Capítulo 13
Embora estivesse fora de serviço, Edward enfiou a arma no cós da calça. Pegou uma cerveja da pequena geladeira do trailer e saiu, deitando-se na espreguiçadeira para contemplar as águas.
Aquela parte da Flórida era provavelmente o lugar do país que mais detestava. Colocou os óculos de sol, mas a paisagem não melhorou. Os quilômetros de praia plana sem movimento o fizeram ter saudade do terreno primitivo de casa. Daria o salário de um mês para aspirar o tipo de ar seco de inverno que congelava os pulmões e fazia lutar pela próxima arfada.
Baixou meia lata, imaginando a fazenda. Devia estar soterrado na neve agora. Podia ver as pilhas de madeira perto da casa, a fumaça saindo da chaminé. Quase podia sentir o cheiro.
Fumaça de madeira e o café de Ida.
Percorreu mentalmente a casa, conhecia cada parte dela, decorada para o natal com guirlandas de pinho. Sempre acabava no estúdio, onde o fogo da lareira crepitava, formando sombras que dançavam contra as paredes.
Podia ver as sombras sobre o rosto de Bella, destacando o brilho de seus cabelos. Podia vê-la ali de pé, a forma grávida, rica e cheia.
Mas o milagre verdadeiro era tocá-la...
Grunhiu ante a lembrança e pulou da espreguiçadeira. Terminou a cerveja antes de ir tomar um banho frio.
Não tinha direito nenhum de fantasiar sobre ela. Assim que Newton jogara a bóia na água, ela fora nadando atrás. Uma proposta de casamento era tudo o que ela estava esperando.
Não havia como passar o natal com ela, observando em agonia silenciosa enquanto ela contava os dias até o bebê nascer e assim ficar livre... livre para deixá-lo.
Edward tentou apagar esses pensamentos, olhando para as decorações de natal dos trailers vizinhos. Talvez devesse seguir o conselho de Jesse e encontrar uma mulher. Havia muitas na Flórida, atraentes e disponíveis. Conhecera várias na sede do acampamento para trailers, que lhe enviaram sinais não muito sutis desde o dia em que estabelecera residência ali. Tudo o que precisava fazer era sorrir.
Um dia em breve, Bella e o bebê partiriam. Ela iria para a França, casar-se com o pai da criança.
Como ia viver com aquilo? Como diabo iria viver com aquilo?
-Jornal, senhor.
Edward se voltou e viu o jornal cair a seus pés. Os pensamentos estavam a milhares de quilômetros de distância. Não percebera o entregador se aproximando, até que ele já houvesse passado com a bicicleta.
O escritório local estava usando o jornaleiro como mensageiro, que trazia informações, mensagens, ordens. A qualquer momento agora, Edward esperava ser informado de que estariam mudando a operação para outro Estado. Pegou o jornal dobrado. Talvez as ordens tivessem sido enviadas.
A testemunha que estava guardando, um homem baleado num assalto a loja, estava para ter alta do hospital. Seu disfarce consistia num trabalho de arrumação. Oferecera-se como voluntário no caso pelo tempo que precisassem. O que sentia por Bella o impedia de voltar para casa. Como estava, o ciúme o deixava violento; chegara muito perto de quebrar a cara de Newton.
Dobrando novamente a espreguiçadeira, encostou-a no trailer e entrou, trancando a porta. Abriu o jornal e um envelope caiu.
Negócio oficial.
Rasgou o envelope, rezando para que o enviassem para o mais longe possível da Flórida.
Franziu o cenho e retirou os óculos de sol.
Não eram ordens.
Contou três páginas de fax, escritas à mão. Mas por quem? Não de Ida, nem de Jesse. Que diabo?
O "Querido Edward", ativou o turbo em seu coração, que já estava a toda quando correu os olhos até a última página e viu a assinatura de Bella. Gelou, imaginando que ela partira antes mesmo de o bebê nascer. Como Jesse ponderara, ela tinha o direito de fazer o que quisesse com sua vida.
O dia seguinte seria natal. Talvez Newton tivesse ido à fazenda fazer-lhe companhia.
O entardecer já cedera lugar à noite. Imóvel, Edward permanecia ali como que em transe. Finalmente, quando concluiu que não conhecer a verdade era pior, procurou o interruptor e acendeu a luz, afundando-se na cadeira junto à mesa para ler.
Querido Edward,
Tentei imaginar onde você estaria ao ler esta carta, o que poderia estar comendo, bebendo, vestindo (além do seu coldre, naturalmente).
