Saudações de Tomoeda!!!

Finalmente o capítulo 11!!! Eu estava ansiosa para postá-lo, mas a cada vez que eu relia alguns trechos enquanto tentava terminá-lo tinha a sensação que dava para escrever de uma maneira melhor e acabava mudando algo. Passei muito tempo parada nas mesmas partes por causa disso até que, enfim, ele ficou pronto! E quando ficou pronto de fato eu nem tive coragem de ler de ponta a ponta, com medo de resolver mudar mais alguma coisa. Por isso a chance de haver erros ortográficos neste capítulo é maior do que nos outros, pois não foi inteiramente revisado. Peço desculpas por isso.

Já vou avisando que o capítulo está enorme, se comparado aos anteriores. Nem mesmo o do campeonato de futebol ficou tão longo, e ele era o maior até o momento. Porém, não posso dizer que fiquei surpresa diante disso, uma vez que a idéia original era que Ciúmes e Febre fossem capítulos separados. Febre seria o próximo capítulo e os fatos nele descrito aconteceriam mais perto do final do ano letivo, provavelmente envolvendo um undokai. No fim, me veio a cabeça uma determinada cena que acabou por unir os dois capítulos em um só, e por isso ele ficou tão grande!

A parte da febre foi inspirada em uma história extra, chamada Honey Milk, que existe no 2º Artbook de Card Captor Sakura. Infelizmente o site onde achei a transcrição dessa fofa historinha está fora do ar. Não sei se volta ou quando volta, mas quem quiser procurar, o nome do site é: Syaoran Bear's Corner.

Boa leitura!

Akane Fuu (ex-Jump27)

Atualizado em 20/09/2009

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O lobo e a cerejeira

Cap. 11 – Ciúmes & Febre

Os tons vermelhos e dourados do outono começaram a tomar conta da paisagem lentamente, conforme o verão ia se despedindo da cidade de Tomoeda. Setembro finalmente havia chegado e com ele também as aulas. Para Shaoran, o melhor desta rotina era poder ver Sakura quase todos os dias da semana e ele queria aproveitar o tempo ao máximo para ficar perto da antiga rival, mesmo que isso significasse fazer compras com ela e Tomoyo ao fim de um dia letivo. Para ele não era uma tarefa tão difícil, já que desde o primário o mago chinês acompanhava as amigas algumas vezes nesse tipo de passeio, especialmente quando Eriol ia a tiracolo.

Era uma tarde bonita e ensolarada quando o badalar suave dos sinos anunciou a entrada de clientes, fazendo a bela proprietária da Twin Bells se virar em direção a porta da loja, onde recebeu com simpatia o conhecido trio de adolescentes.

_ Boa tarde a todos! É bom revê-los!

_ Boa tarde, Srta. Maki! – Tomoyo respondeu em coro com Sakura e Shaoran – Viemos comprar alguns artigos de papelaria.

_ Claro, Tomoyo-chan, fiquem a vontade! Recebi muitas coisas novas no último final de semana, acho que vão gostar. Se precisarem de mim, estarei organizando as prateleiras próximas ao balcão. Basta chamar.

Os três amigos agradeceram e se dirigiram para a parte da loja que desejavam, cada um com sua lista de compras em mãos. Enquanto Sakura e Tomoyo ficaram perdidas em meio a vários cadernos, blocos, fichários e canetas de aparência fofinha, bem ao agrado de meninas como elas, Shaoran pegou tudo o que precisava e foi olhar outras coisas que pudessem ser úteis para seu apartamento. Já tinha separado quase tudo o que queria quando as amigas se juntaram a ele novamente e Tomoyo viu algo em uma das prateleiras que lhe chamou a atenção.

_ Veja, Sakura-chan! Essas canecas com desenhos de pandas não são lindas?

Sakura olhou para onde a prima apontava e Kero, que estava dentro de sua mochila, voou para espiar também. Ambos viram um par de canecas de porcelana, uma com um panda sorridente e outra com um panda de expressão blasé.

_ Kero, não acham essas canecas se parecem com a Sakura-chan e o Li-kun?

O casal olhou para ela sem entender e Kerberus caiu na gargalhada.

_ Tem razão, Tomoyo! O panda sorridente é a Sakura e o mal-humorado é igualzinho ao moleque!

_ Ora, seu... - Shaoran bufou e fechou a cara, ficando ainda mais parecido com o panda e fazendo Tomoyo e Sakura rirem junto com Kero. Então os quatro perceberam a aproximação da Srta. Maki e o guardião teve que se esconder rapidamente na mochila de sua dona.

_ E então? Vocês encontraram tudo o que queriam?

_ Encontramos sim, obrigada! – Sakura respondeu.

_ E pelo visto encontraram algo bem engraçado também! – comentou sorrindo a proprietária.

_ Estávamos falando sobre as canecas. – Tomoyo explicou, apontando para os objetos – Não acha que elas combinam com a Sakura-chan e o Li-kun, Srta. Maki?

A Srta. Maki olhou para as peças de porcelana e depois para o casal de adolescentes, vendo Sakura rindo e Shaoran com uma expressão séria no rosto.

_ Há certa semelhança, de fato. – ela respondeu com sinceridade – Embora eu considere o panda sério mais parecido com o Li quando ele era criança. Agora que é um rapaz, o vejo sorrindo mais.

A expressão do descendente de Clow se suavisou um pouco e o assunto fez a proprietária se lembrar de algo.

_ Falando em pandas... – ela recomeçou, voltando-se especificamente para as meninas – Me lembrei agora daquele panda de pelúcia que voltou misteriosamente para a prateleira assim que eu o vendi para a sua amiga Chiharu-chan! Vocês se lembram disso?

Sakura e Tomoyo confirmaram. Ambas lembravam muito bem do ocorrido.

_ Até hoje não sei o que causou tudo aquilo! – suspirou a Srta. Maki, pensativa – Mas felizmente o caso nunca mais se repetiu. Eu ficaria louca se todos os meus bichinhos de pelúcia fizessem o mesmo!

Shaoran ouvia a história, muito intrigado. Curvou-se discretamente para Sakura, que estava mais próxima dele.

_ Quando foi que isso aconteceu? – ele murmurou.

_ Foi no primário, antes de você chegar aqui em Tomoeda. – a amiga respondeu baixinho – A Carta Salto estava escondida aqui na loja, dentro de um panda de pelúcia.

O rapaz soltou uma exclamação baixa de compreensão e a Srta. Maki retomou a palavra, desta vez falando especialmente com a Card Captor.

_ Sakura-chan, já que você adora bichinhos de pelúcia, já viu as prateleiras dos brinquedos? Chegaram alguns novos entre as coisas que recebi.

