Saudações de Tomoeda!!!

Na última vez que postei um capítulo desta fic, eu me envergonhava de ter ficado meio ano sem postar, e dessa vez eu consegui superar esta marca em quase dois meses!

Aos novos leitores, eu dou as boas-vindas! Aos leitores antigos que tiveram paciência para esperar por esta atualização, peço sinceras desculpas! Muitas coisas aconteceram neste meio-tempo, mas não vou aborrecê-los com explicações. Não é para isto que vocês estão aqui, certo?

O capítulo ficou mais longo do que o previsto e não saiu com o esmero que eu desejava, mesmo assim espero que ele não decepcione.

Boa leitura!

Jump27

Atualizado em 15/07/2009

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O lobo e a cerejeira

Cap. 10 – Compromissos

Tomoyo acabou de tomar o café da manhã e subiu para seu espaçoso quarto na mansão Daidouji. Preparou calmamente tudo que era necessário para sair e se olhou uma última vez no espelho, sorrindo com aprovação. O vestido branco e fresco, sem mangas e na altura dos joelhos, era perfeito para aquela manhã quente e ensolarada de verão, e os detalhes delicados em tom lilás combinavam perfeitamente com seus olhos e cabelos cor de ametista.

A menina desceu as escadas e deu as últimas instruções para as criadas antes de sair sozinha. Dispensou a motorista e as seguranças, pois não precisava caminhar muito para chegar ao local aonde iria. Apenas alguns quarteirões de distância eram o suficiente para chegar até a Biblioteca Municipal de Tomoeda. Ao final de seu trajeto, bastou cruzar a ponte do Parque Pingüim para avistar o ponto de encontro a uma curta distância.

Como havia imaginado, ele já estava lá, lindo como sempre. Vestia uma camisa pólo beje e uma bermuda caqui, enquanto os cabelos castanhos eram bagunçados de maneira charmosa pelo vento leve e constante, apesar dos fios ainda estarem um pouco úmidos devido ao banho recente. O perfume masculino que ela pode sentir ao se aproximar mais era o mesmo de costume, marcante e agradável. Shaoran era realmente um rapaz muito bonito, Tomoyo não podia negar. Se não gostasse tanto de sua amiga Sakura, talvez sentisse uma pontinha de inveja.

_ Bom dia, Li-kun! Espero não ter marcado muito cedo. – cumprimentou a recém-chegada.

_ Bom dia, Tomoyo. – Shaoran respondeu - Para mim não há problema, mas você conhece a Sakura melhor do que eu. Kerberus deve tê-la acordado aos berros e ela vai se atrasar, como sempre!

Tomoyo sorriu em concordância e ambos sentaram em um dos bancos entre as floreiras do pátio da biblioteca, à espera da amiga. Dez minutos depois do combinado, uma garota trajando uma salopete azul-clara e uma blusinha branca de mangas curtas surgiu apressada, com os cabelos castanhos-claros se movendo no mesmo ritmo de seu passo de corrida. Parou ao lado do casal de adolescentes e se curvou com a respiração ofegante, apoiando as mãos sobre os joelhos.

_ Tomoyo-chan! Shaoran-kun! Me desculpem! A pilha do meu despertador acabou e... o Kero-chan, pra ajudar... desceu para a cozinha assim que o meu pai saiu... Quando ele subiu e me chamou... eu já estava atrasada!

_ Não coloque a culpa em mim, Sakura! – respondeu o pequeno guardião, aparecendo pela abertura da mochila que sua dona carregava – Mesmo que seu despertador estivesse funcionando, tenho certeza que você se atrasaria do mesmo jeito!

Tomoyo e Shaoran riram discretamente daquela cena já tão comum, especialmente por saber que o guardião do sol tinha toda a razão. Sakura, no entanto, ficou brava com o comentário e forçou Kero a voltar para dentro da mochila antes que ele chamasse a atenção de alguém na rua, arrependida de tê-lo trazido consigo. Seus amigos aguardaram a Card Captor ficar mais calma e recuperar totalmente o fôlego antes de entrarem na biblioteca.

_ Pronto, Tomoyo. Está tudo aqui. – o rapaz falou, guardando os livros que pegou em uma pasta antes de olhar curioso para a sucessora de Clow – Você não vai pegar nada para o seu trabalho, Sakura?

_ Meu pai conseguiu alguns livros para mim na faculdade onde ele dá aulas. – Sakura sorriu, apontando a própria mochila - Acho que são o suficiente!

_ Então, agora que acabamos tudo por aqui, já podemos ir almoçar em casa. O que acham?