O seu trabalho deve ser muito solitário, às vezes. Já que não tenho meios de saber como é, só rezo para que esteja bem e contente.
Como sabe, odeio esse seu emprego (sei que estou sendo áspera e muito rude, mas espero que me perdoe). Todas as razões do mundo, tais como "Alguém tem de fazer isso", não me convencem. Os riscos são muito grandes. A fazenda já seria suficiente para a maioria dos homens, mas não para você, aparentemente. Deve haver muitas pessoas por aí, pessoas agradecidas, que lhe devem a vida. O que o faz continuar? Um dia, espero ouvir e entender as suas razões.
Edward respirou fundo e leu tudo de novo, saboreando os pensamentos, a honestidade.
Esme finalmente telefonou com novidades maravilhosas. O advogado de Paul respondeu e houve um pré-julgamento. A corte determinou que Paul se submeta a uma avaliação psiquiátrica. Ele está sob ordem judicial. Não sabe como me sinto aliviada. Ela não pode sair de Paris ainda, mas, já que Paul não é mais uma ameaça, nem precisa. De qualquer forma, podemos relaxar. Sei que andou preocupado com o fato de ele ser perigoso, mas Esme está confiante de que o perigo tenha passado.
Como um homem sedento, Edward devorava cada palavra, sem perceber até aquele instante o quanto precisava de notícias de casa. De Bella. Não queria que a carta terminasse.
Visitei o dr. Harvey hoje. Ele diz que tudo parece bem., tenho uma opinião um pouco diferente, nem me atrevo a me olhar no espelho, pelo menos num de corpo inteiro!
Edward riu, lembrando-se de como era senti-la mesmo quando empacotada no casaco de couro, a pele e o cabelo cheirando como os prados de Montana cobertos de flores silvestres.
Ida e Jesse me levaram. Eles têm sido muito gentis, não mencionando o meu ganho de peso. Foi bom que eles não tivessem me visto subindo e descendo da maca de exames. Sei que estava parecendo uma baleia encalhada, ou, talvez, uma tartaruga de casco para baixo.
Com isso, Edward riu alto.
Sabe o que dizem sobre uma tartaruga de costas. Não vai a lugar nenhum. O que me traz ao motivo desta carta. Você provavelmente estava imaginando se eu chegaria lá.
Edward deixou de sorrir. Baixou a carta como se tivesse levado um golpe e se levantou da mesa. Ela estivera descontraindo, preparando o terreno para um golpe maior. Por que simplesmente não fora direto ao ponto?
Agarrou os papéis da mesa e se sentou novamente.
Devo dar à luz em oito semanas. O dr. Harvey está preocupado, pois acha que a fazenda fica longe demais da cidade. Mesmo com a pressão arterial estabilizada, ele quer acompanhar de perto. Começando em janeiro, ele quer me ver duas vezes por semana. Então, quando faltarem apenas duas semanas, quer que eu apareça todos os dias para fazer uma verificação até o dia do nascimento.
O que acha que devo fazer, Edward? Mudar-me para Rexburg? Graças à sua generosidade, ainda tenho dinheiro economizado para pagar o aluguel de um apartamento por um mês. Ou acha que um quarto de hotel seria melhor?
Edward se levantou. Leu e releu o trecho da carta até quase decorar. Nenhuma menção de se reunir a Newton.
Virou para a página seguinte.
Outra preocupação do dr. Harvey é que eu possa entrar em trabalho de parto antes da hora (não que ele ache que vai acontecer). Mas entendo o que ele está pensando. Hoje, outra nevasca deixou a estrada parecendo uma invernada no Yukon. Sem a habilidade de Jesse ao volante, acho que não teríamos chegado.
Como estava, levamos cinco horas na estrada.
Cinco horas. Se ela tivesse complicações, poderia não dispor nem de cinco minutos. Isso decidia tudo. Voltaria para casa assim que providenciassem um substituto.
Sei que estou me estendendo. Mas não poderia terminar esta carta sem lhe agradecer pelos dois macaquinhos. Ficaram perfeitos com o suéter. Não vai ser divertido ver o bebê vestidinho com eles?
Estou muito feliz que não tenha comprado de recém-nascido. O dr. Harvey diz que é um bebê de bom tamanho. É por isso que logo minha gravidez ficou aparente. Pobre criaturinha! Não há mais espaço lá! Tal mãe, tal filha (ou filho).