A sucessora de Clow soltou uma exclamação de entusiasmo com a novidade e junto com Tomoyo e a Srta. Maki foi em direção as prateleiras que ficavam em outro canto da loja. Shaoran preferiu ficar onde estava para pegar o que ainda lhe faltava, mas assim que ficou sozinho ele segurou o jogo de canecas para avaliar melhor. O panda com expressão de indiferença era estampado contra um fundo verde, justamente sua cor predileta, e talvez realmente se parecesse com ele quando ainda era recém-chegado ao Japão e disputava a posse das Cartas Clow com Sakura. No entanto, foi um pequeno detalhe que realmente lhe chamou a atenção no conjunto. As peças eram de uma marca conhecida, que o fez lembrar imediatamente de uma loja que ele visitou quando estava em Tokyo.

O mago chinês repôs na prateleira as canecas que serviam de mostruário, terminou de pegar o que queria e se dirigiu ao caixa. Sakura e Tomoyo chegaram quando ele havia acabado de pagar suas compras e o trio já estava se despedindo da Srta. Maki quando os sinos da porta ecoaram, anunciando novos clientes. Para desgosto do jovem chinês, um dos recém-chegados era justamente Mitsuo Ishihara. Sua presença no local fez Sakura abrir um belo sorriso ao cumprimentá-lo e Shaoran imediatamente se irritar, enquanto Tomoyo segurava o riso diante daquela cena cada vez mais comum.

Agora era sempre assim! Bastava cruzar com Ishihara onde quer que fosse que Sakura era sempre simpática com o colega. Para piorar as coisas, Shaoran sentia que o mundo conspirava contra ele. Tomoeda não era uma grande cidade, por isso mesmo era possível cruzar com colegas e conhecidos em muitos lugares e ocasiões, mas ainda assim o descendente de Clow tinha a sensação que o enxadrista surgia nos lugares em que ele e sua querida Card Captor costumavam ir ou passar com maior freqüência do que qualquer outra pessoa. Porém, quando estava calmo e sozinho, Shaoran analisava que talvez aquele pensamento fosse só impressão sua ou que antes das férias de verão ele simplesmente não tinha reparado no fato. Talvez tudo aquilo fosse mera coincidência...

"Não existem coincidências, somente o inevitável."

As palavras da Profª Mizuki o atormentavam sempre que o mago chinês tentava ignorar esses encontros repentinos explicando-os da maneira mais fácil, o que não era um bom presságio. No entanto, em nenhum lugar de Tomoeda a presença de Ishihara incomodava mais Shaoran do que na escola. O colégio havia se tornado um terreno hostil por ser o único lugar da cidade onde não havia dúvidas de que o garoto de cabelos avermelhados estaria. Era lá dentro que o jovem Li via podia ver Sakura conversando com Ishihara com uma freqüência cada vez maior, conforme a apresentação do trabalho em grupo se aproximava. Isso era quase tão irritante quanto as ocasiões em que Sakura chamava seu parceiro para almoçar junto com ela e os amigos. Felizmente o rapaz sempre tinha uma maneira educada de recusar o convite, mas ainda assim o fato deixava Shaoran espumando de raiva enquanto Tomoyo se divertia vendo os acontecimentos de camarote. De qualquer maneira, na escola Ishihara parecia tão presente agora na vida de Sakura que um dia desses eles até foram escolhidos como a dupla responsável por cuidar da limpeza e organização da sala de aula, coisa que nem mesmo Shaoran tinha conseguido fazer com sua antiga rival naquele ano letivo. Nesse dia o descendente de Clow fez questão de chegar mais cedo na escola só para não deixar os dois sozinhos na classe.

Shaoran bem sabia que a índole de Sakura fazia a menina ser doce e gentil com todo mundo, até mesmo com ele, que a tratou tão mal quando se conheceram, e que exatamente por isso nada havia de errado em seu comportamento com relação à Ishihara. O problema era com ele. Jamais se incomodou com a presença de Yamazaki, pois além de um bom amigo ele nunca ficava simplesmente sozinho com a Card Captor, sempre havia as outras meninas por perto, especialmente a Mihara. Eriol já era um caso a parte. Ele chegou quando os sentimentos que o mago chinês tinha por Sakura começaram a mudar e sua proposital aproximação com a japonesa, com seus modos educados e todo o seu cavalheirismo inglês, despertaram inconscientemente o ciúmes de seu jovem descendente. Saber a verdade por trás dos sorrisos calmos e do jeito misterioso de Eriol tranqüilizou um pouco Shaoran, mas ainda assim ele não conseguia evitar sentir uma pontinha de ciúmes e irritação toda vez que Sakura falava dele ou que o próprio estava por perto.

Mitsuou Ishihara era um problema diferente. Agora Shaoran sabia que gostava de Sakura e que ela lhe retribuía o sentimento, mas mesmo que fosse para junto de si que a adolescente de olhos verdes sempre voltava após deixar o seu parceiro de trabalho, mesmo sendo com ele que ela passava a maior parte do seu tempo e com quem andava de mãos dadas pelas ruas, o descendente de Clow travava uma batalha interna que era perdida pouco a pouco a cada dia. A entrada do enxadrista na vida da Card Captor lhe despertava mais do que ciúmes. Em seu íntimo Shaoran sentia-se extremamente inseguro, algo que o comentário ácido de Kerberus na casa de Tomoyo só havia piorado. No entanto, o que mais deixou o chinês inquieto foi, obviamente, um comentário de Touya.

Era uma tarde na qual nem Shaoran e nem Sakura tinham clube depois das aulas. A Card Captor estava com dificuldades para entender a última matéria dada na aula de Inglês e Shaoran, sempre solícito com ela, se dispôs a ajudar com os deveres por ser fluente no idioma, uma vez que o Inglês era a segunda língua oficial de Hong Kong. Ambos estavam sobre os livros e cadernos quando Touya chegou em casa.

_ Você de novo, moleque? – o jovem Kinomoto questionou assim que viu o casal - O que veio fazer aqui desta vez?

Shaoran não se abalou. Apenas pegou o livro escolar sobre a mesa e sem dizer uma palavra apontou o título para o rapaz mais velho. Touya, por sua vez, franziu a testa de leve.

_ Droga! Às vezes eu me esqueço que monstrengas não conseguem falar inglês. Elas apenas emitem grunhidos...

_ TOU-YA! – Sakura bufou indignada, levantando-se da cadeira e batendo as mãos com força sobre o tampo da mesa. A raiva e a vergonha deixaram seu rosto corado até a raiz dos cabelos. Já não bastava ainda ter que aturar a habitual provocação do irmão, ele tinha que fazer isso também na frente de Shaoran?

_ Bem, se é assim, vou ter que me superar nos meus dons de professor... – o adolescente comentou em um tom levemente preocupado.

_ Vai por mim, é uma total perda de tempo. Experiência própria!