_ Ótima idéia, Tomoyo! – Kero se manifestou, entusiasmado, colocando a cabeça para fora da mochila da Card Captor.

_ Tem mesmo certeza que não vou incomodar, Tomoyo-chan? – Sakura perguntou, um pouco insegura - Não quero atrapalhar o trabalho seu e do Shaoran-kun....

_ Mas é claro que não! Você é minha prima e melhor amiga! É sempre um prazer ter a encantadora Sakura-chan em minha casa! Tenho certeza que o Li-kun também prefere que você almoce com a gente. Não é mesmo, Li-kun? – a amiga perguntou com um sorriso maroto.

Pego desprevenido, o jovem chinês corou ligeiramente.

_ Bem, a casa não é minha, mas se não há problemas para a Tomoyo, eu também gostaria que você ficasse mais um pouco conosco...

_ Sakura, não precisa ficar sem-graça! Na casa da Tomoyo sempre tem uma monte de coisas gostosas para comer, então qualquer hora é um bom momento para visitá-la. A única coisa desagradável será a companhia deste moleque!

_ Kero-chan!

_ Tudo bem, Sakura. Só não entendo porque o Mago Clow fez um guardião com forma de leão. Do jeito que esse bicho de pelúcia come, ele deveria ser um avestruz!

_ Pode falar o que quiser, moleque. Seu mau-humor não vai estragar o meu apetite! – retrucou o pequeno guardião, em tom de pouco caso.

De fato, depois que os três chegaram na mansão Daidouji, bastou a mesa ser posta e Tomoyo dispensar as criadas para Kero atacar a comida com vontade, até não conseguir engolir nem mais um grão de arroz. Tudo estava muito gostoso e por pouco a refeição entre amigos não fez Sakura se esquecer de seus compromissos.

_ Obrigada pela comida, Tomoyo-chan, mas agora preciso ir.

_ É uma pena que não possa ficar mais, Sakura-chan. – Tomoyo disse em voz sentida – Espero, pelo menos, que dê tudo certo no seu trabalho com o Ishihara-kun!

_ Vai mesmo na casa daquele cara, Sakura? – Shaoran perguntou, com cara de poucos amigos – Tem certeza que é seguro?

_ Está tudo bem, Shaoran-kun! É só um trabalho de escola. – sorriu Sakura inocentemente.

Shaoran fechou ainda mais a cara. Saber que sua querida Card Captor iria se reunir com Mitsuo Ishihara por causa daquele trabalho de História o incomodava profundamente, e ele só a acompanhou até o portão junto com Tomoyo porque sabia que não poderia evitar este encontro.

Enquanto cruzavam o jardim, Tomoyo repassava com Sakura o caminho que a amiga teria que seguir dali até a rua onde morava Ishihara. Kero voava atrás delas e Shaoran vinha logo em seguida. Percebendo a expressão brava do garoto chinês, o guardião voou até ele.

_ Ei, Moleque! – Kero chamou baixinho - Se me garantir um mês de tenshin, eu posso vigiar o outro moleque pra você. Que tal?

Shaoran parou de súbito e pensou por alguns instantes. A proposta era tentadora, mas ele olhou para o guardião com ar superior.

_ Acha mesmo que eu aceitaria uma proposta mesquinha dessas, Kerberus?

_ Você é quem sabe – Kero deu de ombros, com ar despreocupado – Mas, no seu lugar, eu não deixaria a Sakura ir na casa desse cara. O irmão dela está furioso com essa história e eu só o vejo assim por sua causa. Será que esse moleque não pode ser algum rival seu?

_ Rival? – Shaoran exclamou, tão surpreso com a idéia que foi incapaz de esconder isso do guardião, fazendo Kero sorrir para ele com uma alegria maldosa.

As meninas já estavam no portão, chamando pelos dois. Kero voou até sua dona tranquilamente, enquanto o descendente de Clow se aproximou tentando esconder a sua preocupação.

_ Bem... Eu já vou indo. Bom trabalho para você dois! – despediu-se a Card Captor.

_ Espere, Sakura! – Shaoran falou de repente, segurando a mão da amiga assim que ela se virou para cruzar o portão – Me ligue quando chegar em casa, só para eu saber que você chegou bem, tá?

_ Tudo bem! – ela sorriu, antes de partir.

O rapaz a acompanhou com o olhar. Estava visivelmente triste, o que preocupou Tomoyo.

_ Está tudo bem, Li-kun? Se quiser acompanhar a Sakura-chan até a casa do Ishihara-kun, você pode ir. Não é muito longe daqui. Podemos começar o nosso trabalho mais tarde.

