o serviço.
-Então, como Mike conseguiu o que foi negado a todos os outros?
Ela detectou uma farpa na pergunta; não estava gostando do rumo que a conversa estava tomando.
-É um debate público? Já superei essa etapa de minha vida.
-Mas e ele?
Encarou-o
-Honestamente, não sei.
-Onde esse Mike mora? Qual é o sobrenome?
-Moreau. Ele mora em Cap D'Agle, perto de Nice. Comanda os negócios da família, a Moreau Textiles.
-Tem o telefone da casa dele?
Após uma breve Paula, ela declarou:
-Está na minha caderneta de endereços, que deixei na gaveta da cômoda em Nova York.
-Quer dizer que não sabe de cor? – censurou-a, tomado por ciúme, forte e inesperado.
-Só liguei uma vez. –As palavras saíram num sussurro.
-O que aconteceu? A esposa dele atendeu? Foi assim que soube da verdade?
Bella não se permitiria revelar quão perto da verdade ele chegara, quase adivinhando a cena toda. Mas a expressão envergonhada e humilhada a denunciou.
-Que filho da mãe! – praguejou ele, extremamente alterado. – Então, o que aconteceu?
-Prefiro não conversar sobre isso.
-Não tem escolha, se vou descobrir quem está rondando o seu apartamento. Você discutiu?
-Não. – Ela afastou o cabelo da testa. – Depois que descobri a verdade, não quis mais vê-lo.
-Quando foi a última vez que o viu?
-Duas semanas antes de deixar Nova York e vir para cá.
-Então, simplesmente desapareceu.
-Sim.
-E ele nem sabe por quê. Isso provavelmente o deixou louco... – Olhou-a especulativamente. – Por quanto tempo se relacionou com ele?
Ela odiava ter de contar tudo aquilo a Edward. Era humilhante ter de revelar o quanto fora idiota e ingênua.
-Seis meses. –A voz estremeceu, apesar de sua tentativa de que soasse confiante.
Edward respirou fundo.
-E se não tivesse descoberto sobre a esposa?
Houve outra longa pausa; ela simplesmente não sabia o que dizer. Ele andou pela sala, punhos cerrados, cenho franzido. Nervoso, parecia muito atormentado.
Bella declarou:
-Acho que vou dormir.
-Ia sugerir exatamente isso. Vou me despedir agora. Vou para o aeroporto de madrugada. Depois que partir, não atenda ao telefone. Deixe que Ida e Jesse selecionem as chamadas. Caso seja Beliveau ou um de seus subordinados, não fale com ninguém até que eu diga que está tudo bem.
-Não falarei. Quanto tempo vai ficar fora? – Ela tenteou esconder a melancolia na voz.
-Depois de passar por Nova York, terei de transportar dois prisioneiros entre fronteiras estaduais. Devo voltar em duas semanas.
Ela lamentou interiormente. Duas semanas pareciam dois meses. Foi para a porta. Mas, quando chegou, um tremor de medo a fez parar. Voltou-se para olhar para Edward, percebendo o quanto dependia dele, como era reconfortante contar com ele. Ele sempre cuidava dos outros. Mas quem cuidava dele?
-Edward?
Ele ergueu a cabeça, como se estivesse vagando pelos pensamentos. Encarou-a, dando-lhe total atenção.
-Vai estar de volta para o dia de Ação de Graças?
-Duvido.
Não podia pensar nele fora nos feriados.
-Tome cuidado - sussurrou ela.
Alguma coisa surgiu no fundo de seus olhos.
-É o meu trabalho.
-Apenas volte para casa.
-É o que pretendo.
Quando ela saiu, Edward ficou de pé junto à escrivaninha, perdido em seus pensamentos. Não conseguia se lembrar da última vez que ouvira aquelas palavras. Como era bom ouvi-las. Vamos encarar o fato, Cullen. É bom ouvi-las de Bella.