Sakura não acreditava naquela cena. Era impressão sua ou por um ínfimo instante seu irmão e Shaoran trocaram um discreto sorriso cúmplice? Desde quando os dois haviam se unido para provocá-la? Aquilo não podia ser verdade!

_ Escuta, Sakura... – Touya chamou a irmã, enquanto colocava sobre a mesa da cozinha uma caixa escrita "Chiroru" – Dizem que os bolos dessa confeitaria são muito bons. Como é perto da faculdade, eu trouxe um pra gente experimentar, então é melhor subir pra chamar ao bicho de pelúcia porque não quero ele reclamando no meu ouvido depois.

A sucessora de Clow assentiu, pediu licença a Shaoran e subiu as escadas rumo ao seu quarto. Assim que a menina sumiu de vista, seu irmão se voltou para o jovem chinês e o encarou.

_ Escuta aqui, moleque, porque vou ser breve. Estou fazendo um esforço sobre-humano para aturar a sua presença apenas porque sei que não tenho escolha. Mas já me basta você, entendeu? Não quero aquele outro moleque rondando a Sakura também!

_ O que... O que quer dizer? – Shaoran questionou, visivelmente surpreso.

_ Quero dizer que, se quiser ganhar um ponto positivo comigo, afaste aquele moleque ruivo de perto da minha irmã assim que eles apresentarem o maldito trabalho. Vai ser melhor pra você também. Estamos combinados?

O rapaz abriu a boca para responder, mas um ser amarelo louco por um pedaço de bolo passou voando veloz na sua frente, seguido de sua dona, o que fez o assunto morrer por ali. Touya, no entanto, não precisava de uma resposta, pois ela era óbvia demais. Ele e Shaoran tinham um inimigo em comum e era o chinês quem estava estrategicamente posicionado no campo de batalha para enfrentá-lo.

Aquela curta conversa tirou o sono do descendente de Clow durante a maior parte da noite e resultou no Shaoran cansado e abatido que chegou à escola na manhã seguinte, preocupando suas amigas. Mas ele se recuperou assim que Mitsuo Ishihara entrou na sala de aula e Sakura, após lançar um último olhar preocupado ao seu antigo rival, pediu licença e foi falar com seu parceiro. Shaoran estreitou perigosamente os olhos em direção ao colega de classe e Tomoyo até respirou aliviada, interpretando aquilo como um sinal de que o amigo estava bem. Só mais um dia, o jovem mago pensava, e o pesadelo teria fim. O trabalho seria apresentado e se Ishihara ainda assim permanecesse perto de Sakura, Shaoran iria tratá-lo definitivamente como um inimigo.

Quando o sinal para o recreio tocou, um aluno da classe ao lado apareceu procurando pelo rapaz chinês. Era Jin Oguro, zagueiro do time de futebol da escola. Shaoran saiu para falar com ele, avisando as amigas que se juntaria a elas depois. Para sua infelicidade, quando ele deixou a turma do clube de futebol e saiu para o pátio logo viu Sakura e Tomoyo conversando com Ishihara e na hora o seu semblante sério mudou para bravo. Numa atitude extrema, acelerou o passo em direção ao local onde os três estavam, olhou de relance para Ishihara com a cara amarrada e virou-se então para Sakura, segurando a mão dela.

_ Sakura, eu preciso falar uma coisa muito importante com você! – e saiu puxando a menina dali sem que ela pudesse dizer qualquer coisa.

Tomoyo conhecia muito bem aquela atitude do colega chinês. Anos antes ela se divertia vendo Shaoran naquele estado sempre que Eriol ousava olhar ou falar com Sakura. Ele morria de ciúmes dela mesmo antes de descobrir seus verdadeiros sentimentos. Observando tudo acontecendo de novo, Tomoyo riu com vontade, o que só deixou Ishihara mais confuso do que ele já tinha ficado com a atitude do outro rapaz.

_ Shaoran-kun, o que foi? – perguntou Sakura preocupada, enquanto andavam.

Shaoran não respondeu. Achando um lugar longe da vista de todos, apenas encostou-se a uma árvore e abraçou imediatamente a Card Captor em silêncio, com o rosto ainda carrancudo e o olhar desconfiado, como alguém que protege o seu bem mais valioso do resto do mundo.

Sakura, agora com o rosto e as mãos sobre o peito dele, tentava entender o que estava acontecendo, buscando se lembrar quando já tinha visto Shaoran agir daquele jeito impulsivo, e então se recordou de Eriol. Afrouxando um pouco o abraço inesperado, olhou para Shaoran.

_ Ciumento! – exclamou ela, rindo.

_ O quê? – ele indagou perplexo.

Sakura riu mais ainda.

_ Agora eu entendo! Você agia assim sempre quando Eriol estava perto de mim! Por isso você não gostava dele, porque tinha ciúmes! E agora sente o mesmo em relação ao Ishihara-kun!

Sakura parecia se divertir muito com a descoberta e com a reação de surpresa de Shaoran. Este, por sua vez, ficou muito vermelho.

_ Eu NÃO estou com ciúmes! – falou ele firmemente, indignado com a conclusão dela.

A menina sorriu docemente.

_ Não mesmo? Então isso significa que eu posso voltar para lá e... – Sakura fez menção de se soltar dos braços dele.

_ Não... – murmurou baixinho o mago chinês, trazendo carinhosamente Sakura de novo para junto de si, mas dessa vez com um olhar de súplica quase infantil.

A Card Captor continuava a sorrir.

_ Eu só fico aqui se me falar a verdade!

Shaoran ficou vermelho de novo e a sucessora de Clow esperou a resposta, olhando-o com ansiedade. Ele desviou dos penetrantes olhos verdes dela, todo embaraçado.

_ Eu... Eu... Ah, você tem razão! – confessou ele, muito contrariado.

_ Se têm ciúmes, é porque deve gostar muito de mim... – ela falou calma e feliz, de olhos fechados, repousando novamente o rosto sobre o peito do rapaz.

Ele suspirou, como que vencido, e apertou mais o abraço ao mesmo tempo em que apoiava o queixo suavemente sobre a cabeça da menina.

_ Boba! É claro que gosto, você sabe disso...

Ele deu um sorriso discreto enquanto acariciava os cabelos de sua antiga rival com ternura e sentia a respiração tranqüila dela, que se tornou brusca e irregular quando um trovão rugiu alto acima deles, quebrando aquele bucólico momento. Sakura tremeu de susto e se encolheu nos braços do rapaz, que por sua vez lhe disse palavras tranqüilizadoras. Foi neste momento que ela levantou novamente o rosto e lhe sorriu em agradecimento, um sorriso que lentamente se desfez quando ambos se perderam no olhar um do outro. Instintivamente a mão de Shaoran que antes acariciava os cabelos da amiga desceu até o rosto dela e com delicadeza o levantou um pouco mais em sua direção. A Card Captor corou, sentindo seu coração batendo forte no mesmo ritmo de sua respiração, que agora estava acelerada independente dos outros trovões que começavam a ecoar pelo céu.