_ Não, Tomoyo. – ele respondeu seriamente - A Sakura tem os compromissos dela e eu tenho os meus. E esta tarde o meu compromisso é com você.

Dizendo isso, os dois voltaram para dentro da mansão. Tomoyo guiou Shaoran até o escritório, onde um laptop já estava preparado para eles. Abriram os livros que o rapaz retirou da biblioteca e outros que pertenciam à família Daidouji e começaram a trabalhar. Depois de lerem várias páginas e selecionarem os trechos mais importantes, a garota de olhos violetas começou a ditar as palavras enquanto ele digitava o texto.

O tempo correu tarde adentro. Shaoran estava digitando a última frase ditada pela amiga quando alguém bateu na porta. Tomoyo pediu que entrasse e uma criada apareceu, anunciando que o lanche já estava servido.

_ Já adiantamos bastante por hora, Li-kun. Se importa em fazer uma pequena pausa?

_ De maneira alguma, Tomoyo.

Os dois saíram pela porta de vidro que ligava o escritório à varanda lateral da casa, onde uma mesa estava posta a espera deles com uma grande jarra de suco gelado e muitas frutas de aparência deliciosa. O casal de amigos comeu em meio a discussão de alguns tópicos do trabalho e outros assuntos escolares.

_ Espero que esteja correndo tudo bem com o trabalho da Sakura-chan também. - Tomoyo falou em certo momento, servindo-se de uma porção de morangos com creme.

_ É, eu também espero... - Shaoran rebateu com mau-humor, antes de saborear mais um pedaço refrescante de melancia.

A adolescente sorriu diante do ciúme indisfarçável do amigo, mas não disse nada, principalmente porque ouviu passos vindo do escritório na direção em que ela e o descendente de Clow estavam. Era um som que Tomoyo conhecia muito bem, o barulho típico de sapatos de salto alto andando sobre o piso de madeira, e logo em seguida Sonomi Daidouji assomou na varanda pela porta envidraçada.

_ Olá, querida! Soube que você ainda está com visitas.

Shaoran, que estava de costas para a recém-chegada, se levantou da mesa e olhou a mulher com curiosidade. Apesar do tempo em que morou no Japão quando criança, raras vezes tinha ido até a casa de Tomoyo e esta era a primeira vez em que via a mãe da garota. Por isso mesmo a amiga fez as devidas apresentações.

_ Mamãe, este é Shaoran Li, o amigo de escola de quem lhe falei. Li-kun, esta é minha mãe, Sonomi Daidouji.

_ É um prazer conhecê-la, Sra. Daidouji.

O mago chinês se curvou em uma respeitosa reverência, cumprimentando a dona da casa com perfeita educação, no que foi retribuído. Então Sonomi sentou-se a mesa com eles e depois de perguntar como ia o trabalho de escola olhou o rapaz com visível curiosidade.

_ Confesso que seu sobrenome me é um tanto familiar, Li. Minha filha me disse que você é chinês, não é?

_ Sim, mas Li é o sobrenome mais comum de toda a China, e por isso mesmo algumas pessoas dizem que é também o sobrenome mais comum do mundo. É muito provável que a senhora já tenha conhecido alguém com o mesmo sobrenome que o meu.

_ Talvez... Deve ser isso mesmo! – sorriu Sonomi – E de que parte da China você é?

_ Li-kun é de Hong Kong, mamãe. – Tomoyo respondeu pelo amigo.

A Sra. Daidouji pareceu empalidecer de susto.

_ Espere! Não me diga que... Por acaso você pertence àquela família tradicional de Hong Kong, que controla e administra algumas das empresas mais importantes de toda a ilha?

Shaoran ficou bastante sem graça, mas confirmou, fazendo os olhos de Sonomi brilharem.

_ Mas é uma das famílias mais antigas e importantes de toda a China! – exclamou a Sra. Daidouji com espanto antes de abrir um enorme sorriso e se voltar para a filha - Tomoyo, querida! Por que não me disse isso antes? Se eu soubesse que você tinha um amigo tão importante, teria providenciado para que ele fosse recebido de maneira mais apropriada em nossa casa!

A menina sorriu, percebendo logo de cara os verdadeiros pensamentos da mãe.

_ Lamento decepcioná-la, mamãe, mas o Li-kun só tem olhos para a Sakura-chan! – Tomoyo informou com tranqüilidade.

Shaoran corou violentamente com o comentário da amiga, e percebendo o significado oculto nas entrelinhas daquela conversa entre mãe e filha acabou engasgando com o gole de suco que acabava de tomar, tossindo ruidosamente. A Sra. Daidouji pareceu ignorar o fato.