Sorrindo, Edward balançou a cabeça.
O bebê deve estar sentindo a sua falta, pois nunca senti chute tão forte quanto o daquela noite em que se conheceram.
Oh, Bella...
Sei que não tenho o direito de lhe pedir para voltar logo para casa, então, não pedirei. Mas, caso não tenha adivinhado, com o Natal chegando, todos na fazenda precisam de você e sentem a sua falta, principalmente Rosalie-Louise. Sabia que o nome de minha mãe era Louise? Naturalmente, não pronunciei em voz alta, para que ela não me ouça. (Se for um menino, gostaria que se chamasse Kevin. O que acha?)
Bella
P.S. Um tal de Rob Miller deixou um recado na secretária eletrônica. Alguma coisa sobre ter coelho preparado para quando voltar.
Que droga!
Não sei se é importante ou não. Por favor, não se ofenda, mas se está pensando em arranjar um coelho para o bebê, acho que ele ou ela preferiria um cachorrinho. Minha mãe não gostava de animais por perto; então, nunca tivemos bichinhos de estimação.
Acho que animais são importantes. Mas estou sendo egoísta novamente. Não pude deixar de notar que todos os fazendeiros têm cachorros, menos você. Naturalmente, não é da minha conta.
Oh, Bella, Bella.
P.P.S. Taylor Burton passou e disse que a labrador preta vai dar cria. É possível que dê a luz junto comigo. Ele gostaria de dar-lhe um cachorrinho como presente de natal. Naturalmente, deve chegar atrasado pelas razões óbvias. Já insinuei que gostaria de ficar com um assim que eles estejam mais fortinhos. Já andei até pensando num nome. Talvez Valentina. Ou, se quiser um macho, pensei em chamá-lo de Cachorrão, como da TV.
Edward balançou a cabeça, tocado e divertido ao mesmo tempo. Nem sabia o que fazer com todos os sentimentos que o envolviam naquele instante, querendo explodir.
Preciso fazer uma confissão. Por favor, não fique zangado. Seu contador telefonou outro dia. Ele precisava que alguém verificasse um dado e, como não havia mais ninguém por perto, fui até seus arquivos. Eles estavam meio bagunçados e então comecei a arruma-los. Prometo não fazer grandes alterações. Bem, talvez só um pouco. Nada de maior monta.
Edward piscou.
Não fazia idéia de que tocar uma fazenda, mesmo pequena, fosse um negócio de tal porte. Sei que tem Jesse, mas como consegue administrar tudo e ainda ser agente federal, ao mesmo tempo? Talvez haja alguma coisa que possa fazer para pagar meu sustento até o bebê nascer. Costumava ser muito hábil no computador. Pense no assunto.
Não sou muito boa em tomar emprestado, sabe, e nunca devolvo nada. Então, por favor, me deixe ajudar, do jeito como me ajudou. Vai dar um novo significado à palavra família.
Família. Edward pensou e repensou na palavra. O que ela queria dizer com aquilo? Era seu modo de dizer que ele nunca poderia ser nada além de seu cunhado? Era isso o que ela queria dizer?
Suspirou. Talvez estivesse interpretando demais. Afinal, eram uma família.
Por que ela não disse nada sobre seu telefonema a Mike?
Talvez os dois tivessem concordado em não alterar sua situação até o nascimento do bebê. Talvez Newton quisesse começar a pagar suas contas, e ela se recusara até que estivessem casados. De qualquer forma, nesse meio tempo, não queria ser sustentada pelo cunhado.
Talvez por isso ela de repente pensasse em pagar as próprias despesas, até Newton se responsabilizar. Isso explicaria por que ela mencionara usar as próprias economias para encontrar abrigo temporário em Rexburg. E por que fora tão eficiente com a papelada administrativa da fazenda.
Que inferno, se ela tivesse sugerido, ele teria lhe passado o trabalho de contabilidade há muito tempo.
Com determinação sombria, Edward rasgou as páginas e jogou-as no vaso sanitário. Dessa vez fora ainda melhor destruir a evidência incriminadora, pois assim ele não teria como relê-la vezes sem conta. Um homem poderia ter tantas coisas...
Precisava voltar para casa. Precisava de respostas. E precisavam estar frente a frente quando ela desse essas respostas.
-Bella? Gostaria de um pouco de companhia?
Ao som da voz de Ida, Bella, que estava deitada no sofá, vestida com o robe de veludo cor de vinho que Edward lhe enviara de Natal, sentou-se nas almofadas.