O descendente de Clow, por outro lado, parecia tranqüilo, embora hipnotizado talvez fosse a palavra mais apropriada para descrevê-lo naquele instante. O jovem Li estava prestes a afundar inconsciente no verde daqueles olhos que começavam a se fechar para ele quando gotas grossas de uma chuva forte e inesperada caíram sobre o casal e o trouxe de volta a realidade antes que algo mais pudesse acontecer. Sakura e Shaoran se separaram, sentindo um misto de frustração e acanhamento, e tudo o que restou ao mago chinês foi pegar a garota pela mão e a puxar correndo de volta ao prédio da escola, onde eles se juntaram a outros alunos antes que se molhassem mais ainda.

As aulas da tarde seguiram seu curso normal enquanto lá fora a repentina tempestade de final de verão perdia intensidade, transformando-se em uma chuva fina que foi e voltou diversas vezes até o cair daquela noite, quando finalmente deu lugar a um céu parcialmente nublado. A chegada das primeiras luzes do novo dia culminou em um pálido amanhecer e as ruas da cidade foram aos poucos ganhando vida e movimento, enquanto no Colégio Tomoeda o murmúrio animado dos alunos já se espalhava novamente pelos corredores.

O dia em que o ginasial 2-1 apresentaria seus trabalhos de História havia chegado e Shaoran Li caminhava em direção a sua sala. Ele pensava no fato que Sakura ficaria, enfim, livre da presença obrigatória de Mitsuo Ishiraha em sua vida e que desta maneira suas preocupações com o suposto rival acabariam ali. No entanto, por mais alegres que fossem esses pensamentos, o descendente de Clow não parecia muito animado naquela manhã. O rapaz sentia o corpo estranhamente pesado e dolorido naquela manhã. Mesmo assim ele se manteve firme em seu caminho.

Totalmente alheia a esses fatos, uma empolgada Tomoyo recebeu o mago chinês quando ele entrou na classe.

_ Li-kun, bom dia! É hoje!

_ Sim, finalmente! Não vejo a hora desse trabalho acabar! – Shaoran respondeu com um suspiro, enquanto se ajeitava em sua carteira e a sala ia ficando cada vez mais cheia de gente.

_ Você está ansioso porque o trabalho colocou um obstáculo em seu caminho, não é? – a adolescente de cabelos violetas disse ao se aproximar do amigo, piscando o olho com uma expressão marota.

Shaoran corou. Não bastava ser tão observadora, Tomoyo também tinha que ser sempre tão direta? Como resposta, ele olhou sério para o outro lado da classe, onde Mitsuo Ishihara conversava com alguns amigos. Sakura chegou logo em seguida, poucos minutos antes da professora responsável pela primeira aula entrar na sala. Seus amigos a cumprimentaram com um sorriso, que a Card Captor respondeu com um trêmulo "Bom dia". Ela estava visivelmente nervosa e Ishihara, vendo a chegada de sua parceira, se levantou de sua cadeira e foi em direção a ela. O enxadrista percebeu o nervosismo da colega e trocou algumas palavras rápidas sobre a apresentação deles que ajudaram a acalmá-la um pouco. Shaoran, por sua vez, lançou olhares fulminantes de raiva em direção ao outro garoto, mas ele não notou.

As aulas da manhã foram passando uma a uma, enquanto o descendente de Clow sentia-se cada vez mais abatido. Tomoyo notou que havia algo errado com o amigo, mas preferiu não comentar nada com Sakura. Quando o intervalo do almoço chegou, quase toda a classe comeu rápido e se reuniu em duplas, se preparando para o grande momento. Shaoran e Tomoyo não fizeram diferente. O mago chinês e a corista sentaram juntos em um banco do jardim da escola, onde discutiram e relembraram os pontos mais importantes da apresentação que fariam. Tudo ia bem até o descendente de Clow dar um suspiro cansado e perder repentinamente o foco do assunto. Isso foi uma atitude muito atípica para ele, pois de maneira geral Shaoran era considerado um dos alunos mais aplicados de sua classe.

_ Você está bem, Li-kun? – Tomoyo perguntou, preocupada – Ontem você chegou com uma clara expressão de cansaço e hoje parece cada vez mais desanimado. Aconteceu alguma coisa na qual eu possa ajudar?

Shaoran sentia uma leve e contínua dor de cabeça, mas não comentou isso com a amiga. Ao invés disso ele agradeceu a preocupação e disse que estava tudo bem com ele. Tomoyo não insistiu e ambos retornaram ao assunto original da conversa. Porém, quando o sinal bateu, a adolescente deixou uma frase solta no ar, como quem não quer nada.

_ É engraçado como você e a Sakura-chan se parecem em certos momentos...

O rapaz chinês lhe lançou um olhar interrogativo, visivelmente sem entender o que a amiga queria dizer com aquilo. Tomoyo, por sua vez, suspirou desolada e entrou com ele no prédio da escola.

História era a primeira aula nas tardes de sexta-feira, o que deixou nos alunos a sensação de um intervalo curto demais. Era uma aula dupla, e além de ser a responsável por aquela classe a Profª Hasegawa também era bastante severa em sua disciplina. O reflexo disto podia ser visto no comportamento dos estudantes. Alguns estavam prestes a entrar em pânico enquanto outros fingiam estar tranqüilos, mas a maioria demonstrava visível e ansiosa expectativa. Este era o caso de Sakura, motivo que levou Tomoyo e Shaoran a tentarem tranqüilizá-la de várias maneiras enquanto sua hora não chegava. Apesar do nervosismo, a apresentação conjunta da Card Captor com Ishihara tinha sido interessante e bem feita. Sua prima e seu antigo rival também haviam se saído muito bem, talvez o melhor trabalho da sua turma.

A adrenalina da apresentação renovou momentaneamente as forças do descendente de Clow, mas conforme as outras matérias foram seguindo durante o período vespertino ele sentiu seu corpo sendo tomado pela fadiga e sua cabeça ficando leve. Permaneceu aéreo a maior parte do tempo, o que atraiu a atenção até da distraída Sakura.

Quando o último sinal anunciou o fim de mais um dia de aula no Colégio Tomoeda, Sakura e Tomoyo, assim como todos os demais alunos, começaram a se preparar para deixar a sala. Todos, exceto uma pessoa, pois ainda sentado em sua carteira, sem se mover, Shaoran parecia bastante desanimado.

_ Shaoran-kun, está tudo bem com você? – a Card Captor perguntou, observando o amigo com o mesmo olhar preocupado de Tomoyo.