_ A Sakura-chan, é? – Sonomi perguntou decepcionada, mais para si mesma do que para a filha – Bem, não podemos culpá-lo por isso, não é mesmo? - ela continuou, dando um sorriso amarelo antes de se levantar da mesa – É uma pena que agora eu precise voltar para a empresa. Fique a vontade e seja sempre bem-vindo em nossa casa, Li! Adoraria ficar e conversar com calma, mas só vim buscar uns documentos.

_ Quem sabe em uma próxima ocasião, Sra. Daidouji? – murmurou o rapaz, ainda bastante encabulado.

_ Assim espero! – Sonomi respondeu com simpatia antes de se virar novamente para a filha – Tomoyo, vou pegar alguns papéis no escritório e voltar para a empresa. Tenho um jantar de negócios esta noite, então não precisa me esperar, está bem?

Tomoyo assentiu, recebendo o beijo de despedida da mãe antes dela desaparecer pelo mesmo lugar de onde veio.

_ Peço desculpas pelo comportamento de minha mãe, Li-kun. Ela não é uma pessoa fácil de impressionar, mas pelo visto você a surpreendeu bastante. Sua família é mesmo tão importante quanto ela disse? – a amiga perguntou, com autêntica curiosidade.

_ É uma família bem antiga, de fato, mas nos dias de hoje ser considerada uma das mais importantes de toda a China já é um grande exagero! – respondeu Shaoran - O clã Li já foi muito importante nas antigas dinastias porque nós servimos a Família Imperial por muitos séculos, principalmente a linhagem principal, que é a minha família. Mas o prestígio de todas as famílias nobres decaiu consideravelmente com as guerras que ocorreram durante a Dinastia Qing, e muitos dos meus antepassados trocaram o continente por Hong Kong, que nesta época já havia sido ocupada pelo Reino Unido. O Mago Clow pertence a esta fase de nossa história, por isso sua mãe era da família Li e seu pai era inglês. Por fim, com a queda do Império e o advento da República, Hong Kong se transformou em refúgio político para muitos dos opositores do novo regime e minha família deixou definitivamente o continente para viver na ilha. Em Hong Kong sim, posso dizer que somos bastante importantes e influentes, pois soubemos criar uma convivência amigável com os ingleses durante todos os anos da colonização e administrar os negócios da família ao mesmo tempo.

_ Isso explica porque minha mãe ficou tão surpresa em conhecê-lo! – Tomoyo exclamou admirada com a história – E sendo de uma família importante, imagino que você terá muitas responsabilidades no futuro, não é?

_ Sem dúvidas!

_ E você está preparado para assumir todas essas responsabilidades, Li-kun?

_ Ainda não, mas estou me esforçando para isso.

_ Mesmo assim deve ser difícil sem o seu pai por perto, não é?

O descendente de Clow ficou surpreso.

_ Como você...

_ A Carta Labirinto. – Tomoyo explicou rapidamente, um tanto encabulada com o efeito de sua pergunta - Quando ela nos prendeu no Templo Tsukimine, você contou para a Sakura-chan e para mim que morava em Hong Kong com sua mãe e suas quatro irmãs. Não mencionou o seu pai em nenhum momento.

_ É verdade... Além de excelente observadora, você tem uma memória incrível, Tomoyo! Eu nunca falei com ninguém sobre isso, mas...

_ Toquei em algum assunto indevido, Li-kun? – Tomoyo interrompeu, preocupada – Eu sinto muito!

_ Não, está tudo bem. – Shaoran a acalmou – Não é nada demais. O fato é que perdi meu pai poucos anos antes de minha primeira vinda a Tomoeda e minha mãe assumiu o comando da família depois disso. Desde então ela está me preparando o melhor possível para que eu possa assumir o lugar do meu pai e não pretendo decepcioná-la. Apenas isso.

_ Entendo... Meu pai morreu alguns meses depois que eu nasci, o que foi um duro golpe para a minha mãe. Mesmo assim ela deu o máximo de si e cuidou da empresa muito bem. Mas sabe, Li-kun... Exatamente por isso que recentemente ela começou a se preocupar com os meus possíveis pretendentes. Minha mãe tem medo que no futuro eu precise administrar os negócios da família sozinha, assim como ela. Sei que está pensando no meu bem, mas lamento muito que isso o tenha deixado constrangido.