-Claro! Estou só descansando um pouco, vendo a previsão da meteorologia antes de ir descascar as batatas para o jantar.
-Vai descascar as batatas? Deixe que eu faço isso. De qualquer maneira, não almoçou. Pensei que gostaria de uma bebida quente.
Bella sorriu para a caseira.
-Já disse várias vezes para parar de me mimar... mas não vou recusar.
Bella pegou a bebida quente que sobrara do jantar de Natal, na noite anterior, e sorveu o líquido para agradar a caseira. Mas, na verdade, desde que passara a carta a Jesse havia quatro dias, perdera o apetite.
Cinco segundos depois que o capataz tomara a estrada, percebeu ter cometido um engano. Tentara telefonar para o escritório do xerife para não transmitirem via faz, mas os ventos fortes haviam interrompido as linhas que iam até a sede, o que a levara a presumir que o fax não seria enviado, tampouco. Ficara mais animada.
Duas horas depois, porém, Jesse entrava muito contente pela porta dos fundos, batendo a neve das botas. Em voz alta, anunciou:
-Missão cumprida.
Ela sentira o coração enfraquecer.
Simplesmente declarara a Edward que o amava.
Fora muito atrevida; forçara a situação.
Assim que começara a expressar seus sentimentos, parecia não poder parar. Agora, tinha de viver em agonia, imaginando se causara revolta nele por transpor os limites estabelecidos pelo casamento com Rosalie noutra época.
-Está amuada. –Observou Ida. – Sei que o tempo ruim a deixa nervosa, então vou lhe contar uma coisa. Assim que as estradas estiverem limpas, vamos até Rexburg, verificar um hotel. Vamos ficar lá até que entre em trabalho de parto. Vai ser divertido, como se fossem férias. Vamos alugar vídeos e comprar muitas revistas e livros.
-Ida, pare de se preocupar com meu estado de espírito... eu estou bem. Tudo o que li sobre grávidas diz que, no período final, há alguma inquietação. Algo a ver com o instinto de proteção.
Ida produziu um som desdenhoso.
-Deve estar se sentindo muito engaiolada.
-Não. Adoro a neve, e esse sentimento de estar quente e segura dentro desta casa. –Fitou a árvore onde os presentes de Edward o aguardavam. –Há um aconchego, um sentimento de amor que penetra em você. Assim como um cartão de natal antigo. Conhece o tipo... com a lareira e a neve acumulada nas janelas.
Deu um sorriso carinhoso a Ida.
-Naquele primeiro dia, quando me ajudou a entrar em casa, eu... eu senti que tinha chegado a casa. –A voz lhe falhou, e respirou com determinação. –O natal com vocês me fez sentir como se pertencesse a este lar. É difícil explicar. Mas acredite em mim. Nunca poderia me sentir amuada aqui.
-Fico feliz em ouvir isso.
Bella engasgou. Conhecia aquela voz. Olhou para a porta.
-Ei, olhe quem chegou! – Ida correu para abraçar Edward. –Você sempre é um colírio para os olhos. Exatamente o que o doutor recomendou. Vou trazer-lhe uma bebida quente.
Edward estava tão bonito que Bella precisou desviar o olhar. Nem sequer notou a saída da caseira da sala.
-Foi uma carta e tanto. –Ele despiu a parca e caminhou em sua direção, as mãos nos quadris. Devia ter saído na correria, pois ainda usava um suéter cinza bem surrado.
-O... o que foi que eu disse para trazê-lo assim tão rápido?
Bella não conseguia controlar a irregularidade da voz. O olhar dele a percorria por inteiro, verificando as mudanças desde a última vez que a vira. Ela se sentiu infinitamente tímida.
-Sua carta coincidiu com um novo rumo no caso, que me deu a oportunidade de voltar para casa. Quando mencionou as contas, lembrei-me de que tinha um negócio que estava pondo de lado. Decidi que agora era a melhor hora para colocar tudo em ordem.
Estreitou o olhar sobre ela.
-Fico contente em ver que está usando meu presente.
Ela pousou a mão sobre o tecido.
-Adorei, ainda que pareça uma perdiz aninhada. Seus presentes estão ali, debaixo da árvore.
Ele ou não ouviu, ou ignorou o comentário. No instante seguinte, já estava no sofá ajoelhado junto dela, encarando-a com uma solenidade que a fez estremecer.