_ Eu estou bem. É só o meu corpo que está meio dolorido. Acho que ontem exagerei no treino de futebol do clube.

_ Tem certeza disso, Li-kun? Seu rosto me parece um pouco vermelho... Não seria um resfriado?

_ É mesmo! Você tomou toda aquela chuva no final do jogo, não tomou?

Diante de tantas perguntas, o rapaz finalmente guardou seu material e se levantou, forçando um sorriso.

_ Eu realmente estou bem, meninas. Não precisam se preocupar comigo.

Os três amigos foram os últimos a deixarem a sala e se dirigirem até o portão de entrada da escola, onde Sakura e Shaoran se despediram de Tomoyo. Esta ainda olhou preocupada para o colega chinês antes de seguir para casa sozinha, enquanto o casal de adolescentes esperou a amiga desaparecer na distância antes de voltarem para dentro do colégio, rumando para a área das quadras e demais dependências esportivas.

_ Shaoran-kun, você tem certeza de que está realmente bem? – Sakura insistiu, desconfiada, parando em frente ao ginásio.

_ Estou sim, Sakura. – sorriu Shaoran – Agora é melhor você entrar, ou nós dois vamos nos atrasar para o clube hoje.

A Card Captor se despediu com certa tristeza no olhar e entrou no ginásio. O descendente de Clow, por sua vez, seguiu seu caminho rumo ao campo de futebol, mas bastou se encontrar a uma distância segura para deixar a máscara cair. Não estava mesmo se sentindo bem desde as primeiras aulas e só foi piorando ao longo do dia. Embora sua farsa não tenha sido muito convincente, ele não queria preocupar demais as amigas, ainda mais sabendo que tinha novamente clube de futebol naquele dia.

Dentro do ginásio, durante as atividades do clube de ginástica, Sakura não conseguia realizar nenhum dos exercícios direito. Tropeçou no arco, pisou na bola, se enrolou com a fita e deixou uma das maças cair em sua cabeça exatamente como acontecia com seu bastão de líder de torcida quando ela se distraia nos tempos de primário. As outras meninas a olhavam assustadas, pois sabiam que, apesar de um tanto atrapalhada, Sakura era boa nos esportes quando estava concentrada no que fazia.

A garota, entretanto, não estava ligando para nada naquele fim de tarde. Preocupada com Shaoran, para a sucessora de Clow aquele treino se arrastava por minutos intermináveis e bastou que as atividades do clube acabassem para ela se concentrar e usar seus poderes mágicos. Fazendo isso Sakura ficou mais preocupada ainda ao percebeu que a presença mágica do amigo chinês havia desaparecido das dependências do colégio. Imediatamente se despediu das colegas e correu para fora do ginásio, na esperança vã de encontrar Shaoran esperando por ela como de costume, mas ele não estava lá.

Passos foram ouvidos vindo pela lateral do ginásio, caminho que levava ao campo de futebol, e o coração de Sakura se encheu de expectativa. Quando viu um rapaz aparecer na curva e virar em sua direção, porém, nem teve tempo de esboçar um sorriso. Não era mesmo o seu querido Shaoran, era apenas o capitão do time de futebol, Hideki Yoshida.

_ Yoshida sempai...

_ Kinomoto, que bom que eu a encontrei! Preciso falar com você sobre o Li.

_ O que aconteceu com o Shaoran-kun? – Sakura perguntou, aflita.

_ Eu o dispensei logo no início do treino. – Hideki disse em tom sério - O Li simplesmente estava ardendo em febre! Fui com ele até a enfermaria e depois de medicado eu o mandei para casa. Mesmo assim ele só aceitou ir embora quando prometi que avisaria você sobre o que houve.

Sakura fez cara de brava e Hideki só não riu porque também estava preocupado com o chinês.

_ Shaoran-kun no baka! – exclamou a Card Captor emburrada – Ela sabia que estava doente, mas ainda assim insistiu em dizer que estava tudo bem!

_ Com certeza ele não quis preocupá-la. – sorriu o capitão – O Li não foi a única vítima da chuva que tomamos no treino de ontem, mas ele é forte! Um pouco de repouso e uma boa noite de sono já devem ser o bastante para que ele esteja bem melhor amanhã.

_ Eu espero mesmo que ele melhore logo... – Sakura murmurou antes de agradecer Hideki e se despedir dele.

Enquanto isso, na casa da família Kinomoto, Yukito amarrava o avental e olhava para a panela com água quase fervente sobre o fogão, desviando a atenção logo em seguida para o rapaz de cabelos escuros ao seu lado.

_ O que você vai cozinhar hoje, Touya?

_ Hmmm... Pensei em fazer uma macarronada, mas não estou encontrando o macarrão. Será que a Sakura já usou pra alimentar o boneco de pelúcia? Tenho certeza que meu pai trouxe um pacote do mercado ontem a noite! – Touya respondeu, revirando todos os cantos da despensa.

Yukito foi ajudar na busca e depois de alguns minutos eles encontraram o que procuravam. Touya despejou o conteúdo na panela e quando o macarrão já estava no ponto os dois amigos ouviram o barulho da porta da frente se abrindo.

_ Sakura-chan chegou! - Yukito exclamou sorrindo, se dirigindo para a sala

_ Tadaima... – cumprimentou uma desanimada Sakura.

_ Okaeri, Sakura-chan! – o rapaz a recebeu, olhando a menina com atenção – O que aconteceu com você? Parece preocupada...

Sakura hesitou, o que deu tempo de seu irmão aparecer na sala também, com cara de poucos amigos.

_ Aposto que tem algo a ver com aquele moleque, não é? Fala logo, o que ele te fez dessa vez?

_ Shaoran-kun está doente e tentou escondeu isso da Tomoyo-chan e de mim... – explicou a Card Captor tristemente – Ele passou mal na escola, estava com febre alta e mesmo assim só foi embora porque o capitão do clube de futebol o obrigou!

_ Se estava tão mal e mesmo assim foi jogar, isso prova o quanto ele é um idiota! – bufou o jovem Kinomoto – E não é a preocupação de uma monstrenga que vai fazê-lo melhorar.

_ Touya! – repreendeu Yukito - Não vê que sua irmã está chateada?

O rapaz deu de ombros e voltou para a cozinha. Sakura estava tão triste que nem teve ânimo para discutir com ele. Apenas subiu para o seu quarto e se trocou. Por sorte Kero dormia a sono solto em seu quarto-gaveta depois de passar a última noite em claro e boa parte do dia tentando zerar o jogo mais recente que sua mestra havia comprado, o que evitaria as mesmas perguntas e comentários que ela já ouvira de Touya. Então Sakura pegou o "Shaoran" de pelúcia e o telefone e deitou em sua cama, abraçada aos dois. Será que devia ligar e ver se estava tudo bem com o verdadeiro Shaoran? E se ele já estivesse repousando?