_ Tudo bem, Tomoyo. Sua mãe parece mesmo ser uma mulher muito ocupada e de certo modo eu a entendo. Creio que aos olhos de minha família você provavelmente seria considerada uma excelente pretendente para mim também. Tanto você como eu pertencemos a famílias de empresários e, como herdeiros, é sobre nós que vai cair a maior parte das responsabilidades e preocupações. Isso é natural. – o rapaz chinês respondeu com simplicidade.

_ Mesmo no seu caso, que tem quatro irmãs mais velhas?

Shaoran deu um suspiro cansado.

_ No meu caso é exatamente por isso. Claro que minha mãe se preocupa com o futuro das minhas irmãs, mas como único filho homem da casa, serei eu o novo patriarca dos Li de Hong Kong. Não só caberá a mim gerenciar parte dos negócios mas também os assuntos da família relacionados a magia, já que entre os atuais descendentes do Mago Clow eu sou a pessoa com o maior potencial mágico.

_ Realmente são muitas responsabilidades. E eu nunca tinha percebido o quanto nós dois somos parecidos... – a menina murmurou em tom pensativo.

_ Tem razão, Tomoyo. Eu também não tinha percebido isso até agora...

Os dois trocaram sorrisos, mas não era um sorriso alegre e nem triste. Era um sorriso de compreensão mútua. Shaoran estendeu sua mão sobre a mesa na direção da amiga, que hesitou por um instante, mas depois pousou sua mão sobre a dele e recebeu um aperto firme. Algo havia mudado entre eles com aquela conversa. Ambos sabiam agora que, a partir daquele momento, eles teriam com quem desabafar seus problemas familiares sempre que fosse necessário e encontrar o apoio e os conselhos esperados. Encerraram a conversa neste ponto e voltaram ao escritório, onde retomaram o trabalho de escola por mais algum tempo.

Enquanto todos esses fatos aconteciam na mansão Daidouji, Sakura, por sua vez, estava envolta em seus próprios compromissos. A Card Captor não teve problemas para chegar até seu parceiro de trabalho, pois embora não tivesse o hábito de andar por aquela parte de Tomoeda, Tomoyo havia lhe explicado bem o caminho até a rua onde Ishihara morava. Olhou o endereço anotado em um pedaço de papel e começou a procurar pelo número certo com a ajuda de Kero, até que encontrou uma casa típica japonesa, muito parecida com a de Yukito, com a diferença que esta era em forma de sobrado e tinha uma placa de madeira entalhada com os kanjis da família Ishihara ao lado do portão de entrada.

_ Kero-chan... Tudo bem você visitar comigo a Tomoyo-chan, mas acho melhor você ir para casa agora. Não quero que crie confusão na casa do Ishihara-kun, e se eu bem o conheço você vai sair voando por aí para espiar a casa assim que tiver chance!

_ Que calúnia, Sakura! – Kero protestou magoado – Eu prometo que vou me comportar!

Sakura o olhou desconfiada, mas o pequeno guardião se lembrava muito bem da cara nada amigável de Touya recomendando que não deixasse a irmã um minuto sozinha com o "moleque desconhecido", e ele sabia que seria um leão morto se não cumprisse sua missão. Por fim a Card Captor aceitou sua presença e depois de muitas recomendações, as quais Kero jurou obedecer, a menina tocou a campainha.

Uma senhora de meia-idade atendeu. Tinha os cabelos escuros começando a ficar grisalhos, pequenas rugas se formando no canto dos olhos e o sorriso simpático e bondoso de uma típica dona de casa. Trajava um bonito quimono e trazia o cabelo preso em um coque baixo.

_ Kinomoto-san, eu suponho... - a senhora indagou.

_ Sim, senhora! Sou Sakura Kinomoto. – a menina se apresentou, curvando-se perante a dona da casa.

_ Sou Matsuko Ishihara, mãe do Mitsuo. – ela respondeu a reverência – Seja bem-vinda!

Sakura agradeceu as boas-vindas e seguiu a mulher portão adentro. Ficou impressionada com o jardim tradicional extremamente bem cuidado, com suas pedras e plantas estrategicamente posicionadas, além de um bonito momiji junto a entrada da casa, com suas as folhas ainda verdes por causa do verão. Uma cerca de bambus isolava o acesso a um dos lados do terreno e um caminho de pedras conduzia à outra lateral da residência, onde a sucessora de Clow pode ter o vislumbre parcial de uma pequena construção anexa a casa. Do lado de dentro, lindos ikebanas decoravam o ambiente.

Passos foram ouvidos vindos do outro extremo do corredor onde as duas se encontravam e Mitsuo Ishihara apareceu. Ele e Sakura se cumprimentaram e a Sra. Ishihara os deixou.

_ Espero não ter me atrasado! – Sakura murmurou em tom de desculpas.