O relógio ancestral da sala de estar tocou onze vezes, lembrando-o de que, se queria dormir um pouco, era melhor ter tudo planejado.
Após telefonar ao chefe para pedir uma licença, que lhe foi dada, consultou as fichas da agenda. Fez uma chamada.
Quando uma voz familiar atendeu, Edward suspirou aliviado e se afundou na cadeira.
-Rand? Tirei-o da cama?
-Posso estar velho, mas ainda não bati as botas. Edward Cullen, tanto quanto estou vivo e respirando.
-Então, não me esqueceu.
-Seria praticamente impossível após todas as missões de que participamos juntos. Na verdade, tenho pensado muito em você. Foi muito ruim sobre sua esposa. Ela era um amor, assim como minha Bess, que Deus as guarde.
Amém, pensou Edward.
-Rand, como anda sua agenda?
-Nada que não possa mudar, agora que me aposentei. O que você tem?
-Você não gostaria de colocar seu chapéu de detetive particular e voar comigo para Nova York pela manhã?
-Agora estamos conversando, menino.
-Tenho um serviço a preço de mercado. Você vai fechar um apartamento e colocar os móveis num depósito. Então, vai montar campanha. Pode ser por alguns dias ou um mês.
-Quer dizer que vou ficar num apartamento vazio?
-Vou permitir um saco de dormir, televisão e telefone. Um microondas, também. Pode viver de comida congelada.
-Quem estou guardando?
-Ninguém. Não é serviço dos federais. É pessoal. Vou pagar seu salário. Um desses dias, o porteiro vai deixar subir um homem. Você deve prende-lo e descobrir tudo sobre ele. Explicarei os detalhes no avião. Pode estar em West Yellowstone às seis?
-Aguarde-me.
-Obrigado, Rand. Isso é importante.
-Posso sentir pela sua voz. Já estou sentindo pena do sujeito que você está querendo agarrar.
-Depois do resumo, vai mudar de idéia.
Bella deixou a clínica e caminhou cuidadosamente pela rua coberta de neve até a drogaria Larsen. Queria comprar sorvete de chocolate e marshmellow, o favorito de Jesse e Ida para levar.
Ao entrar, ouviu uma voz familiar saudar:
-Bella, não é?
Imediatamente, ela se virou para o balcão e reconheceu a amiga de Rosalie, Alice Hale, uma loira bonita não muito mais velha que ela própria. Aparentemente, ela e o marido tinham aquela loja e o posto de gasolina em frente, o mesmo de onde telefonara ao chegar a West Yellowstone.
-Oi, Alice.
-Que bom que entrou. Queria lhe fazer uma visita, mas Edward disse que você ainda estava mal e que devia ficar de cama.
-Não mais. Estou vindo da enfermaria, fui tirar a pressão. Está normal por enquanto. A enfermeira telefonou a meu médico em Idaho Falls, e ele me deu permissão para sair um pouco todos os dias. Naturalmente, ainda não posso comer sal.
-Então, não vou lhe oferecer um pedaço da torta de maçã. Tem sal na massa. Que tal uma maçã?
-Adoraria.
-Aqui está.
Bella se sentou num dos banquinhos e mordeu a fruta fresca. Alice se serviu de uma xícara de café, e então pousou os cotovelos sobre o balcão à frente de Bella. O único freguês estava sentado a uma mesinha, comendo um hambúrguer.
-Para alguém que passou por uma dor tão grande, você está com ótima aparência. A gravidez combina com você.
-Obrigada.
-Sinto muito a falta de sua irmã. Ela possuía uma vitalidade contagiante.
Bella assentiu ao relembrar.
-Ela era a luz de minha vida, e da de Edward – comentou simplesmente.
Na verdade, Rosalie se tornou a razão de viver dele. Agora, parecia que ele se tornava a razão de Bella.
-Isso é verdade. Quando você entrou aqui da primeira vez, pensei estar vendo Rosalie, mas você é muito diferente.
Bella ficou curiosa.
-Acha mesmo?