Alguém bateu de leve na porta e a voz de Yukito se fez ouvir. Sakura deixou que ele entrasse e viu que o rapaz de cabelos claros trazia uma pequena bandeja com duas xícaras de chá, que foi posta no chão na parte central do quarto. Sakura se ajoelhou junto a bandeja de frente para Yukito, que antes de servir a menina tomou uma das mãos dela entre as suas.

_ Você realmente está preocupada com ele, não é? – o jovem perguntou gentilmente – Mas não me surpreende que Shaoran tenha pegado um resfriado. A diferença de temperatura entre o dia e a noite tem sido muito grande agora que o outono está prestes a começar.

Sakura concordou, aceitando a xícara de chá que agora Yukito lhe estendia. Tomou o líquido em silêncio, enquanto ele discretamente lançava um olhar suplicante para o vão deixado pela porta entreaberta, por onde Touya acompanhava a conversa sem ser notado pela irmã. Quando a menina pousou a xícara vazia sobre a bandeja, ele entrou no quarto anunciando que o jantar estava pronto. Os três desceram as escadas e Sakura estranhou que a mesa só estava posta para a refeição de duas pessoas.

_ Pensei que você fosse jantar conosco, Yukito-san!

_ O Yuki vai jantar aqui sim. Quem não vai comer hoje conosco é você, Sakura. – disse Touya, como se isso fosse a coisa mais comum do mundo.

_ Hoe?

O irmão lhe estendeu um embrulho de tecido contendo uma grande caixa de laca com comida.

_ Pega logo e vai, antes que eu me arrependa! – o rapaz falou de maneira mal-humorada.

_ O papai vai voltar tarde hoje? Você quer que eu leve essa comida para ele? – Sakura questionou, ainda sem entender o comportamento do irmão.

Ele cruzou os braços e virou a cara, visivelmente irritado.

_ O moleque mora sozinho, certo? Se ele está mesmo tão mal e com febre alta quanto você disse, provavelmente não vai conseguir cozinhar. Aí dentro tem o suficiente para vocês dois jantarem.

A Card Captor olhou muito surpresa para o irmão antes de abrir um imenso sorriso.

_ Muito obrigada, Touya! Vou imediatamente!

_ Pegue um casaco antes de sair. Não quero que você se resfrie também! Vai deixar o papai preocupado.

Ela assentiu com a cabeça e saiu assim que fez o que ele mandou. Quando Sakura fechou a porta pelo lado de fora, Yukito apoiou a mão no ombro do amigo e riu.

_ Você é mesmo um irmão muito bonzinho, Touya!

_ Cala a boca e come, Yuki! – ele rosnou, fazendo o amigo rir mais ainda – Se ela demorar pra voltar, você vai me levar no apartamento do moleque nem que seja a força!

Não muito longe dali, Shaoran acabava de acordar e se dirigia para a cozinha. Tudo o que fez depois que chegou da escola foi tomar um banho quente e se jogar na cama, deixando que o sono levasse embora temporariamente o seu mal-estar. Agora estava com fome, mas respirava pesadamente e permanecia ainda um tanto febril, por isso pegou uma das panelas vazias e a olhou desanimado.

_ Não posso tomar o remédio novamente se não comer alguma coisa antes. Mas o meu corpo inteiro dói e minha cabeça está tão pesada...

O interfone do apartamento tocou. Shaoran tossiu e se dirigiu lentamente até a sala. Arrumou melhor o casaco que vestia sobre o pijama e olhou o visor do interfone. A pessoa que ele viu o fez pensar que estava delirando de febre. Mesmo assim abriu a porta e descobriu que a menina ali não era mero fruto de sua imaginação.

_ Sakura, o que você...

A Card Captor não lhe deu tempo de continuar. Ela simplesmente o abraçou apertado, fazendo o rapaz chinês ficar mais corado do que a febre havia feito.

_ Shaoran-kun! Desculpe pela visita repentina, mas eu estava preocupada com você! Como se sente? – ela perguntou por fim, desfazendo o abraço repentino.

_ Ah, bem... Eu estou um pouco melhor, obrigado.

A sucessora de Clow lhe deu um lindo sorriso e depois colocou a mão pequena e delicada sobre a testa do amigo chinês. Seu rosto ficou muito próximo ao dele, que a olhou surpreso pelo gesto inesperado. Percebendo que o rapaz ainda tinha um pouco de febre, Sakura o olhou com certa tristeza, mas bastou os olhares se cruzarem para ela corar, percebendo o que Shaoran já havia notado. Inevitavelmente ambos se lembraram do dia anterior, quando a chuva havia começado a cair. Confusos e constrangidos, os dois se afastaram.

_ Você... Você deve estar com fome, não é? – a Card Captor gaguejou, com as faces ainda rosadas.

_ Estava pensando exatamente nisso quando você chegou. – respondeu um igualmente corado Shaoran, passando a mão pelos cabelos, o que demonstrava seu ligeiro nervosismo – Por favor, entre!

Sakura, que ainda estava no hall de entrada do apartamento, tirou seus sapatos e entrou, mostrando a caixa de obentou que trazia. O descendente de Clow ficou surpreso por saber que o presente era idéia do irmão dela e agradeceu cordialmente.

O casal se acomodou nos sofás da sala, usando a mesa de centro entre eles como apoio. A Card Captor desfez o embrulho e separou as bandejas da caixa de laca, enquanto Shaoran buscava na cozinha seu par de hashis. Comeram e conversaram trivialidades. Tudo estava muito gostoso e Sakura ficou feliz por ver que a refeição havia dado um pouco mais de ânimo ao amigo doente. Quando eles terminaram, ela se levantou e pediu licença para usar a cozinha e lavar a louça suja, mas seu anfitrião não aceitou.

_ Você já me fez um grande favor trazendo o jantar, Sakura. Não é justo que também lave tudo. Eu posso muito bem fazer isso.

_ Nada disso! Quando eu fui com febre para a escola e passei mal na aula de Educação Física, você me deu broca na frente da classe inteira. Agora é minha vez de dar o troco. – sua antiga rival protestou, cruzando os braços e transformando seu belo rosto em uma linda carinha irritada. - Portanto, Shaoran Li, você vai agora tomar o remédio e deitar no seu quarto para descansar!

Sakura parecia uma menininha brava e Shaoran teve vontade de rir.

_ Sakura, caso você tenha se esquecido, minha mãe ficou em Hong Kong... – ele comentou, sorrindo de lado.

_ Por isso mesmo! Na ausência dela, quem vai cuidar de você sou eu! – a adolescente de olhos verdes retrucou, batendo o pé no chão, demonstrando impaciência.