_ Não se preocupe com isso, Kinomoto-san. Você chegou bem na hora. Meu irmão não está em casa, mas ele deixou alguns livros separados para nós.

_ Também trouxe alguns que me pai me emprestou. – Sakura respondeu, mostrando a mochila.

Mitsuo conduziu sua visitante até a sala principal, onde uma mesa baixa tinha grossos volumes sobre história japonesa além de papel e caneta. A Card Captor abriu sua mochila para tirar os livros que trouxera tomando o cuidado para não revelar o pequeno ser que ali se encontrava, enquanto o rapaz abria as portas corrediças que davam para o corredor externo da casa, revelando a continuação do caminho de pedras do jardim e outro detalhe que imediatamente chamou a atenção da garota.

_ Vocês têm um lago! – Sakura exclamou encantada ao se aproximar do colega de classe e ficar diante do pequeno lago com carpas que havia junto a uma cerejeira do jardim, coroado por uma bonita lanterna de pedra ao lado da qual jorrava a pequena cascata que movimenta continuamente as águas do lago.

_ Minha casa é bem tradicional, como deve ter notado – Ishihara sorriu ligeiramente – Posso te mostrar todo o jardim depois, se quiser. Ele é o orgulho da casa.

Sakura acenou afirmativamente e deixou sua mochila próxima a porta que dava vista para o jardim, com o zíper aberto para que Kero pudesse ficar mais confortável lá dentro. Então ela sentou-se no chão de tatames junto a mesa e os dois adolescentes colocaram-se a trabalhar, com Mitsuo mostrando o que seu irmão já havia adiantado sobre o assunto que eles deveriam pesquisar. Tudo estava devidamente anotado em tópicos, bastava detalhar melhor os pontos principais e elaborar o texto e a apresentação. Os livros que o Sr. Fujitaka havia conseguido para a filha ajudariam bastante nesta parte.

A tarde transcorreu de modo tranqüilo até que a Sra. Ishihara serviu a eles um pequeno lanche e Tadashi Ishihara, o irmão mais velho de Mitsuo, apareceu. Era um rapaz alto e bonito, na casa de seus 20 anos, que usava óculos de lentes pequenas e tinha os cabelos compridos, presos em um rabo de cavalo. Mitsuo o apresentou para Sakura e ele a tratou com muita simpatia. Sentou-se com os dois adolescentes na sala, onde explicou várias coisas, esclareceu dúvidas e conversou por um longo tempo, vindo a descobrir uma pequena curiosidade sobre a amiga de seu irmão caçula.

_ Quem diria que você é filha do Prof. Kinomoto! Não é pra menos que eu não consegui pegar esse livro para vocês na biblioteca da faculdade. Estava com o seu pai! – Tadashi exclamou, observando um dos livros que Sakura havia trazido – Sabia que as aulas do Prof. Kinomoto estão entre as mais disputadas da faculdade? Ele consegue lotar um auditório sem esforço algum! Até alunos de outras turmas vão assistir as aulas dele algumas vezes.

Sakura sorriu feliz sabendo que seu pai era tão querido pelos alunos e o trabalho acabou por aquele dia. Tadashi se despediu dela e subiu para o seu quarto enquanto Mitsuo e sua mãe levaram a menina para conhecer o jardim que ela parecia ter gostado tanto. Eles a levaram até os fundos do terreno onde ficava a construção anexa e a Card Captor encontrou lá dentro uma enorme variedade de bonsais, que Mitsuo explicou serem todos obras de seu pai, um especialista no assunto. Havia também alguns ikebanas sendo preparados que a Sra. Ishihara orgulhosamente mostrou, pois eram a especialidade dela.

Os pais de Mitsuo gostavam muito de plantas e jardinagem. Lidar com isso era a profissão deles. O jardim que tanto agradou Sakura tinha sido inteiramente obra do casal, cada pedra, cada planta, cada detalhe. Casas tradicionais como aquela eram cada vez mais raras e nem mesmo Yukito tinha um jardim como aquele, digno de um palácio se não fosse por sua pequena proporção. A menina achou tudo lindo e igualmente interessante e depois se divertiu feito criança alimentando as carpas do lago. Sua alegria era tanta que Mitsuo sorria só por vê-la alegre. Kero, que sem que Sakura percebesse tinha saído da mochila e feito um vôo de reconhecimento no local, encontrava-se agora sentado em um dos ramos da cerejeira próxima ao lago e ainda não sabia se o que via era motivo de preocupação ou não.