-Sei que mal nos conhecemos, mas sim, acho.
-Você é uma pessoa muito perspicaz. Pessoas que nos conhecem há anos não conseguem nos diferenciar.
-Não estou falando de semelhanças físicas. De algum modo, você parece mais confiante.
Ninguém nunca lhe dissera aquilo. Bella parou de mastigar.
-Estamos falando de mim?
Alice riu.
-Sim. Rosalie era muito excitante e intensa, mas acho que lá no fundo, mascarava alguma insegurança. Você é... bem, me perdoe por lhe dizer isso, mas você é muito mais como uma mãe terra...
Bella riu abertamente.
-Nisso eu acredito. – Deu um tapinha na própria barriga.
Quando Alice sorriu, seus olhos azuis brilharam.
-Não, sabe o que estou querendo dizer. Você possui uma qualidade mais suave. Não estou conseguindo explicar. É alguma coisa que sinto em você, que é mais... pé no chão.
-Sou pé no chão, sim. Confinada em casa e na cama pelos próximos três meses.
Riram novamente. Bella gostava de se sentir assim após tantos meses sem motivos para rir.
-E o homem mais sensacional deste lado do continente? Não o tenho visto ultimamente.
Bella sabia exatamente de quem ela estava falando.
-Não o vejo a duas semanas.
Mas vivia para seus telefonemas à noite. Às vezes conversavam por até meia hora, quase sempre sobre o bebê e sobre como ela estava se sentindo. Quando ele perguntou sobre Bella, contou-lhe que ela ainda não recebera resposta de Paul Beliveau ou de seu advogado.
-O que ele está fazendo? –perguntou Alice.
-Está levando dois prisioneiros. Mas, se tivesse o direito, pediria para que ele desistisse desse trabalho e se dedicasse em tempo integral à fazenda.
-Realmente?
Alice assentiu.
-O que ele faz deve ser incrivelmente perigoso. Detesto isso.
-É interessante, porque sua irmã achava esse aspecto da vida dele fascinante.
-Eu sei. Ela procurava aventura em tudo, mas não vejo nada de excitante em guardar a vida de pessoas que correm perigo.
-Concordo com você, mas não posso falar por Rosalie.
-Por que não?
-Oh, porque acho que a atração pelo perigo na verdade mascarava os mesmos temores que você tem, só que ela não conseguia falar nesse assunto. Como disse, você é bem diferente.
Bella colocou o bagaço da maçã sobre um guardanapo.
-Obrigada por ser sua amiga e por ser honesta comigo. Por que você e seu marido não aparecem na fazenda na semana que vem para jantar? Eu vou cozinhar e dar um descanso a Ida.
-Acha que o médico vai aprovar?
-Provavelmente não – Bella se esquecera.
-Tenho uma idéia. Por que não nos encontramos na cidade? Vamos deixar que outra pessoa faça o serviço. No Lasso Club servem uma truta cozida que não pertence a este mundo. Se telefonar pedindo, tenho certeza de que preparam a sua sem sal.
-Adoraria. Não tenho vida social no momento, e então, estou livre todas as noites.
-Que tal quarta-feira às seis e meia? Telefono durante o dia para confirmar que vamos.
-Parece ótimo. Talvez, faça algumas compras de Natal também. Quando nos dermos conta, o Natal já terá chegado.
-Tem razão. Estou tentando escolher alguma coisa especial para meu marido.
-Eu sei. Estou tendo o mesmo problema com Edward.
-Vamos as duas pensar sobre isso. Talvez, quando nos encontrarmos, já tenhamos alguma idéia.
-Vai ser maravilhoso.
Bella procurou a bolsa e colocou um dólar no balcão, mas Alice não aceitou.
Rindo, Bella deixou a loja. Já estava quase chegando ao carro quando percebeu que esquecera o sorvete e precisou voltar para pegá-lo.
Hey pessoal, mais um capitulo pra vcs
O que acharam do capitulo? Estou adorando reler essa historia!