-Como vai Rosalie-Louise?
Bella nunca soube se foi sua própria reação de choque à voz grave e rouca, ou se o bebê realmente o reconheceu, mas de repente lá estava uma sessão de aeróbica em seu útero, através do veludo do robe.
Dessa vez, Edward não esperou pelo convite.
Ao primeiro contato, um suspiro suave escapou de sua garganta. Ela percebeu seu olhar atento antes de ouvir.
-Sua barriga está tão cheia e dura, posso sentir cada movimento do bebê. Como se sente, Bella?
Ela tentou se endireitar um pouco, lutando em vão para não pensar naquele toque e no efeito que tinha sobre ela.
-Não sei como explicar – sussurrou.
-Eu quero saber.
Ela recuperou o fôlego.
-Tente imaginar que esses movimentos que está sentindo estão ocorrendo em seu estômago. Pense no bebê encolhido como uma bola, ajeitando-se aqui e ali, os pés, as mãos apalpando seus rins.
Antes que ela percebesse, a mão deixara o estômago e acariciava sua testa, afastando o cabelo. Então, ele parou.
-Está assustada, também?
Ele estava completamente sério.
Aquele homem, que protegia a vida de outras pessoas, e nunca considerava a própria, estava realmente assustado.
Bom Deus, como ela o amava! Deu um sorriso meigo.
-Não. Excitada. Nervosa, talvez. Mas nunca assustada.
Ele respirou fundo e levantou-se, olhando para ela.
-Como pode ficar tão tranquila?
-Como você combate assassinos profissionais sem hesitar? –Havia desgosto em sua voz. Ele regularmente se expunha a perigos que a maioria das pessoas nem conceberia.
-Não é a mesma coisa.
-Então, me explique.
Ele levou muito tempo antes de responder, e ela ficou com medo de que o tivesse deixado zangado. Finalmente, ele se manifestou, a voz grave e controlada.
-Meu pai só tinha um irmão, que se aposentou do serviço florestal, mas ainda ajudava a combater os incêndios na área de Gallatin. Ele substituía alguns dos rapazes que saíam de férias no verão. Meu tio Owen adorava a vida ao ar livre. Algumas de minhas lembranças mais felizes são de andar pelas florestas e descer os rios de canoa juntos. Tinha dezessete anos no verão em que ele morreu. Meu pai não tinha notícias dele havia algum tempo, então, pegamos o carro para ver o que estava acontecendo.
Ao falar, Edward empalideceu.
-Edward... –Ela balançou a cabeça, temendo ouvir o que achava que viria. –Não...
-Queria saber por que faço o que faço. Quando chegamos ao posto da polícia florestal, nós o encontramos lá. –Após um silêncio tenso, completou: o assassino tinha feito um bom serviço. E no cachorro também. Pode não fazer sentido, mas é por isso que não tenho cachorro. O pobre animal sofreu. E meu tio... – Edward passou a mão pelos olhos. – O choque matou meu pai, que teve um ataque cardíaco fulminante na manhã seguinte.
-Oh, Edward...
-Uma pneumonia levou minha mãe no outro ano. Na época, Jesse era um dos trabalhadores da fazenda. Contei-lhe que ia encontrar o assassino de meu tio. Ele pousou a mão sobre o meu ombro e disse: "Faça isso! Pegue-o por mim, também!"
Bella estava chocada. Lagrimas escorriam de seus olhos
-E o encontrou? –perguntou.
-Não. Mas outra pessoa o encontrou, graças a Deus.
E você passou a proteger vidas desde então.
Sem perceber, Bellaevantou do sofá, querendo confortá-lo, sem saber como.
-Perdoe-me pelo mal julgamento. Perdoe-me por mencionar o cachorro. Rosálie nunca me contou.
-Rosalie não sabia. Antes que levantasse o assunto, nosso casamento desmoronou. Não havia mais comunicação, nenhuma oportunidade de contar o que acontecera. –Ele parecia assustado. –Não sei por que lhe contei. Isso tudo aconteceu há tanto tempo.
-Eu precisava ouvir, para entender.
A dor por que ele passara apurara seus sentimentos, fortalecera-o de tal forma que ela estava espantada.
-Ei, vocês dois! –ida enfiou a cabeça na fresta da porta, trazendo-os de volta ao presente. –Venham para a cozinha e ajudem Jesse e a mim a comer as tortas que preparei. Queremos saber o que decidiram sobre a mudança para perto do hospital.