Por fim, chegou a hora de Sakura ir embora. Ela se despediu da Sra. Ishihara e Mitsuo a acompanhou uma parte do caminho, durante o qual ambos conversaram sobre a escola e a família.

_ Então você é o irmão mais novo? – a sucessora de Clow perguntou em meio a conversa que os dois travavam - E é por isso que você se chama Mitsuo?

_ Sim, eu sou o caçula dos três. Keiji, o meu irmão do meio, trabalha na parte da tarde e por isso que hoje você não o conheceu. Mas, e você? Seu nome é Sakura porque nasceu durante a florada das cerejeiras?

A menina sorriu.

_ Na verdade minha mãe sempre quis ter uma filha chamada Sakura. Acho que mesmo que eu nascesse em qualquer outra época do ano eu teria esse nome!

_ A beleza da flor de cerejeira está na sua delicadeza e simplicidade. É um nome que combina com você.

Sakura corou com o comentário e Mitsuo ficou sem-graça por deixá-la encabulada.

_ Me desculpe. Não quis ser inconveniente...

_ Não, de maneira alguma! – a Card Captor disse apressadamente – Mas eu lembrei que um amigo me disse algo semelhante certa vez.

_ O Li, eu suponho... – o rapaz disse, um tanto decepcionado.

_ Ah, não! Não foi o Shaoran-kun! Foi um amigo muito gentil e educado que vive da Inglaterra. – ela disse alegremente, e a resposta de certo modo surpreendeu Mitsuo.

Chegaram então ao Parque Pingüim. Dali em diante Sakura sabia muito bem o caminho.

_ Obrigada pela companhia, Ishihara-kun! Nos vemos na escola na semana que vem, quando recomeçarem as aulas! – a garota se despediu do colega de classe.

Mitsuo ficou vendo-a se afastar e depois retomou seu caminho para casa. Subiu para seu quarto e quando desceu até a sala encontrou Tadashi sentado e fumando no corredor externo que dava vista para o lago e a cerejeira. Juntou-se ao irmão para aproveitar a brisa que soprava naquele fim de tarde quente. Agradeceu pela ajuda prestada em seu trabalho de escola e colocou entre os dois uma pequena caixa de madeira quadriculada.

_ Podemos jogar Go ou Shogi, para variar. – Tadashi falou em tom provocativo, enquanto seu irmão abria a caixa e a transformava em um pequeno tabuleiro de xadrez.

_ Podemos até jogar Mahjong depois que eu me classificar para as Olimpíadas Escolares de Xadrez, se vocêr quiser. – o garoto mais novo respondeu com um sorriso.

Tadashi deu um suspiro, terminou seu cigarro e o jogo começou, com Mitsuo desenvolvendo evidente vantagem apesar de ter saído com as peças pretas. Ele avançou pelo tabuleiro e dentro de uma hora o jogo estava quase todo a seu favor.

_ Sabe, irmãozinho... Acho melhor você tomar cuidado com sua pequena amiga. Ela é perigosa! – o mais velho alertou de repente ao movimentar o cavalo que lhe sobrava.

_ A Kinomoto, perigosa? – Mitsuo indagou visivelmente confuso, o que o fez tocar em uma peça indevida e praguejar baixinho.

_ Peça tocada, peça jogada. – Tadashi declarou com certa ironia, enquanto ajeitava os óculos.

O rapaz moveu a peça tocada, entregando o seu bispo com facilidade ao mais velho. Para compensar, Mitsuo moveu sua Dama, deixando-a em uma boa posição de ataque. Novos lances foram feitos sobre o tabuleiro. Tadashi ainda resistia bem e Mitsuo fez pressão. Sobravam poucas peças agora.

_ Por que acha a Kinomoto perigosa? – o mais novo retomou o assunto depois de longos minutos.

_ Porque, além de bonita, ela herdou o carisma do pai dela. - declarou o universitário, enquanto analisava suas possibilidades seguintes e dava seu próximo lance - É o tipo de menina doce e alegre que conquista as pessoas sem se dar conta disso, o que pode ser fatal para alguns rapazes. Quando você menos espera, se apaixona!

_ Não sei de onde tirou essa idéia! - Mitsuo respondeu em tom aborrecido enquanto fazia sua jogada.

Seu irmão sorriu e moveu sua peça.

_ Xeque!

O caçula olhou espantado para o tabuleiro e moveu a peça seguinte. O jogo terminou poucos lances depois disso.

_ Xeque-mate! - Tadashi declarou vitorioso, sem disfarçar o sabor daquele raro momento.

_ Você trapaceou! - Mitsuou se levantou indignado.