O jovem chinês segurou o riso e preferiu não discutir com ela. Ao invés disso a ajudou a levar as coisas para a cozinha e depois obedeceu placidamente as suas ordens, tomando o remédio e indo para o seu quarto. Sakura cuidou de tudo na cozinha e minutos depois cruzou o apartamento com uma bandeja e duas canecas fumegantes. Não conhecia o quarto de Shaoran e por isso espiou cômodo por cômodo até encontrar a porta que desejava.

Quando entrou, ela chamou suavemente por ele, mas não obteve resposta. Então um sorriso singelo imediatamente se formou em seu rosto ao perceber que o pouco tempo que gastou na cozinha foi o suficiente para fazer Shaoran cair no sono, e ele dormia em sua cama com uma expressão tranqüila. Sakura, então, pousou a bandeja na escrivaninha ao lado e sentou-se com cuidado na beirada da cama, para não acordá-lo. O rapaz continuou a ressonar suavemente debaixo das cobertas, parecendo em sono profundo.

A Card Captor olhou em volta, curiosa. O quarto de Shaoran tinha um tamanho confortável e aparência relativamente simples, composta por móveis sólidos em madeira escura e pouca decoração. As paredes eram de tom beje e a cor verde, a predileta do jovem chinês, predominava nos detalhes, como a cortina e a roupa de cama. Havia um pequeno guarda-roupa ao lado da porta de entrada e na parede oposta a cama localizava-se uma grande cômoda próxima a janela que dava para a varanda, sobre a quais estavam alguns livros e um pequeno aparelho de som. Do lado contrário a ela ficava a escrivaninha e entre as duas o chão era coberto por um tapete grande e macio estampado com o kanji da família Li. Mas o detalhe que mais chamou a atenção da garota foi uma bela guitarra acomodada em um suporte no canto do quarto entre a cômoda e a parede da varanda. Jamais em sua vida imaginou que o sério Shaoran pudesse tocar guitarra.

Passada a surpresa, seus olhos se concentraram na escrivaninha ao lado da cama. Nela estavam os livros e cadernos de escola, além de um notebook e alguns porta-retratos. Uma das fotos Sakura reconheceu de imediato, pois fora tirada no primário durante uma das excursões que sua classe fez. Nela estavam todos os seus principais amigos: Tomoyo, Rika, Naoko, Chiharu, Yamazaki e, claro, um Shaoran sério de braços cruzados, todos na praia com o traje de banho da escola. Outra que ela também conhecia tinha sido tirada no Tanabata Matsuri daquele ano, no qual Eriol estava presente. As outras duas fotos deviam ser da família Li. Em uma delas havia um homem jovem de cabelos castanhos claros e aparência compreenssiva, com olhos iguais aos de Shaoran, enquanto na outra havia uma mulher de longos cabelos pretos e ar imponente, cercada de quatro moças altas parecidas com o homem da outra foto. Shaoran, que era menor do que elas, estava na frente do grupo junto com uma garota de cabelos pretos, nariz arrebitado e olhos cor de rubi. Era um foto bastante recente e devia ter sido tirada antes dele voltar ao Japão.

Sakura voltou seu olhar para a bandeja com as canecas. Não queria acordar Shaoran, mas se não fizesse isso o a bebida iria esfriar. Delicadamente ela pousou sua mão na testa do descendente de Clow e ficou feliz por ver que a febre havia ido embora. Depois observou com carinho o belo rapaz adormecido e com cuidado passou os dedos pelo cabelo dele, descobrindo que eram tão macios quanto ela imaginava. Foi nesse momento que um desejo enorme surgiu em seu peito. Um desejo tão desesperado que seus olhos ficaram marejados. A Card Captor queria cuidar de Shaoran sempre que ele precisasse. Ela queria cuidar dele pelo resto de sua vida!

A contragosto a garota secou as lágrimas antes que as mesmas caíssem, e finalmente o acordou.

_ Desculpe por acordá-lo, mas preparei algo quente para você beber antes que eu vá embora. – Sakura falou, sorrindo.

_ Eu é que peço desculpas, Sakura. – Shaoran respondeu sentando-se na cama e bocejando em seguida – Não devia ter dormido...

_ Está tudo bem. – ela respondeu com tranqüilidade, voltando-se para a bandeja e sorrindo novamente – Você comprou as canecas dos pandas! Espero que não se importe por eu as ter usado.

_ De maneira alguma. Eu comprei justamente para usar quando você viesse aqui em casa, já que a Tomoyo disse que os pandas se parecem conosco. Achei que você iria gostar e... bem... São nossas canecas... – Shaoran respondeu ligeiramente encabulado.

Sakura corou de leve e pegou a caneca com o panda sério, entregando-a para o amigo. O cheiro do líquido era muito bom.

_ O que é?

_ Leite com mel. Eu sempre tomo quando fico resfriada. – a Card Captor respondeu, pegando a caneca com o panda sorridente para si. – Espero que isso ajude a não deixar sua febre voltar.

Shaoran levou a caneca aos lábios e bebeu um pouco do líquido quente.

_ Está do seu agrado? Não ficou doce demais? – a menina perguntou, preocupada.

- Não. Está delicioso! – o mago chinês sorriu em resposta.

Ambos tomaram suas canecas de leite e depois de devolver a caneca vazia para sua antiga rival, Shaoran acariciou sua face de leve.

_ Lamento preocupá-la, Sakura. Não é comum eu ficar doente assim.

_ Se você ficar bem, Shaoran-kun, isso é tudo o que importa para mim! – Sakura respondeu sorrindo de olhos fechados, segurando a mão dele em seu rosto por alguns instantes antes de se levantar e pegar a bandeja – Vou levar as canecas para a cozinha e depois preciso ir embora. Caso contrário o meu irmão ficará bravo e virá me buscar a força.

Shaoran concordou com a cabeça e se levantou, acompanhando a sucessora de Clow. Ele deixou as canecas dentro da pia e tranqüilizou Sakura dizendo que cuidaria delas na manhã seguinte. Depois a conduziu até a porta do apartamento, onde se despediram por obrigação.

_ Desejo melhoras, Shaoran-kun! Descanse bastante. Se você não puder ir a escola amanhã, eu passo aqui depois da aula para te ver, está bem?

_ Ok! Mas espero estar 100% recuperado amanhã. Além de poder ver você na escola, combinei de sair com o pessoal do clube de futebol depois da aula. Vamos comemorar o aniversário do capitão Yoshida no fliperama.

_ Então vai dar tudo certo! – Sakura afirmou, cheia de convicção – Oyasumi, Shaoran-kun.

_ Oyasumi, Sakura. Obrigado por tudo e até amanhã!