_ De maneira alguma! – Tadashi retrucou calmamente enquanto acendia um cigarro - Um bom jogador de xadrez nunca deve perder o seu foco na partida e você sabe muito bem disso! Mas, se quer mesmo saber a verdade, meu jovem irmão, eu realmente falei sobre a Kinomoto de propósito, só para testá-lo...

_ Me testar? – o rapaz mais novo questionou, franzindo a testa enquanto recolhia as peças e fechava o tabuleiro.

_ Exatamente. Eu vi vocês dois no jardim pela minha janela e percebi que você é suscetível ao poder dela, Mitsuo. A prova disso é que esta nossa simples conversa desconcentrou e irritou o campeão de xadrez da família Ishihara a ponto de fazê-lo perder uma partida quase ganha para um adversário de nível mais baixo como eu. Portanto, ouça o meu conselho. Assim que terminarem esse trabalho de escola, se afaste da Kinomoto ou vai acabar se machucando.

O rapaz não disse nada, apenas pegou seu tabuleiro e lançou um último olhar ao irmão mais velho antes de subir irritado para o seu quarto. Na sua cabeça, o único raciocínio que parecia lógico era que nada do que o irmão disse fazia sentido algum. Tadashi, por sua vez, continuou sentado no corredor externo, fumando tranquilamente. Soltou uma nuvem de fumaça em direção ao céu já escuro do começo da noite e admirou a lua até a família estar toda reunida para o jantar daquele dia.

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Notas da autora:

(Ju bancando a enciclopédia virtual, pra variar!)

1- Tenshin: é uma sobremesa chinesa da qual o Shaoran gosta muito. Infelizmente não achei na internet uma receita de tenshin para saber do que realmente se trata.

2- Momiji: árvore bastante comum em jardins tradicionais japoneses. Suas folhas passam do verde ao vermelho-alaranjado quando chega o outono, o que a torna muito bonita e decorativa. Pertence ao gênero botânico Acer, ao qual pertence também a árvore cuja folha é símbolo do Canadá. (como bióloga de formação, não podia deixar essa explicação passar!)

3- Ikebanas: arte japonesa dos arranjos florais.

4- Bonsai: acho que todo mundo já sabe. Na dúvida, é a arte japonesa de cultivar árvores em miniaturas.

5- Tatame: piso tradicional japonês, semelhante a uma esteira.

6- Mitsuo: significa "3° homem". Escolhi este nome porque ele é o caçula de três irmãos.

7- Go & Shogi: são jogos de tabuleiro e estratégia, assim como o xadrez.

8- Mahjong: jogo de mesa em que é preciso formar conjuntos de pedras para marcar pontos.

Agradecimentos:

- Acdy-chan: Desculpe pela demora da atualização!!! Quanto ao presente do Shaoran, se você achou ele fofo na fic, eu te digo que ganhar algo assim de verdade é ainda mais fofo! Vida real ajuda bastante na hora de dar idéias para a ficção, facilita descrever as cenas e dar mais realismo a elas. Uma mão na roda!

- Cah-chan Hime: Pois é, ficar encenando as cenas em casa ajuda bastante. Tem horas que simplesmente sentar na frente do computador não faz o texto sair de uma maneira decente! Continuo fazendo isso, e se a gente fizer uma enquete aqui, com certeza vamos descobrir que não somos as únicas a ter este estranho hábito!

- Katrina: Acho que vou decepcioná-la um pouco ao dizer que a paixão do Shaoran e da Sakura ainda vai demorar a queimar, como você disse. E quando isso acontecer, provavelmente vou deixar as coisas nas entrelinhas. Se bem que até lá posso mudar bastante coisa ainda.... Mudando de assunto, teve Tanabata neste último final de semana (11 e 12/07). A chuva atrapalhou bastante no sábado, quando eu fui lá. Esse ano você conseguiu ir?

- Tamarq: Agradeço os elogios. Que bom que está gostando da fic. Espero que a história continue te agradando também daqui para frente!

- Chibi Anne: Anne-chan, não se preocupe com tempo! Mesmo que você leve um ano ou mais para aparecer aqui, minha fic estará sempre a espera de seus simpáticos comentários! Agora só nos resta saber qual das duas vai demorar mais para postar agora. Tenho certeza de que serei eu novamente!

- Vanessa S. & Angel Cullen McFellou: Confesso que as reviews de vocês foram uma grande surpresa! Quase 8 meses sem atualizar a fic e de repente surgem duas leitoras novas! Foi algo realmente inesperado! Sejam bem-vindas!!! Espero que tenham gostado deste último capítulo e que gostem dos próximos que ainda virão.