O descendente de Clow fechou a porta e se dirigiu para a varanda da sala, de onde pode ver Sakura convocando a Carta Alada e alcançar as estrelas rumo a casa do Kinomotos. Depois se dirigiu até a cozinha, onde pegou a caneca vazia na qual a menina havia tomado seu leite. Um sorriso bobo se formou em seus lábios e ele voltou ao seu quarto, onde teve uma boa e revigorante noite de sono. Tudo graças aos cuidados de sua amada Card Captor.

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Notas da autora:

(Será que, depois de um capítulo tão grande, alguém vai ler isso?)

1- Srta. Maki, a Twin Bells e a Carta Salto: a loja bonitinha e sua gentil e atrapalhada proprietária originalmente só existem no anime, mas tomei a liberdade de colocá-las na fic, assim como faço as vezes com algumas cartas Clow/Sakura que só existem no anime. No anime a Srta. Maki trata as meninas, por serem crianças, por "chan", e por isso mantive nos diálogos o modo como ela originalmente fala: Sakura-chan e Tomoyo-chan. Quanto a Carta Salto, enquanto no anime ela se esconde entre os bichinhos de pelúcia da Twin Bells, no mangá ela já aparece sendo capturada, sem mostrar onde estava antes, de modo que poderia muito bem existir uma Srta. Maki e uma Twin Bells no mangá também!

2- As canecas de panda: elas existem de verdade!!! Eu tenho esse par de canecas, que eu simplesmente adoro, e foi por causa delas que eu descobri a marca Aranzi Aronzo, que menciono nas notas do capítulo 09. Se não estivesse postando no meu Fotolog uma série temática de imagens, tirava uma foto das canecas e postava lá para os curiosos. Fica pro futuro.

3- Blasé: expressão de origem francesa que poder ser traduzida como indiferente, insensível, entediado ou que não demonstra emoção/sentimentos.

4- Chiroru: "Chiroru Bakery" é uma padaria/confeitaria que existe no mangá de Chobits e que aparece novamente em Kobato.

5- Shaoran-kun no baka: a palavra baka significa "bobo", então a frase que a Sakura fala pode ser traduzida como "Shaoran, seu bobo!".

6- Jubako: é o nome da caixa com comida que a Sakura leva para o Shaoran. É uma caixa de laca pintada, formada por bandejas que se encaixam. É usada geralmente em passeios e datas comemorativas. As caixas simples, usadas no dia-a-dia, podem ser feita de outros materiais e são chamadas simplesmente de obentou bako.

7- Obentou ou bentou: é como os japoneses chamam suas marmitas.

8- Hashi: são os famosos palitinhos que os orientais usam para comer.

9- A febre da Sakura: no anime Sakura tem febre no capítulo 37, ainda na 1ª fase da história, antes da chegada do Eriol. Já no mangá ela tem febre no volume 08 (volume 16 da edição brasileira), quando o Eriol já apareceu na história. Sakura passa tão mal que desmaia na aula de Educação Física e quase leva uma forte bolada por causa disso. Shaoran a salva e depois lhe dá uma tremenda bronca na frente da classe inteira, ficando sem-graça logo em seguida por causa dessa clara demonstração de preocupação com ela. É fofo!

10- O quarto do Shaoran e as fotografias: descrevi o quarto do Shaoran usando o quarto dele que aparece no anime como base (capítulo 57 – O elevador quebrado), com algumas melhoras e acréscimos. Já as fotos, a primeira seria uma imagem de CCS que dá pra achar na net, onde a turma está na praia junto a um tronco caído. Yamazaki, Chiharu e Naoko estão ao fundo, Shaoran e Tomoyo estão sentados no tronco e Sakura e Rika estão na frente, na areia. A segunda seria uma das fotos que o Yamazaki tirou dos amigos no Tanabata do capitulo 08 da fic. As da Família Li vocês devem ter deduzido por si mesmos, né? Inclusive quem é a garota de olhos vermelhos...

11- Oyasumi: significa "Boa noite", e é dito geralmente quando se despede de alguém porque já vai dormir.

12- Mitsuo e Tadashi Ishihara: esqueci de mencionar no capítulo anterior quem foram os personagens que inspiraram esses dois irmãos. O Mitsuo eu criei pensando na aparência do Tohma de Ícaro de Saint Seiya e o Tadashi seria uma combinação entre a aparência do Kiyokazu Fujimoto de Kobato com uma pitada do temperamento do Shigure Sohma de Fruits Basket.

Reviews:

- Anne Asakura: Anne-chan, lamento não dar espaço para o Yue, mas ele não deve aparecer por enquanto, ou se aparecer será apenas uma passagem rápida. E que bom que você gostou da aproximação que fiz entre a Tomoyo e o Shaoran no capítulo passado. Eu achei que o povo ia querer me matar por causa disso, achando que seria um sinal que o casal principal percorreria caminhos diferentes dentro da fic. Mas, pelo visto, todo mundo entendeu que não foi essa a minha intenção...

- Vanessa S.: O Shaoran está de olho no Mitsuo, e é bom mesmo que ele faça isso, porque o ruivinho de olhos azuis ainda pode ser um problema para o nosso herói! Aguarde!

- Angel Cullen McFellou: Pois é, como já escrevi na resposta para a Anne, é bom saber que os leitores entenderam esse "papo cabeça" entre o Shaoran e a Tomoyo. Eu realmente fiquei preocupada com a reação que vocês teriam nessa parte. Quanto ao Touya, sem querer ele está fazendo umas aparições pequenas e interessantes na história. Está acontecendo naturalmente, não era planejado. Olha ele agindo nesse capítulo de novo!

- .girl083: Leitores atrasados sempre são bem-vindos, porque são um fato surpresa! Fico contente que a fic esteja lhe agradando e espero que o capítulo enorme que está aí em cima não a desanime a continuar acompanhando a história.

- Unsuspecting Sunday Afternoon: Olá, Ju! (posso chamá-la assim?). Valeu pelo apoio quanto aos detalhes, mas nem todo escritor sabe lidar bem com eles, e por isso fico insegura nesse assunto. O autor do livro que estou lendo no momento é ótimo neste aspecto, pois fala de uma história de amor e guerra e mesmo assim descreve com detalhes os campos floridos e com passarinhos que os soldados percorrem em seu caminho sem nos cansar. Pelo contrário, isso faz parte do encanto da história! Já alguns escritores são tão descritivos que não consigo ler, como é o caso de "Os Maias", do Eça de Queirós. Tentei ler umas 3 ou 4 vezes e nunca vou muito longe. Mas, voltando a minha fic, acho que dessa vez eu exagerei. O capítulo já era grande por si só e eu ainda fui detalhista! Mas fiz isso justamente para tentar dar uma visão da cena, especialmente na parte da febre, onde usei a história do Artbook e por isso tinha como visualizar muito bem algumas cenas dentro da fic. Quanto ao Mitsuo, ele está na dele. Resta saber até quando!